Ensaio Sobre a Cegueira (Fernando Meirelles, 2008)

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Se você é brasileiro, adulto, razoavelmente inteligente, com acesso mínimo a meios de comunicação e, ainda assim, não ouviu falar nem leu nada a respeito de Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, 2008), de Fernando Meirelles, saiba: trata-se de adaptação cinematográfica do livro homônimo do mundialmente aclamado escritor português José Saramago, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Coube ao diretor brasileiro, realizador dos badalados Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel, o dúbio privilégio de tentar adaptar para a tela grande algo que havia recebido a curiosa alcunha de “infilmável”. Ele conseguiu.

Ensaio Sobre a Cegueira parte de uma suposição enganosamente simples: e se as pessoas, repentinamente, deixassem de enxergar? Mais grave ainda: e se tal cegueira não tivesse explicação racional, fosse incurável e altamente contagiosa? Pior: conseguiria o ser humano, enquanto criatura social (e, portanto, definida pelos que o cercam), sobreviver e manter, ao mesmo tempo, o núcleo dos atributos que o separam das demais espécies que habitam a Terra? A resposta a esta última pergunta vai de acordo com a crença de cada um, mas Meirelles e Saramago se divertem colocando nossas próprias convicções à prova ao retratar o início da epidemia e o desenrolar dos acontecimentos na vida de alguns poucos pobres diabos, os pioneiros na perda da visão, dentre os quais se destacam um oftalmologista (Mark Ruffalo) e sua mulher (Julianne Moore), todos enviados a um centro de contenção epidemiológica – ou seja, um campo de concentração – e entregues à própria sorte. Lá, o médico será eleito o líder da Ala 1 de internos e se chocará frontalmente com o auto-proclamado líder da Ala 3 (Gael Garcia Bernal), um sujeito completamente amoral, perverso, cínico e livre de qualquer censura.

Censura, aliás, é o cerne do filme – ou melhor, a falta dela. Visão é censura; visão é a percepção de coisas que nós poderíamos fazer caso não existissem barreiras sociais. Sem a visão, as pessoas começam a se desnudar, resultando em democratas bons de retórica e ruins de prática (nosso bom doutor) e em déspotas psicóticos como o rei da Ala 3. Saindo da frigideira para o fogo, só resta à massa de populares desnorteados a figura da boa esposa/mãe/mulher traída e prostituída/assassina eventual Julianne Moore, a única que ainda consegue ver. Sabe-se lá o porquê.

O fato de Saramago ter optado por não identificar nominalmente seus personagens é um forte indicativo de que Ensaio Sobre a Cegueira não tem seu foco sobre o indivíduo, e sim sobre o grupo. Meirelles constrói uma desconfortável antecipação de um possível fim dos tempos, com as pessoas atoladas em lixo e sendo transformadas em lobos raivosos cuja única opção é lutar pelos poucos restos de comida que ainda existem e torcer para que a morte seja o mais indolor possível. Da caixa de pecados que é a humanidade sem visão, há de tudo: cobiça, volúpia, ira, sadismo, indiferença, egoísmo. Ainda assim, diretor e escritor constroem, juntos, um pequeno núcleo de decência que insiste em existir no meio de tanta maldade. E com essas pessoas teimosas, relutantes em ceder à selvageria, vão todas as nossas esperanças.

Dando ao desespero que permeia o filme uma expressão mais abstrata, Meirelles usa e abusa de enquadramentos estranhos e fotografia estourada, de um branco ofuscante. O talento de sua equipe técnica se iguala ao de seu elenco, encabeçado por uma Julianne Moore que consegue tornar mais crível um personagem que, de outro modo, poderia muito bem parecer uma dessas beatas próximas da canonização. Mas o maior trunfo do filme é realmente seu diretor, aqui menos espetaculoso que em seus trabalhos anteriores e mais interessado em perturbar seu público ao invés de o deslumbrar. São de Meirelles, e de seu mentor intelectual Saramago, todo o vigor, a melancolia e a beleza distorcida do filme, que nunca perde sua força ainda que eventualmente apele para soluções estéticas mais óbvias. Um filme que, aliás, fica com quem o vê por um bom tempo.

3/4

Amílcar Figueiredo

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River Phoenix (Especial James Dean)

1970 – 1993

“… vi um filme tantas vezes pra desvendar os olhos teus”

É algo meio inexplicável o fascínio que River Jude Phoenix exercia através, simplesmente, de um olhar, lançado como um feitiço sobre o público. Fascínio este que lhe rendeu, além, claro, de fama, dinheiro e uns gritinhos histéricos, uma carreira em ascensão, reações quase que encantadas tanto de pessoas comuns, rapidamente convertidas em fãs, quanto de grandes personalidades (já, já conto a história de Milton Nascimento, a quem pertencem as palavras entre aspas) e, como que por obra de algo ou alguém, uma morte trágica e precoce, passaporte direto para a eternidade, a invenção de uma fábula. E sua história parecia mesmo não poder terminar de outra forma.

River era “consciente”, engajado em movimentos de preservação ambiental, vegetariano e membro do PETA (órgão voltado aos direitos dos animais), influências da criação de pais hippies. Tinha três irmãs, Rain, Summer e Liberty, e um irmão, Leaf Phoenix (que depois mudaria o nome para Joaquin). Depois de quase dez anos perambulando pela América Latina com o culto cristão Filhos de Deus (há inclusive boatos de pedofilia, conforme uma declaração de 91 posteriormente desmentida de que, segundo River, ele teria perdido a virgindade aos 4 anos durante um dos cultos), os Phoenix (nome aderido exatamente após a saída do movimento) retornam aos Estados Unidos, em 1977, dispostos a recomeçar, e o teatro é o caminho que Arlyn e John Lee escolhem para seus filhos.

Apesar de uma participação no obscuro Explorers, em 1985 (oficialmente seu primeiro papel no cinema), River alcança a fama logo em 86 com o clássico vespertino Conta Comigo. No mesmo ano trabalharia ao lado de Harrison Ford em A Costa do Mosquito (que aliás era sua atuação favorita), mas só seria realmente notado, provando ser algo além de um dos inúmeros atores mirins oitentistas que cairiam no ostracismo, em 1988, com O Peso de um Passado, de Sidney Lumet, filme que lhe renderia uma indicação ao Oscar (perdido para Kevin Kline por Um Peixe Chamado Wanda). Ainda assim, Phoenix permanecia sem desafios na carreira, história que mudaria em 1991. Garotos de Programa (My Own Private Idaho, Gus Van Sant) foi o grande responsável por realmente alçar Phoenix àquele plantel de atores cujo talento é incontestável, no papel de um prostituto narcoléptico e bissexual.

Muito de Garotos de Programa (que, já antecipando, eu não gosto) parece retratar um River Phoenix naquele nível turvo e onírico da estrada no deserto. Sem começo e sem fim, e com um constante anseio de voltar, voltar, voltar não se sabe pra onde, voltar para um carinho materno que existe apenas nos sonhos mais incertos, onde memória e imaginação se confundem. E River segue adormecido no caminho de um asfalto rumo ao infinito ao pegar essa carona do final de Idaho exatamente na porta da Viper Room, numa madrugada de Helloween, da Califórnia pra eternidade.

River morreu de uma overdose de speedball (um coquetel de heroína e cocaína), e embora o óbito tenha sido declarado oficialmente cerca de 50 minutos depois do início das convulsões, acredita-se que ele tenha morrido mesmo na calçada da Viper Room (boate de Johnny Depp), nos braços da namorada Samantha Mathis, enquanto seu irmão mais novo Joaquin Phoenix (que é um puta ator aliás) ligava para o 911. Johnny Depp fechou a boate todos os dias 31 de outubro enquanto foi dono, de 93 a 2004.

E como não podia deixar de acontecer, foi sendo construída toda uma mitologia em torno de River e de sua morte. Desde as circunstâncias, do fato de ser um dos atores mais promissores de sua geração, da eleição da Viper Room como seu eterno santuário e das inevitáveis lendas contadas a seu respeito. Há quem diga por exemplo que de certa forma Phoenix já previa a própria morte (e de todo modo a overdose é uma forma de suicídio indireto), além de haverem certas coincidências proféticas em seus filmes. O ator estava escalado para participar de Entrevista Com o Vampiro (primeiro no papel de Lestat – que ficou com Tom Cruise – e depois como o entrevistador, que terminou com Christian Slater). Pouco tempo antes de morrer, ele declarou a SET: “Não me vejo fazendo parte de Entrevista Com o Vampiro”.

Tinha Hollywood a seus pés. Era bonito, talentoso e possuía uma imagem pública imaculada pelo seu lado engajado e ativista (e de qualquer forma a overdose não deixa de ser também uma ironia). Sua morte foi citada em 16º entre os eventos mais chocantes da história da mídia pela E! Television. Além de Entrevista Com o Vampiro, estava escalado para Eclipse de uma Paixão (papel que ficou com Leonardo di Caprio) e, por muito pouco, não se aproxima ainda mais de James Dean e Heath Ledger com um filme estreando posteriormente a sua morte. Ocorre que Dark Blood, 90% filmado, teve de ser simplesmente cancelado pela falta de algumas cenas fundamentais com Phoenix. E, seja pra engrossar o mito ou não, dizem muito que ele estava transcendental no filme.

River Phoenix morreu muito, mas muito cedo, e ao contrário de Dean e de Ledger, não teve a chance de pegar um personagem que o emoldurasse para sempre nos murais da história. River nunca será um rosto definitivo como Jim Stark ou Ennis Del Mar, ou o Coringa. Ele, estranhamente, será apenas River Phoenix, sem parecer no entanto precisar ser qualquer coisa além disso, porque de algum modo seus olhos sempre foram os mesmos, em todos os filmes, dando a entender que ele fez e refez a si mesmo durante seus 7 anos de carreira. E é esse mesmo misto de segredo e tristeza nos seus olhos que lançava um efeito inexplicável sobre as pessoas. Como aconteceu com Milton Nascimento.

Carta a um Jovem Ator

Essa é uma daquelas histórias que de certa forma reconforta os pessimistas e funde a cabeça dos céticos. Da minha parte, sou absolutamente cético quanto às possibilidades de uma coincidência dessas acontecer, daí que não me restam muitas opções.

Consta na biografia oficial do cantor, “Travessia: a Vida de Milton Nascimento”, de 2006, escrita por Maria Dolores. Em 1988, depois de finalizar uma turnê pelos Estados Unidos, Milton Nascimento resolveu tirar uma folga em Nova Iorque e ficou hospedado num hotel chamado Mayflower, perto de um ap onde estavam Xuxa e Simone. Milton ia visitá-las constantemente para ouvir música e ver filmes e tal. Numa dessas vezes, viram ser anunciado para mais tarde um filme chamado Conta Comigo, de Rob Reiner, e resolveram assistir, mas acabaram esquecendo. Quando Milton voltou pro seu quarto de hotel, o filme já havia começado.

Quando Milton viu River Phoenix na tela, sentiu algo, uma ligação, uma sensação que não conseguia explicar. Milton cita muito os olhos, sempre os olhos de Phoenix como catalisadores de um sentimento original, qualquer coisa arrebatadora à qual ninguém ainda havia dado um nome. Ficou atento aos créditos e depois de ver “River Phoenix” se acender na tela, sentiu não ter dúvida de que aquele era o nome do garoto que o encantara. Milton procurou a programação da TV, localizou os horários em que Conta Comigo seria reprisado, e passou a ver e rever o filme todas as vezes que podia. Acabou escrevendo uma música.

Já de volta ao Brasil, Milton queria que a música para Phoenix abrisse o lado A do seu disco “Miltons” (1989), e resolveu batizá-la com o nome do ator. No entanto, precisava da autorização de River. Seu agente conseguiu o telefone da mãe do ator, Arlyn “Heart” Phoenix (que era quem cuidava da sua carreira), e Milton ligou contando o que havia ocorrido. Arlyn, que nunca ouvira falar dele, achou que era mais um fã doido e desligou. Quando River soube o que havia acontecido, correu ligar de volta para Milton, dizendo que, recentemente, quando estava hospedado no hotel Mayflower em Nova Iorque, resolveu entrar numa loja de discos na mesma rua e, sem saber por que, comprou um disco de Milton Nascimento, cantor brasileiro de quem ele nunca havia ouvido falar. Quando ouviu o disco, se apaixonou perdidamente.

River Phoenix veio ao Brasil, a convite de Milton, e ficou hospedado na sua casa. Os dois permaneceram grandes amigos até a morte do ator.

Conta Comigo (Rob Reiner, 1986)

Não existe tema mais difícil de ser trabalhado que a nostalgia. Isso porque ela não permite apelos, não aceita sofisticação, rejeita hermetismos, despreza artifícios e ferramentas com as quais um autor pode moldar e adornar sua história. Um filme sobre nostalgia dá certo à base de algo que, exatamente pela simplicidade, acaba se tornando extremamente complexo: identificação. E não é necessário, no caso, ter vivido os anos 50, porque a ligação do espectador com seu filme ocorre num nível inexplorado e desconhecido: o sensorial. Vai, portanto, da habilidade do diretor em unir elementos e conduzir sua história para que este determinado efeito tão raro e incompreensível de repente passe por você, durante os créditos, ao som de Ben E. King, como o cheiro de algo estranhamente remoto e familiar que surja por uns instantes e desapareça rapidamente.

É claro que não existe nada tão subjetivo quanto se identificar com um filme, ainda mais pelas vias da saudade (compostas sempre de lembranças e sensações que são suas e de mais ninguém), mas Conta Comigo é todo forjado pela lâmina de um espelho. Há uma variedade de personalidades entre os moleques palatável ao coração de cada um, embora pessoalmente eu não me veja dependendo de um deles, porque os quatro formam a unidade de uma única instituição: a infância.

É pela evocação quase tributária da infância que Conta Comigo pega seus espectadores pela mão e os leva a uma viagem de volta. Voltar, voltar, voltar… sempre esse caminho de tentativa e de falha pela impossibilidade frustrante de recuperar um pouco daquela atmosfera encantada da infância, algo que, por poucos instantes, pode acontecer em Conta Comigo.

Na óbvia impossibilidade de se fazer um filme com os sonhos e a memória de cada um como matéria-prima, Rob Reiner (ou Stephen King, já que o conto original é dele) enxerta-nos uma história (com elementos que pertencem ao senso comum), nos faz vivê-la com aqueles quatro garotos para, então, nos golpear duramente no final. Narrar secamente a passagem nociva do tempo, a perda das coisas, a dissolução das amizades, e então nos fazer ter saudade de algo que ocorreu há poucos minutos, mas que colocado num estágio desconhecido de sentimento, torna-se indefinido e atemporal, como se não apenas tivesse acontecido, mas também já era trazido conosco de um tempo do qual não sobram recordações físicas ou visuais. Não possuem som, não possuem rosto, não possuem cheiro, apenas existem.

Conta Comigo é o mais próximo que se pode chegar de uma viagem de volta no tempo. É a recriação daquelas tardes compridas, com minutos que duravam horas e com horas que duravam dias. É o reencontro com um tempo em que qualquer ida mais longe de casa era uma aventura daquelas que nunca mais viveríamos, um tempo onde frutas das árvores e doces caseiros possuíam um sabor que jamais voltaria a ser igualado. Quando a amizade era a coisa mais importante do mundo e, principalmente, quando se tinha uma impressão tão doce quanto tola e inocente de que aquelas mesmas tardes não acabariam nunca.

Mas o tempo é a morte de todas as coisas. A infância precisa acabar, os amigos precisam ir embora e a vida precisa ficar madura e cinza. Ver River Phoenix literalmente desaparecendo no final de Conta Comigo é se dar conta de que talvez exista um acordo mudo na vida. De que talvez coisas boas demais simplesmente não possam ficar com a gente, de que talvez a infância e River Phoenix sejam habitantes naturais muito mais da memória e da imaginação que do mundo real, e que o tempo sempre passa e sempre leva algo consigo, seja no fim de um caminho de terra, seja na porta da Viper Room.

“The endless River runs”

Luis Henrique Boaventura

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John Belushi (Especial James Dean)

1949 - 1982

John Adam Belushi nasceu em 24 de Janeiro de 1949 em Chicago, Illinois. Filho de Agnes e Adam Belushi. Ele chamou a atenção pela primeira vez em 1971, quando imitava o cantor Joe Cocker nas apresentações de seu grupo teatral na sua cidade. Por causa disso, no ano seguinte, entrou no show off-Broadway “National Lampoon’s Lemmings”, uma paródia a Woodstock, e logo depois, se dedicou a programas de rádio (como The National Lampoon’s Radio Hour). De 1975 até 1979, fez parte da primeira trupe de comediantes que participaram do Saturday Night Live (SNL, como é conhecido nos EUA, é um famoso programa humorístico de TV norte-americano, que já está há mais de 30 anos no ar).

Durante toda sua existência, saíram do SNL vários comediantes que também tiveram ou ainda têm suas carreiras no cinema. Lá foram revelados nomes como Steve Martin, Chevy Chave, Bill Murray, Eddie Murphy, Dan Aykroyd, Mike Myers, Adam Sandler, Will Ferrell, Chris Farley e Rob Schneider. No programa de TV, John fez sucesso tanto imitando personalidades como Babe Ruth, Dino De Laurentis, Elizabeth Taylor, Elvis Presley, Joe Cocker, John Lennon, Sam Peckinpah, William Shatner (Capt. James T. Kirk), Marlon Brando e Truman Capote; como interpretando diversos personagens como Samurai Futaba, Captain Ned, Jeff Widette, Larry Farber e ‘Joliet’ Jake Blues. Este último, um dos “Blues Brothers”. O outro irmão era interpretado por Dan Aykroyd, e o sucesso da dupla no SNL fez com que Belushi e Aykroyd lançassem discos, shows e até um filme dos “irmãos blueseiros”.

Como se pode ver, nos anos 70, a carreira dele só subiu até chegar em 1979 quando ao completar 30 anos, Belushi se viu no filme número 1 em bilheteria nos EUA – Clube dos Cafajestes; além do sucesso de SNL, que era o de maior audiência dentre os programas noturnos da TV norte-americanos; e ainda com disco número 1 dos EUA – The Blues Brothers: Briefcase Full of Blues. Saiu do SNL nesse ano, e foi investir mais na carreira tanto no cinema, como na música.

No cinema, além dos filmes Clube dos Cafajestes e Os Irmãos Cara-de-Pau, ainda participou, entre outros, de Com a Corda no Pescoço (1978); 1941 – Uma Guerra Muito Louca (1979), dirigido por Steven Spielberg; Brincou com Fogo, Acabou Fisgado (1981); e Estranhos Vizinhos (1981), onde a exemplo do filme dos “Cara-de-Pau”, ele dividia a tela com seu grande parceiro, Dan Aykroyd. Morreu cedo, aos 33 anos, por causa de uma overdose de drogas, em 5 de Março de 1982. Nesse ano, ele e Dan apresentariam, na entrega do Oscar, o primeiro prêmio por efeitos visuais, e com a morte de Belushi, Dan apresentando o prêmio sozinho não deixou de homenageá-lo na noite de entrega. Belushi deixou uma esposa, Judy, que conheceu nos tempos do colégio, e teve um irmão mais novo, James Belushi, também ator e comediante. Judy e James conseguiram com que em 2004, 22 anos depois de sua morte, John fosse homenageado com uma estrela na Calçada da Fama em Hollywood.

Sobre a personalidade de Belushi, o melhor exemplo vem do filme “Os Caça-Fantasmas”. Quando começou a escrever o roteiro do filme, Dan Aykroyd pensou no nome de John Belushi para interpretar o Dr. Peter Venkman, mas com a morte do amigo, o papel acabou caindo nas mãos de Bill Murray (também do SNL). Só que John permaneceu no filme, de uma maneira diferente quando deram ao personagem-fantasma Geléia (Slimer, no original) a mesma personalidade de “festeiro inveterado” que John tinha em vida.

Os Irmãos Cara-de-Pau (John Landis, 1980)

Assim como os atores Dan Aykroyd e John Belushi, que interpretam os “irmãos Blueseiros”, o filme, The Blues Brothers – Os Irmãos Cara-de-Pau, também saiu do famoso programa humorístico de TV americano Saturday Night Live. Os dois já vinham se apresentando no SNL, como os tais irmãos cantores e pelo sucesso das apresentações, resolveram investir num filme com esses personagens. Com isso, a maior impressão que fica é que tudo parece mesmo várias esquetes humorísticas (que é como se chamam as divisões do SNL) coladas uma na outra e com um fio de história unindo-as, sem que tudo tenha uma razão maior do que mostrar como os Blues Brothers são “cool”. Se o filme consegue tal façanha, cada um que julgue.

Tudo começa quando Jake Blues (John Belushi) é solto depois de um tempo na cadeia. Seu irmão Elwood Blues (Dan Aykroyd), por causa de uma promessa que fez no passado, o leva direto para freira que cuidava deles quando pequenos. Lá, a freira avisa que o orfanato onde cresceram está a ponto de ser fechado por não pagar os impostos federais. Daí, os dois resolvem remontar a antiga banda de Blues e fazer um show para arrecadar o dinheiro necessário para que o orfanato não feche. O filme conta a jornada deles em resgatar cada membro da ex-banda para realizar o tal show, só que no meio do percurso ambos se envolvem em várias confusões com a polícia, ex-namoradas raivosas, um grupo de nazistas, e um conjunto de música country. História boba? Sim, é. Mas o filme é um musical, gênero que não depende muito de “historinhas” para funcionar, e sim dos momentos musicais, e isso o filme tem. Grandes momentos musicais. Infelizmente, de resto, Os Irmãos Cara-de-Pau investe num humor fraco (pouca coisa funciona nesse sentido) e cenas de perseguição de carros (que não chamam tanto a atenção). Aliás, temos cenas de perseguição de carros demais aqui, coisa que estava na moda na época, mas isso acaba esticando a história demais, e não acho que um filme do gênero (comédia/musical) consegue manter o ritmo com tanto tempo de duração (mais de duas horas!). Filmes desse tipo, e esse aqui especialmente, pedem que sejam mais “enxutos”.

Comentando o que Blues Brothers tem de melhor: as músicas. Tenho que reconhecer que não conheço profundamente esse gênero musical, mas gostei do vi e ouvi. Quem gosta, então, vai se empanturrar com esses números musicais, estrelados por grandes nomes do meio como Ray Charles, James Brown, Cab Calloway e Areta Franklin. Essa última, protagoniza a melhor parte do filme tanto musical como cômica. Ela é a mulher de um dos ex-membros da banda. Os dois agora são donos de um restaurante, mas ele está querendo abandonar tudo por resolver voltar ao batente musical a pedido dos “Blues Brothers”. Mas ela não querendo ser deixada de lado, canta uma música falando da importância dela na vida do marido. A resposta dele é seca e engraçada, deixando a mulher sem graça perante os clientes do restaurante. Considerando que foi feito numa era época em que o discurso de liberalismo feminino estava bastante em voga, esse momento não deixa de ser interessante pela audácia. Ainda em cima desse anti-discurso feminista, o filme investe na participação de Carrie Fisher, que na época ainda era a Princesa Léia da saga Star Wars. A sua personagem sempre aparece sempre para atacar os “Blues Brothers”, mas ambos nem notam a presença dela, mesmo com todo o esforço que ela faz em explodir tudo em volta deles. Isso não deixa de representar essa época em que a mulheres tentavam levantar a voz a todo custo, mas muitas vezes os homens nem notavam.

Quem curte filmes musicais, e desse gênero de música especificamente, The Blues Brothers cai como uma luva. E para quem não gosta, vai ser difícil se entusiasmar com esse filme, que não consegue ser tão engraçado ou cool quanto se pretendia ser. Apesar de um ou outro momento mais inspirado, tudo parece mesmo um programa de humor na TV, que hora consegue fazer certa graça com suas esquetes, outra hora não.

Jailton Rocha

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Década de 80 (Especial James Dean)

Responsabilidade grande falar de anos 80 em pleno revival. E no caso do cinema, às pretensões de nostalgia, a década durou foi 20 anos. Impossível separá-la daquela noção de Sessão da Tarde/Cinema em Casa que estendeu seu alcance pelos discretos anos 90 atingindo em cheio quem mantém sua infância guardada nesses 10 anos de muita pipoca, videogame e Coca-Cola, assim como para os adolescentes dos anos 80 a proliferação dos filmes de terror e slashers movies vinha matar uma sede de sangue acesa e provocada por uma censura silenciosa desde o início do cinema. Contrariando a ‘lógica’ e adultos ranzinzas, a nova geração – que vê, escreve e começa a fazer cinema – não consegue agir racionalmente sobre um tipo de cinema que, se surgiu sob vaias e lamentos, reage agora por sob um vínculo sentimental indissociável com seus espectadores. E se a 7ª arte é manifestação física dos sentimentos, podemos dizer que Godard (“o cinema está morto”) estava redondamente enganado.

Poucas vezes foi mais fácil ser extremista ao analisar qualquer coisa quando se observa as mudanças sofridas pelo cinema na década de 80. A conclusão a que Godard chegou (um dos pilares centrais da nouvelle vague) é totalmente compreensível frente a uma aparentemente inevitável desconstrução da idéia de cinema de autor, desencadeada tanto pelo aparecimento dos primeiros blockbusters (Tubarão, Star Wars), ainda na década de 70, propulsados depois num embalo incontido por Os Caçadores da Arca Perdida (Spielberg, 1981), quanto pela catástrofe financeira de O Portal do Paraíso (Michael Cimino, 1980), que levou à falência a United Artists, estúdio que o próprio Charles Chaplin ajudou a fundar em 1919.

O que se anunciava nestes primeiros anos era uma retomada do cinema pelas gerações mais jovens, que dariam as cartas sobre a produção cinematográfica dos EUA numa “era” que se sustém até hoje sem previsão de terminar. No entanto, não convém este discurso de que o cinema acabou e de que nada que preste foi feito de 20, 25 anos pra cá (conforme costumam sugerir as renomadas listas de melhores filmes). Irmãos Cohen, Lynch, Tarantino, Kieslowski, De Palma, Scorsese, Ferrara e o próprio Spielberg não são diretores de núcleo de Pantanal pelo que eu sei.

Mas também pudera. O mundo viu o videoclip e a MTV explodirem em efeitos multicoloridos dentro das de 14 polegadas, o VHS arrasando milhares de salas de cinema pelo mundo. Viu a indústria pornô se desenvolver num impulso de liberação que já movia a produção exploitation e de terror/comédias que ganhavam os jovens na mesma proporção que fazia os grandes e velhos mestres desejarem o suicídio. Isto como se houvesse algo de muito errado em fazer cinema com um único objetivo: divertir.

São inúmeras as produções oitentistas que, transportadas diretamente para as tardes entre um pouco de Road Rash e O Incrível Mundo de Beakman, marcaram toda uma geração. E se muitas vezes nem são lembrados exatamente pela qualidade, guardam um cheiro inconfundível de infância e anos 80. Filmes absoluta e maravilhosamente datados como Namorada de Aluguel, Os Caça-Fantasmas e Os Gremlins não possuem muito sentido vistos fora deste contexto (embora eu considere isto impossível). E tantos outros… Os Goonies, Meus Vizinhos São um Terror, Short Circuit, O Garoto que Podia Voar, O Vôo do Navegador, E.T., De Volta Para o Futuro, Quero Ser Grande, Férias Frustradas, Garotos Perdidos, Adorável Andróide…
 
Eu poderia ficar horas aqui falando de filmes que não vejo há 10 ou 12 anos e que habitam como obras-primas a memória (e a imaginação, muitas vezes convenientemente usada para preencher lapsos). Mas acho que basta versar sobre um deles, logo abaixo.

E dizer que se por um lado o cinema autoral perdeu espaço vertiginosamente ao longo dos anos 80, sempre houve e haverá lugar para o talento. E que falar que um De Volta Para o Futuro é menos cinema que qualquer vanguarda européia é não apenas ser simplista como se autolimitar, e impor regras à arte, que é livre, volátil e incapaz de se concentrar num único ponto por muito tempo. Porque a década até pode ter sido perdida, mas só pra quem estudava à tarde, não tinha televisão ou morava em caverna.

Curtindo a Vida Adoidado (John Hughes, 1986)

Curtindo a Vida Adoidado aparece na metade dos anos 80 tanto como um ato de revolta àquela idéia pasteurizada de juventude perdida quanto como a sugestão bem direta de que, talvez, um pouco de perdição simplesmente não faça mal a ninguém.

Que o filme é um daqueles grandes clássicos da Sessão da Tarde já é desnecessário dizer, mas as razões para a solidificação e inclusive potencialização do ‘título’ merecem uma ou duas palavras. Primeiro que Curtindo a Vida é um documento de persuasão extremamente poderoso, de certa forma controverso e, principalmente, assumidaço sem qualquer pudor. E o tom professoral de Ferris Bueller do início (inegável também que aquele mini-manual de “como enganar os pais” é uma provocação direta e divertidíssima) é pego como referência e instituído essencialmente em cada cena do filme até o final.

Daí que o que parecia um simples matar aula de um adolescente dos anos 80 se transforma num mapa ilustrado para o carpe diem, e Ferris nem é mais a flecha, mas o arco e o alvo também. Não há nada de especial na “mensagem” do filme, e apesar de esta simples pretensão (filmes com mensagens e ensinamentos e essas merdas) já soar irritante, Curtindo a Vida é um dos poucos exemplos que passam por cima do ‘conteúdo’ com uma ‘forma’ irresistivelmente sedutora.

Um dos grandes truques do cinema, talvez até uma mágica genuína, é este poder tão nobre de desencarnar pessoas de suas vidas e seus mundos e atirá-las a uma quase eletrosfera da imaginação, fazendo-as encontrar em si mesmas – e onde menos esperavam – uma porção de encanto e de feitiço que parecia inexistir. Assim funciona na recriação de uma eficiente atmosfera ou no retrato de um personagem quase que gravitacional. Porque o mundo gira em torno de Ferris Bueller, e nós vamos com ele num carrossel com um propósito não de alcançá-lo, nunca, mas de gerar mesmo e apenas essa embriaguez de onipotência e “don’t worry” que o personagem exala tão naturalmente.

Ferris não existe, assim como um ideal, um sonho ou um modo de vida não podem ser fotografados e documentados. Ele é tão surreal e abstrato quanto suas palavras que, levadas ao extremo, são nada menos que a personificação dele mesmo. Daí que como guia, como encarnação de uma filosofia e de uma mensagem, Ferris Bueller cria uma lenda para ser seguida e nunca alcançada. Pois podemos até girar em torno de Ferris, mas estamos mesmo ao lado de Cameron, o tempo todo.

É com ele que vemos Ferris passear entre medos inatacáveis, que o vemos entrar num desfile como se simplesmente pudesse fazer tudo que quisesse. Que ouvimos um tão óbvio mas às vezes impossível “viva um pouco”. Porque Twist and Shout é entoada como uma canção de marcha em favor de marcha nenhuma, de um anti-movimento, de uma despreocupação com os ismos, do culto e da crença em quem realmente interessa: si mesmo.

É na base dessa confiança inabalável que o day off de Ferris Bueller é construído, que Cameron manda tudo pro inferno ao menos uma vez e consegue sem muito esforço o melhor dia de sua vida.

Curtindo a Vida Adoidado permanece insubstituível por provocar no espectador uma identificação e refletir também uma dúzia de sonhos tipicamente adolescentes, e que não deveriam morrer nunca. Por ser um dos filmes mais divertidos de sua época, por ter esta ÉPOCA cristalizada o fazendo um dos representantes mais fortes de uma geração e de uma década que tem hoje seu auge de nostálgicos. Pelas cenas icônicas, pelos momentos inesquecíveis como o apoteótico e delirante desfile, o confronto de Cameron consigo mesmo na cena com a Ferrari, na representação não menos que extraordinária de Jeffrey Jones para um dos vilões mais memoráveis e divertidos do cinema. Porque assistir Curtindo a Vida é fazer uma viagem de volta aos anos 80, de volta a um tempo em que matar aula representava algo como uma aventura, é se dar conta de que o tempo pode ter passado sem que fizéssemos tudo aquilo que adoraríamos fazer um dia, sem perceber ainda que não há muito que nos impeça além de nós mesmos.

Pare de se preocupar, arranje uma Ferrari e viva um pouco.

Luis Henrique Boaventura

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Brandon Lee (Especial James Dean)

1965 – 1993

Muito de todo o sucesso e importância que o cinema proporciona se deve aos seus atores. Alçados como ídolos na mesma proporção que caem no ostracismo, pode-se dizer que eles são um dos alicerces da sétima arte. Nesses mais de 100 anos, muitos deles morreram sem que pudessem demonstrar ao seu público o quão maravilhosos poderiam ser.

Entretanto, dois atores, pai e filho, tiveram as suas vidas traçadas por linhas tão semelhantes que só mesmo a força do destino poderia explicar. Brandon Bruce Lee nasceu no dia 01 de fevereiro de 1965 em Oakland, California. Filho do grande ator e lutador de artes marciais Bruce Lee, começou a aprender os primeiros passos dessa luta desde cedo com seu pai que o ensinava, com apenas dois anos de idade, a dar pequenos chutes. Aos 6 anos, já participava de competições e era capaz de quebrar pesadas placas de madeira com os pequeninos pezinhos. Mas o destino quis que ele se separasse de seu adorado pai aos 9 anos de idade. Por conta disso, Brandon teve uma infância um pouco complicada, pois, além de todo o trauma, ainda teve que ouvir os rumores de que seu pai teria morrido por overdose. Arrumava briga na escola por causa disso, sendo expulso de dois colégios quando pequeno e uma terceira vez na adolescência.

Por influência também de seu pai, desde criança Brandon demonstrava grande vontade de se tornar um grande ator. Levou adiante seu desejo e ingressou na Faculdade de Emerson, em Boston, Massachusetts, juntando-se à companhia de teatro, conciliando-a com os seus treinos no Kung Fu. Mesmo com o peso do legado do seu sobrenome às suas costas, resultando em críticas por não ser como seu pai, Brandon lutou para ter sua própria imagem, totalmente desvinculada do sobrenome Lee, e criar um estilo proprio. Nas palavras dele: “Não quero e nem posso ser como meu pai. Admiro muito seu trabalho, mas eu e ele somos pessoas completamente diferentes”. Contudo, o jovem Lee (que gostaria de interpretar Hamlet) acabou tendo a sua carreira de ator iniciada em filmes de artes marciais.

Em 1985, conseguiu um papel em um filme feito para a TV chamado Kung Fu: O Filme, co-estrelado por David Carradine. Seu primeiro papel importante foi em Legacy of Race, de 1986. Em sua curta filmografia, predominaram os filmes de ação, ligados às artes marciais. Mesmo sabendo que estava atuando em filmes de menor grandeza (como “Massacre no Bairro Japonês” e “Rajadas de Fogo”), Brandon sabia que a oportunidade de mostrar o que ele poderia fazer chegaria. E chegou, no ano de 1993.

Quando recebeu a proposta para ser o protagonista do filme O Corvo, ele sabia que sua chance finalmente havia chegado. Leu tudo sobre seu personagem, e a medida que ia conhecendo mais sobre ele, mais se interressava e tinha a certeza de que essa era a sua grande chance. O interesse de Brandon pela obra era tanto que ele chegou ao ponto de ajudar no roteiro do filme, dando idéias, além de coordenar todas as coreografias do filme. Em uma de suas últimas entrevistas, Brandon expressou todo o seu contentamento com o personagem dizendo: “Não sei se estava predestinado a fazer este papel, mas estou muito feliz e honrado por fazê-lo.”

Sua vida pessoal também ia muito bem. Noivo da sua antiga namorada Eliza Hutton, pretendia se casar no dia 17 de abril, duas semanas após o término das filmagens. No convite do casamento, colocou a seguinte frase do livro “The Sheltering Sky” de Paul Bowle: “Por não sabermos quando iremos morrer, nós temos que pensar na vida como um inexaustivo bem.”

Mas o destino quis que o seu nome fosse imortalizado de uma maneira irreparável. O ator faleceu durante as filmagens. Uma morte tão estranha e cercada de conjecturas e suspeitas quanto a do seu pai. Quis o destino que o filho pródigo se juntasse ao pai quase 20 anos após à sua morte.

Uma das cenas rodadas para o filme requeria que uma arma fosse carregada, engatilhada e apontada para a câmera mas, por causa da curta distância do tiro, a munição carregada era de verdade mas sem pólvora. Após a realização desta cena, o assistente do armeiro (não o armeiro, que já havia deixado o set) limpou a arma para retirar as cápsulas, derrubando um dos projéteis no cano. A cena seguinte a ser filmada envolvendo aquela arma era o estupro de Shelly, sendo que a arma foi carregada com festim (que normalmente tem duas ou três vezes mais pólvora do que um projétil normal, para fazer um barulho alto). Lee entrou no set carregando uma sacola de supermercado contendo um saco de sangue explosivo. No roteiro constava que Funboy deveria atirar em Eric Draven quando ele entrasse na sala, estourando o saco de sangue. O projétil que estava preso no cano foi disparado em Lee através da sacola que ele carregava, matando-o. Os negativos com a filmagem de sua morte foram destruídos sem nunca terem sido revelados.

Após sua morte, várias vezes foi considerada a opção de arquivar o filme. Mas, graças ao empenho do diretor Alex Proyas, que desejava mostrar a atuação estupenda de Brandon para todos, as cenas restantes foram filmadas com o auxílio de dublês e efeitos especiais e o filme pôde, enfim, ser lançado. O diretor participou ativamente da divulgação do filme, pedindo ao público que fossem assistí-lo, não pela simples curiosidade de ver o último trabalho do filho de Bruce Lee, mas para ver a grande obra que ele fez com sua profunda interpretação no filme. Proyas dedicou o filme para Brandon e sua noiva Eliza.

Passados 14 anos após o seu último trabalho, Brandon Lee ainda é efusivamente lembrado pela sua interpretação como o rockeiro Eric Draven, que ressurge um ano depois para vingar sua própria morte e de sua esposa. Mais do que isso: ao ver o que ele consegue fazer com esse personagem, somos impelidos a imaginar como a carreira dele estaria hoje, ou ainda se o filme teria essa importância e destaque caso não ocorresse a sua morte. Será que Brandon finalmente se livraria do peso de carregar o sobrenome Lee?

Nunca saberemos. O que sabemos é que, Brandon, acima de qualquer linhagem sangüínea, possuía o talento que, infelizmente, foi interrompido pelas garras famintas da morte. E, se ele não dotava de um elo de ligação entre os dois mundos para irromper das trevas para o mundo real, ao menos ele sempre estará vivo no imaginário das pessoas.

O Corvo (Alex Proyas, 1994)

Uma fábula dark que versa sobre o amor

Véspera do Dia das Bruxas. Ou, na denominação dada no filme, Noite do Diabo. Incêndios, agressões, vandalismo e a chuva invandem a cidade na calada da noite, dando um ar sombrio e melancólico. Com a visão das chamas constratando com o frio da noite, irrompe a voz de uma garota, nos revelando que, em outros tempos, acreditava-se que quando alguém morria, um corvo carregava sua alma para a terra dos mortos, mas às vezes, algo tão vil acontece que a alma não consegue descansar, e este corvo pode trazer a alma de volta para corrigir o que estava errado. Junto a essa cena, temos a revelação de um duplo assassinato. De um casal. Que se casariam no Dia das Bruxas. O noivo, atirado do sexto andar, depois de levar um tiro. A noiva, violentada e espancada, morre, depois de ficar 30 horas no CTI. Um fim trágico para os dois numa noite trágica.

Um ano depois. A mesma cidade, a mesma Noite do Diabo, os mesmos incêndios, a mesma imagem decadente e sombria. Um corvo espreita um túmulo. O túmulo de Eric Draven. O noivo assassinado um ano atrás. De repente, o chão que adornava a sua sepultura se rompe. Eric volta do mundo dos mortos. Cambaleante, segue quase que instintivamente para o seru último lar. Lar que será a sua morada em sua estadia. Impelido pelas suas lembranças daquela noite, ele parte com um único desejo: vingança pelo assassinato dele e de sua noiva. Tendo o corvo como o seu elo de ligação, a sua extensão, os seus olhos, a sua consciência e, acima de tudo, a sua imortalidade.

Essas mal traçadas linhas resumem a sinopse do filme “O Corvo”, mais conhecido como o último trabalho de Brandon Lee, filho do lendário Bruce Lee. Morto durante as filmagens, Brandon Lee adquiriu status de lenda interpretando Eric Draven. Além disso, o filme, por conta da morte de seu ator principal, adquiriu status de cult. Mas, além dessa aura sombria que o permeia, “O Corvo” tem muito mais a oferecer.

Brandon Lee sabia disso. Mais do que isso, sabia que era a sua grande chance. Por isso, se dedicou de corpo e alma a esse projeto, sugerindo modificações no roteiro e até coreografando as cenas de ação. Como resultado, uma atuação brilhante e arrebatadora. Brandon soube captar muito bem a melancolia do personagem, seja nos momentos de embate com os seus algozes, seja na dor ao reviver as suas lembranças (ou ao viver as lembranças das pessoas que ele a toca), transmitindo os sentimentos através do gestual e, principalmente, do olhar (especialmente quando ele está com a maquiagem característica do personagem). Mais do que o seu legado sinistro, “O Corvo” deve ser lembrado sobretudo pelo trabalho magnífico de Brandon Lee na atuação.

Alex Proyas, o diretor do filme, também sabia do potencial do projeto. E, por conta disso, proporcionou o visual ideal para essa fábula. O filme é escuro, de atmosfera sombria, depressiva, gótica, expressionista. Chove o tempo inteiro (mais à frente, porém, temos palavras positivas de Eric Draven sobre isso). Isso foi obtido graças à cenografia estupenda, à fotografia dark e, sobretudo, às movimentações e posições de câmera ministradas por Proyas, muitas delas relembrando os clássicos alemães dos anos 20, quase que como uma honesta e singela homenagem a Lang, Wiene e outros mestres alemães. A trilha sonora, igualmente pesada e depressiva, contribuiu e muito para a atmosfera perfeita do filme.

Mais do que isso, mais do que as proezas técnicas, o filme tem o seu maior trunfo na sua mensagem. “O Corvo” é, assumidamente, uma fábula dark, gótica que, através do tema da vingança, versa, sobretudo, sobre o amor. Além do sentimento de vingança que move o personagem, vemos que o persongem principal é movido, principalmente, pelo amor que ele sentia pela sua amada. Isso fica bastante claro na cena final, quando, após cumprir a sua missão, Eric, ferido, volta para o cemitério onde ele e Shelly Webster (a noiva) foram enterrados. E, enquanto ele descansava deitado em frente à lápide de sua amada, surge, bela, luminosa e radiante, a sua amada. Ela se curva diante de seu devoto companheiro e, com um beijo, o leva para o seu merecido descanso. Nas palavras finais do filme, “Se roubarem aqueles que amamos, podemos fazer voltarem da morte se não deixarmos de amá-los. Os edifícios queimam. As pessoas morrem. Mas o verdadeiro amor é eterno”. Esse amor era o que motivava Eric a partir em sua cruzada. Era esse amor que o mantinha impelido a avançar, era esse amor que o mantinha, sobretudo, humano. E é esse combustível que nos permite também caminhar dia após dia, até o final da nossa existência física. É esse combustível que faz com que atores, como Brandon Lee, ao perceberem o potencial de uma obra, entreguem atuações que sejam lembradas até hoje, mesmo após suas mortes. E é essa, ao menos para os atores, a grande e almejada imortalidade.

Adney Silva

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Década de 90 (Especial James Dean)

De Transpointing a Mortal Kombat: A Juventude da década de 90 retratada no Cinema

Fim da Guerra Fria (com “vitória” do Capitalismo); Globalização (com a disseminação da internet como grande facilitadora); Windows se consolidando; suposta “expansão da democracia”; MTV; Grunge; Boy-Bands (e Girl-Bands também, não esqueçam das Spice Girls); o Rei do Pop mudando de cor; NAFTA, Mercosul; Plano Real; Caras-Pintadas; impeachment; um presidente, a sua secretária e um charuto, popularização das séries norte-americanas; a indústria dos games se consolidando como forma rentável de entretenimento, assim como os quadrinhos (especialmente os mangás); avanços tecnológicos e científicos em escala exponencial, fazendo contraponto ao avanço da desigualdade social (muito por conta da globalização), de doenças como a AIDS, da Guerra do Golfo, Sarajevo, genocídio em Ruanda, terrorismo e outras atrocidades como a Axé Music, os grupos de pagode e o Funk, etc…

Tudo isso é apenas uma pequena amostra de tudo o que aconteceu na década de 90, onde a maioria dos ploteiros daqui viveram a sua infância e/ou adolescência. E todo esse turbilhão de acontecimentos provocou um efeito devastador sobre os jovens e, sobretudo, nos filmes que os retratavam e/ou eram direcionados a eles.

Um dos gêneros que teve maior identificação com a juventude nessa época foram os filmes de terror. Graças principalmente a “Pânico” (Scream), filme de 1996 escrito por Kevin Willianson e dirigido por Wes Craven. O filme revitalizou o gênero de terror nos anos 90 de forma semelhante à que Halloween (1978) fez na segunda metade dos anos 70, utilizando um conceito que combinava cenas assustadoras com diálogos que satirizavam os clichês dos filmes do gênero. No filme estrelaram vários ídolos adolescentes da época, incluindo: Neve Campbell, Rose McGowan, Skeet Ulrich, Drew Barrymore, David Arquette e Courteney Cox (então no auge de sua fama no seriado Friends).

Scream tornou-se num grande sucesso comercial na altura de sua estréia, e foi um dos filmes mais lucrativos de 1996, sendo aclamado por críticos de todo o mundo. Devido ao seu sucesso, resultaram duas seqüências: Scream 2 e Scream 3, além de uma enxurrada de novas produções que almejavam abocanhar parte do público criado pela seqüência, como Lenda Urbana, Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, A Bruxa de Blair e Premonição (disparado o melhor dentre essas produções).

Mas o cinema voltado para a juventude na década de 90 não ficou restrito apenas aos gritos e sustos baratos. O aumento gradativo da violência, aliado ao fácil acesso das drogas e entorpecentes, o eterno choque de gerações, a busca de identidade e de ser ouvido, além da liberdade em todos os sentidos vividos por muitos jovens nessa época e todas as suas conseqüências foram refletidas e mostradas no cinema, tal qual na segunda metade da década de 50. Mas, ao contrário dos filmes mostrados nessa época, os filmes do gênero eram mais mordazes, violentos e, por que não dizer, mais reais (ou pelo menos tentavam ser), utilizando-se uma estética inspirada nos videoclipes, com uma montagem acelerada, telas que congelam, malabarismos com a cronologia, estilização e outros truques moderninhos. Esta estética videoclíptica influenciou não só os filmes que centravam sobre os impacto das drogas e da vida de sexo livre nos jovens (cujos maiores representantes desse gênero são Kids dirigido por Larry Clark, e Transpointing, de Danny Boyle), mas todo o cinema a partir dessa década até os dias de hoje.

Mas nem esses predicados fizeram com que os jovens tivessem todas as suas atenções voltadas para o cinema. Isso porquê uma outra mídia estava crescendo assustadoramente, começando a trilhar o seu caminho de sucesso (passando a até render mais que Hollywood): os vídeo-games. Com isso, o próprio cinema tentou se aproveitar desse boom na década de 90, tal qual fez nos anos 50 com o rock and roll. Assim filmes inspirados em jogos de sucesso como Street Fighter, Super Mario Bros, Double Dragon e Mortal Kombat foram produzidos e lançados nessa época. Entretanto, essas produções não gozaram de grande aceitação da crítica e do público, sendo (merecidamente) fadados ao esquecimento e desprezo. Mas isso ainda não impediu Hollywood de continuar tentando levar o maior número possível de gamers as salas de cinema.

Como se pôde ver nesse texto, os eventos da década de 90 influenciaram diretamente não só os filmes relacionados a juventude, mas, em muitos casos, a nossa própria maneira de ver os filmes. Muitos que tiveram a sua adolescência nessa época consideram alguns desses filmes como clássicos, mesmo sob o protesto de muitos. Se eles (mesmo os considerados bons – pelo menos por esse editor que vos escreve – como Transpoiting e Premonição – sim, eu gosto desse filme) se tornarão realmente clássicos, só o tempo dirá. Mas, pelo menos, eles são considerados um retrato fiel do jovem e de seus anseios, dúvidas e conquistas enquanto formador de tendências e modismos na década de 90, servindo, assim, como um objeto de estudo perfeito para se entender a sociedade nessa época.

Pânico II (Wes Craven, 1997)

O terror não vivia momentos felizes em 1996. O gênero, que transitou pelo expressionismo nos anos 20, passou ao largo de Hollywood nos anos 50 e 60 (e, ainda assim, influenciando os grandes estúdios alguns anos depois), passando ao estrelato nos anos seguintes (chegando até a concorrer ao Oscar, com “O Exorcista”), e que foi renovado e finalmente reconhecido como um cinema de sucesso destinado aos jovens anos depois por diretores como John Carpenter (Halloween), Sean S. Cunninghan (Sexta-Feira 13) e Wes Craven (A Hora do Pesadelo), encontrava-se em estagnação nos anos 90, com pouquíssimos filmes de qualidade do gênero sendo produzidos.

Esse quadro se manteve até que um daqueles que participaram da revolução do gênero, juntamente com um roteirista cujo maior sucesso até então era a série Dawson’s Creek, resolveu mais uma vez revitalizá-lo, tendo como um dos seus maiores trunfos justamente a ironia em cima dos clichês do gênero. O nome do filme: Scream. Dirigido por Wes Craven e roteirizado por Kevin Willianson, o filme alcançou um sucesso totalmente inesperado (inclusive no Brasil), arrecadando US$ 103 milhões nas bilheterias norte-americanas, provocando uma nova mania entre os jovens da época. Como boa parte dos filmes que conseguem um sucesso inesperado (especialmente se contarmos os filmes de terror desde a década de 70/80), uma continuação foi produzida um ano depois do original, trazendo boa parte dos personagens que sobreviveram ao primeiro filme.

Scream II se passa dois anos após os assassinatos em Woodsboro, somos transportados para a cidade de Windsor, onde acontece a pré-estreia do filme “Stab”, inspirado do livro “The Woodsboro Murders”, escrito por Gale Weathers, que conta tudo sobre a história do serial killer na pequena cidade do interior. Dois jovens estudantes da Windsor College são brutalmente assassinados durante a sua exibição. Sidney Prescott, que havia se mudado para Winsdor para tentar se ver livre da experiência terrível que teve (e, assim, levar uma vida normal), percebe que h´um novo psicopata atrás dela e de seus amigos. Além disso, figuras conhecidas do primeiro filme se encontram, e, com isso, o circo de horrores está formado.

A cena inicial passa uma ótima impressão. Um casal de negros ganha as entradas e discute sobre filmes de terror. Estamos diante do mesmo artifício do primeiro filme da série: por meio da discussão sobre o próprio mecanismo dos filmes de terror, tenta-se encarar o filme não como um sonho coletivo, mas como uma estratégia de discurso imersa num mundo de significações. Dentro da sala, a catarse coletiva causada pela pré-estréia: inúmeros personagens vestidos com as roupas do assassino do filme, dadas pela própria publicidade do espetáculo. Um bando de jovens enlouquecidos grita e corre por todos os cantos com facas de plástico dando sustos um no outro. Tal qual o cenário provavelmente visto pro Craven nos anos 80 (com “A Hora do Pesaddelo”, e há um ano atrás com o primeiro capítulo da trilogia). A histeria desenfreada durante a exibição do filme, além de ser um retrato fiel da quase-idolatria que muitos jovens fazem dos seus materiais de culto, ainda se mostra como um cenário perfeito para um assassinato.

Quando o casal se separa, o jogo começa: o namorado, por conta de sua curiosidade em ouvir o que estava acontecendo no banheiro ao lado, leva uma apunhalada certeira. A namorada, confundido o assassino com o namorado – que estava também utilizando a máscara – leva inúmeras facadas, e grita desesperadamente por socorro. Entretanto, os seus gritos são completamente abafados pela histeria coletiva que toma conta do cinema. Quase morta, ela então se caminha para o palco, onde emite o seu último suspiro, sob os olhares atônitos da platéia, que só agora percebe que o filme assistido por eles estava “acontecendo” diante dos seus olhos.

Esses seis minutos resumem toda a mitologia que cercava até o momento a saga criada por Wes Craven, de ser, em toda a sua totalidade, uma farsa no sentido literal da palavra. Nos filmes da série, todos os personagens conhecem os clichês dos filmes de terror, portanto, sabem á princípio o que não se deve fazer para não ser a próxima vítima. Entretanto, mesmo com todo esse conhecimento, todos (ou quase todos eles) falham miserávelmente, sendo totalmente manipulados até receberem a estocada final. È com essa dicotomia que Wes Craven brinca no filme, gerando resultados razoávelmente satisfatórios.

Por outro lado, o que se vê no restante do filme infelizmente não acompanha a excelência dos primeiros minutos. O que se vê durante as (extensas) duas horas de filme é simplesmente a repetição (em maior ou menor grau) de tudo que foi feito há um ano atrás. Adotando a tática “em time que está ganhando não se mexe”, Wes Craven, se não compromete na realização do filme, tampouco injeta originalidade no mesmo. Como resultado, temos muitas cenas que remetem a trama anterior.

Além disso, a escolha de trilhar o caminho da farsa ao ironizar os clichês dos filmes de terror se mostrou como uma faca de dois gumes. Se, por um lado, o primeiro filme ajudou a revitalizar o gênero, um ano depois e muitas produções inspiradas no pioneiro (para não dizer “cópias deslavadas”) fizeram com que o filme não causasse o mesmo impacto do anterior (apesar de ter rendido apenas U$$ 2 milhões a menos). Com isso, o filme (assim como a franquia) começa a cair na sua própria armadilha, vivendo sempre a sombra do filme anterior.

Sendo assim, não espere originalidade ou mesmo grandes reviravoltas na trama. Aqui o que vale é simplesmente apostar no que deu certo: as cenas assustadoras, uma cena inicial para causar impacto, a mesma tiração de sarro dos clichês do Gênero, o suspense em relação a quem está realizando os assassinatos, o clima mais teen (o que contrasta com as cenas mais assustadoras), etc. Esse ponto não chega a ser um demérito do filme, entretanto, impede que ele alce vôos maiores, tornando-o, na maior parte do tempo, apenas uma reedição do primeiro filme. Ou seja, o que prometia ser um grande banquete de sangue e vísceras não passou de um prato requentado, cuja ótima degustação provocada pela cena inicial se mostra com um gosto um tanto adstringente no final, mostrando que a franquia deveria acabar por aí. Pena que os produtores não perceberam isso e fizeram “Scream III”…

Adney Silva

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Heath Ledger (Especial James Dean)

1979 - 2008

Na década de 50, quando ainda era vigente em Hollywood o esquema do star system, onde estrelas de cinema estavam vinculadas diretamente aos estúdios e estes cuidavam do culto a elas como o mais importante dos negócios publicitários, era natural o desenvolvimento de um mito póstumo tomando-se por base a figura de um jovem e promissor ator morto prematuramente, como aconteceu com James Dean. Nos anos 2000, época em que as estrelas são cadentes e lutam com foices para se manterem em evidência, uma perda de um jovem talento não causaria uma comoção tão grande, ainda mais sem o apoio maciço de uma grande máquina publicitária. Mas não foi isso que aconteceu com Heath Ledger, morto por uma overdose acidental de remédios para dormir em 22 de janeiro de 2008, e que mobiliza multidões a verem nos cinemas uma de suas últimas performances e saírem de lá lamentando a tragédia. As justificativas para o fenômeno não podem ser limitadas ao marketing da Warner, já que o resultado que é visto na tela não pode ser forjado: Ledger não era somente um talento promissor, já era um ator extraordinário.

Nascido na Austrália, Ledger começou a atuar profissionalmente durante a adolescência, fazendo basicamente séries de televisão locais. Seguindo o caminho padronizado de todo jovem ator, fez em 1999 a comédia romântica 10 Coisa Que Eu Odeio Em Você, ao lado de Julia Stiles, no clássico papel do canalha que no fundo tem um coração. O filme fez algum sucesso nas bilheterias e possibilitou a Ledger uma maior notoriedade no circuito cinematográfico dos EUA, facilitando sua entrada em Hollywood. Ao lado de Mel Gibson fez O Patriota, que teve sucesso de público e fez de Ledger uma figura ainda mais conhecida. Como todo dono de estúdio busca em um novo rostinho bonito a promessa de milhões em bilheteria, Ledger foi escolhido para fazer outro filme épico, desta vez destinado a um público mais jovem: o bobo Coração de Cavaleiro, onde ele faz seu primeiro protagonista. Esses 3 primeiros filmes demonstravam que a carreira de Ledger estava destinada a seguir o mesmo caminho que a de outros tantos atores jovens de Hollywood, se revezando à frente de um filme pipoca com zero de pretensão artística. E de certa maneira, foi este mesmo o caminho que ele seguiu em algumas de suas produções seguintes, O Devorador de Pecados e Ned Kelly. Até mesmo Honra e Coragem, um épico pretensioso dirigido por Shekhar Kapur, resultou em frustração por parte da crítica – além de um retumbante fracasso de bilheteria. Mas, por sorte, esse caminho-padrão foi deixado de lado graças a escolhas menos óbvias e mais conscientes feitas por Ledger, a partir de A Última Ceia.

O filme de 2001, dirigido por Marc Forster e que deu a Halle Berry o Oscar de Melhor Atriz em 2002, foi uma espécie de primeiro divisor de águas na carreira de Ledger, só que menos evidente do que se nota. No filme, Heath Ledger faz o filho angustiado de Billy Bob Thornton, que a todo custo tenta agradar o pai e é mal-sucedido. As frustrações o levam ao suicídio, numa cena densa e difícil para um ator que até então estava acostumado a fazer filmes despretensiosos. A construção que Ledger fez do personagem em A Última Ceia chamou a atenção de Ang Lee, que na época ainda estava trabalhando em Hulk, mas que já se preparava para o próximo projeto, a adaptação do conto de Annie Proulx sobre a relação entre dois cowboys em Wyoming, durante 20 anos, em Brokeback Mountain. O interesse de Ang Lee no conto advinha de seu talento natural para retratar estórias sobre personagens excluídos, que sempre reprimem sentimentos e determinam suas vidas baseadas em dores mantidas em segredo. Esse assunto já era o mote principal de Banquete de Casamento, Razão e Sensibilidade, Tempestade de Gelo, O Tigre e o Dragão, Hulk e seria também em O Segredo de Brokeback Mountain. A escolha de Heath Ledger para o papel do reprimido Ennis Del Mar foi justamente conseqüência do trabalho do ator em A Última Ceia, que deixou Ang Lee bastante impressionado. A participação de Ledger no filme só foi acertada depois dele ter sido convencido por Naomi Watts, sua namorada na época, de que era uma boa coisa fazer o desafiador papel, e ainda teve que enfrentar a descrença por parte dos envolvidos no projeto, já que o ator não despertava nenhum tipo de confiança até então.

Foi esse clima de descrença que elevou o nível de surpresa por parte da imprensa, em 2005, quando Brokeback Mountain foi lançado no Festival de Veneza. A destreza de Ang Lee em abordar um tema que até então era visto como tabu de modo tão sutil e nada sensacionalista, sem levantar bandeiras e optando por retratar a relação homossexual como qualquer outro tipo de relação amorosa, e principalmente a performance magistral de Heath Ledger, num papel interiorizado, desenvolvendo a personagem com uma limitação de gestos e muito trabalho baseado nos olhos, tudo isso moveram as atenções da crítica para a produção, que acabou levando o prêmio principal do Festival. O sucesso do filme, tanto de público quanto de crítica, elevou Ledger ao status de estrela ascendente em Hollywood, sendo indicado ao Oscar de Melhor Ator, em 2006. A partir de Brokeback Mountain, Heath Ledger começou a escolher com mais propriedade os filmes que participaria. Pouco antes e pouco depois do lançamento do filme Ang Lee, Ledger foi visto na fábula visual de Terry Gilliam, Os Irmãos Grimm, na produção independente Os Reis de Dogtown e na comédia romântica de época Casanova, mas logo depois de Brokeback Mountain seus projetos  foram escolhidos a dedo.

Novamente desafiando os limites de interpretação, ele protagonizou Candy, filme australiano sobre o amor e as drogas, onde o personagem de Ledger faz uma viagem alucinante ao inferno das drogas. Em seguida, foi um dos seis Bob Dylan no genial I’m Not There, de Todd Haynes, biografia às avessas sobre o gênio da música, nas várias fases de sua vida/morte. O “Dylan” de Ledger é o da década de 70, mostrando seu lado familiar e mais íntimo. À época da produção, Heath Ledger ainda era casado com a atriz Michelle Williams, que conheceu nas filmagens de Brokeback Mountain e com quem havia acabado de ter uma filha, Matilda. O retrato de Ledger em I’m Not There era uma espécie de reflexo sobre sua própria postura com relação à vida pessoal, sempre buscando ser mais reservado e distante dos spots. Já o papel seguinte do ator o colocaria definitivamente em evidência na indústria, sendo o maior blockbuster de 2008. Mas apesar do caráter de “produção de mega-orçamento”, O Cavaleiro das Trevas se revelou um duro estudo da personalidade humana e da própria sociedade, confrontada com a mais completa falta de razão, com a loucura. Heath Ledger foi escolhido para dar vida ao clássico personagem Coringa, a própria insanidade, papel que antes havia sido de Jack Nicholson no filme de Tim Burton, Batman, de 1989. Mas enquanto Nicholson se caracterizou com doses cavalares de humor e farsa, Ledger fez uma composição muito mais densa e complexa, tecendo o coringa sempre num limite bastante tênue entre a repulsa e o carisma. O personagem de Ledger no filme de Christopher Nolan é pura explosão, mas nunca é caricatura; é o absurdo humano em conflito extremo com a bizarrice da existência.

Como o filme só foi lançado depois do falecimento do ator, a mobilização para conferir o último trabalho completo de Ledger (The Imaginarium of Doctor Parnassus não foi concluído por ele) foi substancial, mas novamente a surpresa diante de um trabalho tão magnífico tomou conta da imprensa e do público (assim como houve como James Dean, com Assim Caminha Humanidade, Heath Ledger está cotado para uma indicação póstuma ao Oscar, por O Cavaleiro das Trevas), semelhante ao que houve em Brokeback Mountain. E mais impressionante ainda é estabelecer um paralelo de comparação entre as duas composições, em dois filmes tão distintos, seguindo linhas de interpretação tão opostas, mas com resultados igualmente geniais. A morte de Ledger causou comoção, não pela máquina industrial, mas pela tristeza em perceber que ele estava no auge do talento. Mas não se pode dizer que fica a sensação de algo incompleto, já que Heath Ledger definitivamente se provou como um grande ator, um dos maiores de sua geração.

O Segredo de Brokeback Mountain (Ang Lee, 2005)

O ambiente externo e a condição humana em Brokeback Mountain

No aspecto mais evidente do desenvolvimento de um plano cinematográfico se espera que o ambiente e as personagens trabalhem em conjunto – ou em sentidos diametralmente opostos, dependendo da proposta – para a compreensão e o desenrolar da narrativa. Em um filme que foi classificado por muitos como um western essa expectativa fica ainda mais clara, já que o tom clássico a ser adotado parece bastante natural. Mas o que Ang Lee constrói em Brokeback Mountain é um desses exemplos de brilhantismo estético difíceis de equiparar no cinema contemporâneo. Brokeback Mountain é um filme do cenário que rodeia as personagens que vivenciam o drama narrado, mas estas personagens trabalham seus conflitos do modo mais interiorizado possível e Lee as coloca na mais ampla das paisagens. Se o protagonista demonstra uma impossibilidade de comunicação por meio de sua personalidade, o ambiente que o rodeia é todo aberto para qualquer tipo de interação, na esperança do contato. Assim, Lee estabelece um esquema de exposição do externo na tentativa de compreender o interno. Assim, Brokeback Mountain se torna um filme que foge dos métodos clássicos, ainda que tão evidentemente acadêmico.

Desde as primeiras cenas o público é levado a encarar a sensação de que, para chegar perto do que virá a ser o drama das personagens que estarão na tela, se faz necessária uma abordagem geral do universo que rodeia aquelas vidas. Basicamente antes de cada plano em que uma das personagens diz alguma coisa – seja pelo corpo, seja pela fala – a câmera faz um plano aberto ao extremo, como se buscasse captar o máximo das informações que rodeiam àquela alma que deverá ser dissecada, pela leitura do corpo e do ambiente. O filme clássico-narrativo de Lee se revela uma das mais complexas experiências de leitura cinematográfica dos últimos tempos, partindo de um primeiro plano com um caminhão sendo observado de longe, seguindo em direção ao oeste em meio ao sereno. Em seguida veremos a figura central do filme descer do veículo, ainda sem podermos chegar perto dele. Nos planos seguintes a câmera vai propondo uma espécie de aproximação cautelosa de Ennis Del Mar (Heath Ledger), o homem em questão, ficando ainda meio reticente, mesmo quando já mais próxima dele (e o chapéu colocado na altura dos olhos ainda impede um contato maior). Já a segunda personagem que veremos no plano faz o trajeto contrário. Ao invés de se seguir um caminho de aproximação até Jack Twist (Jake Gyllenhaal), é ele quem chega de carro para junto da câmera. E é visto logo depois de cara limpa para quem quiser ver, lança o olhar para onde deseja, mesmo que em seguida o desvie. Em menos de dois minutos está estabelecido tudo que é necessário saber para acompanhar a trajetória dos dois e que será desenvolvido em seguida: Ennis não é capaz de dizer coisa alguma, é fechado dentro de uma armadura seca e se conforma em não confrontar situações adversas; Jack é aberto às possibilidades, saiu de casa para buscar uma vida melhor e não deixa de reclamar um segundo se algo o deixa insatisfeito. Os dois se envolverão em seguida quando, já isolados no trabalho na montanha, forem levados a confrontar a própria natureza. O frio que impede Ennis de dormir do lado de fora da barraca é um aspecto natural externo, a impossibilidade dele de compreender o desejo por Jack é a própria natureza humana. Ennis Del Mar se ergue em tela nos momentos que sucedem o envolvimento dos dois como o ser humano em estado bruto, puro e simples, em conflito latente contra sua própria condição. No caso de Ennis, esse conflito atinge níveis guturais, como quando ele se despede de Jack sem ao menos o tocar e momentos depois cai num beco, sentindo uma dor insuportável, decorrente de coisas que ele não foi capaz de dizer – e que ainda teria que guardar nos anos seguintes.

A vida que seguirá para cada um deles é importante para a compreensão das opções estéticas do filme, já que o excesso de cores no núcleo familiar de Jack, após se casar com Lureen (Anne Hathaway) e a ausência delas no núcleo de Ennis e Alma (Michelle Williams) são igualmente artificiais, no sentido da não-naturalidade das existências. A fotografia de Rodrigo Pietro, assim como a música de Gustavo Santaolalla, só recobram um sentido de naturalidade nos momentos em Ennis e Jack estão juntos em Brokeback. Novamente é o cenário falando alto na compreensão global das personagens, já que é somente lá que eles são capazes de coexistirem em harmonia e naturalidade, e a montanha sendo muito claramente uma base firme de um relacionamento. E o conflito gerado entre o artificial e o natural, o externo e o interno mais uma vez vira o ponto central do filme. Quando Jack propõe que os dois tentassem uma vida juntos ali, Ennis é incapaz de aceitar a idéia, preferindo não confrontar a sociedade por conta do relacionamento dos dois. O que resta a eles é voltar para os artifícios sociais e viver na esperança do retorno esporádico para o que é natural em Brokeback. No caso, o próprio amor.

À medida que o filme se desenvolve, Ennis vai se tornando ainda mais só e Jack cada vez mais angustiado com a impossibilidade de viver a relação. São nesses momentos que fica impossível sentir qualquer tipo de estranheza com relação aos dois, mesmo para aqueles que traziam algum preconceito quanto ao envolvimento de dois homens. Ennis e Jack compartilham juntos uma vida partida, mas ao mesmo tempo sozinhos, e mesmo inseridos num ambiente familiar próprio são incapazes de interagir naturalmente, pois a situação cotidiana é uma traição humana, muito mais que uma traição social. Esta é a maneira que Ang Lee encontra para colocar a sociedade opondo os dois amantes, nunca de forma direta e catártica, nem mesmo quando Alma revela para Ennis, depois de tantos anos, que ela já sabia do envolvimento dele com Jack. Da mesma forma, a cena em que Lureen conversa ao telefone com Ennis, mais próximo do final, é completamente ambígua sobre o conhecimento ou não dela em relação ao que de fato viveu o marido – e sobre o desfecho, tal como na mente de Ennis.

As elipses discretas que encaminham a estória à cena do trailer impedem que tenhamos de cara uma real noção do tempo passado, da potência do sofrimento dos dois diante da distância. Lee reserva tudo que há de mais doloroso para o momento final, quando Ennis tem um diálogo com a filha que está prestes a se casar. A primeira posição dele é de distanciamento, como se fosse sua sina ser só e se manter à parte do convívio social que lhe possibilitasse algum tipo de felicidade. Depois Ennis volta atrás, talvez por não desejar que a filha ficasse triste mais uma vez com sua negligência, talvez por achar que a penitência fosse cara demais para alguém que já havia sacrificado tanto até então. Quando fica novamente só, Ennis se abre para sua única verdade na vida. Ang Lee pára a câmera no rosto de Heath Ledger, que até então havia desenvolvido com poucos gestos um personagem duro, incapaz de se expressar claramente, de ser objetivo em seus desejos; neste momento, Ledger mantém a incapacidade e diz uma fala incompleta, mas diferente de tudo que havíamos acompanhado até ali, compreendemos sua condição, ainda que não saibamos de seu destino. Fechar uma porta, manter aberta uma janela que dá para uma estrada ainda a ser percorrida, a dor de saber que se está só e que isso foi opção própria. Na promessa final de Ennis diante de um passado manchado com um sangue já não é mais vivo, a dor maior de uma alma finalizada ainda em vida, a dor maior possível ao amor. Um dos finais mais tristes do cinema, num filme que da observação externa absoluta encontrou um interior devastado.

Thiago Macêdo Correia

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Década Vigente (Especial James Dean)

A juventude e o cinema formam uma combinação que tradicionalmente deu certo. Um dos maiores responsáveis em iniciar essa tradição é o principal homenageado deste especial, James Dean. O sucesso de seus filmes coincidiu com o surgimento do rock, até então o principal e o primeiro gênero musical que realmente se identificou com a juventude. Tanto que é comum dizerem que Elvis e Chuck Berry são os inventores da adolescência. O carisma e a imagem icônica de Dean, somada à sua morte precoce, imortalizaram o conceito de juventude na cultura pop. Morreu em um acidente envolvendo uma de suas maiores paixões – carros e velocidade, o que ressaltou ainda mais esse caráter meio hedonista. E já dizia Pete Townshend, do Who, “quero morrer antes de ficar velho”. Dean morreu antes mesmo dos 25, e hoje ele está eternizado como jovem.

Isso passa pela visão do engajamento e a utopia da década de 60, pela ressaca e a podridão na década de 70, pela crise encarada na década de 80 com doses de bom humor e exagero, pela tentativa de juntar os cacos na década de 90… Funciona praticamente como um ciclo de ascensão e queda: James Dean inicia o processo e expõe na década de 50; é sucedido pelos sonhos, dos hippies, dos protestos contra a guerra do Vietnã, a ação em maio de 68 em Paris; praticamente um anti-clímax na década de 70, o escândalo de Watergate, e um sentimento meio de repulsa bem mostrado em “Taxi Driver”; encarar todas as crises econômicas, políticas, etc, no jeitão dos anos 80 que já virou clássico; e a década de 90, marcada por um certo quê iconoclasta (dois dos seus maiores símbolos são Nirvana e “Pulp Fiction”).

E chegamos nos últimos oito anos. Boa parte dos filmes mais recentes sobre juventude são geralmente categorizados como besteiróis, e geralmente retratam esse lado da festa sem fim da adolescência. Os exemplos são vários, “Cara, Cadê Meu Carro?”, “Eurotrip”, “American Pie’s” e “Scary Movies” (ou os inúmeros “Whatever Movie”) e suas continuações, slashers, etc. Geralmente o estilo mais comum é o filme de colégio ou faculdade, quase que um pretexto pra mostrar as festinhas, bebedeiras e outras putarias comuns nessa época. Alguma problemática, como um psicopata com um facão à solta, ou uma mega festa, conhecer alguém novo, acaba praticamente coadjuvando o epicentro da maioria dos filmes, que é a relação pessoal entre eles. Um bom exemplo é “Todo Mundo Quase Morto”, descrito como uma comédia romântica com zumbis. Os mortos vivos acabam servindo quase como terapeutas para os personagens (mesmo que o filme seja muito mais que isso). Ou “Primer”, em que as parafernálias tecnológico-matemáticas com as viagens no tempo acabam permeando uma relação de amizade bizarra.

Freqüentemente é perguntado o que marcará essa geração. Eu imagino que a resposta só vai ficar mais clara quando estivermos em outra década (e perguntando o que sobrará da nova geração, e por aí vai…). Hoje se desce a lenha no funk, nos blockbusters, etc, etc, mas bom é de se pensar: será que o que hoje é considerado um clássico dos anos 60, 70, 80, já não era visto como decadente? Afinal, desde duzentos anos atrás tem gente anunciando o fim da arte e da ciência, então parece uma mania crônica. Claro, é assustador pensar que os indies ou os emos podem representar o rock dessa época, mas enfim… um “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” ou “Hora de Voltar” tem um charme melancólico que até combina com o som de um Beck ou algo assim e pode ficar mais interessante, porque tem um quê de mostrar personagens meio perdidos com tudo que vai acontecendo a sua volta. E combina bastante com o sentimento de cansaço que se tem com o contexto em volta: a guerra da vez é o Iraque, a novidade é a popularização da internet, o pânico é em torno do aquecimento global.

Mas venha o que venha, eles estarão lá – com o perdão do chavão – diferentes mas iguais. Podem estar mortos no marasmo, cansados e não querendo saber de nada, só de curtir a baladinha no fim de semana. Podem não saber picas de filosofia ou política, ou o escambau, mas assim como os estudantes franceses dos anos 60, fazem dessa idade uma época pra se arriscar e jogar tudo pelos ares. Época em que se perde o medo de arriscar, em que você se acha maior que o mundo, e vai testando do que se é capaz. Por esse lado é que é possível que se conquiste tanto (a começar pelo exemplo clássico, de que o fogo não teria sido descoberto por um adulto, por prudência, ou por uma criança, por medo, e sim por quem está na idade em que é capaz de beber dinamite). É a coisa do espírito sem limites, por mais despropositado ou alienado que seja, é essencialmente o que o caráter rompedor representa. Depende do lado que é encaminhado, para onde esse fogo é direcionado.

Cara, Cadê Meu Carro? (Danny Leiner, 2000)

Pois é, deve ser estranho inaugurar esse especial, com “Cara, Cadê Meu Carro?” representando a década atual, ao invés de algum Gus Van Sant ou “Amelie Poulain”, ou qualquer coisa do gênero. É, prato cheio pros saudosistas de plantão. Embora talvez desse pra fazer de alguma coisa mais legal, um “Primer” ou “Shaun of the Dead”… Nah, vão eles mesmo.

Dizer que as piadas não precisam ser elaboradas pra ser boas pode até ter um pingo de verdade, mas esse lance do desligar o cérebro e curtir é uma apologia à mediocridade. Não é propriamente isso, mas ver que a linha que separa esse filme de sei lá, uma obra-prima feito “O Grande Lebowski”, é bem pequena. A semelhança não para no “Dude, where’s your car”, que os personagens dos dois filmes dizem. São dois filmes que não medem esforços nem limites para chegar no conceito que querem. O filme de Lebowski leva a conhecer um outro mundo, daqueles caras desajustados que jogam boliche, e que uma confusão meio sem sentido com o nome de um bambambam acaba trazendo eles para outra aventura sem muito nexo.

Às vezes você trombar coisas toscas e absurdas, como um culto de pessoas vestidas com plástico bolha, ou ver as desventuras dos dois protagonistas no meio das namoradas ou de super hot giant sexy aliens pode ser engraçado. No melhor estilo Jackass de ser, quanto mais sem noção, melhor. O cúmulo da falta de noção para o mundo de Chester e Jesse, dois jovens que não tão nem aí pra o que dizem deles ou se o valentão quer bater neles. Cada um tem a sua garota (uma gêmea da outra), conseguem se virar e se divertem até assistindo Animal Planet na ressaca.

Não desejam muito mais. Não são lá dois perdidões, mas não têm muita ambição de nada. São até normais, mesmo no jeito imbecil de ser. São simpáticos o suficiente pra você não sentir pena deles, e estúpidos o suficiente para se rir da cara deles.

Os protagonistas Jesse e Chester são o lado supostamente mais de baixo, dois maconheiros sem muito o que aspirar além de querer curtir, e que realmente não passam por nenhuma dificuldade. A viagem deles vai longe, e o próprio filme acaba emulando isso, uma trama absurda que mistura suas mazelas de jovens, com uma ficção científica wtf, e um toque mais de mudernice tecnológica que vem junta; o que aí acabe se confundindo com a própria trip dos dois. Talvez não mude muito para a velocidade sem limites de Dean ou as festinhas sem limites que passam por “Carrie”, “Halloween”, “Porky’s”, etc.

Eis que o carro de Jesse some, e a epopéica busca por ele, a história em si, acaba não importando muito. Assim como as antigas screwballs, o que importa é o máximo que os atores, a equipe, o público, e o mundo consegue agüentar entre tantas situações absurdas, risíveis. O filme simplesmente não te dá trégua. Vão de uma manhã agitada assistindo os chimpanzés na TV, para a casa de um maluco, com um cachorro e seu pipe inseparável, para o travecão a quem eles devem uma grana, e a máquina esquizofrênica do drive through do restaurante chinês… são surpreendentes oitenta e três minutos que vão do céu ao inferno. O máximo de provações malucas em que Jesse e Chester estão dispostos a se meter para livrarem-se desse fogo cruzado da guerra interplanetária e voltarem pra casa com o carro pra finalmente poderem curtir em paz o aniversário de suas gêmeas.

Pedro Kerr

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Especial James Dean

Enfim, depois de um longo hiato de dois meses, o MP! retorna com um especial – sem querer ser idiota e já sendo – muito, mas muito especial. Nestes dois meses reavaliamos várias coisas, reestruturamos a equipe e redefinimos o padrão de Especiais Multiplot!. E o resultado é este: Especial James Dean. Vai ser um pouquinho diferente dos outros, mas já explico como funciona:

Dia 30 de setembro a morte do eterno rebelde sem causa completa 53 anos, e achamos que avaliar seus únicos três filmes seria muito pouco. Ocorre que de hoje – dia 9 de setembro – até o dia 30, o MP! vai cavar fundo nos temas inerentes ao grande mito da cultura pop. Serão 32 textos que abordarão tanto o modo como a juventude de cada década foi retratada como os outros grandes talentos que, assim como Dean, nos deixaram cedo demais. Partiremos cronologicamente da década vigente até os anos 50. Cada década terá um texto próprio + uma resenha de um filme que, na óptica do ploteiro em questão, melhor a representa. Cada década abrirá um ‘capítulo’ do especial, que será recheado pelo seu (ou seus) astros/pretensos mitos em questão, que por sua vez, receberão uma biografia e a resenha de um filme que melhor os represente.

De olho no calendário:

 

9 – Abertura
Mitificação: discussão do tema – Luis Henrique Boaventura
10Década Vigente – Pedro Kerr
11Heath Ledger – Thiago Macêdo Correia
13Década de 90 – Adney Silva
15Brandon Lee – Adney Silva
16Década de 80 – Luis Henrique Boaventura
17John Belushi – Jaílton Rocha
19River Phoenix – Luis Henrique Boaventura
22Década de 70 – Daniel Dalpizzolo
23Bruce Lee – Adney Silva
25Década de 60 – Cassius Abreu
26Sharon Tate – Daniel Dalpizzolo
28Marilyn Monroe – Thiago Macêdo Correia
29Década de 50 – Murilo Lopes de Oliveira
30 – James Dean
Biografia – Thiago Macêdo Correia
Vidas Amargas – Thiago Macêdo Correia
Juventude Transviada – Cassius Abreu
Assim Caminha a Humanidade – Thiago Duarte

 

Portanto, gente, contamos com vocês nestes mais de vinte dias de um especial dedicado não apenas a James Dean, mas a tudo que ele representa, desde a face imortal da juventude até este time – que, quem dera, fosse menor – de grandes talentos que morreram antes da hora. Jovens nos quais gerações se identificaram, atores que carregaram na sua arte os sonhos de milhões, responsáveis pelo mais nobre dos efeitos do cinema sobre as pessoas. Porque foi por isso que eles existiram. E eram feitos de espelhos, quem sabe bons demais pra este mundo de agora. Quem sabe salvos, resgatados, quem sabe roubados do tempo pra que o tempo não pudesse roubá-los.

Vamos lembrá-los com a gente, nas próximas três semanas, porque o 5º Especial Multiplot! tá no ar.

Tomara que vocês curtam, um abraço!

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Eram os Deuses Astros de Hollywood? (Especial James Dean)

Qual o tamanho de um mito? Como mensurar a altura e a importância de uma lenda, muitas vezes um sonho, um ideal de perfeição inalcançável, um deus sem religião?

Eram quase 18 horas de uma sexta-feira numa estrada qualquer da Califórnia quando James Dean queimou sua vida inteira de uma vez no fogo forte de um Porsche Spider na mesma velocidade com que passaria pelo cinema. Dean morreu antes da estréia de dois de seus três únicos trabalhos relevantes na 7ª arte: Juventude Transviada e Assim Caminha a Humanidade (Vidas Amargas foi o único visto pelo público com Dean ainda vivo). Talvez não se soubesse na época, mas em 30 de setembro de 1955, James Byron Dean fundava com a própria vida uma cultura de mitificação que é e sempre será estudada por filósofos e sociólogos do mundo todo: como, afinal, a própria morte parece ser o caminho para a imortalidade?

O processo de mitificação, apesar de velho conhecido através da história, teve seu marco zero na era moderna com a morte de Dean. Isso porque o mundo, o contexto e a própria cultura que se criava termina modificando o processo. Antes de qualquer coisa é importante deixar claro: Dean é o maior de todos. E isso pouco tem a ver com seu talento ou competências que pressuponham comparações, dentro das telas, com outros atores. O fato de James Dean ter sido a cara tanto de uma geração quanto de uma revolução cultural a nível planetário o tornam simplesmente inalcançável. O modo como veio a se plastificar no tempo, o contexto histórico, as circunstâncias de sua morte e o arranjo de coincidências quase poético no balanço milimetricamente perfeito para interrupção de sua carreira (após um grande sucesso e imediatamente anterior a outros dois, um deles com um filme e um personagem naturalmente icônicos) transformam Dean talvez no único mito verdadeiramente sólido deste especial, renegando seus colegas a meros e eternos candidatos. Isto com a POSSÍVEL exceção de um deles: Heath Ledger.

No cinema, muitos vieram depois de James Dean, e inclusive serão abordados neste especial. Nomes como Marilyn Monroe, John Belushi e River Phoenix sentiram o peso de advir sempre sob a sombra do ídolo de Dean, e não obtiveram uma combinação de elementos que possibilitasse ao menos uma concorrência com o mito de Rebel Without a Cause. Talvez o que mais tenha chegado perto seja River Phoenix, ao qual faltou tanto o imediatismo e intensidade da carreira (o fator mais difícil e até hoje irrepetido) quanto um grande rosto, uma persona-símbolo no cinema (apesar de o Michael de Garotos de Programa, de Gus Van Sant, ter tido esta pretensão).

Heath Ledger combina uma parcela de imediatismo (apesar de freqüente no cinema desde 10 Coisas Que eu Odeio em Você – 99 -, terminou aparecendo de fato apenas em 2005) com os grandes papéis de Ennis Del Mar (Brokeback Mountain) e, é claro, o Coringa (The Dark Knight), levado às telas 6 meses após sua morte, fator que apenas o aproxima de James Dean, além da possibilidade de receber, assim como o próprio Dean, uma raríssima indicação póstuma ao Oscar.

O mais interessante nesta mecânica de idolatria e mitificação é que James Dean – com o perdão do modo de falar – morreu no momento certo: em plena revolução midiática promovida pela transmissão de imagens através da televisão, aparelho que intensificava e já trabalhava uma democratização de informações. E talvez seja este contexto que explique – além de outras coisas como o envelhecimento infinitamente mais acentuado de seus filmes se comparados aos de Dean – o aparente ‘esquecimento’ do astro do cinema mudo Rodolfo Valentino, morto em 1926 aos 31 anos após complicações e uma cirurgia de úlcera. Correm lendas de que mulheres se suicidaram ao saberem da morte do primeiro grande ídolo de Hollywood (de certa forma homenageado por Gene Kelly em Cantando na Chuva), e que mais de 100 mil pessoas compareceram ao seu funeral em Nova Iorque.

River Phoenix morreu em 93, um ano antes do estopim do vertiginoso crescimento do ciberespaço. Heath Ledger é o primeiro grande teste quanto à sobrevivência de uma imagem em plena revolução digital, democratização absoluta da escrita e da informação, maior ferramenta globalizadora que existe. A efemeridade das informações unida umbilicalmente à cultura da descartabilidade de tudo depõe contra o ator australiano ao mesmo tempo que a dispersão imediata e em larga escala de sua morte assim como de um culto em torno de sua imagem, rezado por milhões de faz que dentro da grande rede possuem, cada um, uma voz ativa, trabalham tanto pela manutenção quanto potencialização do seu mito que, recém criado, será provado dentro dos próximos anos.

Alguém que nunca chegou perto de ver um filme de James Dean já ouviu falar do ator, sabe que foi um astro que morreu jovem e deve conhecer – sem necessariamente associar – sua pose inconfundível na capa de Juventude Transviada. O mesmo acontecerá com o Coringa de Heath Ledger? Avaliar um fenômeno de fora, analisar um processo com início, meio e fim, é fácil. Fazer previsões sobre o futuro de Heath Ledger enquanto mito é tarefa das mais complicadas. Por isso, abrindo este especial, deixo no ar esta questão. Teria Heath Ledger a força para se alçar à categoria de mito, estando talvez ao lado de James Dean, daqui a mais meio século?

Luis Henrique Boaventura

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