Década de 90 (Especial James Dean)

De Transpointing a Mortal Kombat: A Juventude da década de 90 retratada no Cinema

Fim da Guerra Fria (com “vitória” do Capitalismo); Globalização (com a disseminação da internet como grande facilitadora); Windows se consolidando; suposta “expansão da democracia”; MTV; Grunge; Boy-Bands (e Girl-Bands também, não esqueçam das Spice Girls); o Rei do Pop mudando de cor; NAFTA, Mercosul; Plano Real; Caras-Pintadas; impeachment; um presidente, a sua secretária e um charuto, popularização das séries norte-americanas; a indústria dos games se consolidando como forma rentável de entretenimento, assim como os quadrinhos (especialmente os mangás); avanços tecnológicos e científicos em escala exponencial, fazendo contraponto ao avanço da desigualdade social (muito por conta da globalização), de doenças como a AIDS, da Guerra do Golfo, Sarajevo, genocídio em Ruanda, terrorismo e outras atrocidades como a Axé Music, os grupos de pagode e o Funk, etc…

Tudo isso é apenas uma pequena amostra de tudo o que aconteceu na década de 90, onde a maioria dos ploteiros daqui viveram a sua infância e/ou adolescência. E todo esse turbilhão de acontecimentos provocou um efeito devastador sobre os jovens e, sobretudo, nos filmes que os retratavam e/ou eram direcionados a eles.

Um dos gêneros que teve maior identificação com a juventude nessa época foram os filmes de terror. Graças principalmente a “Pânico” (Scream), filme de 1996 escrito por Kevin Willianson e dirigido por Wes Craven. O filme revitalizou o gênero de terror nos anos 90 de forma semelhante à que Halloween (1978) fez na segunda metade dos anos 70, utilizando um conceito que combinava cenas assustadoras com diálogos que satirizavam os clichês dos filmes do gênero. No filme estrelaram vários ídolos adolescentes da época, incluindo: Neve Campbell, Rose McGowan, Skeet Ulrich, Drew Barrymore, David Arquette e Courteney Cox (então no auge de sua fama no seriado Friends).

Scream tornou-se num grande sucesso comercial na altura de sua estréia, e foi um dos filmes mais lucrativos de 1996, sendo aclamado por críticos de todo o mundo. Devido ao seu sucesso, resultaram duas seqüências: Scream 2 e Scream 3, além de uma enxurrada de novas produções que almejavam abocanhar parte do público criado pela seqüência, como Lenda Urbana, Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, A Bruxa de Blair e Premonição (disparado o melhor dentre essas produções).

Mas o cinema voltado para a juventude na década de 90 não ficou restrito apenas aos gritos e sustos baratos. O aumento gradativo da violência, aliado ao fácil acesso das drogas e entorpecentes, o eterno choque de gerações, a busca de identidade e de ser ouvido, além da liberdade em todos os sentidos vividos por muitos jovens nessa época e todas as suas conseqüências foram refletidas e mostradas no cinema, tal qual na segunda metade da década de 50. Mas, ao contrário dos filmes mostrados nessa época, os filmes do gênero eram mais mordazes, violentos e, por que não dizer, mais reais (ou pelo menos tentavam ser), utilizando-se uma estética inspirada nos videoclipes, com uma montagem acelerada, telas que congelam, malabarismos com a cronologia, estilização e outros truques moderninhos. Esta estética videoclíptica influenciou não só os filmes que centravam sobre os impacto das drogas e da vida de sexo livre nos jovens (cujos maiores representantes desse gênero são Kids dirigido por Larry Clark, e Transpointing, de Danny Boyle), mas todo o cinema a partir dessa década até os dias de hoje.

Mas nem esses predicados fizeram com que os jovens tivessem todas as suas atenções voltadas para o cinema. Isso porquê uma outra mídia estava crescendo assustadoramente, começando a trilhar o seu caminho de sucesso (passando a até render mais que Hollywood): os vídeo-games. Com isso, o próprio cinema tentou se aproveitar desse boom na década de 90, tal qual fez nos anos 50 com o rock and roll. Assim filmes inspirados em jogos de sucesso como Street Fighter, Super Mario Bros, Double Dragon e Mortal Kombat foram produzidos e lançados nessa época. Entretanto, essas produções não gozaram de grande aceitação da crítica e do público, sendo (merecidamente) fadados ao esquecimento e desprezo. Mas isso ainda não impediu Hollywood de continuar tentando levar o maior número possível de gamers as salas de cinema.

Como se pôde ver nesse texto, os eventos da década de 90 influenciaram diretamente não só os filmes relacionados a juventude, mas, em muitos casos, a nossa própria maneira de ver os filmes. Muitos que tiveram a sua adolescência nessa época consideram alguns desses filmes como clássicos, mesmo sob o protesto de muitos. Se eles (mesmo os considerados bons – pelo menos por esse editor que vos escreve – como Transpoiting e Premonição – sim, eu gosto desse filme) se tornarão realmente clássicos, só o tempo dirá. Mas, pelo menos, eles são considerados um retrato fiel do jovem e de seus anseios, dúvidas e conquistas enquanto formador de tendências e modismos na década de 90, servindo, assim, como um objeto de estudo perfeito para se entender a sociedade nessa época.

Pânico II (Wes Craven, 1997)

O terror não vivia momentos felizes em 1996. O gênero, que transitou pelo expressionismo nos anos 20, passou ao largo de Hollywood nos anos 50 e 60 (e, ainda assim, influenciando os grandes estúdios alguns anos depois), passando ao estrelato nos anos seguintes (chegando até a concorrer ao Oscar, com “O Exorcista”), e que foi renovado e finalmente reconhecido como um cinema de sucesso destinado aos jovens anos depois por diretores como John Carpenter (Halloween), Sean S. Cunninghan (Sexta-Feira 13) e Wes Craven (A Hora do Pesadelo), encontrava-se em estagnação nos anos 90, com pouquíssimos filmes de qualidade do gênero sendo produzidos.

Esse quadro se manteve até que um daqueles que participaram da revolução do gênero, juntamente com um roteirista cujo maior sucesso até então era a série Dawson’s Creek, resolveu mais uma vez revitalizá-lo, tendo como um dos seus maiores trunfos justamente a ironia em cima dos clichês do gênero. O nome do filme: Scream. Dirigido por Wes Craven e roteirizado por Kevin Willianson, o filme alcançou um sucesso totalmente inesperado (inclusive no Brasil), arrecadando US$ 103 milhões nas bilheterias norte-americanas, provocando uma nova mania entre os jovens da época. Como boa parte dos filmes que conseguem um sucesso inesperado (especialmente se contarmos os filmes de terror desde a década de 70/80), uma continuação foi produzida um ano depois do original, trazendo boa parte dos personagens que sobreviveram ao primeiro filme.

Scream II se passa dois anos após os assassinatos em Woodsboro, somos transportados para a cidade de Windsor, onde acontece a pré-estreia do filme “Stab”, inspirado do livro “The Woodsboro Murders”, escrito por Gale Weathers, que conta tudo sobre a história do serial killer na pequena cidade do interior. Dois jovens estudantes da Windsor College são brutalmente assassinados durante a sua exibição. Sidney Prescott, que havia se mudado para Winsdor para tentar se ver livre da experiência terrível que teve (e, assim, levar uma vida normal), percebe que h´um novo psicopata atrás dela e de seus amigos. Além disso, figuras conhecidas do primeiro filme se encontram, e, com isso, o circo de horrores está formado.

A cena inicial passa uma ótima impressão. Um casal de negros ganha as entradas e discute sobre filmes de terror. Estamos diante do mesmo artifício do primeiro filme da série: por meio da discussão sobre o próprio mecanismo dos filmes de terror, tenta-se encarar o filme não como um sonho coletivo, mas como uma estratégia de discurso imersa num mundo de significações. Dentro da sala, a catarse coletiva causada pela pré-estréia: inúmeros personagens vestidos com as roupas do assassino do filme, dadas pela própria publicidade do espetáculo. Um bando de jovens enlouquecidos grita e corre por todos os cantos com facas de plástico dando sustos um no outro. Tal qual o cenário provavelmente visto pro Craven nos anos 80 (com “A Hora do Pesaddelo”, e há um ano atrás com o primeiro capítulo da trilogia). A histeria desenfreada durante a exibição do filme, além de ser um retrato fiel da quase-idolatria que muitos jovens fazem dos seus materiais de culto, ainda se mostra como um cenário perfeito para um assassinato.

Quando o casal se separa, o jogo começa: o namorado, por conta de sua curiosidade em ouvir o que estava acontecendo no banheiro ao lado, leva uma apunhalada certeira. A namorada, confundido o assassino com o namorado – que estava também utilizando a máscara – leva inúmeras facadas, e grita desesperadamente por socorro. Entretanto, os seus gritos são completamente abafados pela histeria coletiva que toma conta do cinema. Quase morta, ela então se caminha para o palco, onde emite o seu último suspiro, sob os olhares atônitos da platéia, que só agora percebe que o filme assistido por eles estava “acontecendo” diante dos seus olhos.

Esses seis minutos resumem toda a mitologia que cercava até o momento a saga criada por Wes Craven, de ser, em toda a sua totalidade, uma farsa no sentido literal da palavra. Nos filmes da série, todos os personagens conhecem os clichês dos filmes de terror, portanto, sabem á princípio o que não se deve fazer para não ser a próxima vítima. Entretanto, mesmo com todo esse conhecimento, todos (ou quase todos eles) falham miserávelmente, sendo totalmente manipulados até receberem a estocada final. È com essa dicotomia que Wes Craven brinca no filme, gerando resultados razoávelmente satisfatórios.

Por outro lado, o que se vê no restante do filme infelizmente não acompanha a excelência dos primeiros minutos. O que se vê durante as (extensas) duas horas de filme é simplesmente a repetição (em maior ou menor grau) de tudo que foi feito há um ano atrás. Adotando a tática “em time que está ganhando não se mexe”, Wes Craven, se não compromete na realização do filme, tampouco injeta originalidade no mesmo. Como resultado, temos muitas cenas que remetem a trama anterior.

Além disso, a escolha de trilhar o caminho da farsa ao ironizar os clichês dos filmes de terror se mostrou como uma faca de dois gumes. Se, por um lado, o primeiro filme ajudou a revitalizar o gênero, um ano depois e muitas produções inspiradas no pioneiro (para não dizer “cópias deslavadas”) fizeram com que o filme não causasse o mesmo impacto do anterior (apesar de ter rendido apenas U$$ 2 milhões a menos). Com isso, o filme (assim como a franquia) começa a cair na sua própria armadilha, vivendo sempre a sombra do filme anterior.

Sendo assim, não espere originalidade ou mesmo grandes reviravoltas na trama. Aqui o que vale é simplesmente apostar no que deu certo: as cenas assustadoras, uma cena inicial para causar impacto, a mesma tiração de sarro dos clichês do Gênero, o suspense em relação a quem está realizando os assassinatos, o clima mais teen (o que contrasta com as cenas mais assustadoras), etc. Esse ponto não chega a ser um demérito do filme, entretanto, impede que ele alce vôos maiores, tornando-o, na maior parte do tempo, apenas uma reedição do primeiro filme. Ou seja, o que prometia ser um grande banquete de sangue e vísceras não passou de um prato requentado, cuja ótima degustação provocada pela cena inicial se mostra com um gosto um tanto adstringente no final, mostrando que a franquia deveria acabar por aí. Pena que os produtores não perceberam isso e fizeram “Scream III”…

Adney Silva

12 Comments

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12 Responses to Década de 90 (Especial James Dean)

  1. Pingback: Especial James Dean «

  2. Panico 2 é da hora, quase nem lembro mais da primeira vez que vi, mas faz tempo pra caramba – provavelmente era lançamento, os de terror eram os primeiros que eu pegava naquela época.

  3. Thiago Duarte

    Gosto também. Aliás, gosto de todos da série, junto com os Eu Sei o que vcs etc, e Premonição. Vi todos na telona, geralmente lotadaço de amigos e tal, era curtição certa. Prefiro bem mais esses do que Jogos Mortais ou coisas de hoje.

  4. Anonymous

    Muito bom mais faltou um pouco de mais de

  5. A sua pesquisa foi muito inportante para um trabalho que eu estou realizando com os jovens,e que esclareceram mais as minhas idéias.Muito obrigado.

  6. Opa, de nada, marcos.

    Aproveita e dá uam lida nas outras resenhas por aqui, garanto que você vai se interessar…

  7. eu gostei muito dese comentario eu e a minha amiga adoramos eu e ela achamos muito legal

  8. Pânico 2 é o pior da triologia, o primeiro foi muito bom… Sempre gostei de filmes de terror, os da década de 30 até o começo da década de 90 davam para encarar, agora esses atuais são impossíveis.

  9. Você provavelmente está vendo os filmes errados, existem alguns filmes de horror excelentes nesses últimos anos.

  10. pry

    gostei da noticias

  11. Andressa Rayanne

    adoro filmes de terreor, principalmente quando eles tem historia….