Rapsódia em Agosto (Akira Kurosawa, 1991)

10 anos da morte de Akira Kurosawa

Aos 80 anos, Akira Kurosawa realiza seu penúltimo filme (quase cego e dependendo de financiamento estrangeiro, muitas vezes da boa vontade de fãs ilustres como Spielberg e George Lucas), entoando um hino de resgate, de perdão e de reconciliação, temas tipicamente mais evidentes conforme se sente mais claro o cheiro da morte.

E normal haver muito de cada autor em sua obra, mas no caso do cineasta japonês, Rapsódia em Agosto é uma fresta direta para sua alma, o vislumbre de uma autobiografia em imagens.

No filme, Kane (Sachiko Murase) é uma sobrevivente do ataque nuclear a Nagasaki que, aos 80 anos de idade, recebe uma carta pedindo que visite seu irmão milionário no Havaí, pressionada pelos netos – fascinados pelo Ocidente – e pelos filhos, que pretendem um emprego na empresa do tio recém-conhecido, administrada agora por Clark (Richard Gere), filho do homem, devido ao estado terminal de seu pai. As três gerações (guerra, pós-guerra e a que já nasce livre da lembrança de 9/8/45) reavaliam os próprios valores e a relação com a cultura americana vista sob uma lâmina densa de ressentimento que, se parece irrelevante no início, vai ficando cada vez mais forte.

Em momento algum Kurosawa lança qualquer coisa próxima de uma inquisição contra os EUA, berço da cultura ocidental do século XX e a quem o diretor tanto deve. O modo sereno como se porta é o de quem teve suas mágoas mortas de velhice, a quem – assim como Kane – a bomba parece ter caído há um tempo incontável, há um tempo que parece superar a longevidade dos sentimentos.

Mas Rapsódia é, acima de tudo, uma jornada de reencontro, um espiral em si mesmo, é a arqueologia de lembranças fósseis, combustíveis agora de uma nova condição, de um olhar sobre a própria vida como quem olha um livro de história.

O evento catalisador da ‘implosão’ sentimental de Kane ocorre já próximo ao final e promove uma viagem sem volta ao passado. Kane sobrepõe presente e pretérito numa confluência de épocas navegadas agora ao mesmo tempo pela personagem. E a cena final é catarse, é tempestade, é eletricidade entre memória, entre remorso, entre o que não foi e o que poderia ter sido, e principalmente, é a reposição de três gerações – filhas diretas da rosa atômica – sob a austera condução de uma única corrente.

Porque sob o olho nuclear de Nagasaki, no princípio de um rastro de 45 anos, e sem perceber, Kane já havia perdido o resto de sua vida…

Luis Henrique Boaventura

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Trovão Tropical (2008, Ben Stiller)

Orçamento de U$$ 92,000,000,00. Um filme com muita ação e explosões, helicópetos caindo, pontes destruídas, milhares de tiros, e que se passa no Vietnã. Tom Cruise no elenco. São todos os predicados de um blockbuster de ação, ou de guerra. Mas se trata de Tropic Thunder, o novo filme do Ben Stiller (como diretor e ator principal) com um grande elenco. Ou seja: um filme de comédia! Talvez seja o maior orçamento dado a um filme do gênero. Mas deu certo? Em partes.

Claro que o filme é bem produzido, temos explosões e mais explosões na tela, a curiosidade de ver o Robert Downey Jr. fazendo um ator australiano loiro de olhos azuis altamente premiado e de temperamento forte que simplesmente mergulha em todos os personagens que faz, os fake trailers também são engraçadíssimos, além da participação impagável de Tom Cruise. Entretanto, essas cenas rendem apenas risos momentâneos, além de não representarem nem um quinto de todo o filme. O restante é pontuado por cenas que vão do “esquecível daqui a 5 minutos” até o “tá! é isso?”. Nada que se configure num desastre completo, mas também não é para ser lembrado. Para resumir a bagaça: pense num filme do Rambo. Agora pense na paródia que já fizeram do Rambo (o maravilhoso “Top Gang 2”!). Agora pense numa comédia pastelão de uma paródia do Rambo não muito inspirada. Perceberam o drama? Pois é.

No fim das contas, apesar da expectativa (sim, estava ansioso por ele), rendeu nada mais do que um pouco menos de duas horas de distração descompromissada. Se você quiser assistir apenas pela curiosidade de ver uma superprodução com vários atores famosos e pelo tema “filme dentro de um filme”, a escolha é sua. Mas, se é para dar um conselho, espere passar na “Tela Quente”!

2/4

Adney Silva

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Obrigado a Matar (Joseph H. Lewis, 1955)

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Joseph H. Lewis ficou tão na aba durante toda sua carreira que nem mesmo hoje consegue destaque no grupo de principais diretores de b-movies da antiga Hollywood – liderado por Nicholas Ray e Samuel Fuller. Como já havia dito – e se não havia, deveria – quando tratava sobre Império do Crime, um dos grandes policiais dos anos 50, os filme de Lewis são de uma secura bastante extraordinária – até mesmo Mortalmente Perigosa, no fundo uma história de amor -, ainda que tratem quase exclusivamente sobre sentimentos – do passado, do presente, do futuro – o que pode muitas vezes ocultar a delicadeza com que extrai todo potencial de cada situação.

Obrigado a Matar, embora produzido meramente como veículo de Randolph Scott, produtor e astro do filme, traz grande parcela dos temas caros à obra de Lewis – e ao próprio faroeste, enquanto gênero – em uma pequena representação do microcosmo de Lei e ordem social do universo western, encontrando em alguns aspectos semelhanças e subversões de um dos principais marcos do gênero nos anos 50, Matar ou Morrer, que, por bem ou por mal, provocou uma verdadeira ebulição na estrutura dos velhos contos sobre a formação da sociedade moderna.

O princípio é basicamente o mesmo. Scott, xerife, recebe a visita de uma de suas desavenças e, jurado de morte, precisa se defender. Ao contrário de Cooper no longa de Zinnemann, Scott é auto-suficiente. O primeiro plano do filme e o que sucede é que é curioso. Depois de uma geral da cidadezinha, Lewis vai aproximando a câmera do homem que, lentamente, provoca a troca de olhares de quem circula pela rua que desce – quem sabe de toda a história. Rolam os boatos, Scott vai fazer a barba, despreocupado – a grande subversão vive na falta de interesse com que parece lidar com a situação. Com pouco mais de dez dos enxutos 78 minutos, há o embate. O homem é morto, Scott respira e segue com sua rotina. Nada épico, nada coreografado. Nada mais Lewis.

O restante trata especialmente de um embate entre maiorias e minorias, onde a minoria é a Lei. É um jogo de todos contra um especialmente frio e muito pouco calculado. Há uma seqüência extraordinária em que, com a suposta morte do xerife – grande jogo de falsidades e artimanhas, nada mais Lewis – a cidade fica aberta, à mercê da desordem e do caos. É o princípio do fim, bandidagens de toda a espécie, mas o mundo em formação permite até mesmo que a Lei minta, se necessário. É o que ocorre pra se alcançar a ordem, afinal, não existe lenda construída sem trapaça.

3/4

Daniel Dalpizzolo

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O Leopardo (Luchino Visconti, 1963)

Mesmo que, através dos olhos do Príncipe Salinas, O Leopardo seja um filme profundamente triste, há toda uma beleza e uma latência de esperança na luz viva dos olhos de Tancredi e Angélica. Assim, O Leopardo é mais como a ambivalência da própria mudança, que nunca é apenas triste ou apenas alegre, mas simplesmente, uma mudança. Salinas tem absoluta consciência do seu lugar dentro da história, como se a visse inteira, do alto da sua imponência ao longo do filme, que ele bem sabe, não durará.

O modo como o Príncipe vaga pelo longo e doloroso baile (que é o funeral da sua estirpe) é a marcha de quem é substituído no mundo, de quem contempla a própria morte, transferindo elegantemente sua posição aos “chacais” da burguesia, e se retirando sozinho para o escuro de um beco aberto numa larga avenida pela qual desfilarão os próximos anos. Tempos que não lhe pertencem mais.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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Falta uma semana!

Pro maior de todos os especiais do Multiplot! até aqui! Serão 32 textos em mais de 20 dias de dedicação integral a um tema e, principalmente, à mitologia de uma certa pessoa que será a grande homenageada nesse mês de setembro.

Só uma notícia não muito agradável: o Cinéfilos não sairá dessa vez. O Rodrigo Jordão, o Pivotto e o Vinícius Veloso estão um pouco enrolados pessoalmente e precisaram dar um tempo, mas fica a torcida pra que eles voltem.

No mais, fiquem ligados e até terça que vem, porque o 5º especial do Multiplot! tá absolutamente imperdível, é sério!

Um abraço!

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Persona (Ingmar Bergman, 1966)

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Nenhum ser humano é livre da culpa que sente por determinada coisa que tenha feito ou pensando em fazer em sua vida. O remorso é talvez o sentimento mais corrosivo que se pode carregar. Quando o temos, o levamos para o resto da vida, e a nossa única defesa é encarcera-lo em algum lugar inatingível do nosso intimo. O trancamos ali e esperamos pra ver o que acontece. Dificilmente ele vá sumir, pode vez ou outra colocar suas mãos por debaixo da porta balançando o dedo insinuantemente nos lembrando de que ele ainda vive por ali. Mas aprendemos a conviver com ele, de um ser estranho vira uma parte indigesta da personalidade, mas parte da pessoa, está sobre o controle, desde que as portas não sejam completamente escancaradas novamente.

Não se sabe porque, mas Elisabeth, uma respeitada atriz, resolve de uma hora para outra parar de falar. Ela não ficou muda ou louca, apenas parou, como se engrenagens parassem de rodar, ou quando um ator esquece o texto de uma peça e se esforça para puxar da memória, Elisabeth esquece do porque de continuar com qualquer coisa. Ela fica oca, não no sentido de alguma alienação emocional, mas na incapacidade de achar sentido para qualquer uma de suas emoções. Ela vira uma espectadora passiva dos seus sentimentos e dos outros, não sente, apenas analisa. Alma, uma enfermeira, é encarregada de cuidar de Elisabeth em uma casa isolada na praia. Quando uma irmã pergunta para Alma o que ela achou de Elisabeth a primeira vista, Alma diz que ainda não tinha uma impressão muito clara, mas que parecia ter um semblante suave, como o de uma criança, mas com um olhar maligno. Elisabeth é um dos seres mais diabólicos criados pelo cinema.

Isoladas do mundo, Elisabeth e Alma criam um vinculo emocional intenso. Alma falava e Elisabeth ouvia. Se completavam no pior sentido que essa palavra pode carregar. Elisabeth seduzia com uma expressão acolhedora, seu suposto desvinculamento com a realidade, e Alma falava de tudo, mais do que podia. Alma falava sem parar, como uma caixa de música que não para de tocar enquanto alguém continuar girando a manivela, e Elisabeth é quem faz isso. Elisabeth seduz Alma a espiar pela fechadura, depois abrir apenas um pedaço da porta e olhar pelas frestas, ou quem sabe colocar só um pé para dentro, até finalmente escancarar e deixar com que tudo saia de dentro. As palavras de Alma entram em confronto com o silêncio de Elisabeth. O silêncio de Elisabeth faz com que as palavras de Alma saiam de forma extremamente impactante. É como se ela falasse algo e o silêncio que exalava de Elisabeth refletisse essas palavras, fazendo com que elas ganhem forma, com que a culpa ganhasse contornos, ricocheteando na sala até atingir novamente quem as disparou. Elisabeth é um espelho que faz você lembrar do seu pior lado, e faz esquecer de qualquer outro, é a personificação da culpa, algo demoníaco. Não demonstra nada, apenas ri.

4/4

Thiago Duarte

ou: Persona (Ingmar Bergman, 1966) – Luis Henrique Boaventura – 4/4

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Paris, Texas (Wim Wenders, 1984)

Não existe um “meio homem”, ou se é inteiro ou não se é nada. Então Travis tinha consciência de que no momento em que perdeu quem amava ele não era nada. Ela havia deixado seu filho na casa de seu irmão e partiu, ele fez o mesmo. Vagou pelo deserto como um espectro perdido em busca de sua alma. Em busca de qualquer coisa que o faça um ser humano de novo. Tinha a aparência de quem foi abduzido por um óvni, e agora vaga carregando o incomodo segredo de saber mais do que sua limitação permitia. Se isolou para pensar, ou para esquecer o que puder ser esquecido, e o que não puder, pelo menos ser disperso pelo monte de nada a sua volta. Ou só para encontrar a liberdade, ou claridade. Ele fugiu ou fez o que achava certo, o que realmente não importa. Ele apenas foi, pois precisava ir. Vagou por 4 anos sozinho, abdicando até da companhia da sua voz. Deixou as saudades enrugarem assim como um lábio exposto no sol sedento por água. O deserto indecente o seduzia com promessas de esquecimento. Quanto mais ele seguisse, menos se tornava, e conseqüentemente, menos teria do que se lembrar. É um processo de desumanização. De desencontro emocional. De estar onde nunca esteve para não lembrar do que já foi. De usar o mundo como esteira de academia. O problema é que, assim como um lábio volta a pulsar quando beija a água depois de muito tempo, a saudade e todo o podre conjunto que sempre a acompanha, volta com mais intensidade depois que qualquer estimulo do passado encosta no seu ombro. E esse estimulo maldito foi seu irmão, que o retirou do seu voluntarioso encarceramento ao ar livre – porque mesmo tendo todo o mundo para percorrer, era como se grades invisíveis estivessem o cercando, a diferença é que teria que caminhar um pouco mais para chegar nelas, sempre teria que dar um passo a mais. Ele foi retirado do deserto que o amamentou por todos esses anos, e jogado em um poço preso com seus fantasmas do passado: seu filho e a lembrança da mulher.

Seu filho, de agora 7 anos, estava morando com seu irmão e esposa. Apesar de o amar desesperadamente, o remorso o corroia por dentro. A culpa de não ser o que o garoto precisava, de não ter ficado com ele por não ser apto para isso. Mas 4 anos poderiam ter sido tempo o suficiente, e então pai e filho, partem em uma jornada pessoal para encontrar a mamãe. Apesar de reticente no começo, o próprio garoto, mesmo com toda sua ingenuidade e despreparo para o mundo, entendia que o motivo que fez com que o pai não ficasse com ele por todos esses anos era maior. A melancolia que o pai passava pelos olhos o comovia, fazendo com que esse fosse incapaz de odiá-lo, mas sim ama-lo, como se ama um pai realmente. E então eles partem. O certo naquele momento é encontra-la, assim como o certo antes foi vagar sozinho. Não existe o porquê racional, apenas o impulso emocional, e que ambos estavam ligados no mesmo objetivo.

Eram 3 almas que só conseguiriam ser inteiramente felizes juntas, o que era impossível de acontecer. A viagem ganha contornos suicidas, já que sabemos que ninguém vai encontrar o que procura. O máximo que pode acontecer é uma chance de um novo enfrentamento ou algo do tipo. É a angustia de um cara que foi fadado a andar em um mundo pequeno demais para o seu remorso e saudade.

4/4

Thiago Duarte

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Mortal Kombat – O Filme (Paul Anderson, 1995)

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Um dos cineastas mais “malditos” que temos hoje em dia se chama Paul W. S. Anderson. Por favor, não confundir com o renomado Paul Thomas Anderson, ou PTA, diretor de filmes cults como Boogie Nights, Magnólia, Embriagado de Amor e Sangue Negro. Paul W. S. Anderson é um diretor de filmes mais comerciais, e no início de carreira se chamava simplesmente Paul Anderson. Teve relativo sucesso em seus primeiros filmes, mas atualmente não é bem visto e cada novo projeto dele anunciado é muito criticado logo de cara. Isso devido mais aos seus dois últimos e “polêmicos” trabalhos: Resident Evil – O Hóspede Maldito e Alien vs Predador. Ambos renderam nas bilheterias, mas sofreram duras críticas. Resident Evil é baseado no famoso jogo de zumbis da Capcom, e desagradou muitos fãs do original, por não conter o mesmo grau de suspense; e Alien vs Predador resultou num filme “infanto-juvenil” demais, a ponto de nem ter muita violência, destoando demais das duas famosas franquias. Particularmente, não acho nenhum desses dois filmes propriamente ruins e nem tão bons, mas decepcionaram muita gente, e acabaram decretando a má fama do diretor. De qualquer forma, Paul até que acertou no seu primeiro projeto, Mortal Kombat – O Filme. Uma adaptação do famoso jogo de videogame.

Uma discussão recorrente que temos é quanto uma adaptação para cinema tem que ser fiel a obra original da qual se baseia. Muitos dizem que tem que haver um respeito pelo original e por isso o filme tem que ser fiel ao máximo, enquanto outros dizem que o diretor tem que ter liberdade total, então a fidelidade não é necessária. Claro, que muito dessa discussão se refere a filmes baseados em livros e HQs, mas em relação a um jogo de videogame, até que ponto tem que haver essa fidelidade? Essa dúvida não existiu durante muito tempo,  já que jogos eletrônicos não eram adaptados para cinema, simplesmente porque na maioria das vezes, eles nem tinham histórias tão bem desenvolvidas assim, que servisse de base para qualquer coisa. O sucesso de um jogo dependia mais do carisma de seus personagens e pela parte técnica em si (gráficos, sons, jogabilidade, dificuldade), isso gerou uma grande falta de interesse dos produtores e cineastas para esse tipo de “arte”. Mas no começo da década de 90, época em que reinava os videogames de 16 bits de 4ª geração (Super Nes e Mega Drive), finalmente, quatro jogos famosos iriam ser adaptados para as telonas: Super Mario Bros, Street Fighter, Double Dragon e Mortal Kombat. Os três primeiros fracassaram totalmente, e acabaram caindo na mesma armadilha: Tentaram pegar o que o jogo tinha de melhor que eram os personagens, mas colocá-los em outro contexto, trazendo história que muito pouco lembrava o jogo original (mesmo porque esses jogos nem história tinham). Com isso, presenciamos Mario e Luigi indo parar num universo paralelo onde estranhamente os dinossauros é que evoluíram e não os humanos; ou um Jean Claude Van Damme, interpretando Guile, personagem coadjuvante do jogo, que se transformou no principal do filme onde M. Bison era ditador-presidente de um país em guerra-civil; ou os irmãos “gêmeos” Jimmy e Billy Lee lidando com… com o quê mesmo? Enfim. Nenhum deles conseguiu criar algo minimamente interessante pra quem não conhecia os jogos, e quem conhecia não se identificou em momento nenhum com o que estava sendo mostrado lá. Mortal Kombat, que veio depois destes, resolveu ir pelo caminho oposto, se limitando a filmar a simplória história do jogo, sem maiores malabarismos. Não que seja algo vital numa adaptação, mas nesse caso aqui a fidelidade com o original se mostrou importante para se montar uma base, por onde o filme iria se sustentar.

Falando do jogo, para aqueles que não o conhecem: Mortal Kombat surgiu em 1992. É um jogo de luta, em que dois personagens entravam numa arena e, através de vários comandos específicos do jogador, executa golpes que tentavam derrubar seu adversário. MK se diferenciou de outros títulos desse gênero na época por dois motivos básicos: 1) Realismo. O jogo se propunha a ser realista, já que os personagens eram imagens digitalizadas de atores reais. A gente via pessoas na tela lutando e não “desenhos”; 2) Violência. O sangue que rolava solto a cada vez que o lutador era acertado por algum golpe do adversário, e no fim de cada luta, o vencedor poderia matar o perdedor. Isso fez com que o jogo causasse uma enorme polêmica, chegando a ser censurado em algumas das suas versões. Videogames eram vistos como coisa de criança, então pela lógica do pessoal mais conservador, nenhum jogo poderia conter tanta violência assim. Com isso, para Mortal Kombat II, os realizadores mantiveram toda essência do jogo original, mas resolveram zoar toda essa polêmica que MK causou e foram incluídas coisas como “Babality” e “Friendship”. Um desses golpes consistia em poder transformar seu adversário em bebê, e o outro em fazer uma brincadeira estúpida com o lutador perdedor. Ou seja, o realismo e a violência continuaram mas com uma pitada de sarcasmo. Perfeito. Só que depois disso a série, a partir de Mortal Kombat III, foi caindo gradualmente, e hoje, nem de longe tem o mesmo respeito. Virou jogo de criança mesmo, enquanto o público que gosta de coisas mais polêmicas vai atrás de jogos como GTA e Counter-Strike. O filme não causou a mesma polêmica que o jogo, mesmo porque não veio com a intenção de ser polêmico, mas tem violência e certo realismo, no sentido de que tudo mostrado ali não é tão absurdo, mesmo dentro de um universo altamente fantasioso.

Liu Kang, Sonya Blade, Johnny Cage, Scorpion, Sub-Zero, Kano, Rayden, Reptile, Goro e Shang T. Sung. Todos esses eram os personagens do jogo Mortal Kombat, e que aparecem também na sua adaptação de cinema, mas ao contrário das outras adaptações citadas, aqui se tem basicamente a mesma história de antes, mesmo que essa não seja grande coisa, afinal tudo gira em volta do famoso torneio Mortal Kombat, torneio esse que vai decidir o destino do planeta Terra. Nada mais além que isso. A maior liberdade que o diretor tomou em relação à história foi acrescentar certos elementos do segundo jogo da franquia, Mortal Kombat II, como a presença dos personagens Kitana e Jax, e o misterioso mundo de “Out World” entre outras coisas. Então, para quem não conhece ou não gosta do jogo, o filme pode não ser nem um pouco atraente, e não seria atraente de qualquer forma, mas para quem jogava e conhecia aquele universo, tudo funciona muito bem. E é bem curioso comparar Mortal Kombat – O Filme com Resident Evil – O Hóspde Maldito, duas adaptações de videogame realizadas pelo mesmo Anderson. No MK, ele tentou seguir o jogo mais à risca, e no Resident, acabou tomando certas liberdades se baseando pouco no original, tentando fazer o filme trilhar um caminho próprio. Ele acabou agradando mais em um e nem tanto no outro. MK se beneficou de algumas coisas como o jogo ter caído nas graças da gurizada daquela época, e tendo esse público como alvo, não foi tão cobrado assim. Ninguém esperava um “grande filme”, mesmo porque as outras adaptações de videogames que saíram antes, decepcionaram muito. MK se encaixou muito bem no que se propusera naquele momento. Já Resident, tinha um público um pouco mais velho, que passou a jogar videogames a partir do momento em que eles se tornaram mais sombrios e realistas. É um público mais exigente que não aceita certas coisas, e assim muitos esperavam um filme de zumbi à lá George Romero, mas receberam um filme bem mais ameno. Talvez a pior coisa na comparação direta desses filmes é ver que o diretor Paul Anderson não evolui como diretor de um filme para outro. Ambos, mesmo dentro dessa diferença em ser mais ou menos fiel que o original, tem esse mesmo clima de filme “pop-adolescente”, que acabou sendo a marca registrada dele e o que o faz ser tão criticado.

Uma coisa que se pode dizer de Paul W. S. Anderson é que, apesar dos pesares, ele não é o pior cineasta do mundo, afinal, três dos seus maiores sucessos comerciais, Mortal Kombat, Resident Evil e Alien vs Predador ganharam continuações, dirigidas por outras pessoas, e todas são inferiores aos filmes originais (apesar de não ter visto Resident Evil 3 e Alien vs Predador 2, mas não ouvi coisa boas deles), principalmente, a continuação desse aqui, Mortal Kombat – A Aniquilação (John R. Leonetti, 1997), simplesmente “inassistível”, em todos os seus aspectos. Então, têm muito diretor pior que ele por aí, com certeza. Paul tem certa competência, pelo menos quando vai idealizar um filme, ele surge com boas idéias, o problema é que ele não consegue manter essa boa idéia até o fim, tudo vai caindo no meio do caminho, e os filmes se perdem. E nem se perdem tanto, mas ficam bem longe do que se imaginava deles no início de tudo (com Resident Evil e AvP aconteceu assim). Esse aqui foi o filme dele que menos se perdeu no meio do caminho, mesmo porque não eram necessários grandes malabarismos para agradar o público alvo. Todos queriam basicamente um filme que agradasse respeitando o conceito simples do jogo original, e isso o filme consegue fazer, sem muito esforço. E depois de tanto tempo, Mortal Kombat – O Filme ainda é o melhor filme baseado em um jogo de videogame (mesmo porque nenhum grande filme surgiu daí), e também o melhor filme diridido por Paul W. S. Anderson (idem).

3/4

Jailton Rocha

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Star Wars – The Clone Wars (Dave Filoni, 2008)

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Sou daqueles que adoraram o desenho animado Star Wars – Clone Wars. Minisserie de animação dirigida por Genndy Tartakovsky (de Samurai Jack e Laboratório de Dexter), e que foi exibida no Cartoon Network em mini-episódios entre 2003 e 2005. Não assisti esse desenho quando foi exibido no canal, mas em DVD (já lançado no Brasil), separados em dois volumes com todos episódios, que juntos tem a duração de um filme longa-metragem: 2h. Clone Wars veio para fazer uma ponte entre o Episódio II – Ataque dos Clones e o Episódio III – A Vingança dos Sith, e assim preencher uma lacuna que a série cinematográfica não poderia preencher. Desde o Episódio IV – Uma Nova Esperança de 1977, ouvimos falar da guerra dos clones, mas como a série de cinema tinha em foco a saga de Anakyn Skywalker, Lucas não achou espaço nela para tratar melhor esse conflito. A solução encontrada foi fazer essa minissérie para TV em animação, e que cumpriu muito bem sua obrigação. Finalmente, vemos em maiores detalhes a guerra clônicas, e melhor que isso, podemos observar como os poderosos Jedis se comportavam diante desse ambiente em conflito. E não só os Jedis principais com o Anakyn, Obi-Wan e Yoda, mas vários outros. Sim, Jedis em ação! Isso por si só já justificava a existência da série, que vai além disso, se colocando como parte integrante importante da nova trilogia de SW. Mas depois do Episódio III, resolvem investir numa nova série animada Clone Wars, agora em computação gráfica 3D. Essa série iria preencher algumas lacunas que a anterior não preencheu. Você consegue entender isso? Clone Wars original surgiu para preencher uma lacuna da série cinematográfica, agora lançam outro Clone Wars para preencher as lacunas da outra série. Como assim? Particularmente, não acho que a série SW tenha tanta lacuna assim para preencher e mesmo se tivesse, o Lucas poderia ter investido em outras. Porque não uma série que se passa entre o epispódio I e II (infância e adolescência do Anakyn), ou aquela outra que todos aguardam que é entre o episódio III e IV, ligando a trilogia clássica com a nova? Seria bem mais interessante. Para complicar a situação de tudo, Lucas lança um filme para cinema que servirá de introdução para essa futura série de TV. Repetindo: Um filme feito para cinema cuja única função é introduzir uma série de TV. Fato inédito, que muitos gostariam que continuasse como tal, mas Lucas inventou isso também. Então, nos encontranos de fronte desse “filme” Star Wars – The Clone Wars. Um projeto que já nasce com o rótulo de caça-níquel, e ao vermos o filme, não conseguimos chegar a outra conclusão se não essa. Um grande caça-níquel.

A principal diferença entre esse aqui e a série animada anterior é o foco. Antes se viam os demais Jedis nas batalhas das guerras dos clones, mas aqui Anakyn é o foco novamente com na trilogia de cinema. Lucas já teve três filmes para mostrar as nuances do personagem, mas resolveu fazer mais um agora, e que não acrescenta nada ao que já foi dito dele. Afinal, esse filme é só a introdução da série de TV. Ponto. Deveriam ter colocado já aqui nesse filme outras situações envolvendo tantos outros Jedis, como a Clone Wars anterior, para ficar bem claro que Anakyn não é o foco. Mas nem tentaram tratar de outros assuntos envolvendo outros Jedis. Tudo envolve uma missão que Anakyn tem que cumprir: Resgatar o filho seqüestrado de Jabba The Hutt. Sim, Jabba tem um filho! Um filho bebê que nunca tinha dado as caras na série, e ele não é o único personagem novo. Além dele, Anakyn ganha uma Padwan (aprendiz) que vai lhe ajudar nessa missão, uma Padwan nunca citada antes, e temos ainda o irmão de Jabba, que também dá as caras aqui. Considerando que esse The Clone Wars se localiza antes dos Episódios III, IV, V e VI de cinema e de boa parte da outra Clone Wars, fica difícil entender como personagens que teriam muita importância, afinal, são o filho e irmão do Jabba The Hutt e a Padwan de Anakyn, nunca foram sequer citados em algum momento. Apesar de não ser a primeira vez que isso acontece na série, mas todos esses personagens novos, tirados do fundo da cartola, assim de repente, acabam por decretar ainda mais o rótulo de “caça-níquel” que esse filme tem desde que foi anunciado.

Outro problema que surge com esses personagens é que o público adulto da série provavelmente vai rejeitá-los como já rejeitaram os Ewoks do Episódio VI e Jar Jar Binks do Episódio I. Devo lembrar que o Clone Wars anterior poderia ser visto sem problemas por esse público adulto, porque não era tão infantilizado, ao contrário desse nova série, que pelo que se vê nesse filme inicial, vai ser bem direcionado ao público infantil. Não só pelos personagens novos, mas por várias outras situações. A mais constrangedora seria envolvendo o exercito de droids que a cada momento que aparece surge com uma piada/trapalhada nova. Imbecilizaram demais esse exercito dos droids, e só as crianças menores vão curtir as coisas que eles aprontam aqui. Com isso, o público adulto provavelmente vai rejeitar tudo no filme, e conseqüentemente a série de TV, se ela continuar assim nesse teor como foi apresentado. Devemos lembrar que pouca gente gostou na época, e atualmente poucos se lembram dos dois filmes infantis dos Ewoks lançados na década de 80. Esse The Clone Wars deve ir pelo mesmo caminho.

Sobre a parte técnica: A qualidade da animação até que é boa. Não dá para comparar com as mais recentes da Pixar e Dreamworks, mas é melhor que as animações de TV. The Clone Wars tem cenários grandiosos bem desenhados. Os (poucos) momentos de batalha são bem explorados e os personagens tem um visual legal. Tudo tentando reproduzir o visual da série animada anterior. Então, não chega a ser um problema a qualidade da animação, mas a maior parte do filme se passa a noite, então vamos ver mais cenários escuros, e assim Lucas acha um jeito de esconder possíveis imperfeições de sua animação.

Apesar de tudo, Star Wars – The Clone Wars é um filme SW com todos os defeitos e qualidades que isso possa acarretar. Só que tem vários agravantes como se pode ver, e o problema maior é ver o Lucas esticando uma coisa que não precisa ser esticada, em troca de uns trocados a mais no seu já polpudo bolso. No fim, o público infantil menos exigente pode gostar desse Star Wars – The Clone Wars, mas o público adulto não vai querer passar muito perto. Recomendo para esse público que alugue ou compre a série antiga de Clone Wars, disponível em DVD. Não vão se arrepender, bem do contrário se decidirem ir no cinema ver esse aqui.

1/4

Jailton Rocha

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Próximo Especial tem data marcada!

Aê galera! Enfim, depois de quase dois meses de intervalo – preenchido, além dos textos habituais, pela cobertura do 10º Festival de Curtas de BH e pelas sagas do Batman e do Superman -, o quinto Especial Multiplot! tem data pra ir ao ar. Dia 9 de setembro os ploteiros atacam de novo com um tema que, por enquanto, é segredo de estado. O que não impede eventuais especulações, hehe.

Aguardem, um abraço!

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