Marilyn Monroe (Especial James Dean)

1926 - 1962

Ao se referir ao mito imposto no cinema pela figura de Greta Garbo, Paulo Emílio Salles Gomes disse que “(…) podemos admitir que no teatro o ator passa e a personagem permanece, ao passo que no cinema sucede exatamente o inverso. Nas sucessivas encarnações através de inúmeros atores, permanece a personagem de Hamlet, enquanto no cinema quem permanece através das diversas personagens que interpreta é Greta Garbo. (…) O que persiste não é propriamente o ator ou a atriz, mas essa personagem de ficção cujas raízes sociológicas são muito mais poderosas do que a pura emanação dramática.” O mesmo pode ser colocado com relação ao que se estabeleceu com Marilyn Monroe, de forma ainda mais complexa que com relação à Garbo, já que Marilyn, além de ser a atriz que interpretava as personagens, era também a personagem principal que Norma Jean Baker interpretou por 16 anos, dos primeiros pequenos trabalhos até o fim turbulento, em 5 de agosto de 1962, quando já era considerada a maior das estrelas do cinema.

Marilyn Monroe se referia a ela mesma, no final de sua vida, em terceira pessoa, numa espécie de consciência de sua própria condição de mito e que sabia que não era capaz de sustentar a própria presença. Fazia tempo que a estrela era viciada em calmantes, combustível necessário que a auxiliavam a manter a força na subida rumo ao topo. E Monroe atingiu o topo, que era justamente o que sempre sonhou. Ela queria ser a mulher mais conhecida, mais desejada do mundo, e sua figura platinada e curvas voluptuosas lhe deram o status almejado ainda mais rápido que imaginava. Em 1950, Monroe fez pequenas participações em dois filmes importantes, O Segredo das Jóias, de John Huston, e A Malvada, de Joseph L. Mankiewicz, este no papel de uma jovem admiradora de Margo Channing, interpretada magistralmente por Bette Davis, que mesmo ela não ofuscou a aparição de Monroe. Notada por vários, a atriz começou a erguer sua carreira para logo passar para os papéis principais e ser elevada à condição de diva. Monroe trabalhou com os melhores diretores, de Otto Preminger (O Rio das Almas Perdidas) a Jean Negulesco (Como Agarrar Um Milionário), dando cada vez mais importância à sua figura de símbolo sexual. Com alguns deles ela estabeleceu uma parceria mais constante, como com Howard Hawks, com quem fez O Inventor da Mocidade e Os Homens Preferem as Loiras, que tem uma das cenas mais icônicas que Marilyn Monroe fez, usando um vestido rosa, cercada de homens que estão dispostos a dar tudo para ela, inclusive os diamantes mais caros do mundo. Mas foi em O Pecado Mora Ao Lado, primeiro de seus filmes com Billy Wilder, que Marilyn fez sua cena símbolo: passando pela calçada junto do homem que a deseja mais que tudo e tenta resistir à tentação, a personagem de Monroe é surpreendida pelo vento da calefação do metrô, que levanta seu vestido branco revelando suas pernas – e outras partes – sem que ela consiga controlar. Não somente é a principal memória que se tem de Marilyn, como é um dos momentos mais celebrados na história do próprio cinema.

Marilyn Monroe iria retornar a trabalhar com Billy Wilder em Quanto Mais Quente Melhor, mas como acontecia com quase todos com quem trabalhava, Marilyn tirava Wilder do sério, irritando o diretor com atrasos, falta de concentração e dificuldade em decorar as falas. Mas Wilder sabia que Marilyn era a figura necessária para dar vida à doce e sexual Sugar Kane, e soube manipular a atriz a fim de extrair dela o resultado esperado. Com isso, Quanto Mais Quente Melhor passou a ser considerada a comédia mais engraçada de todos os tempos e Marilyn Monroe levou o prêmio de melhor atriz de comédia, no Globo de Ouro de 1960, sendo preterida sob protestos a uma indicação ao Oscar. Marilyn queria ser a maior das estrelas, mas passou a trabalhar para ser uma boa atriz também. Fez aulas com Lee Strasberg, no famoso Actors Studio em Nova York e teve Paula Strasberg como mentora nos últimos trabalhos que fez, sendo incapaz de dar um passo sequer sem a autorização de Paula (que era odiada nos sets de filmagem). Desse modo e com as confusões emocionais derivadas de seus divórcios, um de Joe DiMaggio (o maior dos jogadores de baseball), outro de Arthur Miller (o maior dos dramaturgos americanos), Marilyn tinha sua vida controlada por Paula Strasberg, nos filmes, por sua agente e por seus médicos. A atriz já havia se afastado do cinema por 1 ano, devido a seu estado emocional, depois de fazer Os Desajustados, segundo filme com John Huston e último inteiramente concluído, quando foi incentivada a estrelar Something’s Got To Give, de George Cukor, que ficou inacabado depois de Monroe ter sido demitida devido aos sucessivos atrasos e desculpas de doença para não aparecer para filmar.

O caos emocional tomou conta de Marilyn que, mesmo tentando retomar as gravações do filme de Cukor e deixar de lado a imagem que circulava na mídia de que era uma tola, não conseguia se manter estável por muito tempo e acabou tendo uma overdose de calmantes, poucos dias depois da decisão do estúdio de continuar com a produção do filme. O legado de Marilyn Monroe residiu em sua imagem intocada de maior símbolo sexual do cinema em todos os tempos, não manchada pelas confusões de sua vida pessoal. Pois, como disse Billy Wilder, “Há uma certa semelhança entre Marilyn e a II Guerra Mundial: ambas foram infernais, mas valeram a pena”.

Quanto Mais Quente Melhor (Billy Wilder, 1959)

“A comicidade é a presciência do espectador. Ele é mais esperto que os personagens no filme, porque o filme o instrui sobre seus truques. (…) Mas tão importante quanto isso é que o espectador seja instruído somente em parte sobre os truques do diretor (…). O espectador é mais esperto que os personagens na tela, mas menos esperto que o diretor, que sempre está um passo adiante e sabe manter a surpresa.” – Billy Wilder

Mais que ninguém, Billy Wilder soube trabalhar o elemento de preparação de uma piada dentro de suas narrativas, com calma suficiente para saber soltá-la no momento certo. Em Quanto Mais Quente Melhor, mais que em qualquer outro filme, esse momento certo sempre aparece depois da sugestão que nos induz ao erro, pois no filme absolutamente nada é o que parece.

A primeira cena, logo após os créditos iniciais, mostra um carro fúnebre e dentro dele homens sérios e um caixão. A música é alegre, apesar de contrastar com a aparente solenidade da situação. Logo em seguida, vemos um carro de polícia seguindo o carro fúnebre e que começa atirar, para depois vermos os homens que estão dentro do carro sacarem armas escondidas e um tiroteio tomar conta da tela. O caixão é acertado por algumas balas e de lá vaza um líquido, que saberemos depois ser bebida contrabandeada. E um letreiro que nos situa em “Chicago, 1929”. Em apenas 3 minutos, Billy Wilder constrói a base inicial fundamental de sua narrativa, que se passa na época da Lei Seca, época de gângsters e da Grande Depressão, tudo isso sem nenhum diálogo sequer. E isso se seguirá durante todo o filme, seja por meio da interação dos atores com o cenário que os rodeia, seja pelo enquadramento da câmera, seja pelos extraordinários diálogos de duplo sentido propostos pelo diretor, onde tudo que parece ser não é. O que a princípio poderia ser um filme sobre a máfia e a depressão econômica se revela uma comédia de erros, quando finalmente somos apresentados a Jerry (Jack Lemmon) e Joe (Tony Curtis), dois músicos que tocam na banda que anima o bar dos mafiosos e que fogem de lá quando ocorre a batida policial. Empenhado em conseguir dinheiro, Joe convence Jerry a apostar seus casacos (já que nem tinham mais dinheiro) em uma corrida de cães e, depois de perdê-los, passam a vagar por uma Chicago fria, à procura de trabalho. Eles buscam em uma agência de empregos por vagas para um contrabaixista e um saxofonista e só descobrem que uma banda feminina, que irá fazer shows na Flórida, precisa de duas garotas para as vagas. Depois de presenciarem por acidente uma chacina executada por um famoso mafioso, eles decidem se disfarçar de mulheres e entrar na banda, para fugir da morte iminente – e do frio de Chicago, por tabela.

Toda essa introdução é necessária para compreender a genialidade com que Wilder trabalha seus personagens, já que a construção primeira os leva a encarar um problema (fugir da máfia, afinal não é de costume deixar testemunhas de assassinatos vivas para prestarem depoimentos), mas o problema os faz enfrentar o real drama da narrativa (que evidentemente terá o caráter mais cômico possível): os personagens terão que se travestir de mulher para manter o emprego na banda e salvarem suas vidas, e ainda por cima resistir à tentação que é estar rodeado de mulheres bonitas, dentre elas Sugar Kane (Marilyn Monroe), a própria definição do ideal do pecado nas mentes masculinas. É assim que, somente aos 25 minutos de filme, Wilder apresenta Monroe em cena, exuberante ao tentar pegar o trem. Os dois músicos, agora travestidos de Josephine (Curtis) e Daphne (Lemmon), ficam impressionados com a beleza voluptuosa de Sugar, mas são obrigados a se controlar para que suas identidades verdadeiras não sejam reveladas. Mas Wilder, não pretendendo deixar passar desde a primeira aparição de Monroe o idílico teor sexual de sua figura, faz intervir em sua passagem uma fumaça e dois apitos que saem do próprio vagão do trem, uma alusão ao que seriam os assobios que os dois músicos dariam caso pudessem e uma breve apalpada em Monroe, que a faz desviar. É o Lubitsch Touch que Wilder sempre fez questão de deixar presente em seus filmes, em reverência a seu mestre maior.

Munido da introdução que caracteriza o drama de seus personagens e os problemas que seguirão daí, Wilder estrutura o restante de sua narrativa a fim de não preservar em seus personagens nada intacto, o que os faz entrar em uma roda instável de riscos. Para tanto, utiliza muito das próprias características pessoais dos atores, Monroe principalmente. Sendo Sugar a tentação a ser evitada – e nunca respeitada, já que logo após Jerry/Daphne arrastar suas asinhas para a moça, é Joe/Josephine que decide jogar encanto sobre ela, se disfarçando como um milionário herdeiro de petróleo -, Wilder trabalha na figura dela todo o caos pessoal que envolvia a própria vida de Monroe. Mitificada ainda em vida e celebrada como a mais desejada das mulheres do planeta, Monroe era tida como burra e superficial, mas se valia de tais expectativas para criar um personagem, a própria Marilyn Monroe. Mas Norma Jean (nome de batismo de Monroe) era uma mulher que buscava o amor e sofria com a exposição de seus problemas e posterior descrédito de sua estabilidade emocional. Tudo isso é trabalhado em Sugar Kane, que se admite burra, por sempre voltar para o mesmo tipo de homem (saxofonistas são seu fraco, exatamente o que Joe é) e parece meio ingênua ao buscar tão arduamente alguém para se apaixonar. Mas ao mesmo tempo, Sugar compreende quando é abandonada pelo “milionário” a quem havia “ajudado” e se entrega novamente ao vício da bebida, na tentativa de mascarar sua dor, assim como Marilyn. E Wilder ainda ressalta essa transição emocional de Sugar através dos dois momentos em que ela canta no hotel: no primeiro, ao entoar “I Wanna Be Loved By You”, vestindo um vestido claro e cheio de brilho, logo após ter conhecido o “milionário”; no segundo, ela canta “I’m Thru With Love”, totalmente desolada e entregue à melancolia após ter sido deixada, vestindo um mórbido vestido preto.

As críticas sociais, presentes em todos os filmes de Wilder, são colocadas no modo sutil característico do diretor, sempre disposto a se valer do duplo sentido para passar batido diante de eventuais censuras. E até mesmo as referências que faz são colocadas de maneira delicada, nunca muito explícita, como quando o mafioso Spats (George Raft) chega ao hotel na Flórida para a “Convenção Anual dos Amigos da Ópera Italiana” e conversa com um capanga de outra família de mafiosos, que joga uma moeda para cima. Spats pega a moeda do capanga e pergunta “onde ele aprendeu aquele tipo de truque barato”, sendo esta uma referência sutil ao próprio tipo de personagem que George Raft fazia no início da carreira, como em Scarface, de Howard Hawks, onde Raft fazia um capanga que ficava jogando uma moeda para o alto. É o estilo de Wilder presente, em sempre mostrar que pode haver mais alguma coisa em cena do que o que estamos vendo.

Quanto Mais Quente Melhor é considerada a mais engraçada das comédias, justamente por unir na narrativa enxuta e cheia de reviravoltas que Billy Wilder emprega as críticas à sociedade, à música, à indústria, os jogos eróticos explicitados em brincadeiras visuais (como a edição das ações paralelas que ocorre enquanto Daphne dança com o milionário que está apaixonado por “ela” e o beijos cada vez mais quentes entre Sugar Kane e o “milionário” inventado por Joe) ou nas falas, sempre guardando uma segunda interpretação. Assim, Quanto Mais Quente Melhor pode ser visto várias vezes, sempre compreendendo uma nova intenção do diretor, mas sempre revelando que nada é o que parece, mesmo quando os personagens já não têm mais o que esconder. Afinal, “ninguém é perfeito”, somente Billy Wilder.

Thiago Macêdo Correia

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5 Responses to Marilyn Monroe (Especial James Dean)

  1. belo texto… não sou um grande admirador da Monroe… mas todos temos que reconhecer a importância enorme de ícone e modelo para o cinema americano que ela teve…

  2. Caio Lucas

    Maior que ela só a Bardot, em termos de símbolo sexual. Mas a Marilyn merece seu status de mito, assim como Dean.

  3. Sefhora kramer

    adorei o site !♥

  4. Daniel Dalpizzolo

    adorei você, fofa. mandafoto!