Qual o tamanho de um mito? Como mensurar a altura e a importância de uma lenda, muitas vezes um sonho, um ideal de perfeição inalcançável, um deus sem religião?
Eram quase 18 horas de uma sexta-feira numa estrada qualquer da Califórnia quando James Dean queimou sua vida inteira de uma vez no fogo forte de um Porsche Spider na mesma velocidade com que passaria pelo cinema. Dean morreu antes da estréia de dois de seus três únicos trabalhos relevantes na 7ª arte: Juventude Transviada e Assim Caminha a Humanidade (Vidas Amargas foi o único visto pelo público com Dean ainda vivo). Talvez não se soubesse na época, mas em 30 de setembro de 1955, James Byron Dean fundava com a própria vida uma cultura de mitificação que é e sempre será estudada por filósofos e sociólogos do mundo todo: como, afinal, a própria morte parece ser o caminho para a imortalidade?
O processo de mitificação, apesar de velho conhecido através da história, teve seu marco zero na era moderna com a morte de Dean. Isso porque o mundo, o contexto e a própria cultura que se criava termina modificando o processo. Antes de qualquer coisa é importante deixar claro: Dean é o maior de todos. E isso pouco tem a ver com seu talento ou competências que pressuponham comparações, dentro das telas, com outros atores. O fato de James Dean ter sido a cara tanto de uma geração quanto de uma revolução cultural a nível planetário o tornam simplesmente inalcançável. O modo como veio a se plastificar no tempo, o contexto histórico, as circunstâncias de sua morte e o arranjo de coincidências quase poético no balanço milimetricamente perfeito para interrupção de sua carreira (após um grande sucesso e imediatamente anterior a outros dois, um deles com um filme e um personagem naturalmente icônicos) transformam Dean talvez no único mito verdadeiramente sólido deste especial, renegando seus colegas a meros e eternos candidatos. Isto com a POSSÍVEL exceção de um deles: Heath Ledger.
No cinema, muitos vieram depois de James Dean, e inclusive serão abordados neste especial. Nomes como Marilyn Monroe, John Belushi e River Phoenix sentiram o peso de advir sempre sob a sombra do ídolo de Dean, e não obtiveram uma combinação de elementos que possibilitasse ao menos uma concorrência com o mito de Rebel Without a Cause. Talvez o que mais tenha chegado perto seja River Phoenix, ao qual faltou tanto o imediatismo e intensidade da carreira (o fator mais difícil e até hoje irrepetido) quanto um grande rosto, uma persona-símbolo no cinema (apesar de o Michael de Garotos de Programa, de Gus Van Sant, ter tido esta pretensão).
Heath Ledger combina uma parcela de imediatismo (apesar de freqüente no cinema desde 10 Coisas Que eu Odeio em Você – 99 -, terminou aparecendo de fato apenas em 2005) com os grandes papéis de Ennis Del Mar (Brokeback Mountain) e, é claro, o Coringa (The Dark Knight), levado às telas 6 meses após sua morte, fator que apenas o aproxima de James Dean, além da possibilidade de receber, assim como o próprio Dean, uma raríssima indicação póstuma ao Oscar.
O mais interessante nesta mecânica de idolatria e mitificação é que James Dean – com o perdão do modo de falar – morreu no momento certo: em plena revolução midiática promovida pela transmissão de imagens através da televisão, aparelho que intensificava e já trabalhava uma democratização de informações. E talvez seja este contexto que explique – além de outras coisas como o envelhecimento infinitamente mais acentuado de seus filmes se comparados aos de Dean – o aparente ‘esquecimento’ do astro do cinema mudo Rodolfo Valentino, morto em 1926 aos 31 anos após complicações e uma cirurgia de úlcera. Correm lendas de que mulheres se suicidaram ao saberem da morte do primeiro grande ídolo de Hollywood (de certa forma homenageado por Gene Kelly em Cantando na Chuva), e que mais de 100 mil pessoas compareceram ao seu funeral em Nova Iorque.
River Phoenix morreu em 93, um ano antes do estopim do vertiginoso crescimento do ciberespaço. Heath Ledger é o primeiro grande teste quanto à sobrevivência de uma imagem em plena revolução digital, democratização absoluta da escrita e da informação, maior ferramenta globalizadora que existe. A efemeridade das informações unida umbilicalmente à cultura da descartabilidade de tudo depõe contra o ator australiano ao mesmo tempo que a dispersão imediata e em larga escala de sua morte assim como de um culto em torno de sua imagem, rezado por milhões de faz que dentro da grande rede possuem, cada um, uma voz ativa, trabalham tanto pela manutenção quanto potencialização do seu mito que, recém criado, será provado dentro dos próximos anos.
Alguém que nunca chegou perto de ver um filme de James Dean já ouviu falar do ator, sabe que foi um astro que morreu jovem e deve conhecer – sem necessariamente associar – sua pose inconfundível na capa de Juventude Transviada. O mesmo acontecerá com o Coringa de Heath Ledger? Avaliar um fenômeno de fora, analisar um processo com início, meio e fim, é fácil. Fazer previsões sobre o futuro de Heath Ledger enquanto mito é tarefa das mais complicadas. Por isso, abrindo este especial, deixo no ar esta questão. Teria Heath Ledger a força para se alçar à categoria de mito, estando talvez ao lado de James Dean, daqui a mais meio século?

Luis Henrique Boaventura
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