Década de 80 (Especial James Dean)

Responsabilidade grande falar de anos 80 em pleno revival. E no caso do cinema, às pretensões de nostalgia, a década durou foi 20 anos. Impossível separá-la daquela noção de Sessão da Tarde/Cinema em Casa que estendeu seu alcance pelos discretos anos 90 atingindo em cheio quem mantém sua infância guardada nesses 10 anos de muita pipoca, videogame e Coca-Cola, assim como para os adolescentes dos anos 80 a proliferação dos filmes de terror e slashers movies vinha matar uma sede de sangue acesa e provocada por uma censura silenciosa desde o início do cinema. Contrariando a ‘lógica’ e adultos ranzinzas, a nova geração – que vê, escreve e começa a fazer cinema – não consegue agir racionalmente sobre um tipo de cinema que, se surgiu sob vaias e lamentos, reage agora por sob um vínculo sentimental indissociável com seus espectadores. E se a 7ª arte é manifestação física dos sentimentos, podemos dizer que Godard (“o cinema está morto”) estava redondamente enganado.

Poucas vezes foi mais fácil ser extremista ao analisar qualquer coisa quando se observa as mudanças sofridas pelo cinema na década de 80. A conclusão a que Godard chegou (um dos pilares centrais da nouvelle vague) é totalmente compreensível frente a uma aparentemente inevitável desconstrução da idéia de cinema de autor, desencadeada tanto pelo aparecimento dos primeiros blockbusters (Tubarão, Star Wars), ainda na década de 70, propulsados depois num embalo incontido por Os Caçadores da Arca Perdida (Spielberg, 1981), quanto pela catástrofe financeira de O Portal do Paraíso (Michael Cimino, 1980), que levou à falência a United Artists, estúdio que o próprio Charles Chaplin ajudou a fundar em 1919.

O que se anunciava nestes primeiros anos era uma retomada do cinema pelas gerações mais jovens, que dariam as cartas sobre a produção cinematográfica dos EUA numa “era” que se sustém até hoje sem previsão de terminar. No entanto, não convém este discurso de que o cinema acabou e de que nada que preste foi feito de 20, 25 anos pra cá (conforme costumam sugerir as renomadas listas de melhores filmes). Irmãos Cohen, Lynch, Tarantino, Kieslowski, De Palma, Scorsese, Ferrara e o próprio Spielberg não são diretores de núcleo de Pantanal pelo que eu sei.

Mas também pudera. O mundo viu o videoclip e a MTV explodirem em efeitos multicoloridos dentro das de 14 polegadas, o VHS arrasando milhares de salas de cinema pelo mundo. Viu a indústria pornô se desenvolver num impulso de liberação que já movia a produção exploitation e de terror/comédias que ganhavam os jovens na mesma proporção que fazia os grandes e velhos mestres desejarem o suicídio. Isto como se houvesse algo de muito errado em fazer cinema com um único objetivo: divertir.

São inúmeras as produções oitentistas que, transportadas diretamente para as tardes entre um pouco de Road Rash e O Incrível Mundo de Beakman, marcaram toda uma geração. E se muitas vezes nem são lembrados exatamente pela qualidade, guardam um cheiro inconfundível de infância e anos 80. Filmes absoluta e maravilhosamente datados como Namorada de Aluguel, Os Caça-Fantasmas e Os Gremlins não possuem muito sentido vistos fora deste contexto (embora eu considere isto impossível). E tantos outros… Os Goonies, Meus Vizinhos São um Terror, Short Circuit, O Garoto que Podia Voar, O Vôo do Navegador, E.T., De Volta Para o Futuro, Quero Ser Grande, Férias Frustradas, Garotos Perdidos, Adorável Andróide…
 
Eu poderia ficar horas aqui falando de filmes que não vejo há 10 ou 12 anos e que habitam como obras-primas a memória (e a imaginação, muitas vezes convenientemente usada para preencher lapsos). Mas acho que basta versar sobre um deles, logo abaixo.

E dizer que se por um lado o cinema autoral perdeu espaço vertiginosamente ao longo dos anos 80, sempre houve e haverá lugar para o talento. E que falar que um De Volta Para o Futuro é menos cinema que qualquer vanguarda européia é não apenas ser simplista como se autolimitar, e impor regras à arte, que é livre, volátil e incapaz de se concentrar num único ponto por muito tempo. Porque a década até pode ter sido perdida, mas só pra quem estudava à tarde, não tinha televisão ou morava em caverna.

Curtindo a Vida Adoidado (John Hughes, 1986)

Curtindo a Vida Adoidado aparece na metade dos anos 80 tanto como um ato de revolta àquela idéia pasteurizada de juventude perdida quanto como a sugestão bem direta de que, talvez, um pouco de perdição simplesmente não faça mal a ninguém.

Que o filme é um daqueles grandes clássicos da Sessão da Tarde já é desnecessário dizer, mas as razões para a solidificação e inclusive potencialização do ‘título’ merecem uma ou duas palavras. Primeiro que Curtindo a Vida é um documento de persuasão extremamente poderoso, de certa forma controverso e, principalmente, assumidaço sem qualquer pudor. E o tom professoral de Ferris Bueller do início (inegável também que aquele mini-manual de “como enganar os pais” é uma provocação direta e divertidíssima) é pego como referência e instituído essencialmente em cada cena do filme até o final.

Daí que o que parecia um simples matar aula de um adolescente dos anos 80 se transforma num mapa ilustrado para o carpe diem, e Ferris nem é mais a flecha, mas o arco e o alvo também. Não há nada de especial na “mensagem” do filme, e apesar de esta simples pretensão (filmes com mensagens e ensinamentos e essas merdas) já soar irritante, Curtindo a Vida é um dos poucos exemplos que passam por cima do ‘conteúdo’ com uma ‘forma’ irresistivelmente sedutora.

Um dos grandes truques do cinema, talvez até uma mágica genuína, é este poder tão nobre de desencarnar pessoas de suas vidas e seus mundos e atirá-las a uma quase eletrosfera da imaginação, fazendo-as encontrar em si mesmas – e onde menos esperavam – uma porção de encanto e de feitiço que parecia inexistir. Assim funciona na recriação de uma eficiente atmosfera ou no retrato de um personagem quase que gravitacional. Porque o mundo gira em torno de Ferris Bueller, e nós vamos com ele num carrossel com um propósito não de alcançá-lo, nunca, mas de gerar mesmo e apenas essa embriaguez de onipotência e “don’t worry” que o personagem exala tão naturalmente.

Ferris não existe, assim como um ideal, um sonho ou um modo de vida não podem ser fotografados e documentados. Ele é tão surreal e abstrato quanto suas palavras que, levadas ao extremo, são nada menos que a personificação dele mesmo. Daí que como guia, como encarnação de uma filosofia e de uma mensagem, Ferris Bueller cria uma lenda para ser seguida e nunca alcançada. Pois podemos até girar em torno de Ferris, mas estamos mesmo ao lado de Cameron, o tempo todo.

É com ele que vemos Ferris passear entre medos inatacáveis, que o vemos entrar num desfile como se simplesmente pudesse fazer tudo que quisesse. Que ouvimos um tão óbvio mas às vezes impossível “viva um pouco”. Porque Twist and Shout é entoada como uma canção de marcha em favor de marcha nenhuma, de um anti-movimento, de uma despreocupação com os ismos, do culto e da crença em quem realmente interessa: si mesmo.

É na base dessa confiança inabalável que o day off de Ferris Bueller é construído, que Cameron manda tudo pro inferno ao menos uma vez e consegue sem muito esforço o melhor dia de sua vida.

Curtindo a Vida Adoidado permanece insubstituível por provocar no espectador uma identificação e refletir também uma dúzia de sonhos tipicamente adolescentes, e que não deveriam morrer nunca. Por ser um dos filmes mais divertidos de sua época, por ter esta ÉPOCA cristalizada o fazendo um dos representantes mais fortes de uma geração e de uma década que tem hoje seu auge de nostálgicos. Pelas cenas icônicas, pelos momentos inesquecíveis como o apoteótico e delirante desfile, o confronto de Cameron consigo mesmo na cena com a Ferrari, na representação não menos que extraordinária de Jeffrey Jones para um dos vilões mais memoráveis e divertidos do cinema. Porque assistir Curtindo a Vida é fazer uma viagem de volta aos anos 80, de volta a um tempo em que matar aula representava algo como uma aventura, é se dar conta de que o tempo pode ter passado sem que fizéssemos tudo aquilo que adoraríamos fazer um dia, sem perceber ainda que não há muito que nos impeça além de nós mesmos.

Pare de se preocupar, arranje uma Ferrari e viva um pouco.

Luis Henrique Boaventura

5 Comments

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5 Responses to Década de 80 (Especial James Dean)

  1. Com o perdão do palavrão: Puta que pariu, que texto!!!!!!

    É por isso que temos o Luigi como um dos editores!!!!

    Ah, e “Curtindo a Vida Adoidado” é bem isso que o Luigi disse na resenha: um ode a uma época tão prazerosa para nós, um ode a nostalgia, a personificação em forma de filme do “carpe diem”, enfim, uma das lembranças mas memoráveis da minha infância (e, garanto eu, de muitos por aqui). Por essas e outras que esse filme estava no topo do meu último top.

  2. Thiago Macêdo

    que isso, sou todo inveja! e não é puxação de saco, não (para o leitor que chegar e pensar isso…), o chefinho é o cara mais foda de todos! o texto sobre a década de 80 é um manifesto (eu já tinha ouvido o Rosselini dizer que o cinema acabou)! e o texto sobre Ferris é simplesmente mágico, fascinante, me faz querer rever o filme agora e sair por aí interrompendo desfiles, hoje mais pela sua escrita que pelo filme em si!

    queria eu ter escrito tudo isso! vários pontos de exclamação para você!!!!!!

  3. Rodrigo Jordão

    Puta texto mesmo, emocionante até (e olha que eu sou osso duro). O Foras émeu escritor favorito.

    Quero rever o filme, agora à tarde. E dublado.

    !!!!!!!!!!!!!

  4. nao consegui ler nada é muito grande esse texto demorei um tempão pra entende pra mim é uma porcaria

  5. enxak1

    Try again.