Assim Caminha a Humanidade (George Stevens, 1956) – (Especial James Dean)

A primeira imagem que temos do filme é o enorme Texas, cercado de nada por toda a parte, com um riacho se insinuando mais a frente. Logo vemos uma nuvem de poeira se aproximando, um rebanho de gado sedento, correndo o máximo que podem até seu pote de ouro. A medida que se aproximam o rebanho diminui a velocidade, quando a água está diante de seus olhos eles caminham calmamente, ordenados, até suas bocas encontrarem a recompensa. E depois? Depois são gados com sua sede saciada, nada mais. O riacho tão excitante de antes vira uma poça no meio do deserto.

O que o ser humano busca? Matar a sede? Matar a fome? Matar o que? Ter dinheiro o suficiente para… O que? E depois?

Assim Caminha a Humanidade narra a história de várias gerações de uma mesma família Texana, mostra as mudanças de um País com descoberta e consolidação do “ouro negro” nos Estados Unidos, denuncia o preconceito descabido em uma América supostamente em estado de evolução, mas acima de tudo lança e brinca com a proposta do: o que na verdade é a evolução, e o contrário disso? Em Assim Caminha a Humanidade o mundo evolui da mesma forma que seus personagens evoluem, e pra mim isso é o mais interessante mostrado.

Jordan – Bick – Bennet, um Texano ferrenho, daqueles que não consegue separar o lado político do pessoal. do tipo “falou do meu digníssimo Estado falou da minha digníssima mãe” (visão parecida que o Brasil tem dos Gaúchos), vai até a propriedade de um fazendeiro, em outro estado, para comprar um puríssimo sangue rebelde, do qual nunca deveria ser montado por uma mulher – Menos Leslie. E o encontro com o animal é justamente também com Leslie, filha do Fazendeiro. Imediatamente Bick apaixona-se pela moça, devido sua sinceridade e espírito confrontador. Leslie não esconde quem é, já em seu primeiro encontro com ele o acusa de ganancioso e ofende seu Estado. Mesmo ofendido o inevitável acontece, ele se apaixona pela rebeldia da moça e se casam. Lua de mel blá,blá,blá. Se conhecem a poucos dias e Leslie acompanha seu marido até sua nova casa, no Texas.

O choque é inevitável. Trocar o verde acolhedor da fazenda de seu pai, pelo laranja agressivo do redor de sua nova casa. O som dos pássaros beijando as plantas, pelo ronco do vento que mais parecia uma navalha (do tipo que pesava no ar, como se pudesse montar nele). E aí que realmente surge Leslie. O tipo de mulher que não precisa se adaptar ao ambiente, o ambiente que se adapte a ela. Já nos primeiros minutos no seu novo lar as diferenças nas personalidades dela e de seu novo marido começam a aparecer. Enquanto Leslie é uma idealizadora (e naquela hora talvez nem saiba ainda), na qual trata todos iguais, independente do que seja; seu marido mostra-se preconceituoso e arrogante. E pra piorar, Leslie tem um encontro com Luz, irmã de Bick e até então a mulher da casa. A única semelhança entre Luz e Leslie é a de não se importar em mostrar quem realmente são, ofenda quem ofender. E Luz não faz questão de esconder que a presença de Leslie na casa a desagrada.

Os primeiros dias da moça em seu novo lar são um inferno, ter que aturar a irmã megera que faz questão de mostrar quem manda, se adaptar a uma cultura totalmente diferente da sua, o descobrimento que ela e seu marido talvez não tenha tanta coisa em comum assim, e que agora mostrava todo seu preconceito até com ela, que o impedia de participar das conversas políticas apenas por ser mulher… E é aí que surge Jett Rink (James Dean), o personagem mais interessante do filme. Um misto de Foster Kane com a própria personalidade do ator. Cheio de ambição, cheio de paranóias, e completamente apaixonado por Leslie. Rick é um peão que trabalha nas terras de Bick. Bick não gosta de Jett, e a recíproca é a mesma. O único motivo que faz com que Jett ainda trabalhe naquelas terras é Luz, que nutre muito carinho pelo rapaz. E é aí que o filme começa a brincar com o espectador e a proposta: do que diabos é evolução? Tudo se encaminha perfeitamente para o caminho mais manjado possível: a moça idealizadora casa-se com o bruto preconceituoso, que será libertada pelo rebelde espirituoso. Mas não é bem assim. Os anos vão se passando, nenhuma personalidade vai mudando, e mesmo assim as coisas se mostram exatamente iguais. Leslie com Bick, e Jett sozinho.

O tempo passa e Luz morre em um acidente de cavalo (o cavalo que Bick foi comprar quando conheceu Leslie). Ela deixa em seu testamento um punhado de terras para Jett. Bick oferece o triplo do que aquelas terras valiam apenas para voltar a ter todo o controle de seus hectares de volta, mas por arrogância, ou talvez “visão de mercado”, Jett prefere ficar com o presente que lhe foi deixado. E faz bem, já que certo dia, Leslie vai visitar Jett em sua nova casa em sua nova terra, e acidentalmente, na despedida, pisa em um lamaçal fazendo com que um óleo preto surja do chão. Mas antes que ela pise, antes de ir embora, Jett e Leslie têm talvez a conversa mais importante do filme e que, de certa forma, já antecipa o futuro de cada personagem. Jett pergunta brincando se, por acaso, Leslie não teria alguma irmã bonita interessada em um cara pobre sobrando, e essa retruca alegando que “dinheiro não é tudo, Jett”, e ele em tom irônico responde “não quando você o tem”. De certa forma, e pelo que o filme mostrou até aí, Jett não está completamente errado. A própria Leslie, paixão da vida dele, só estava no Texas naquele momento porque um homem rico, dono de mais de meio milhão de hectares de terra, conseguiu a permissão do seu pai para levá-la para outro Estado consigo. Se até Leslie, com todo seu aparente descaso com o dinheiro, só conseguiu se apaixonar por um homem rico, não é absurdo pensar que infelizmente a evolução do ser humano esteja diretamente ligada a evolução do seu bolso, ou que evoluir para os olhos de quem vê seja muito mais importante que evoluir para o que você acha certo sendo evolução. E quando Leslie se despede de Jett o óleo negro surge do chão.

O tempo passa mais. Enquanto Leslie e Bick vivem (ou sobrevivem) em um casamento resumido pelo marasmo, Jett vira um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Enquanto Leslie e Bick resumem sua vida a encaminhar o futuro dos seus filhos, agora ja crescidos, Jett resume sua vida a fazer a mágica da multiplicação das verdinhas. O pensamento conservador de Bick em apenas produzir gado em suas terras o deixa para trás no mercado econômico, enquanto Jett vai se tornando uma das pessoas mais poderosas do mundo no ramo do petróleo. Bick é obrigado a se render a Jett e admitir que a pecuária já não tem como concorrer com os poços de petróleo, e cede a pressão de deixar Jett perfurar suas terras por um preço bem razoável. E então finalmente a virada que o filme tanto sugestionava acontece: o peão vira rei e o patrão cavalo. Mas mesmo assim… Leslie ainda está com Bick. Jett ainda está sozinho. Jett está absurdamente rico, como Bick jamais sonhou ser. Mas de certa forma, nada muda, a não ser por Jett, que de um pobretão espirituoso, vira um ricaço preconceituoso e infeliz. Acabam-se os lados bons, Jett vira Bick e a obviedade da história vai pros ares.

É nessa parte que as mudanças começam a acontecer e o diálogo de antes entre Jett e Leslie se torna tão importante. O tempo passa, de novo. Bick agora já não tem mais a pressão de cuidar de suas terras, já está com a vida feita devido ao “presente” que recebeu de Jett por deixar suas terras serem perfuradas. Seus filhos decidem não mais seguir seu caminho, e um deles, o qual Bick tinha depositado todas as esperanças quanto a seguir com a tradição da família, além de resolver seguir o caminho da medicina, se casa com uma imigrante. Bick inda é o preconceituoso de antes, só que mais “relaxado”. O ambiente o transformava aos poucos em um cara não tão ruim. Então ele e toda sua família são convocados a comparecerem em uma festa onde o homenageado será Jett que falará através do rádio para o País inteiro. No momento em que deixou com que suas terras fossem perfuradas, praticamente virou um funcionário de Jett, e então, sem escolha, vai, com toda sua família. E é aí, quando os dois homens ficam cara a cara mais uma vez que temos a real dimensão do quanto o externo pode corromper o interno, que o que importa é o que nos cerca, e não exclusivamente o que somos. Jett é um beberrão (antes não era), arrogante (antes nem tinha como ser) e o preconceito exalava pelos seus poros. Enquanto Bick continua mudando e surpreendendo, como quando se enfurece por saber que algumas cabeleireiras se negaram a atender a esposa de seu filho por essa ser imigrante, a mando de Jett. Ou quando já no caminho de volta da festa, Bick e parte da sua família (incluindo aí a esposa imigrante de seu filho), param em um restaurante de beira de estrada para tomar café. O dono do restaurante é praticamente o reflexo de Bick alguns anos atrás, de Jett, agora, da suposta América evolutiva com seus poços de petróleo, ou da América antiquada, onde a pecuária prevalecia. O dono do restaurante era o símbolo da América estagnada que os cercavam, e das pessoas que a faziam. Bick se revolta ao ver esse homem expulsando uma família de imigrantes apenas por serem imigrantes, e parte pro soco com o sujeito. O homem preconceituoso que era Bick, agora lutando apenas pela honra e justiça de pessoas que ele nem conhecia. Uma evolução de caráter. Evoluiu porque deixou de ser preconceituoso e um idiota? Principalmente por que descobriu o que realmente traz satisfação para ele. E o que o fez evoluir? Esse é o final feliz? Ainda tem Jett…

Jett se torna o vilão? Não, o único pecado de Jett foi gostar tanto de Leslie ao ponto de não conseguir ter mais ninguém ao seu lado, e, em conseqüência ter como maior amante suas conquistas financeiras. Ele foi corrompido pelo mundo por não ter ninguém que o puxasse de volta. Bick era tão ruim ou pior que Jett, e mesmo assim teve sua redenção, teve Leslie, seu filho… Jett não teve a mesma sorte, e foi tragado pela podridão que o cercava. Onde que Bick acertou e onde Jett errou? Qual caminho que fez com que Bick e Jett alcançassem o desfecho que tiveram? Não fosse Bick ir à fazenda comprar o cavalo; não fosse ele ter conhecido Leslie; não fosse Luz ter morrido em acidente com esse mesmo cavalo; não fosse ela ter deixado as terras para Jett; não fosse Leslie ter descoberto o petróleo nessas terras; não fosse Bick ter impedido – mesmo que de forma preconceituosa – Leslie de viver rodeada ao mundo da política, economia, etc, e, de certa forma, a alienando da podridão, criando nela um mundo a parte do seu, que no final foi a sua própria salvação… A redenção nunca teria acontecido. Foi preciso um testamento, um passo em falso… Para que um homem tenha de fato evoluído, e em contra partida, para outro ter levado uma vida de merda. Bick então era melhor que Jett? Pode até ser, mas acho que o que definiu a mudança dos destinos dele foi algo muito mais fora do controle: a sorte. Não teve erro ou acerto, teve o acaso. Eu coloco os três personagens em um estado inicial igual. Aliás, todos os personagens do filme são um reflexo do mundo onde vivem. Todos começam como macacos, que podem chegar a seres humanos ou voltar para girinos, dependendo do ambiente que os rodeiam. Leslie foi criada em uma fazenda, Bick foi criado no meio da pressão de ser e ter mais, e Jett em um mundo onde foi e teve menos, mas sempre vendo quem era e tinha mais. Claro que não se pode desconsiderar a índole, mas não existe nada mais corruptível que o próprio mundo que o cerca, e isso que foi moldando o caráter de cada um deles. Bick foi salvo por Leslie, Jett quis tanto Leslie que seguiu o caminho “errado”. Mas o “vilão” virou “mocinho”, e o mocinho… Se fudeu. Onde o verdadeiro vilão da história era o mundo, os mais (bem mais) de meio milhões de hectares que eles pisavam.

Thiago Duarte

2 Comments

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2 Responses to Assim Caminha a Humanidade (George Stevens, 1956) – (Especial James Dean)

  1. Caio Lucas

    Adoro “Assim Caminha a Humanidade”, talvez considere este o melhor épico que vi.

    Quanto a atuação do cara, considero essa a menos magnífica. Talvez goste muito do filme só por causa dele, vai saber. Mas não importa…

    O melhor de George Stevens teve Dean.

  2. Paulo Cesar de Oliveira

    Para os fãs de James Dean, um levantamento isento de sua vida e enorme talento. Ícone, ídolo, símbolo – são palavras inevitáveis diante do fenômeno James Dean. A associação com Heath Ledger é inevitável, tanto pela morte prematura, quanto pelo carisma impressionante. A resenha sobre “Brokeback Mountain” está excelente, dando ao filme seu conteúdo mais profundo, inclusive citando cenas tristes mas importantes para a compreensão da obra. Parabéns, muito obrigado.