Juventude Transviada (Nicholas Ray, 1955) – (Especial James Dean)

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A eternização e a mitologia, que vêm sido amplamente discutidas aqui, são, para mim, algo de bastante significado – e peculariadade. A procura insaciável a elas pode levar a uma tragédia; mas uma tragédia pode forçar ao encontro delas. É aquela velha questão: “o homem faz a história ou a história faz o homem?”. James Dean foi o maior exemplo disso no cinema – quiçá como Napoleão e Hitler para os livros de história -, e, apesar do brilhante Giant (e de um possível excelente desempenho em Vidas Amargas, ainda não visto), só encabeça este panteão graças à relação da juventude de sua época, sua própria vida e Juventude Transviada (cujo título nacional, ainda que tome partido, por ser sinônimo de “desviada” e, conseqüentemente, de algo errôneo – enquanto “Rebel”, do original, foi um termo que ganhou mais valor e significância a partir dos anos 50, como visto no Especial – não é necessariamente mal aplicado), obra que chegou a ser proibida em cidades dos próprios Estados Unidos da Aérica, pois poderia incitar ou sugerir algo acintoso aos jovens.

A pose de Dean, com as pernas cruzadas, as mãos nos bolsos do casaco bistoso e o encosto meio desleixado, ganharia mais peso ainda do que as passagens de Marlom Brando, por exemplo, em obras como Sindicato de Ladrões e O Selvagem, tornando-se ícone na década e referência hoje mesmo para os desconhecedores da obra – alguns diriam que virou até um símbolo pop ocidental do século XX, que perdura. O que Juventude Transviada trouxe, além disso, para merecer tal destaque e tantas discussões, para a história é o que engrandece o filme; o primeiro de Nicholas Ray (que, durante a pré-produção, de tão empenhado na idéia, desistiu de dois roteiristas) em CinemaScope.

Jim é um récem-chegado a uma cidadezinha americana qualquer e, na véspera de seu primeiro dia de aula no novo colégio, é pego bêbado e derrubado – por sinal, a abertura do filme, debochada, já ganha. É na delegacia que as três principais figuras do filme aparecdem, juntas, na “perdição” de seus caminhos. Judy (Natalie Wood) demonstra, de imediato, carência afetiva do pai, fugindo de casa para tentar conquistá-lo (e decepcionada ao saber que ele, nem assim, liga; uma vez que é sua mãe quem irá buscá-la). Por sua vez, o pequeno Platão (Sal Mineo) está somente com sua empregada: sua mãe, divorciada, viajou em pleno aniversário, que ele comemora matando animais. Por fim, os pais de Jim podem até oferecer a ele o dinheiro e – surpresa! – uma suposta dedicação caseira; todavia, ainda que pensem ser o necessário, são muito superficiais (vide uma fala, próxima do final, do pai de Jim: “I think I know my son”) e as discordâncias entre eles são lamentadas pelo rapaz.

Neste breve painel, o “ataque” crítico à figura paterna funciona ao se mostrar denso. Mais: bem faz o filme ao não optar por buscar grandes metáforas existencialistas, ou colocar questões sócio-políticas. Ou seja, há um foco exclusivo num sentimentalismo – e se há culpa na sociedade, isso não é o ponto principal da questão: ocorre apenas um relato de como os problemas “menores” são logo devolvidos (i.e., a delegacia, neste caso, só serve para pegar depoimentos rápidos e aparecimento dos pais, com sugestões de psiquiatras e conversinhas frouxas), pois são jovens de boa formação e não deveriam oferecer tanto problema a se atentar devidamente – entre quatro paredes que provoca o desequilíbrio inesperado. Contudo, enquanto a liberdade é recém lançada e de maneira ágil, e os pais estão cansados, após a II Guerra Mundial, os jovens vêem-se entediados pelas relações formais e pelo cotidiano irritante.

Não há repressão, barbárie ou desigualdade, mas sim falta de objetivos, falta esta preenchida por uma vida atônita, libertina ao extremo e com seus ‘desvios’ e riscos. E, como não recebem resposta (adultos sem reação, como o pai de Jim, que aceita os insultos e reclmaes de mãe e avó, culpando o exterior – daí as sucessivas mudanças – e não parando para pensar no interior), continuam fingindo-se. Assim, para serem aceitos, precisam de grupos fechados com “regras” e “padrões” distintos daquilo que vêem em casa. O grupinho de alunos provocadores testa Jim, após uma ecursão ao Planetário, com confrontos verbais e as facas (para variar, lembro-me de Laranja Mecânica e a sensação de prazer provindo das brigas de Jim com Buzz e entre as gangues é similaríssimo), além da Corrida da Morte que leva ao plot do filme.

Minutos antes da corrida, Buzz, namorado de Judy e grande oponente, mostra-se apenas mais um deles, talvez um “Jim” em outro estado, o que serve para tirar, de vez para quem ainda não percebera, um status de culpa do rival na corrida. Ele admite gostar de Jim; só que, de forma vaga, responde que aqueles duelos são necessários, ou seja, complementa as idéias supra-citadas. Diante do desespero da morte de um colega, os três garotos tentam se apoiar, mas não encontram resistência no seio familiar. Se o pai de Judy cumprimenta o filho pequenino, que leva uma arma e celebra a Era Atômica à mesa do jantar, nega-se a tomar a filha para um afago, justificando-se pela idade da garota, que é ruim (como se disesse à mãe e à filha que tenham calma, posto que os tempos melhores virão, o lance é esperar). Já o de Jim é patético ao se colcoar de avental e repetir chavões falsamente moralistas, que são ocos como os dramas existenciais de uma novela global. Com isso, tenta dizer que a idade é ótima para mentirinhas – outro a jogar a solução para o futuro, quando o garoto puder olhar para trás… Por fim, Platão tenta se agarrar cada vez mais à nova companhia, considerando Jim seu melhor amigo, mesmo tendo conhecido-o há horas (e orgulhando-se dele).

Após o falecimento de Buzz e com a sensação péssima de pessoa sem utilidade e que andou por caminhos duvidosos; reconhecendo-se pecador, mas querendo mais do que as palavras de remissão, e à procura de agir por algo bom, Jim sai de casa diante da fragilidade que lá encontra. Seus pais são estúpidos e é tristíssimo o momento em que o homem da casa silencia, cabisbaixo, a contragosto de seu flho, à mulher que tenta segurá-lo para que não delate o ocorrido. Afinal, problemas acontecem com todo mundo; alguém que resolva tudo e procure a verdade, pois seguimos em paz e não queremos ser perturbados ou nos perturbar. Na delegacia, nova decepção, pois aquele que lhe dera confiança não se encontra e as demais pessoas no lugar mandam-no para longe. Depois de muito tentarem, enfim, os jovens encontram um momento de união, fraternidade e ilusão numa mansão próxima ao Planetário. A seqüência leva ao doloroso desfecho de forma arrebatadora, embora eu mesmo tenha visto-a como uma tola preliminar do final na primeira vez em que vi o filme.

No encontro, Platão faz de Jim e Judy seus pais – vejam só, a satisfação ocorre quando os três passam-se por adultos, com piadinhas maldosas sobre a possibilidade de trazarem filhos ao lar (crianças são um saco; logo eles são um saco). Judy assume que só se exibira diante dos outros garotos e Platão também se abre, dormindo aos pés dos dois. Uma tomada aérea da piscina vazia é, sem dúvidas, um dos maiores planos de Juventude, ao conferir a sensação de tranqüilidade e pacífica vivência.

Findada uma série de mal-fadadas tentativas de acalmar Platão, a polícia afoba-se e provoca o fim anunciado. Ali, ao lado do Planetário, ao raiar de um novo dia – “quanto vale uma vida afina?”, o filme passa-se em pouco mais de 24h -, onde os confrontos começaram, mas também a relação fraternal; com o homem no espaço e, nas palavras do doutor, “a Humanidade, em sua própria existência, parece ser um episódio de poucas conseqüências”. A instabilidade da vida do jovem levou-o a ser emocionalmente frágil e, agora, vira um inocente que “não tem ninguém” nas palavras da empregada. Ou seja, a morte altera a percepção de como se vê uma pessoa. Não seria esse o próprio relato da persona James Dean? Talvez o casaco cedido pela personagem Jim ao garoto assassinado represente mais do que um gesto de solidariedade hoje.

A história faz o homem ou o homem faz a história? Dean morreu num acidente de carro, Wood afogada em circunstâncias duvidosas, e Mineo assassinado. Fato é que Juventude Transviada serviu à juventude, naquele momento, como o neo-realismo italiano e obras como Os Esquecidos ao Terceiro Mundo, e perdurou muito mais. Desilusório, inconseqüente, e talvez até banal. Sem dúvidas, a popularidade de um filme com um personagem chamado Jamie, sem idade definida, e com tudo isso, só podia transcender a própria sessão. E ter sido feito para a consagração, a eternidade e a mitologia.

Cassius Abreu

2 Comments

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2 Responses to Juventude Transviada (Nicholas Ray, 1955) – (Especial James Dean)

  1. Caio Lucas

    Sem dúvida um filme que faz refletir muito. Adorei desde a primeira vez que vi até se tornar um de meus preferidos, atualmente ocupando a 3ª posição (atrás somente de “Pierrot le fou” e “La Dolce Vita”).

    “Não há repressão, barbárie ou desigualdade, mas sim falta de objetivos…”

    Isso que você escreveu, Cassius, resume tudo que representa a obra, a própria juventude e etc. Belíssimo texto, parabéns!

    O melhor de Nicholas Ray teve Dean.

  2. Cassius

    Obrigado, Caio.

    Incrível como o filme também cresceu em meu conceito, assim como “Hair” (mas este eu já era fã, só não considerava nota 10 como agora) e certamente estaria disputando a liderança de um top da década de 50 com certeza, hoje.