Vidas Amargas (Elia Kazan, 1955) – (Especial James Dean)

Já no segundo ato de Vidas Amargas, Cal (James Dean) escala o telhado da casa de Abra (Julie Harris) para contar a ela sobre seu plano de fazer uma surpresa para o pai, no dia do seu aniversário. Espera contar com a ajuda de Abra, confidencia a ela tudo que ele havia feito até então para resgatar o dinheiro que o pai havia perdido em um negócio mal sucedido com alfaces, tempos antes e, mais que tudo, parece almejar uma espécie de perdão. Momentos antes, Cal havia se envolvido em uma briga, em defesa do irmão, mas logo em seguida bateu no irmão por conta da incompreensão deste diante de suas atitudes. Cal anda sem direção e está prestes a cair, durante todo o tempo, e mais uma vez isso quase acontece ao se despedir de Abra e começar a descer o telhado: Abra dá um grito que impede que Cal caia lá de cima, ao que logo ele questiona sobre como ele teria chegado até lá; Cal percorre caminhos às escuras para chegar sempre à beira do precipício. Abra, neste momento, o salva, mas nada garante que isso será possível por muito tempo. A seqüência citada é específica, mas não é única dentro do filme dirigido por Elia Kazan, adaptação do romance semi-biográfico de John Steinbeck, pois em Vidas Amargas existe a perene sensação de suspensão da estabilidade e tudo que se pode enxergar em cena, desde o primeiro instante, é o anuncio de uma tragédia catastrófica.

Em um primeiro conflito, Cal busca a aproximação de uma senhora desconhecida, que vive em uma cidade próxima da dele, mas distante ao mesmo tempo, cujo acesso só é possível depois de uma longa viagem de trem, que Cal faz em cima dos vagões, sujeito a todo tipo de risco. Cal volta para casa sem ter conseguido falar com a senhora, encontra o irmão que o ama, mas com quem não consegue se comunicar. E também com Abra, sua futura cunhada, uma pessoa que desconhece as intenções de Cal, mas se vê instigada a decifrar o enigma. Cal encontra seu pai, que mal olha em seus olhos ao lhe repreender por não ter dado notícias, por não se importar. Em poucos minutos estamos situados num mundo aparentemente tranqüilo e próspero (o pai de Cal está empreendendo em um negócio pretensamente revolucionário), um paraíso em Terra, como indica o título em inglês, East of Eden (sendo o Éden, o paraíso bíblico). Mas o que podemos assegurar é que a presença inconstante e perturbadora de Cal nesse mundo de paz é o único aspecto de realidade que se exibe diante de nossos olhos. Cal se acha mau e acredita que isso seja herança de sua mãe fugitiva, aquela que o pai fez com que acreditasse que estivesse morta. Ao confrontá-lo sobre os motivos da partida de sua mãe, sobre sua personalidade, Cal percebe que o que o distancia do pai – e do amor que ele sempre esperou – era justamente o fato de ser como a mãe e que as atitudes dela deveriam ter machucado demais o pai para que ele fosse incapaz mesmo de amar o próprio filho. Cal clama para que o pai fale com ele, para depois, já na presença da mãe, fazer o mesmo pedido doloroso para ela. Dos olhos de Cal e das mãos estendidas, nos é atirado uma dor insuportável, reflexo da mais completa impotência perante o amor mais básico, o amor entre pais e filhos. A existência de Cal, marcada pelas perambulações tortuosas durante a vida, é um dos retratos mais terríveis já compostos no cinema, resultado do magistral trabalho de James Dean e Elia Kazan.

Quando escalou Dean para o papel, Kazan o fez justamente por não achar que o ator fosse eloqüente ou organizado, capaz de criar um personagem substancialmente afetado por tanta dor; Kazan sabia que em Dean residia esta dor, essa bagunça existencial, sabia que Dean, assim como Cal, parecia vagar pela vida sem um ponto de conversão específico. Dean era Cal e foi com essa constatação que o diretor levou adiante sua construção dramática. Entre a liberdade artística de James Dean, incapaz de se ater às falas tal como escritas no roteiro ou manter o ritmo da cena sempre do mesmo modo, e o rigor da interpretação de Raymond Massey, que faz o pai de Cal, Adam, Kazan trabalhou as desavenças profissionais que se estabeleceram entre os dois em função de seus personagens. O que vemos em tela, por exemplo, é o terror com que Adam encara Cal, não sendo capaz de abraçar o filho após recusar o presente de aniversário que este lutou tanto para conseguir, ainda que Cal estivesse sucumbindo diante de seus olhos. Adam é incapaz de olhar Cal diretamente, e o resultado impressionante é fruto do próprio ódio com que Raymond Massey encarava James Dean, fazendo movimentos bizarros – para Massey – e não previstos anteriormente. O que estava em cena era real, ainda que ficcional, e como o próprio Kazan dizia, “nenhum diretor seria capaz de conseguir aquele desprezo”. Kazan ainda jogava o jogo dos atores ao captar os momentos mais tensos entre Cal e Adam com câmeras improváveis, que se posicionavam em uma angulação imperfeita, instável (como na cena do balanço), buscando um entendimento daquela relação não compreendida, mesmo tão claramente distante.

Essa noção de realismo dentro da ficção desenvolvida em Vidas Amargas é reiterada quando os conflitos internos de Cal vão além de sua busca pela verdade sobre a mãe, além de seu amor não correspondido pelo pai, além de seus atos impensados. Cal se deixar levar pelo ciúme do irmão (este, reflexo do pai e “bondade em pessoa”, como o próprio Cal proclama) e o encaminha a “ver a verdade”, questionando se é possível que ele a aceite como tal. Na tentativa de ferir o seu irmão, seu semelhante, Cal assina a tragédia e abre o caminho para o fim, da história como relato, da vida como um todo. A morte anunciada desde o princípio é latente e passa a consumir o próprio ser ainda vivo, para que a culpa possa dar cabo do resto. Esse real é levado aos primórdios da crença da humanidade, do ponto de vista bíblico, já que o paraíso ali já está violado, a figura básica a ser seguida (Adão ou Adam, em inglês, o primeiro dos homens) fica distanciada e o que restaria ao que pecou seria a fuga. É sugerida a Cal que seu destino seja este, quando o xerife cita a bíblia em: “Caim levantou-se contra seu irmão, Abel, e o matou. E Caim retirou-se e habitou na terra de Node, ao leste do Éden”. Mas Cal, diferente de Caim, buscará ainda por sua redenção, que é o que faz desde o princípio e fará até o fim, mesmo que não seja verdade. Assim como Dean.

Thiago Macêdo Correia

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2 Responses to Vidas Amargas (Elia Kazan, 1955) – (Especial James Dean)

  1. Caio Lucas

    Foi a maior estréia de um ator protagozinando seu primeiro filme. Maior que ele só Stallone, talvez, em Rocky.

    Ganhou o papel simplesmente do finado Paul Newman, quer dizer… se ele evoluísse mais ainda duvido que hoje ele não seria o maior retrato do cinema (como já é, mas não para todos).

    Adoro dramas, esse sem dúvida é um de meus 10 ou 20 favoritos.

    O melhor de Elia Kazan teve Dean.

  2. O melhor de Elia Kazan teve Dean