A Fronteira da Alvorada (Phillippe Garrel, 2008)

Grande supresa. Confesso que não esperava muita coisa desse filme francês, mas é muito bom. Versa, através de uma fotografia fabulosa em P&B, de um elenco até certo ponto minimalista (mais da metade do filme é feito apenas pelos dois atores principais) e de uma direção que aposta nos planos fechados e nos closes, sobre o amor e suas consequências. A fotografia, atrelada a uma trilha sonora composta apenas de melodias harmoniosas no cielo, representa muito bem o estado de espírito dos personagens principais, mostrando que, a paixão e o amor são, antes de tudo, sentimentos ligados a tragédia de alguma forma. Recomendadíssimo!!!!

4/4

Adney Silva

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Marilyn Monroe (Especial James Dean)

1926 - 1962

Ao se referir ao mito imposto no cinema pela figura de Greta Garbo, Paulo Emílio Salles Gomes disse que “(…) podemos admitir que no teatro o ator passa e a personagem permanece, ao passo que no cinema sucede exatamente o inverso. Nas sucessivas encarnações através de inúmeros atores, permanece a personagem de Hamlet, enquanto no cinema quem permanece através das diversas personagens que interpreta é Greta Garbo. (…) O que persiste não é propriamente o ator ou a atriz, mas essa personagem de ficção cujas raízes sociológicas são muito mais poderosas do que a pura emanação dramática.” O mesmo pode ser colocado com relação ao que se estabeleceu com Marilyn Monroe, de forma ainda mais complexa que com relação à Garbo, já que Marilyn, além de ser a atriz que interpretava as personagens, era também a personagem principal que Norma Jean Baker interpretou por 16 anos, dos primeiros pequenos trabalhos até o fim turbulento, em 5 de agosto de 1962, quando já era considerada a maior das estrelas do cinema.

Marilyn Monroe se referia a ela mesma, no final de sua vida, em terceira pessoa, numa espécie de consciência de sua própria condição de mito e que sabia que não era capaz de sustentar a própria presença. Fazia tempo que a estrela era viciada em calmantes, combustível necessário que a auxiliavam a manter a força na subida rumo ao topo. E Monroe atingiu o topo, que era justamente o que sempre sonhou. Ela queria ser a mulher mais conhecida, mais desejada do mundo, e sua figura platinada e curvas voluptuosas lhe deram o status almejado ainda mais rápido que imaginava. Em 1950, Monroe fez pequenas participações em dois filmes importantes, O Segredo das Jóias, de John Huston, e A Malvada, de Joseph L. Mankiewicz, este no papel de uma jovem admiradora de Margo Channing, interpretada magistralmente por Bette Davis, que mesmo ela não ofuscou a aparição de Monroe. Notada por vários, a atriz começou a erguer sua carreira para logo passar para os papéis principais e ser elevada à condição de diva. Monroe trabalhou com os melhores diretores, de Otto Preminger (O Rio das Almas Perdidas) a Jean Negulesco (Como Agarrar Um Milionário), dando cada vez mais importância à sua figura de símbolo sexual. Com alguns deles ela estabeleceu uma parceria mais constante, como com Howard Hawks, com quem fez O Inventor da Mocidade e Os Homens Preferem as Loiras, que tem uma das cenas mais icônicas que Marilyn Monroe fez, usando um vestido rosa, cercada de homens que estão dispostos a dar tudo para ela, inclusive os diamantes mais caros do mundo. Mas foi em O Pecado Mora Ao Lado, primeiro de seus filmes com Billy Wilder, que Marilyn fez sua cena símbolo: passando pela calçada junto do homem que a deseja mais que tudo e tenta resistir à tentação, a personagem de Monroe é surpreendida pelo vento da calefação do metrô, que levanta seu vestido branco revelando suas pernas – e outras partes – sem que ela consiga controlar. Não somente é a principal memória que se tem de Marilyn, como é um dos momentos mais celebrados na história do próprio cinema.

Marilyn Monroe iria retornar a trabalhar com Billy Wilder em Quanto Mais Quente Melhor, mas como acontecia com quase todos com quem trabalhava, Marilyn tirava Wilder do sério, irritando o diretor com atrasos, falta de concentração e dificuldade em decorar as falas. Mas Wilder sabia que Marilyn era a figura necessária para dar vida à doce e sexual Sugar Kane, e soube manipular a atriz a fim de extrair dela o resultado esperado. Com isso, Quanto Mais Quente Melhor passou a ser considerada a comédia mais engraçada de todos os tempos e Marilyn Monroe levou o prêmio de melhor atriz de comédia, no Globo de Ouro de 1960, sendo preterida sob protestos a uma indicação ao Oscar. Marilyn queria ser a maior das estrelas, mas passou a trabalhar para ser uma boa atriz também. Fez aulas com Lee Strasberg, no famoso Actors Studio em Nova York e teve Paula Strasberg como mentora nos últimos trabalhos que fez, sendo incapaz de dar um passo sequer sem a autorização de Paula (que era odiada nos sets de filmagem). Desse modo e com as confusões emocionais derivadas de seus divórcios, um de Joe DiMaggio (o maior dos jogadores de baseball), outro de Arthur Miller (o maior dos dramaturgos americanos), Marilyn tinha sua vida controlada por Paula Strasberg, nos filmes, por sua agente e por seus médicos. A atriz já havia se afastado do cinema por 1 ano, devido a seu estado emocional, depois de fazer Os Desajustados, segundo filme com John Huston e último inteiramente concluído, quando foi incentivada a estrelar Something’s Got To Give, de George Cukor, que ficou inacabado depois de Monroe ter sido demitida devido aos sucessivos atrasos e desculpas de doença para não aparecer para filmar.

O caos emocional tomou conta de Marilyn que, mesmo tentando retomar as gravações do filme de Cukor e deixar de lado a imagem que circulava na mídia de que era uma tola, não conseguia se manter estável por muito tempo e acabou tendo uma overdose de calmantes, poucos dias depois da decisão do estúdio de continuar com a produção do filme. O legado de Marilyn Monroe residiu em sua imagem intocada de maior símbolo sexual do cinema em todos os tempos, não manchada pelas confusões de sua vida pessoal. Pois, como disse Billy Wilder, “Há uma certa semelhança entre Marilyn e a II Guerra Mundial: ambas foram infernais, mas valeram a pena”.

Quanto Mais Quente Melhor (Billy Wilder, 1959)

“A comicidade é a presciência do espectador. Ele é mais esperto que os personagens no filme, porque o filme o instrui sobre seus truques. (…) Mas tão importante quanto isso é que o espectador seja instruído somente em parte sobre os truques do diretor (…). O espectador é mais esperto que os personagens na tela, mas menos esperto que o diretor, que sempre está um passo adiante e sabe manter a surpresa.” – Billy Wilder

Mais que ninguém, Billy Wilder soube trabalhar o elemento de preparação de uma piada dentro de suas narrativas, com calma suficiente para saber soltá-la no momento certo. Em Quanto Mais Quente Melhor, mais que em qualquer outro filme, esse momento certo sempre aparece depois da sugestão que nos induz ao erro, pois no filme absolutamente nada é o que parece.

A primeira cena, logo após os créditos iniciais, mostra um carro fúnebre e dentro dele homens sérios e um caixão. A música é alegre, apesar de contrastar com a aparente solenidade da situação. Logo em seguida, vemos um carro de polícia seguindo o carro fúnebre e que começa atirar, para depois vermos os homens que estão dentro do carro sacarem armas escondidas e um tiroteio tomar conta da tela. O caixão é acertado por algumas balas e de lá vaza um líquido, que saberemos depois ser bebida contrabandeada. E um letreiro que nos situa em “Chicago, 1929”. Em apenas 3 minutos, Billy Wilder constrói a base inicial fundamental de sua narrativa, que se passa na época da Lei Seca, época de gângsters e da Grande Depressão, tudo isso sem nenhum diálogo sequer. E isso se seguirá durante todo o filme, seja por meio da interação dos atores com o cenário que os rodeia, seja pelo enquadramento da câmera, seja pelos extraordinários diálogos de duplo sentido propostos pelo diretor, onde tudo que parece ser não é. O que a princípio poderia ser um filme sobre a máfia e a depressão econômica se revela uma comédia de erros, quando finalmente somos apresentados a Jerry (Jack Lemmon) e Joe (Tony Curtis), dois músicos que tocam na banda que anima o bar dos mafiosos e que fogem de lá quando ocorre a batida policial. Empenhado em conseguir dinheiro, Joe convence Jerry a apostar seus casacos (já que nem tinham mais dinheiro) em uma corrida de cães e, depois de perdê-los, passam a vagar por uma Chicago fria, à procura de trabalho. Eles buscam em uma agência de empregos por vagas para um contrabaixista e um saxofonista e só descobrem que uma banda feminina, que irá fazer shows na Flórida, precisa de duas garotas para as vagas. Depois de presenciarem por acidente uma chacina executada por um famoso mafioso, eles decidem se disfarçar de mulheres e entrar na banda, para fugir da morte iminente – e do frio de Chicago, por tabela.

Toda essa introdução é necessária para compreender a genialidade com que Wilder trabalha seus personagens, já que a construção primeira os leva a encarar um problema (fugir da máfia, afinal não é de costume deixar testemunhas de assassinatos vivas para prestarem depoimentos), mas o problema os faz enfrentar o real drama da narrativa (que evidentemente terá o caráter mais cômico possível): os personagens terão que se travestir de mulher para manter o emprego na banda e salvarem suas vidas, e ainda por cima resistir à tentação que é estar rodeado de mulheres bonitas, dentre elas Sugar Kane (Marilyn Monroe), a própria definição do ideal do pecado nas mentes masculinas. É assim que, somente aos 25 minutos de filme, Wilder apresenta Monroe em cena, exuberante ao tentar pegar o trem. Os dois músicos, agora travestidos de Josephine (Curtis) e Daphne (Lemmon), ficam impressionados com a beleza voluptuosa de Sugar, mas são obrigados a se controlar para que suas identidades verdadeiras não sejam reveladas. Mas Wilder, não pretendendo deixar passar desde a primeira aparição de Monroe o idílico teor sexual de sua figura, faz intervir em sua passagem uma fumaça e dois apitos que saem do próprio vagão do trem, uma alusão ao que seriam os assobios que os dois músicos dariam caso pudessem e uma breve apalpada em Monroe, que a faz desviar. É o Lubitsch Touch que Wilder sempre fez questão de deixar presente em seus filmes, em reverência a seu mestre maior.

Munido da introdução que caracteriza o drama de seus personagens e os problemas que seguirão daí, Wilder estrutura o restante de sua narrativa a fim de não preservar em seus personagens nada intacto, o que os faz entrar em uma roda instável de riscos. Para tanto, utiliza muito das próprias características pessoais dos atores, Monroe principalmente. Sendo Sugar a tentação a ser evitada – e nunca respeitada, já que logo após Jerry/Daphne arrastar suas asinhas para a moça, é Joe/Josephine que decide jogar encanto sobre ela, se disfarçando como um milionário herdeiro de petróleo -, Wilder trabalha na figura dela todo o caos pessoal que envolvia a própria vida de Monroe. Mitificada ainda em vida e celebrada como a mais desejada das mulheres do planeta, Monroe era tida como burra e superficial, mas se valia de tais expectativas para criar um personagem, a própria Marilyn Monroe. Mas Norma Jean (nome de batismo de Monroe) era uma mulher que buscava o amor e sofria com a exposição de seus problemas e posterior descrédito de sua estabilidade emocional. Tudo isso é trabalhado em Sugar Kane, que se admite burra, por sempre voltar para o mesmo tipo de homem (saxofonistas são seu fraco, exatamente o que Joe é) e parece meio ingênua ao buscar tão arduamente alguém para se apaixonar. Mas ao mesmo tempo, Sugar compreende quando é abandonada pelo “milionário” a quem havia “ajudado” e se entrega novamente ao vício da bebida, na tentativa de mascarar sua dor, assim como Marilyn. E Wilder ainda ressalta essa transição emocional de Sugar através dos dois momentos em que ela canta no hotel: no primeiro, ao entoar “I Wanna Be Loved By You”, vestindo um vestido claro e cheio de brilho, logo após ter conhecido o “milionário”; no segundo, ela canta “I’m Thru With Love”, totalmente desolada e entregue à melancolia após ter sido deixada, vestindo um mórbido vestido preto.

As críticas sociais, presentes em todos os filmes de Wilder, são colocadas no modo sutil característico do diretor, sempre disposto a se valer do duplo sentido para passar batido diante de eventuais censuras. E até mesmo as referências que faz são colocadas de maneira delicada, nunca muito explícita, como quando o mafioso Spats (George Raft) chega ao hotel na Flórida para a “Convenção Anual dos Amigos da Ópera Italiana” e conversa com um capanga de outra família de mafiosos, que joga uma moeda para cima. Spats pega a moeda do capanga e pergunta “onde ele aprendeu aquele tipo de truque barato”, sendo esta uma referência sutil ao próprio tipo de personagem que George Raft fazia no início da carreira, como em Scarface, de Howard Hawks, onde Raft fazia um capanga que ficava jogando uma moeda para o alto. É o estilo de Wilder presente, em sempre mostrar que pode haver mais alguma coisa em cena do que o que estamos vendo.

Quanto Mais Quente Melhor é considerada a mais engraçada das comédias, justamente por unir na narrativa enxuta e cheia de reviravoltas que Billy Wilder emprega as críticas à sociedade, à música, à indústria, os jogos eróticos explicitados em brincadeiras visuais (como a edição das ações paralelas que ocorre enquanto Daphne dança com o milionário que está apaixonado por “ela” e o beijos cada vez mais quentes entre Sugar Kane e o “milionário” inventado por Joe) ou nas falas, sempre guardando uma segunda interpretação. Assim, Quanto Mais Quente Melhor pode ser visto várias vezes, sempre compreendendo uma nova intenção do diretor, mas sempre revelando que nada é o que parece, mesmo quando os personagens já não têm mais o que esconder. Afinal, “ninguém é perfeito”, somente Billy Wilder.

Thiago Macêdo Correia

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Festival do Rio – 2008

O Festival de Cinema do Rio de 2008, que ano passado abrigou mais de 100 estréias (incluindo Tropa de Elite),  teve sua estréia dia 25 e vai até o dia 8 de outubro. Adney Silva, o gamemaníaco do MP!, vai estar por lá trazendo pra gente tudo que ocorre nas salas de cinema da cidade maravilhosa. Se você mora longe demais, não pôde participar ou simplesmente foi assaltado no caminho do Festival, não tema! E acompanhe tudo pelo Multiplot!.

Como o Silva é um só, e tem um Congresso em Floripa bem no meio do Festival, não vai poder fazer aqueeela cobertura, mas vai trazer sempre que puder comentários curtos de tudo que ele for assistindo.

Enquanto isso, o Especial James Dean, que não pára, está chegando ao seu ponto culminante. É terça-feira, dia 30, aniversário de morte do homem que inventou uma mitologia no cinema. Uma biografia caprichada e as resenhas dos três únicos filmes de James Dean. E pra fazer a contagem regressiva tivemos o texto do Daniel Dalpizzolo pra Sharon Tate nessa sexta, sábado é a vez da Marilyn Monroe com o Thiago Correia e, segunda-feira, um prelúdio de luxo com os textos do Murilo Lopes para a década de 50.

Começando, portanto, seguem os dois primeiros comentários do Silva nos posts abaixo. Fiquem com a gente, um abraço!

MP!

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Sanguepazzo (Marco Tullio Giordana, 2008)

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A sua extensa duração (são duas horas e meia de filme, somado ao ritmo lento da narrativa, acabam deixando a sessão um pouco estafante. Nem os momentos feitos para atenuar o suspense e a tensão do filme são suficientes para atenuar a sensação de desconforto físico ao final do filme. Entretanto, este pode ser considerado o único grande defeito. A história acaba despertando o interesse (sobretudo graças as atuações dos atores – especialmente o protagonista) até o final. Sem falar que é sempre prazeroso para os olhos ver Monica Belucci em ação. Ela é a nova Sophia Loren do cinema italiano.

3/4

Adney Silva

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O Visitante (Tom McCarthy, 2007)

Muito do filme encontra eco nos mais recentes filmes que abordam, direta ou indiretamente, o 11 de setembro e as suas consequências. Além disso, o filme também é um drama sobre a solidão e a necessidade de se apegar a algo para enfrentar uma grande perda, através da figura do professor universitário que hospeda os imigrantes ilegais. Ainda dentro dessa temática, temos a música como elemento denileador desses sentimentos (a cena final reflete muito bem isso). Pena que todos essses assuntos são tratads de forma um tanto quanto superficial, impedindo o filme de ter um maior destaque.

2/4

Adney Silva

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Sharon Tate (Especial James Dean)

UMA NOVA TRAGEDIA EM HOLLYWOOD

A atriz Sharon Tate, uma das estrelas de “O Vale das Bonecas”, foi encontrada morta ontem com um ferimento de bala e uma corda de nylon no pescoço, em uma cena que fazia lembrar um rito religioso sobrenatural. Quatro pessoas – três homens e uma mulher – estavam mortas no mesmo local, com ferimentos de bala ou faca. Todos os cadaveres foram encontrados na casa de Sharon, no elegante bairro de Beverly Glen.
Sharon, uma bela loira de 27 anos casada com o diretor Roman Polanski, de “O Bebê de Rosemary”, vestia apenas um biquini e foi encontrada com a corda de nylon no pescoço. A corda tinha sido lançada por sobre uma viga e a outra ponta estava amarrada ao pescoço de um rapaz, tambem morto.
Fora da casa, foram encontrados os corpos de outra mulher e de um homem, jogados sobre a grama do jardim. Um outro cadaver masculino foi encontrado dentro de um carro estacionado diante da residencia. A policia foi chamada às 9h15 da manhã por uma empregada que tinha ido fazer a limpeza da casa. Quando os detetives chegaram, depararam com os cadaveres ensanguentados.


(Reprodução: Folha de São Paulo – domingo, 10 de agosto de 1969)

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1943 - 1969

A morte da atriz e sex simbol Sharon Tate apresenta algumas características bastante particulares, quando não bizarras. Ao contrário de outras grandes figuras públicas assassinadas no século passado, como John Kennedy e John Lennon, Tate não morreu por ser Tate, por ser famosa. O responsável pela brutal chacina na residência de Roman Polanski, Charles Manson, talvez nem fizesse idéia de que a casa era habitada por uma celebridade, ou simplesmente não ligava. Tate morreu, de certa forma, desglorificada, sem o prestígio de ser presa de seu próprio sucesso.

Mas quais foram os motivos para tamanha perversidade, que vitimou não somente a atriz, como também aos parceiros com os quais desfrutava uma prazerosa noite entre amigos? Décadas depois, embora tudo esteja superficialmente resolvido, ainda existe a dúvida, ou uma força que nos impede de crer em uma história tão absurda.

Tate foi alvo de um louco, um satanista que acreditava, entre outras coisas, que músicas como Piggies e Helter Skelter, ambas do White Album dos britânicos The Beatles, eram mensagens destinadas exclusivamente a ele, indicando formas de agir e inimigos a bater. E foi pelo desejo de cumprir com suas obrigações que Manson e seu bando, que se auto-intitulava A Família, invadiram a mansão da Cielo Drive, em Hollywood, e promoveram este massacre em forma de ritual que terminou liquidando a vida e a carreira de uma das principais estrelas em ascensão na década de 1960.

A reprodução do fato, em si, foi e permanece sendo chocante até mesmo para os acostumados com Cinema-barbárie. Sharon, que na oportunidade tinha apenas 26 anos e estava grávida de oito meses – do próprio Polanski, até que se prove o contrário – foi baleada e esfaqueada, assim como os demais. Seu corpo foi perfurado 16 vezes e, em seguida, a atriz foi enforcada ao pé de uma escada. Os assassinos confessaram, inclusive, que estiveram prestes a arrancar o bebê da barriga da atriz, por diversão. Com seu sangue e o dos demais, Manson e sua turma escreveram mensagens nas paredes. Em uma delas, a inscrição “Piggies” (Porcos, em inglês) indicava a denominação utilizada por Manson ao se referir aos negros, principal alvo de sua seita. No dia seguinte ao assassinato de Tate, Manson cometeria outro crime, seguindo praticamente a mesma metodologia. O alvo foi um casal de negros, dono de um supermercado daquela mesma região de Los Angeles. Depois de solucionado o caso, ele esclareceu que sua intenção era a de promover o início de uma terceira guerra mundial, a qual chamava de Helter Skelter, nome da música dos Beatles que, segundo ele, conteria o maior número de mensagens subliminares. A guerra em questão não seria entre nações ou religiões, mas entre cores. Negros contra brancos. Ele acreditava que algum negro seria acusado pelos assassinatos, fato que deveria desencadear a tal guerra.

Com o ocorrido, Sharon Tate pouco tempo teve para apresentar ao mundo o charme e a desenvoltura que demonstrara ter em filmes como O Vale das Bonecas e A Dança dos Vampiros. Foram apenas seis trabalhos creditados para o Cinema, além de aparições como figurante em alguns filmes e outros trabalhos para a televisão. Seu primeiro papel de destaque ocorreu em Eye of the Devil, de J. Lee Thompson, no qual contracenou com David Niven e Debora Kerr, mas o sucesso chegou depois de A Dança dos Vampiros. Nas filmagens deste, inclusive, foi que conheceu Roman Polanski, de quem se tornaria noiva.

No mesmo ano de A Dança dos Vampiros, Tate fez outros dois filmes. O mais popular deles foi O Vale das Bonecas, de Mark Robson. O filme, adaptação do best-seller homônimo de Jacqueline Susann’s, rendeu à atriz o estrelato, já que, ao contrário de trabalhos anteriores, era uma das protagonistas. Ela, porém, teria pouco tempo para aproveitá-lo. Faria apenas outros dois filmes, lançados em 1969, ano de sua morte. A perda rendeu a Polanski um grau ainda maior de pessimismo, claramente perceptível nos filmes que faria a seguir, como a sangrenta adaptação de Macbeth, peça de William Shakespeare.

A Dança dos Vampiros (Roman Polanski, 1967)

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Sharon Tate não é a protagonista de A Dança dos Vampiros, mas esta comédia pseudo-expressionista de Roman Polanski permanece até hoje como sendo o principal registro cinematográfico da beleza descomunal da atriz. É um claro exemplo de como, às vezes, independente da qualidade final do material, filmes valem muito mais pelo simples prazer de se ver alguém filmar outro alguém com tamanha devoção.

O filme é um excêntrico ensaio desconstrutivo de gênero, no caso o horror, mas a presença de Tate, fotografada de forma estonteante pelas lentes do fotógrafo Douglas Slocombe, primeiro grande figurão a trabalhar com o recém desperto cineasta, por vezes vence à própria comicidade afiada ou impressionante estética construída por Polanski para desbravar as clássicas aventuras de vampiros para se lançar como grande motivação à apreciação do material.

Independente de Tate, porém, A Dança dos Vampiros é um grande filme. Polanski saia do anonimato, depois de uma série de suspenses psicológicos feitos na Polônia, para se tornar um dos grandes nomes do Cinema norte-americano da segunda metade do século passado. Acabava de fazer de Repulsion, até hoje seu melhor filme, para trabalhar pela primeira vez com um orçamento de maior significância.

O investimento todo foi feito na reconstrução estética da época em que transcorre a história. Se em Repulsion Polanski chegava ao máximo de seu radicalismo, neste aqui o radicalismo justifica-se exatamente pela abrupta mudança estética, partindo mais para um romantismo expressionista e fugindo da pós-modernidade caótica de seus trabalhos anteriores. Conta também, além do orçamento, com as belíssimas paisagens dos Alpes Suíços, primeira grande locação do diretor, garantindo ao filme um tom medieval sempre instigante. E, mesmo que fuja um pouco de suas habituais características, temos o cinismo e o humor negro polanskianos sempre presentes, aqui de forma mais rasgada e propositalmente aloprada do que em filmes como O Inquilino, a grande obra-prima do humor polanskiano, mas garantindo momentos luxuosos como a seqüência que dá vida à tradução tupiniquim.

Daniel Dalpizzolo

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Década de 60 (Especial James Dean)

Rapidamente, quando falaram-me, pela primeira vez, que faríamos um especial sobre mitologia e juventude, imediatamente, após a imagem de James Dean em Juventude Transviada, veio a década de 60 através da recente prova da UFRJ – ou UERJ, nunca sei. Quando estava procurando alguns filmes recomendados pelos colegas, além de procurar rever alguns que achava interessante, ou mesmo ler sobre, deparo-me com a edição de 40 anos de certa revista extremista de anti-esquerda. Independentemente de como cada tratava a década de 60, foi inegável a influência e a importância dadas, principalmente pelo quadragésimo ”aniversário” de 1968 – talvez o símbolo da década, que, até de forma saudosista é lembrada pela imersão da juventude participativa pela contracultura, pelo anti-guerra e a apoliticagem. Rebeldes por essência, os anos 60 marcariam o questionamento da liberdade, através de exibições sem censura com o sexo e as drogas como principal método de execução.

A esperança de um mundo melhor, pacífico e igualitário, não necessariamente afligia ou corria a algum lado da Guerra Fria intensificada. Enquanto os governos soviético e norte-americano viviam um dos mais acirrados momentos do embate, com a Corrida ao Espaço (que Kubrick levantaria apoteoticamente em 2001), a Crise dos Mísseis e, finalmente, a Guerra do Vietnão; os jovens pareciam mais largados, mas, igualmente, mais participativos. Largados no conceito de que sua forma de expressão não assumia caráter político, contra algum regime exatamente, e sim contra o “sistema” (stablishment), usando-se das viagens alucinógenas e as confraternizações cantadas. Já o participativo refere-se aos porquês de a década ser tão cultuada: por não temerem uma oposição verdadeiramente radical, isto é, com outro jeito de disseminação de ideal, defendendo-o com persevarança e inteiramente (sem discursos muito geniosos ou pegando em armas – ainda que o Movimento Negro nos Estados Unidos tenha tido um Luther King bastante oratório e os Panteras Negras). A bem da verdade, houve, sim, uma certa posição meio socialista – mas no utopismo da igualdade, e não num alinhamento às posturas soviéticas – e um certo anarquismo, como desfilariam algumas bandeiras nas grandes reuniões nos parques. A luta era contra a alienação e a falta do individualismo provocados pelo sistema em vigor. Com isso, também surgiram revoltas nos países vermelhos (Primavera de Praga e Reforma Cultural Chinesa).

Em Paris, exatamente em 1968, a reunião estudantil e operária também seria grande predicado para o ideal sujeito dos jovens da época. Com “a imaginação no poder” e “é proibido probir” todo o mundo foi alertado, para desespero dos burocratas, que fechariam o poder, fosse nos países socialistas, em que o próprio Mao-Tsé Tung voltaria sua posição quando no poder, e Stálin derrubaria Kruschev; fosse nos países ao redor dos Estados Unidos, como a própria França, e os países latino-americanos tomados por ditaduras militares. A despeito de qualquer ideologia política que os veículos comunicativos insistem em querer levantar para tirar o brilhantismo e o romantismo que se tem em torno da década, os hippies ainda são valorizados quando se olha para a Guerra do Iraque e lembra-se da Guerra do Vietnã.

Se o mundo esteve em polvorosa, teria Hollywood demorado a acordar? Acho que não. Os movimentos conhecidos, a bem da verdade, foram mais sutis, como 2001; ainda que os indies tenham retratado paisagens como Wodstock. Dennis Hopper e Peter Fonda fariam o filme consagrador para o cenário: Sem Destino, um filme de menos de 400 mil dólares, estourou ao colocar dois motoqueiros, que se drogam sem maiores conseqüências aparentes, mas que passam por um terrível preconceito – e num diálogo inspirador de Jack Nicholson, que dá vida à obra, com Dennis Hopper, o valor com o qual são tratadas coisas simbólicas no país americano é comentado com bastante pertinência. Antes disso, porém, já havia A Primeira Noite de um Homem, com o graduado Dustin Hoffman visivelmente perdido no mundo cheio de cobranças e expectativas frente a um futuro trabalhador e possivelmente enriquecedor. Godard, que eu não conheço, e o magistral Blowup também são exemplares de outros países. De qualquer modo, nada melhor, pelo menos para mim, do que Hair, filmado somente em 1979 por Milos Forman, para lembrar o período. Por sinal, a data do filme também representa bastante coisa, como a tal nostalgia citada no comecinho. Ainda hoje vários filmes são feitos tentando resgatar o período ou contextualizados por volta de 1968, vide Os Sonhadores, de Bertolucci.

Hair (Milos Forman, 1979)

Assim que escolhi por Hair para filme da década de 60, tinha certo receio ao tentar escrever algo sobre a obra. Ao contrário do que já fiz, inclusive com o texto de Juventude Transviada, não levantei tópicos ou fiquei imaginando algo a escrever durante a projeção. Isso porque o poder de Hair, com o perdão do clichê, transcende qualquer coisa que eu tente escrever aqui. Todavia, acho que há algo válido a se dizer aqui: como pode ter ocorrido durante o texto da década de 60, não sou, costumeiro, muito afeiçoado ao ideal, aos hippies, sendo, às vezes, até bastante contrário. E o diferencial de Hair reside em quebrar algumas barreiras, ao inserir pequenos traços durante a obra.

O grande fato é que a música pode ser a maior virtude e a coisa mais irritante no filme – e eu acho ”Let the Sunshine” uma das mais belas coisas que há, mesmo mandando alguém à merda dois minutos antes de começar a ver o filme -, até porque Hair quase não tem diálogos, mas as letras, além do forte ritmo e quase sempre cantadas em coro (à exceção de uma cantada por uma descendente asiática e a negra que aparece no meio do filme), transmitem tudo que há ali. A câmera de Milos Forman consiste apenas em tentar achar as personagens e focalizar, buscando o íntimo de cada personagem quando nas canções mais dramáticas, ou pegar grandes tomadas naquelas exigentes de coreografia ou coletivismo intenso. Em segundo lugar, o filme sabe colocar-se mesmo para os não adeptos à cultura hippie, aliás, talvez seja mais para eles, tanto que Claude, jovem que sai do interior dos EUA para servir ao Exército é o personagem principal. Conhecendo o grupo “rebelde”, ele fica dos dias junto a eles provando de sua (contra)cultura, mas não vira as costas para a obrigação, indo para o Exército e tendo como amada uma jovem da alta burguesia – e o filme mostra que o interesse pelas drogas e pela fuga independe da condição, ainda que se contraponha a patéticos como Steve, e até mesmo da idade, quando uma senhora, durante uma festa da nobreza, fica encantada com Berger, o “líder” do grupo, que tem as idéias e não teme em as colocar em prática.

Além de usar-se do canto e da dança, muito eficazes e simbólicos por natureza, essas próprias sofrem mutações interessantíssimas: no canto que faz a ode ao Cabelo, um dos ‘problemas’ dos jovens rebeldes, que não o queriam cortar, há uma pequena variação da melodia do hino americano, numa leve ironia que seria estendida ao final do filme. Acima de tudo, existe um grande empreendorismo sentimental em Hair, que se permite a colocar uma alucinação de Claude para, ao fim, cantar que Timothy Leadry, que acreditava na fuga pelas drogas, estaria errado. Ou, ainda, momentos em que pessoas aleatórias começam a cantar, como no comparecimento ao Exército em que os inspetores ficariam supostamente com desejo pelos homens, sendo os brancos interessados nos negros e vice-versa (e as mulheres também, mostrando claro que não é uma postura homossexual, assim como não há postura negra quando Hud ‘desafia’ o loiro e chama-o de ‘branco azedo’ e os dois saem numa boa).

Sem medo de aparecer ufanisticamente ou ficar fora de grandes posições ideológicas, Hair é competente no entretenimento saudável e diversificado, não se dando a grandes interpretações ou floreamentos. Não diria que é uma “mensagem” que o filme passa, apenas um sentimento, bastante acolhedor, por sinal, e que me deixa modificado ao final de cada sessão. Mesmo que, se ao cruzar na esquina com alguém cabeludo, a seguir, eu tente escapulir do mesmo jeito.

Cassius Abreu

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Bruce Lee (Especial James Dean)

1940 - 1973

É inegável a contribuição das artes marciais ao cinema. Seja para os filmes de ação, seja para filmes pseudo-filosóficos (alguém aí pensou em Matrix?) ou ainda para inspirar outros gênios (Kurosawa, ao realizar “Os Sete Samurais”, declarou a sua admiração pelo cinema de John Ford. Sergio Leone, anos mais tarde, promoveu a revolução no western com os seus filmes abertamente influenciados por Kurosawa), essas técnicas milenares de luta armada e, principalmente, não-armada, gerou inúmeros momentos e cenas inesquecíveis. E, se há alguém que tornou essa realidade factível e, mais do que isso, acabou sendo o nome-referência quando se fala em filmes de ação envolvendo artes marciais, esse alguém é Bruce Lee.

Bruce Lee sem duvida nenhuma é o maior nome do kung fu e também um grande símbolo das artes marciais em geral. Alias, fica mais correto dizer que Bruce Lee é o grande mito do kung fu de todos os tempos. Mais do que isso: até os dias de hoje pouquíssimos conseguiram superá-lo no que diz respeito a popularidade. Pela sua incrível técnica apresentada nos seus últimos filmes, Bruce moldou através dos anos a sua imagem como a personificação do homem asiático que se torna a epítome do que muitos vêem como sendo a perfeição em artes marciais, agilidade e força. Além disso, sob a capa da perfeição física, havia um homem com pleno domínio da sua importância como artista e que criou, mais do que um estilo de luta, um estilo de vida.

Bruce Lee nasceu em 27 de novembro de 1940 no San Francisco’s Chinese Hospital (Hospital Chinês de San Francisco) EUA. Sua mãe a Sra. Grace Lee, o batizou com o nome de Lee Jun Yan, significando Retorno a San Francisco. Mais tarde Bruce teria seu nome trocado para Lee Yuen Kan. Sua família, alguns meses depois do nascimento de Bruce e tendo terminada a turne que faziam nos EUA (Eles eram artistas da Cantonese Opera Company), resolve voltar definitivamente para Kong Kong.

Ainda em fase de amamentação, Bruce enfrentou uma câmera de cinema pela primeira vez. Sua mãe conta que esse filme foi realizado em 1941 e se chamava “Golden Gate Girls”. A mãe de Bruce, em seu livro “The Untold Story”, conta que Bruce foi um misto de criança generosa, extrovertida, peralta, inquieta e que muitas vezes canalizava sua grande energia natural para brigar com outros garotos que o provocassem de alguma maneira.

Na época da puberdade de Bruce, existiam em Hong Kong centenas de gangues formadas pôr adolescentes e que disputavam seu espaço tentando colocar suas idéias. Muitas dessas gangues eram criminosas e a grande preocupação do governo era manter a ordem publica.Bruce Lee pertencia a um grupo chamado “The Junction Street Eigth Tigers” (Os Oito Tigres da Rua Junction). O grupo tinha um lema: “Lutar pela justiça, pêlos fracos, vencer os desordeiros, um pôr todos e todos pôr um”.

A fama de valente de Bruce crescia na mesma proporção que ele próprio crescia. E as brigas de rua passaram a ser inevitáveis. Certa vez dando uma entrevista para a “Black Belt Magazine” sobre essa época de sua vida, ele confessou que brigava mais pôr vontade de lutar mesmo, do que pôr ideais. Disse ele: “- Eu era um Punk e vivia procurando brigas. Muitas vezes usei correntes e canetas que traziam laminas ocultas”.

Nessa época, provávlemente como uma tentativa de canalizar toda essa energia adolescente, Lee foi apresentado às artes marciais inicialmente pelo seu pai, onde aprendeu os fundamentos do estilo Wu do Tai Chi Chuan. Logo depois, teve aulas com o famoso mestre Yip Man. Dedicando-se de corpo e alma a essa arte (muitos amigos de Bruce da época diziam que ele comia, bebia e respirava kung fu 24 horas por dia), Bruce evoluiu muito rápido no Wing Chun, ultrapassando em pouco tempo a habilidade de muitos alunos mais antigos.

Durante praticamente toda a sua adolescência, o jovem Bruce meteu-se em muitas encrencas e brigas. Chegando ao ponto de ir para em uma delegacia e causando muito constrangimento para sua família. Eles resolveram então que Bruce deveria mudar radicalmente de ambiente. Do jeito que estava, não poderia ficar. Qualquer hora ele mataria alguém ou acabaria morto. O jovem Bruce foi enviado então para os Estados Unidos como forma de se acabar definitivamente com o problema. Com U$$ 100,00 no bolso e uma passagem de 3a classe em um navio cargueiro, Bruce partiu para o novo mundo, sem saber ao certo o que o esperava.

Já nos EUA, Bruce vai morar com um amigo de seu pai. Mais tarde, muda-se para Seattle, onde completa os seus estudos e trabalha em um reustarante japonês. Meses depois, maricula-se na Universidade de Washington, onde cursa (e se forma) em filosofia, dando aulas de kung-fu para os alunos da Universidade. Numa dessas aulas conhece a sua futura esposa, Linda Emery.

Junto com um amigo, em 1963 Bruce resolve abrir uma escola de kung-fu onde todos, indepedente da raça, poderiam aprender as técnicas, contrariando a comunidade marcial chinesa, que achava que esses conhecimentos não poderiam de forma nenhuma serem ensinados aos não Chineses. Bruce é constantemente intimado pela comunidade chinesa a abandonar a idéia. Após uma intensa luta com um renomado mestre de Kung Fu dessa comunidade (onde ele se saiu vitorioso), Bruce refaz todo o seu conceito sobre a arte de lutar. Nascia o Jeet Kune Do, The Way of the Intercepting, o estilo de luta desenvolvido por Bruce Lee e que ele passa a ensinar futuramente para inúmeras personalidades dentro e fora do cinema.

Em 1965, Bruce ingressa no meio cinematográfico Hollywoodiano pela primeira vez, na série “Besouro Verde”, uma série nos moldes de Batman, onde ele vive o personagem Kato, o fiel escudeiro do personagem principal. Apesar do sucesso, Bruce se sentia totalmente insatisfeito, pois lhe davam poucas oportunidades para demostrar o seu potencial. Mesmo com o sucessso da série, a carreira de Bruce não decolava. O máximo que conseguiu foram algumas pontas em filmes de pouco sucesso e trabalhos como coreógrafo de lutas. Desanimado e desabafando Bruce diria: “Afinal quem quer ver um ator chinês em Hollywood!”. Levantando sua cabeça, ele voltou a fazer algo que sempre gostara . Ou seja, ensinar kung fu. Muitos nomes famosos do cinema começaram a treinar com ele.

Depois de mais algumas participações em outras séries, Bruce decide voltar para Hong Kong, onde, ao lado de Raymond Chow (cabeça da produtora “Golden Harvest”), realizou uma série de filmes envolvendo artes marciais. O primeiro deles, “The Big Boss”, foi filmado na tailândia. Mesmo com a série de intempérios na produção, o filme foi um estrondoso sucesso, chegando a superar “A Noviça Rebelde” em bilheteria. Muito (ou todo) o sucesso do filme se deve ao carisma e profissionalismo de Bruce.

Paralelo a esses acontecimentos, nos EUA a série “Long Street” continuava em alta e os produtores procuravam Bruce para participar de mais alguns episódios. Voltando então para Hollywood , ele participou de mais 3 episódios. Pouco tempo depois a série sairia definitivamente do ar pôr problemas diversos. Bruce cansado então de esperar pelas indefinições dos produtores Americanos que não se decidiam se iriam ou não contratá-lo para novos projetos, retornou para Hong-Kong para fazer seu segundo filme pela “Golden Harvest” originalmente intitulado “The School for Chilvary”. Posteriormente durante as filmagens, o titulo foi trocado para “Fist of Fury”, (No Brasil foi exibido com o titulo de “A Fúria do Dragão”).

Com uma produção bem mais cuidada e Bruce tendo total liberdade para fazer e desfazer o que ele quisesse no filme, Fist of Fury superaria em muito o filme anterior (The Big Boss). Com um roteiro considerado bom até para os exigentes padrões ocidentais e o talento marcante de Bruce Lee, Fist of Fury quebraria novamente todos os recordes nas bilheterias do oriente. Segundo depoimentos de amigos de Bruce, ele se entregou de corpo e alma na realização desse filme.

Com o sucesso dos dois primeiros filmes, Bruce e Chow resolvem formar uma companhia; a “Concord Films”, cujos lucros seriam divididos entre os dois. Bruce ficou satisfeitíssimo. Além de lucros maiores ele poderia atuar plenamente como roteirista, bem como diretor e ator. Ou seja; liberdade completa para desenvolver suas idéias. Iniciou-se então as filmagens de “The Way of the Dragon”, (” O Vôo do Dragão “, aqui no Brasil). Esse filme se torna um momento importantíssimo na carreira de Lee e de Chuck Norris. O campeão de karaté cinturão negro foi introduzido por Lee, e tornou-se um dos oponentes de Lee no filme O vôo do Dragão, tendo como título original`The Way of Dragon´ e nos EUA `The Returns of Dragon’. A luta contra Chuck Norris no Coliseu é amplamente considerada como a melhor luta de artes marciais jamais filmada anteriormente.

Com o sucesso de “The Way of Dragon”, Chow resolve lançar os filmes feitos com Lee no Ocidente. No entanto Bruce não queria que seus filmes fossem lançados no ocidente pôr achar que tinham uma linguagem exclusiva para o publico oriental. Na sua opinião, eles não agradariam ao exigente publico do outro lado do mundo. Mas desta vez ele estava errado. Lançaram “The Fist of Fury” na Europa, EUA e Canada. Para a total surpresa de Lee, o filme foi um enorme sucesso batendo todos os recordes de filmes orientais anteriormente exibidos. Em seguida foi a vez de “The Big Boss” e logo depois “The Way of the Dragon”, repetindo a dose e quebrando novamente recordes de bilheteria. Bruce Lee estava se tornando um grande ídolo internacional e mais e mais pessoas em todo o mundo estavam conhecendo o pequeno Dragão e seu carisma envolvente.

Com isso, Bruce e Chow, enquanto filmavam “The Game of Death”, recebe uma proposta quase que irrecusável: O Produtor executivo da Warner ,”Fred Weintraub”, foi a Hong-Kong exclusivamente para mostrar a Bruce o projeto de “Enter the Dragon” (“Operação Dragão” aqui no Brasil). Que seria até então o filme mais caro sobre artes marciais nunca antes realizado. Uma grande produção para o gênero. Bruce e Chow adoraram o projeto e voaram para os EUA para assinarem o contrato adiando assim a realização de “The Game of Death”.

Bruce Lee atirou-se de corpo e alma na realização desse novo projeto; e estava absolutamente certo de que esse filme o consagraria definitivamente como grande astro internacional de primeira grandeza. O filme teve um orçamento inicial de U$$ 600.000,00. O que era uma boa quantia para a época se levarmos em conta que um filme de James Bond tinha uma média de 1 milhão de dolares de orçamento inicial por filme. Bruce sugeriu e indicou os nomes de pessoas com quem gostaria de trabalhar. Entre eles : John Saxon ( Conhecido ator e estudioso de artes marciais), Jim Kelly (Campeão internacional de Karate 1971), Bob Wall (Campeão profissional de Karate norte-americano 1970), Peter Archer (Campeão de Karate amador), Yang Sze (varias vezes campeão de Shotokan do Sudeste Asiatico) e Angela Mao (faixa preta de Hapkido, campeã de Okinawa) que fez o papel da irmã de Lee no filme. Foram contratados mais de 200 extras e Bruce era também o principal responsável pelas coreografias e seqüências de lutas.

Após o termino das filmagens, Bruce muito orgulhoso de seu trabalho teria dito: “Realmente foi o melhor filme da minha vida. Tenho a certeza de que chegara fácil aos U$$ 20 milhões”. O Pessoal da Warner concordava plenamente com ele. Muitos homens de cinema já diziam que Bruce tinha muito potencial a exemplo de Clint Eastwod e John Wayne valendo seu peso em ouro.

Ele (assim como todo o pessoal da Warner) estava certo. Somente nos EUA , nas primeiras semanas “Enter the Dragon “chegou a U$$ 3 milhões. Na Inglaterra ficou varias semanas nas principais salas de cinema , sempre com casa cheia. O Sucesso também se repetiu em vários países da Europa. Estima-se que esse filme tenha ultrapassado U$$ 200 milhões entre lançamentos, direitos para a TV, fitas de vídeos, DVDs e reprises, desde o seu lançamento no inicio dos anos 70. O Interessante é que “Enter the Dragon”, na época não conseguiu no oriente superar “The Fist of Fury”. Talvez pelo fato de que o publico oriental ainda não estivesse acostumado com uma visão ocidentalizada de filmes de arte marcial.

Mas infelizmente Bruce não consegue ver o sucesso de sua maior realização. Apenas dois meses depois do fim das filmagens de “Enter The Dragon”, no dia 20 de junho de 1973, Bruce Lee, acometido por uma dor de cabeça, resolve, convencido por uma das arizes com quem contracenava no filme “The Game of Death” (Bruce tinha ido ao apartamento dela para acertar detalhes sobre a participação dela no filme), tomar uma aspirina (equagezic) e se deitar. Cerca de 2 horas depois, Betty foi acordá-lo , pois seu amigo o produtor Raymond Chow havia chegado, e eles tinham um compromisso marcado. Perceberam logo que algo de grave havia acontecido, pois não conseguiam acordar Bruce de maneira nenhuma . Mesmo molhando ou dando tapinhas em seu rosto. Chamaram imediatamente um médico e logo em seguida Bruce foi removido para o Hospital Rainha Elizabeth onde morreu.

Logo após a notícia se espalhar, vários rumores surgiram sobre a causa da sua morte. Começaram a circular teorias de que ele havia sido envenenado pelas Tríades chinesas, enquanto outros acreditavam que um cabal secreto de mestres de artes marciais matou Lee por ter revelado muitos segredos e outras noticias envolvendo vingança e drogas. A verdade é que a autópsia comprovou que a morte de Bruce Lee foi causada por edema cerebral, um inchaço no cérebro, que ocasionou o AVC (Acidente Vascular Cerebral) devido a uma reação alérgica ao remédio. Mesmo com a confirmação médica, esses rumores não enfraqueceram, contribuindo para a formação da persona de Bruce Lee como um mito. Era difícil de acreditar que um homem como Bruce Lee estivesse morto devido a uma enfermidade qualquer. Mas era verdade. O pequeno dragão havia partido. E para sempre.

Em 25 de julho de 1973, cerimónias funerais atraíram cerca de 25.000 fãs em Hong Kong. Em 30 de julho, foi realizada uma segunda cerimônia funeral, em Seattle, Estados Unidos, onde somente os amigos e parentes estiveram presentes. Bruce Lee foi enterrado no Cemitério Lake View, odne o seu túmulo continua recebendo visitas até hoje.

Operação Dragão (Robert Clouse, 1973)

Todo o cinema moderno de ação deve muito a esse filme. Muitas cenas e tomadas desses filmes não existiram (ou memso seriam totalmente diferentes) se esse filme não fosse feito. Muito do sucesso do cinema oriental perante ao grande público se deve a esse filme. Mas, acima de tudo, muitos dos heróis modernos dos filmes de ação de hoje devem muito a Bruce Lee. Assim como grande parte do mito Bruce Lee deve a esse filme.

Em “Enter The Dragon”, Lee, ao interpretar um monge Shaolin que se infiltra em uma fortaleza localizada próxima a Hong-Kong e usada como fachada para negócios ilícitos, comandada por um ex-monge do seu templo, além de mostrar sua exuberante técnica nas artes marciais, molda, através de sua interpretação bastante peculiar, uma persona bastante característica de um guerreiro quase que inatingível e invencível física e moralmente. Mais do que isso, com o filme (no qual ele, além de ser o ator principal, coreógrafa todas as cenas de luta e ainda dá sugestões sobre o roteiro), ele consolida as artes marciais como um fenômeno mundial e, por que não dizer, o consolida como uma forma de arte.

Sim, uma forma de arte. Por que as cenas de luta nesse filme são o que há de mais harmonioso e belo no filme. Isso se deve essencialmente ao modo como cada movimento de Bruce é filmado na tela. Usando e abusando da câmera lenta, Robert Clouse proporciona para os telespectadores uma outra visão, bastante poética, dos movimentos de Bruce. Tal qual um balé, as lutas seguem ali, lentas e registradas no seu esplendor, para o registro e a apreciação de cada movimento, de cada momento.

Além disso, “Enter the Dragon” se mostra também como um produto genuíno da sua época. Em vários momentos, nota-se um certo flerte do filme com a chamada “blaxpoitation”, especialmente no que diz respeito a sua trilha sonora (que mescla o som da época com floreadas orientais). Isso sem falar no conteúdo social que é mostrado no filme, seja nos guetos americanos ou orientais. A cena onde os lutadores são levados até a embarcação principal demonstra essa preocupação do diretor. Seja nos EUA ou em Hong Kong, nas palavras de um dos personagens, os guetos são sempre iguais.

O filme é também pontuado por cenas bastante significativas e de profundo cinema, como a cena da invasão de Bruce á fábrica clandestina escondida na ilha. Usando e abusando da câmera lenta (e da extrema habilidade corporal de Lee), Robert transforma a cena de luta num incomum e hipnotizador balé. Outra cena igualmente grandiosa é o confronto final de Lee com o grande vilão do filme, cujo ápice é o confronto na sala de espelhos, onde, tal qual “A Dama de Shanghai”, somos iludidos e confundidos em relação ao que é real e o que é apenas a imagem.

Além de toda a beleza plástica das lutas, Bruce Lee injeta no filme toda a filosofia das artes marciais (e em especial do Jeet Kune Do, arte marcial criada por ele) no filme. Isso é claramente percebido na cena inicial, onde somos apresentados ao Templo onde Lee reside. Seja na conversa com o seu mestre, ou ainda quando está dando uma aula ao seu pupilo, Lee injeta toda uma filosofia relacionada as artes marciais e seus princípios.

Contudo, mesmo com toda a técnica presente no filme, o que foi determinante para o seu sucesso foi a atuação de Lee. Sabendo que essa era a sua grande e esperada oportunidade, ele abraçou por inteiro o projeto, e toda essa dedicação e profissionalismo pode ser percebido em altas doses nos 100 minutos dessa obra. Muito da atuação de um grande ator é devido ao seu olhar. Um ator, sobretudo um grande ator, deve saber expressar inúmeros sentimentos utilizando apenas um olhar, afinal de contas o cinema é antes de tudo uma arte visual (somente nos anos 30/40 acrescentou a palavra áudio a sua definição). Bruce Lee sabia disso, e, em muitas cenas, se utiliza desse subterfúgio para expressar os sentimentos de seu personagem.

Por todas essas qualidades, “Enter The Dragon” merece ser lembrado não só como o último grande trabalho de Bruce Lee, mas como um dos pilares dos filmes de ação. Muitos astros orientais surgiram desde então, trilhando o caminho aberto por Lee nos anos 70. E, se hoje, a cultura oriental é tão difundida no Ocidente, muito se deve a esse ator sino-americano que, com a sua técnica e perfeito controle do seu corpo e da sua mente, se transformou num dos maiores mitos do cinema. Apesar de sua morte (e de toda a mitificação que resulta dela), Bruce Lee será lembrado para sempre como um dos pavimentadores do cinema considerado de ação de Hollywood. O cinema era a sua tela, o seu corpo o pincel, e “Enter the Dragon”, a sua maior pitura.

Adney Silva

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Festival do Rio 2008

O Festival de Cinema do Rio de 2008, que ano passado abrigou mais de 100 estréias (incluindo Tropa de Elite),  começa dia 25 e vai até 8 de outubro. Adney Silva, o gamemaníaco do MP!, vai estar por lá trazendo pra gente tudo que ocorre nas salas de cinema da cidade maravilhosa. Se você mora longe demais, não pôde participar ou simplesmente foi assaltado no caminho do Festival, não tema! E acompanhe tudo pelo Multiplot!.

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Década de 70 (Especial James Dean)

Sentei em frente ao computador, encarando a página em branco, pensando o que escrever sobre uma década na qual nem mesmo havia nascido, da qual meu conhecimento se baseia única e exclusivamente em heranças, nos registros feitos através de músicas, filmes, lembranças transmitidas em conversas, leituras aleatórias na internet, e foi quando percebi que deve ser muito mais fácil lançar um olhar de fora sobre o período do que vivenciá-lo e tentar compreendê-lo ao mesmo tempo.

Há um turbilhão de sentimentos, acontecimentos e sensações repartindo a esfera setentista. É, de certa forma, o início da contemporaneidade do século passado, o princípio daquilo que hoje temos como base social. É também a extensão de tudo o que as duas décadas anteriores começaram a construir, ou destruir. Se a década de 1950 reafirmou valores, a de 1960 chegou para rasgá-los. Se em 1950 estabeleceu-se um novo conceito de juventude, em 1960 coisas como conceitos são usadas pra fechar cigarros de maconha.

Em 1970, o forte do radicalismo, a necessidade de transgredir, acaba. Ao mesmo passo em que as barreiras permanecem diluídas, surge a capacidade de se olhar pra trás e aprender a resgatar, a ver o que há de interessante em tempos passados e lamentar perdas – A Última Sessão de Cinema e Loucuras de Verão chegariam como propulsores dos registros nostálgicos cinematográficos, há em ambos uma paixão muito forte pela inocência de se pegar o carro e ir paquerar em boliches, bebendo suco e comendo sanduíches, uma arte já findada em tempos de tamanha liberdade sexual – na vida e nas telas.

Na realidade, fica difícil definir algo tão abstrato, ao mesmo tempo tão livre e desiludido. O mundo se distanciou do trauma das grandes guerras, mas o principal disseminador cultural sofria com as feridas que restavam do Vietnã. O caos se desloca do físico ao psicológico, as dores deixam de ser sentidas para serem refletidas. Surge o movimento punk e o culto ao trash, a produção independente multiplica-se, abrem as portas para a liberdade de expressão. A juventude da época encarou a maior das transformações dos últimos tempos. Nada mais natural que seu registro no Cinema ser também o mais complexo.

Analisando certas características, pode-se conferir ao período um arco indissolúvel de pessimismo, reflexo da sujeira das ruas e resultado da implosão da década anterior – ainda que boa parte da produção setentista seja voltada à diluição desse pessimismo. Se o existencialismo era proposto por Michelangelo Antonioni, Robert Bresson e Ingmar Bergman na década de 1950, em 1970 reforçava-se como grande valor de estudo cinematográfico, junto da própria herança dos anos 60, toda reajustada sobre o desejo de mudança, sobre a insatisfação.

Surge uma avalanche de pequenos retratos dessa desolação, do desconforto com o social. Cada um Vive Como Quer, Corrida Sem Fim e Profissão: Repórter faziam uso do road movie – que não apenas recebeu maior destaque nos anos 70 como se tornou, talvez, a melhor maneira de ilustrar a própria juventude do período, ainda que metaforicamente – para apresentar figuras deslocadas da conjuntura de sociedade, desiludidas com o mundo e com a vida, insatisfeitas, temerosas, sonhadoras, fugitivas – de si mesmo, muitas vezes -, grupo reforçado por filmes como A Morte de um Bookmaker Chinês, Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia, A Primeira Noite de Tranqüilidade, Ânsia de Amar, etc interminável.

Outros, como Sob o Domínio do Medo, Laranja Mecânica, Operação França, Crime e Paixão, Rabid Dogs, Assalto à 13ª DP, Caminhos Perigosos, Taxi Driver, Rolling Thunder, O Assassino da Furadeira, entre outros filmes policiais ou voltados à realidade das ruas, mostravam que a sociedade chegava a um nível intolerável de violência e que, aos poucos, ia se anulando entre prazeres e perdições, memórias e desejos – notando-se também grande influência da própria guerra do Vietnã na construção dessa condição. Boa parte dos filmes do período, em particular os que casem características com estes aí, apresentavam jovens infratores, sem julgá-los, mas mostrando que tudo não passava de reflexo do que ocorrera e ocorria no momento, uma miscelânia tão intensa que havia transmitido a todos um grau quase irreversível de desorientação.

Ao mesmo tempo, e muito pela necessidade de se encontrar meios para evitar o caos desenfreado, fortificava-se no Cinema a condição de fonte de escape – um exercício retratado com perfeição no espanhol O Espírito da Colméia -, praticamente destruída com o engajamento do final da década anterior e início da própria década de 1970, àqueles que não conseguiam mais lidar com tantas incertezas. Era o início da fase dos blockbusters, das superproduções centradas exclusivamente no desejo pelo entretenimento, uma arte imediatamente comprada pela juventude e que havia sido deixada de lado com a exclusão dos musicais e das screwball comedies lá no início da década anterior. O tempo de Spielberg, George Lucas e Coppola, que ganhou tanta notoriedade a ponto de, na década seguinte, ocultar tudo o que era feito além dele aos olhos mais desatentos.

É tempo também da explosão do Cinema indepentente, do exploitation, do pornô construíndo-se enquanto indústria, de Cassavetes fazer suas duas obras-primas máximas, de Andy Warhol, Mario Bava, Lucio Fulci, Brian De Palma, Dario Argento, David Lynch, David Cronenberg, John Carpenter, George Romero e Alejando Jodorowsky levarem aos jovens um Cinema do jeito que eles realmente queriam ver, ensandecido, surreal, de imaginatividade inviolável, ainda que sem se deslocar completamente do pessimismo que permeava a realidade, por que o desejo pelo retorno do ficcional, do aleatório, do imaginativo como principal meio de veiculação cinematográfica nunca foi tão forte quanto o sentido durante a década mais emblemática, visceral e realista de todo o Cinema.

O Assassino da Furadeira (Abel Ferrara, 1979)

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70 foi a década da visceralidade. Foi também, como já afirmado, o momento em que as dores se transformaram no Cinema. Inicia-se ao mesmo tempo uma extensão neo-realista do olhar cinematográfico por sobre a caoticidade urbana, é verdade, mas o verdadeiro caos a ser retratado deixa de ser o físico. O material deixa de ser objeto e a esfera toda se volta ao universo psicológico, às feridas mentais.

Poderia eu poupar a essência da juventude setentista, mas mais importante do que registrar a grande qualidade cultural do período é observar que, sobretudo, e afora ao eixo Spielberg-Lucas-Coppola, havia muito de importante a se expor. É contrário ao desejo de reafirmação? Com certeza. E fundamental também.

O Assassino da Furadeira não foi o primeiro estudo dos limites impostos pela implosão cultural e, especialmente, pelas trevas que restaram do abafo daquela virtuosa expedição liberal que se obteve em 60 – nem mesmo é o mais popular filho deste modelo. Mas, embora filmes como Taxi Driver e Rolling Thunder tenham direito a todo e qualquer mérito, não vejo peça tão fundamental para sua compreensão.

Da estética ao discurso, o primeiro filme de Abel Ferrara é um violento estudo sobre a violência, da influência do social sobre o pessoal e seu feedback, em contrapartida. Ao contrário de Scorsese, do qual extrai boa parte de seu material, Ferrara procura retratar a famigerada escória – que nada mais era do que a própria alienação juvenil – sob seu próprio ponto de vista, em um misto de loucura e aberração todo ligado à essência do movimento punk, que fez a cabeça da juventude da época.

Para Ferrara, vale muito mais investigar as causas. Se não existem heróis no particular universo em que centra seus filmes, também não há vilões. São as condições sociais que ditam a ação, ainda que coligadas à natureza humana. É o jovem desempregado e gradativamente ensandecendo de O Assassino da Furadeira – que em seu filme seguinte se transformaria em uma jovem inócua transformada, em virtude de um trauma, em máquina de vingança – um fruto do descontrole social, mas e de que forma poderia se gerir o próprio controle de alguém que vive à risca da loucura, cercado de miséria, sujeira e ruídos incontroláveis?

Não por qualquer brincadeira, antes mesmo de o filme iniciar há o letreiro “This Movie Should Be Played Loud” – em português, este “este filme deve ser tocado alto”. Há um grande exercício por detrás de toda a estética, que muitos diriam ser tosca, suja ou depravada – e é, realmente, mas com propósito – apoiado também na encenação sonora que promove um distúrbio tão intenso quanto desconfortável na projeção, através dos sons amplificados da trilha punk, dos efeitos sonoros erráticos, surtados. Ferrara filma a desconstrução do jovem, do homem, enquanto particular e também engrenagem do social, numa espécie de descida ao inferno ao melhor estilo polanskiano – existem indícios de Repulsa ao Sexo e O Inquilino em cada canto de O Assassino da Furadeira.

É um mundo de dúvidas, incertezas e subversões. Não se tem fé no futuro – e os pesadelos e brincadeiras envolvendo o cristianismo, tema de grande recorrência em toda a filmografia de Ferrara, somente evidenciam a condição catalisadora do filme, feito em uma época que beiravam-se os limites – ou a necessidade deles – em tudo. Mais do que a base de todo o Cinema ferrariano, O Assassino da Furadeira é um grande ensaio sobre a desconstrução do homem diante de uma sociedade dominada pelo caos. É o registro mais direto e visceral da juventude setentista. De parte dela, mas que influencia todas as outras.

Daniel Dalpizzolo

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