Década de 60 (Especial James Dean)

Rapidamente, quando falaram-me, pela primeira vez, que faríamos um especial sobre mitologia e juventude, imediatamente, após a imagem de James Dean em Juventude Transviada, veio a década de 60 através da recente prova da UFRJ – ou UERJ, nunca sei. Quando estava procurando alguns filmes recomendados pelos colegas, além de procurar rever alguns que achava interessante, ou mesmo ler sobre, deparo-me com a edição de 40 anos de certa revista extremista de anti-esquerda. Independentemente de como cada tratava a década de 60, foi inegável a influência e a importância dadas, principalmente pelo quadragésimo ”aniversário” de 1968 – talvez o símbolo da década, que, até de forma saudosista é lembrada pela imersão da juventude participativa pela contracultura, pelo anti-guerra e a apoliticagem. Rebeldes por essência, os anos 60 marcariam o questionamento da liberdade, através de exibições sem censura com o sexo e as drogas como principal método de execução.

A esperança de um mundo melhor, pacífico e igualitário, não necessariamente afligia ou corria a algum lado da Guerra Fria intensificada. Enquanto os governos soviético e norte-americano viviam um dos mais acirrados momentos do embate, com a Corrida ao Espaço (que Kubrick levantaria apoteoticamente em 2001), a Crise dos Mísseis e, finalmente, a Guerra do Vietnão; os jovens pareciam mais largados, mas, igualmente, mais participativos. Largados no conceito de que sua forma de expressão não assumia caráter político, contra algum regime exatamente, e sim contra o “sistema” (stablishment), usando-se das viagens alucinógenas e as confraternizações cantadas. Já o participativo refere-se aos porquês de a década ser tão cultuada: por não temerem uma oposição verdadeiramente radical, isto é, com outro jeito de disseminação de ideal, defendendo-o com persevarança e inteiramente (sem discursos muito geniosos ou pegando em armas - ainda que o Movimento Negro nos Estados Unidos tenha tido um Luther King bastante oratório e os Panteras Negras). A bem da verdade, houve, sim, uma certa posição meio socialista – mas no utopismo da igualdade, e não num alinhamento às posturas soviéticas - e um certo anarquismo, como desfilariam algumas bandeiras nas grandes reuniões nos parques. A luta era contra a alienação e a falta do individualismo provocados pelo sistema em vigor. Com isso, também surgiram revoltas nos países vermelhos (Primavera de Praga e Reforma Cultural Chinesa).

Em Paris, exatamente em 1968, a reunião estudantil e operária também seria grande predicado para o ideal sujeito dos jovens da época. Com “a imaginação no poder” e “é proibido probir” todo o mundo foi alertado, para desespero dos burocratas, que fechariam o poder, fosse nos países socialistas, em que o próprio Mao-Tsé Tung voltaria sua posição quando no poder, e Stálin derrubaria Kruschev; fosse nos países ao redor dos Estados Unidos, como a própria França, e os países latino-americanos tomados por ditaduras militares. A despeito de qualquer ideologia política que os veículos comunicativos insistem em querer levantar para tirar o brilhantismo e o romantismo que se tem em torno da década, os hippies ainda são valorizados quando se olha para a Guerra do Iraque e lembra-se da Guerra do Vietnã.

Se o mundo esteve em polvorosa, teria Hollywood demorado a acordar? Acho que não. Os movimentos conhecidos, a bem da verdade, foram mais sutis, como 2001; ainda que os indies tenham retratado paisagens como Wodstock. Dennis Hopper e Peter Fonda fariam o filme consagrador para o cenário: Sem Destino, um filme de menos de 400 mil dólares, estourou ao colocar dois motoqueiros, que se drogam sem maiores conseqüências aparentes, mas que passam por um terrível preconceito – e num diálogo inspirador de Jack Nicholson, que dá vida à obra, com Dennis Hopper, o valor com o qual são tratadas coisas simbólicas no país americano é comentado com bastante pertinência. Antes disso, porém, já havia A Primeira Noite de um Homem, com o graduado Dustin Hoffman visivelmente perdido no mundo cheio de cobranças e expectativas frente a um futuro trabalhador e possivelmente enriquecedor. Godard, que eu não conheço, e o magistral Blowup também são exemplares de outros países. De qualquer modo, nada melhor, pelo menos para mim, do que Hair, filmado somente em 1979 por Milos Forman, para lembrar o período. Por sinal, a data do filme também representa bastante coisa, como a tal nostalgia citada no comecinho. Ainda hoje vários filmes são feitos tentando resgatar o período ou contextualizados por volta de 1968, vide Os Sonhadores, de Bertolucci.

Hair (Milos Forman, 1979)

Assim que escolhi por Hair para filme da década de 60, tinha certo receio ao tentar escrever algo sobre a obra. Ao contrário do que já fiz, inclusive com o texto de Juventude Transviada, não levantei tópicos ou fiquei imaginando algo a escrever durante a projeção. Isso porque o poder de Hair, com o perdão do clichê, transcende qualquer coisa que eu tente escrever aqui. Todavia, acho que há algo válido a se dizer aqui: como pode ter ocorrido durante o texto da década de 60, não sou, costumeiro, muito afeiçoado ao ideal, aos hippies, sendo, às vezes, até bastante contrário. E o diferencial de Hair reside em quebrar algumas barreiras, ao inserir pequenos traços durante a obra.

O grande fato é que a música pode ser a maior virtude e a coisa mais irritante no filme – e eu acho ”Let the Sunshine” uma das mais belas coisas que há, mesmo mandando alguém à merda dois minutos antes de começar a ver o filme -, até porque Hair quase não tem diálogos, mas as letras, além do forte ritmo e quase sempre cantadas em coro (à exceção de uma cantada por uma descendente asiática e a negra que aparece no meio do filme), transmitem tudo que há ali. A câmera de Milos Forman consiste apenas em tentar achar as personagens e focalizar, buscando o íntimo de cada personagem quando nas canções mais dramáticas, ou pegar grandes tomadas naquelas exigentes de coreografia ou coletivismo intenso. Em segundo lugar, o filme sabe colocar-se mesmo para os não adeptos à cultura hippie, aliás, talvez seja mais para eles, tanto que Claude, jovem que sai do interior dos EUA para servir ao Exército é o personagem principal. Conhecendo o grupo “rebelde”, ele fica dos dias junto a eles provando de sua (contra)cultura, mas não vira as costas para a obrigação, indo para o Exército e tendo como amada uma jovem da alta burguesia – e o filme mostra que o interesse pelas drogas e pela fuga independe da condição, ainda que se contraponha a patéticos como Steve, e até mesmo da idade, quando uma senhora, durante uma festa da nobreza, fica encantada com Berger, o “líder” do grupo, que tem as idéias e não teme em as colocar em prática.

Além de usar-se do canto e da dança, muito eficazes e simbólicos por natureza, essas próprias sofrem mutações interessantíssimas: no canto que faz a ode ao Cabelo, um dos ‘problemas’ dos jovens rebeldes, que não o queriam cortar, há uma pequena variação da melodia do hino americano, numa leve ironia que seria estendida ao final do filme. Acima de tudo, existe um grande empreendorismo sentimental em Hair, que se permite a colocar uma alucinação de Claude para, ao fim, cantar que Timothy Leadry, que acreditava na fuga pelas drogas, estaria errado. Ou, ainda, momentos em que pessoas aleatórias começam a cantar, como no comparecimento ao Exército em que os inspetores ficariam supostamente com desejo pelos homens, sendo os brancos interessados nos negros e vice-versa (e as mulheres também, mostrando claro que não é uma postura homossexual, assim como não há postura negra quando Hud ‘desafia’ o loiro e chama-o de ‘branco azedo’ e os dois saem numa boa).

Sem medo de aparecer ufanisticamente ou ficar fora de grandes posições ideológicas, Hair é competente no entretenimento saudável e diversificado, não se dando a grandes interpretações ou floreamentos. Não diria que é uma “mensagem” que o filme passa, apenas um sentimento, bastante acolhedor, por sinal, e que me deixa modificado ao final de cada sessão. Mesmo que, se ao cruzar na esquina com alguém cabeludo, a seguir, eu tente escapulir do mesmo jeito.

Cassius Abreu

7 Comments

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7 Responses to Década de 60 (Especial James Dean)

  1. Daniel Dalpizzolo

    É, Godard provavelmente seja o grande estudioso da juventude sessentista. Masculino, Feminino e A Chinesa, especialmente, são dois belos olhares – bastante diferentes, um mais romântico, o outro desconstrutivo – sobre ela. Isso sem contar que outros filmes seus evocam essa fase. Até mesmo Pierrot le Fou, aka melhor filme já feito, tem um espírito de juventude muito forte.

    Mas ótima escolha a sua, Hair lança um olhar de fora sobre o período, mas é evocativo pra caramba.

  2. Caio Lucas

    Isso mesmo, Hair foi uma escolha muito feliz para representar a década em seu texto. Great!

  3. uiago

    Esse filme é uma bosta não tem nada de bom nele esses bregas

  4. ltrhpsm

    E ”Norbit” é a obra-prima do século, seus mal-entendidos.

  5. Gostosooo quero me gozar

  6. maria samiles

    eu acho que essa epoca devia ser muito boa pois todos da epoca viviam conforme quizesssem

  7. Daniel Dalpizzolo

    haviam furtado a constituição?