Rapsódia em Agosto (Akira Kurosawa, 1991)

10 anos da morte de Akira Kurosawa

Aos 80 anos, Akira Kurosawa realiza seu penúltimo filme (quase cego e dependendo de financiamento estrangeiro, muitas vezes da boa vontade de fãs ilustres como Spielberg e George Lucas), entoando um hino de resgate, de perdão e de reconciliação, temas tipicamente mais evidentes conforme se sente mais claro o cheiro da morte.

E normal haver muito de cada autor em sua obra, mas no caso do cineasta japonês, Rapsódia em Agosto é uma fresta direta para sua alma, o vislumbre de uma autobiografia em imagens.

No filme, Kane (Sachiko Murase) é uma sobrevivente do ataque nuclear a Nagasaki que, aos 80 anos de idade, recebe uma carta pedindo que visite seu irmão milionário no Havaí, pressionada pelos netos – fascinados pelo Ocidente – e pelos filhos, que pretendem um emprego na empresa do tio recém-conhecido, administrada agora por Clark (Richard Gere), filho do homem, devido ao estado terminal de seu pai. As três gerações (guerra, pós-guerra e a que já nasce livre da lembrança de 9/8/45) reavaliam os próprios valores e a relação com a cultura americana vista sob uma lâmina densa de ressentimento que, se parece irrelevante no início, vai ficando cada vez mais forte.

Em momento algum Kurosawa lança qualquer coisa próxima de uma inquisição contra os EUA, berço da cultura ocidental do século XX e a quem o diretor tanto deve. O modo sereno como se porta é o de quem teve suas mágoas mortas de velhice, a quem – assim como Kane – a bomba parece ter caído há um tempo incontável, há um tempo que parece superar a longevidade dos sentimentos.

Mas Rapsódia é, acima de tudo, uma jornada de reencontro, um espiral em si mesmo, é a arqueologia de lembranças fósseis, combustíveis agora de uma nova condição, de um olhar sobre a própria vida como quem olha um livro de história.

O evento catalisador da ‘implosão’ sentimental de Kane ocorre já próximo ao final e promove uma viagem sem volta ao passado. Kane sobrepõe presente e pretérito numa confluência de épocas navegadas agora ao mesmo tempo pela personagem. E a cena final é catarse, é tempestade, é eletricidade entre memória, entre remorso, entre o que não foi e o que poderia ter sido, e principalmente, é a reposição de três gerações – filhas diretas da rosa atômica – sob a austera condução de uma única corrente.

Porque sob o olho nuclear de Nagasaki, no princípio de um rastro de 45 anos, e sem perceber, Kane já havia perdido o resto de sua vida…

Luis Henrique Boaventura

4 Comments

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4 Responses to Rapsódia em Agosto (Akira Kurosawa, 1991)

  1. Confesso que sinto certo receio de ver esse filme por ser estrelado pelo Richard Gere. Mas mais cedo ou mais tarde eu resolverei assistir.

  2. Luis Henrique Boaventura

    Não tenha pressa. E na verdade o Gere não faz mais que uma ponta no filme…

  3. Longe de ser exemplo do melhor de Kurosawa, mas uma lembrança bem vinda. Belo texto.

  4. Bom saber disso, Luis Henrique…