Superman – 30 Anos no Cinema

É um pássaro? É um avião? Não! É o Superman!

15 de Dezembro de 1978: Essa é a data em que foi lançado nos cinemas dos EUA, Superman – O Filme. Dirigido por Richard Donner, e estrelado por Christopher Reeve, Gene Hackman, Marlon Brandon, Margot Kidder, Glen Ford, entre outros. Aventura baseada na famosa HQ da DC Comics, que foi responsável em abrir as portas para as demais HQs que até hoje (e principalmente hoje) continuam sendo adaptadas para o cinema. Como fã dos filmes do herói desde criança, sendo Superman III o primeiro filme que vi nos cinemas, resolvi preparar esse especial para o Multiplot! para comemorar o aniversário de 30 anos de lançamento do primeiro filme, comentando os 5 filmes da série do Homem de Aço lançados até aqui. Sem mais delongas, vamos… Para o alto e avante!

Superman – O Filme (Richard Donner, 1978)

Superman II – A Aventura Continua (Richard Lester/Richard Donner, 1980) 

Superman III (Richard Lester, 1983)

Superman IV – Em Busca da Paz (Sidney J. Furie, 1987)

Superman – O Retorno (Bryan Singer, 2006)

 

Jailton Rocha

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Superman – O Retorno (Bryan Singer, 2006)

Várias trapalhadas ocorreram ao longo das produções dos filmes do Superman. Até parece sina do herói essas confusões que acontecerem nos bastidores de seus filmes. A primeira trapalhada veio logo nos dois primeiros, que foram marcados pela demissão súbita do diretor Richard Donner, que depois do sucesso do primeiro filme, não pôde terminar o segundo por causa das diversas brigas e desentendimentos que ocorreram entre direção e produção, sendo assim substituído por Richard Lester, que nem de longe tem o mesmo talento dele, mas conseguiu terminar Superman II, aos trancos e barrancos, e acabou assumindo a direção do Superman III. Depois, no Superman IV, a trapalhada ocorreu porque a Warner não estava mais interessada em investir na série, deixando o filme ser realizado pela paupérrima produtora Cannon Group Inc., que fez um filme típico dela, ou seja, totalmente pobre em todos os sentidos, efeitos especiais, roteiro e etc, resultando no enterro definitivo da série naquele momento. O ator Christopher Reeve até tentou bater de porta em porta, procurando alguém que quisesse bancar um Superman V, mas acabou não obtendo êxito. Já aqui, com os produtores reativando a série depois de quase 20 anos, para variar, outra trapalhada acontece: O diretor Bryan Singer estava envolvido até o pescoço com os filmes dos X-Men, mas abandonou tudo para fazer realizar essa nova seqüência para a saga de Superman. Com isso, quase que ambas as franquias vão para o lixo. Essa aqui do Superman passou muito perto disso. A sorte dela é mais devido a fama do herói, que é um dos mais conhecidos das HQs, e que tem um enorme público que quer continuar vendo as aventuras dele no cinema, do que propriamente nesse Superman – O Retorno que Singer “criou”.

Arrisco dizer que esse é um dos filmes mais “sem cara” que existe. É dirigido sim, pelo Bryan Singer, que mostrou competência no gênero nos dois primeiros filmes dos X-Men, mas aqui ele se anula totalmente porque sendo um fã alienado dos dois filmes de Richard Donner (colocando no plural, já que muita coisa do Superman II foi dirigida por ele), em vez de ir ao que achava melhor, preferiu ficar perdendo tempo em cima de detalhes que Donner colocou nos primeiros filmes, fazendo com que tudo não pareça nem coisa própria do Singer, nem consiga lembrar algo que o Donner tenha feito. O problema maior surge quando o diretor resolve fazer uma continuação dos filmes anteriores, mas se focando mais nos dois primeiros, sem considerar nem o terceiro ou o quarto. Até aí, tudo bem, só que ele se prende demais nesses filmes, e não neles em si, mas em todo esse conceito que ele, Singer, tem em relação ao Superman I e II, fazendo questão de se apoiar em detalhes, principalmente no que diz respeito ao romance de Lois e Superman, que só serviu para confundir aqueles que não conheciam os filmes anteriores, e para aqueles que conheciam ficarem estranhando tudo, já que a visão do Singer em relação a esses filmes é algo muito próprio dele e em nenhum momento, ele deixa muito clara essa visão que tem.

A diferença principal entre os filmes iniciais e esse aqui, é que os do Donner eram verossímeis, mas não eram tão “sisudos”, e o do Singer é justamente o contrário. Superman – O Retorno é totalmente sisudo, se levando a sério demais sempre, mas sem conseguir ser verossímil. Explicando melhor: Donner tinha a preocupação de passar uma verdade em relação ao herói. Afinal, era um ET que no planeta Terra tem super poderes, coisa que muita gente acharia difícil assimilar, ainda mais nos anos 70, então, na hora de passar essa verdade do personagem, Donner se preocupa em ser o mais verossímil possível. Toda história envolvendo a origem do Superman, com a destruição do planeta Krypton, a adoção por seus pais terrestres, a descoberta de seus poderes e etc, mesmo sendo fantasiosa, foi bem cuidada para que o público pudesse entrar naquele universo sem problemas. Mas depois disso, o filme se assume como uma aventura mesmo, investindo muitas vezes em cenas mais leves (principalmente com os vilões cômicos) e outras mais absurdas (como a cena do giro da Terra no final). Essa verossimilhança era usada somente para o público poder penetrar nesse universo, mas depois disso, o filme se colocava no direito de relaxar. Já Singer usou essa verossimilhança de antes só para justificar a transformação de tudo numa grande opereta, altamente dramatizada, fazendo o filme ficar pesado demais. E ele até tenta colocar humor em algumas cenas, mas falha drasticamente, porque o humor não é algo que surge naturalmente como antes, e sim algo posto lá de qualquer forma, só para dizer que o filme tem certa leveza, coisa que definitivamente, não tem. Mesmo assim, o humor usado aqui na maioria das vezes não tem a mínima graça (ou alguém realmente acha muito engraçado o filho da Lois chamar o Lex de careca?). Resumindo: Singer se põe em cada e todo instante como um fã alienado, e assim não deixa ou não consegue fazer o filme relaxar como Donner fez nos filmes dele.

Sobre a história: Superman – O Retorno se passa 5 anos depois de Superman II – A Aventura Continua. O herói teria abandonado o planeta Terra depois dos eventos do segundo filme, para ir ao espaço procurar pistas de sobreviventes de seu planeta natal. Então, o filme mostra seu “retorno” depois desse tempo que passou no espaço. O que muita gente pode estranhar ao ler essa história inicial é que ela caberia muito bem, depois do quarto filme, então pra quê confundir todos, enfiando essa história depois do segundo? Afinal, para muitos, são quatro, e não dois, os filmes anteriores. O detalhe é que Singer criou um personagem chamado Jason White. Não dá para dizer muita coisa sobre ele para evitar possíveis spoilers, mas ele é o filho pequeno da Lois Lane e pela lógica, ele só poderia ser inserido depois do segundo filme. O problema é que o desempenho pífio do filme em grande parte é culpa desse menino, já que ele é a personificação dessa alta carga dramática que Singer vomitou aqui. Então, em vez de relaxar, fazendo uma continuação que teria como base os anteriores, mas sem se prender muito a eles, Singer preferiu criar esse personagem, que particularmente não serviu pra nada, ao contrário, só atravancou a história, para assim ter uma justificativa e enfiar Superman – O Retorno depois do Superman II, se prendendo inutilmente demais a vários detalhes dos filmes iniciais. Mas daí surge outro problema: Por mais que tente evitar, o diretor acaba passando por cima de várias coisas ditas anteriormente. Ou seja, até os filmes que ele estava considerando para fazer este, ele não consegue obedecer 100%, surgindo assim vários erros de continuidade. Não crucifico tanto esses erros, que na maioria das vezes são inevitáveis mesmo, mas, como disse, o filme se leva a sério demais, então pesaram muito mesmo no resultado final. E nem posso dizer que são erros de continuidade propriamente, já que o Singer (ou algum fã mais ardoroso dele) pode ter todas as explicações sobre tudo que não bate muito bem entre esse filme e os anteriores. Assim, até mesmo aqueles que conhecem os filmes iniciais de cabo a rabo, vão ter que consultar um “manual de instruções” para entender ou compreender (aceitar, seria a palavra exata) certas coisas que Singer imprimiu aqui. O filme deveria funcionar sozinho e não depender tanto assim do que foi feito no passado.

O ponto positivo do filme é o seu visual. Tudo é muito bem cuidado e bem construído, tanto em relação a efeitos especiais, como na parte de cenários, figurinos e etc. O filme, pelo menos, é bonito de se ver. Nesse sentido, Superman – O Retorno é sim, grandioso, mas essa grandiosidade ficou só nessa parte técnica mesmo. Outra coisa boa que ocorreu foi a escolha do ator que passaria a ser o Superman. Brandon Routh consegue ter um bom desempenho tanto como Clark Kent tanto como Superman. Christopher Reeve teve um bom substituto nesse novo filme. Infelizmente, o resto do elenco não funciona tão bem. Kevin Spacey como Lex Luthor, e Kate Bosworth como Lois Lane, por exemplo, não diria que estão propriamente ruins, mas ambos sofrem demais por essa escolha do diretor em deixar tudo dramático demais, sendo assim, a meu ver, um erro mais de direção que de atuação deles. O Kevin, pela experiência que tem, até consegue se salvar, mas a Kate não. A atriz/personagem está totalmente fora do tom. Nem de longe lembra o ótimo desempenho da Margot Kidder nos filmes anteriores, que conseguia se equilibrar muito bem tanto nas partes mais densas como nas mais leves dos filmes do Donner. A Kate não consegue a mesma façanha, e passa o filme todo com a mesma cara. A única coisa que a ajuda é que tem um bom parceiro em cena, James Marsden, que interpreta seu marido, Richard White. O personagem é o mais agradável do filme e, conseqüentemente, o mais interessante que Singer trabalha dentro de sua opereta.

Finalizando: Sou fã do Superman e de seus filmes (dos três primeiros, diga-se). Pra mim, ele ainda é o herói definitivo vindo das HQs, então torço sempre para que um dia, ele volte em grande estilo às telonas. Infelizmente, isso não ocorreu aqui. Mas estou aguardando o próximo filme: Superman – The Man of Steel. Se for ainda sob a direção de Singer, então espero que seja o mesmo que dirigiu magistralmente X-Men 1 e 2, e não esse fã alienado que tão preso ao passado não deixou Superman – O Retorno alçar vôos maiores.

2/4

Jailton Rocha

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Superman IV – Em Busca da Paz (Sidney J. Furie, 1987)

Com toda confusão que houve na produção dos filmes iniciais, a série Superman, no fim dos anos 80, estava abandonada, mas ainda teve uma ligeira sobrevida nesse quarto episódio. O problema é que a Warner, estúdio por trás dos filmes anteriores, não estava interessada em realizar esse aqui, e o quarto Superman acabou caindo nas mãos da Cannon Group Inc., produtora que na época investia em produções baratas como os filmes estrelados pelo Jean Claude Van Damme e Chuck Norris. E isso já diz tudo sobre esse Superman IV – Em Busca da Paz.

O único charme desse quarto filme é a presença do elenco original. Além de Christopher Reeve continuar como Superman/Clark Kent, voltam a Margot Kidder como Lois Lane (no terceiro filme, ela só aparecia no começo e no final), e Gene Hackman novamente como o vilão Lex Luthor. Fora isso, nada resta de útil, e como já vimos esses três reunidos em filmes bem melhores (Superman I e II), então esse quarto filme perde qualquer utilidade que poderia ter. Acrescido o fato de a produção ser altamente pobre, no que resulta em efeitos especiais totalmente porcos. Então, se na época do Superman – O Filme, queríamos ver o herói voando, nesse Superman IV, torcemos para que ele mantenha os dois pés firmes no chão, já que as cenas de vôo são totalmente decepcionantes. Teve até uma fracassada tentativa aqui de se reproduzir a cena de vôo do primeiro filme com Superman e a Lois, inclusive com a mesma belíssima música do John Williams ao fundo, mas com esses (d)efeitos não deu mesmo.

O roteiro teve o argumento do próprio Christopher Reeve, então é dele a boa idéia que surgiu, mesmo que não tenha sido muito bem aproveitado. A idéia de o mundo colocar um ultimato para o Superman, o forçando a ter uma atitude contra as bombas nucleares é muito boa, já que as pessoas o enxergam como um protetor e como tal deveria tentar evitar essas guerras que, curiosamente, são provocadas por essas mesmas pessoas que cobram dele uma atitude. Mas tudo isso resultou num papo pacifista simplório, indigno de maior atenção. Outra coisa interessante que surgiu, mas também não foi bem aproveitado é o fato de o herói ficar dividido entre duas mulheres. Isso que surgiu no fim do terceiro filme quando Lana Lang vai trabalhar no mesmo local que Lois Lane e Clark Kent/Superman. Aqui, de um lado, temos a Lois Lane que é apaixonada pelo Superman, e no outro, surge a filha do novo chefão do Planeta Diário, Lacy Warfield, interpretada pela feiosa Marriel Hemingway, que se interessa pelo Clark Kent. Não sei o porquê de não usarem a Lana Lang do filme anterior para essa função de disputar o Superman com a Lois. Teria ficado mais interessante. Mas mesmo assim, temos duas mulheres interessadas nas duas distintas personalidades do herói. Só que isso só serviu para presenciarmos a cena em que Clark Kent/Superman marca um encontro com as duas ao mesmo tempo, e assim no encontro, uma hora ele está de Superman e outra tem que se transformar em Clark. Só que a cena em si não serviu pra nada e nem engraçada ficou, restando a pergunta: Porque o Superman está perdendo tempo fazendo isso? Se ele realmente quer ficar com as duas teria outras formas mais simples e eficientes de realizar essa façanha. Não?

E será que preciso falar do tal Homem Nuclear (Mark Pillow), que é o vilão que o Lex Luthor cria aqui para enfrentar o Superman? Será que ninguém na produção do filme enxergou o quão inútil esse personagem seria? Afinal, ele só tem força diante do sol, ou seja, é só o Superman lutar com ele à noite e pronto, ganhou. Não estou exagerando. Tanto que numa cena o cara é trancado num elevador e sem a luz do sol lá dentro, ele perde os poderes (!!!). Enfim, esse Homem Nuclear só surge mesmo para “coroar” de vez esse filme caquético, que enterraria quase de vez a série (o herói só voltaria aos cinemas quase 20 anos depois). No fim, a única qualidade desse quarto filme é que curto. Tem 1h29min de duração enquanto os outros tem mais de 2h. Provavelmente, a produção da Cannon viu a bomba que estava sendo feita e chegou à conclusão que ninguém iria agüentar mais tempo que isso. Superman, definitivamente, já teve dias bem melhores…

1/4

Jailton Rocha

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Superman III (Richard Lester, 1983)

Depois de toda polêmica que envolveu a produção dos dois primeiros filmes da série Superman, com direito a demissão do diretor Richard Donner antes da conclusão do segundo filme e a conseqüente debandada de parte do elenco principal, esse Superman III ficou 100% a cargo do diretor Richard Lester. Ele teve certa sorte (ou azar, dependendo do seu ponto de vista) de ter somente a presença de Christopher Reeve, o ator por trás do Superman/Clark Kent, sem contar com vários dos outros atores que participaram dos dois filmes iniciais, assim teve a liberdade total de lidar com toda uma nova estrutura em relação à história e personagens em volta do Homem de Aço. Então, se antes, no segundo filme, Richard Lester estava preso, tendo que se limitar a simplesmente terminar o trabalho de outra pessoa, aqui ele estava livre para fazer o que quiser. Isso funcionou tanto para o bem como para o mal do filme.

Funcionou para o bem porque no fim das contas, Superman III é o que mais se difere dentre todos os filmes da série, fazendo uma espécie de “quebra” no meio dela. Enquanto, Superman I, II, IV e O Retorno lidam com a questão do romance entre Clark Kent/Superman e Lois Lane, e as vilanices de Lex Luthor, aqui sem a presença de Lois e Lex, o herói pôde lidar com outras coisas, como enfrentar vilões novos ou o simples fato de voltar para Smallville, revivendo seu amor de juventude por Lana Lang (Annette O’Toole) e sua rivalidade com Brad Wilson (Gavan O’Herlihy). Ou seja, o herói está “sozinho” no seu terceiro filme, encarando outras pessoas e outras questões. Isso em si já é algo bem interessante, mesmo que Lester não consiga trabalhar tudo muito bem, perdendo tempo com certas bobeiras, mas está tudo ali, bem colocado. E funcionou para o mal porque se esse diferencial que o filme tem em relação aos outros da série é sua maior qualidade, o seu maior defeito reside no humor pastelão que o diretor Richard Lester insiste em colocar em vários momentos. A própria presença de Richard Pryor, um dos comediantes negros mais famosos da década de 80, já empurra o filme para isso. Considero que é meio difícil não se incomodar com certas cenas, como os créditos iniciais que apelam para personagens e situações caricatas, ou outras envolvendo as muitas estripulias que o personagem Gus Gorman, interpretado por Pryor, adota durante o filme, só que Superman III se coloca como uma aventura descompromissada, então esse pastelão não chega a ficar ou soar muito ridículo, já que não afeta tanto os momentos bons do filme.

Com certeza, o momento mais marcante daqui é quando o herói fica “mau” depois de ser atingido por uma kryptonita fabricada por Gus. Para um herói tão bonzinho como Superman, ver o lado ruim dele é algo notável. Mesmo que o pastelão do filme não deixe explorar todo esse seu lado ruim, já que o diretor acaba mostrando mais o lado cômico da situação, com o “Superman-Mau” fazendo com coisas como apagar a chama olímpica, ou alinhar a Torre de Pisa (reconheço que adoro essa parte da Torre de Pisa!), mas de qualquer forma, tudo ainda resulta muito interessante já que podemos presenciar esse herói bonzinho dando uma de machão a ponto de se embebedar e dar “uns pega” numa loira que dá mole para ele. Sem falar na ótima batalha entre Superman e Clark Kent num ferro velho, fazendo com que o herói se desligue desse lado bad boy. E imaginar que recentemente quando outro super-herói famoso resolveu ficar mau se limitou a virar emo (Emo-Aranha?). Ainda bem que com o Superman, a história foi bem diferente.

Outro ponto interessante é que, sem querer, o filme previu certas coisas que assolam o mundo hoje em dia, como: 1) O problema dos hackers: o personagem do Richard Pryor usa os computadores para fazer absolutamente tudo o que quer, inclusive desviar dinheiro; 2) A crise do petróleo: o vilão daqui faz o mundo de refém depois de seqüestrar toda reserva de petróleo, assim vemos as pessoas desesperadas tentando ficar com o pouco de combustível que restou; e 3) As maluquices climáticas que atinge muitos países: Um furacão surge de repente na Colômbia, destruindo tudo, sem a população nem saber da onde veio. Isso não deixa de fazer o filme ficar um pouco com cara de atual, mesmo com a idade avançada que tenha. Acrescido ao fato de que filmes recentes como Homem Aranha 3 e Hancock adotarem o mesmo elemento usado aqui do “super-herói politicamente incorreto”, fazendo assim o filme ganhar ainda mais esse ar de atual.

Assumo que tenho um carinho especial por Superman III mais pelo fato dele ser o primeiro filme que vi no cinema, quando ainda era criança, do que propriamente pela sua qualidade. Mas é que depois de tanto tempo ainda consigo vê-lo da mesma forma que vi da primeira vez, mesmo que hoje, consiga enxergar melhor os seus defeitos. Só que tudo ainda soa maior do que talvez seja: A luta do Superman contra o Clark Kent no ferro velho, o supercomputador no final, o reencontro com a Lana, as trapalhadas do Pryor e etc. De qualquer forma, esse aqui mesmo este sendo inferior aos dois anteriores, é bem superior aos que vieram depois, já que Superman IV é uma inutilidade completa, e o recente Superman – O Retorno perde muito tempo tentando ser grandioso demais sem conseguir por um minuto ser. Superman III não é assim. Ele se assume como uma aventura descompromissada desde o início e ao mesmo tempo consegue ser bem interessante. Quem disse que uma coisa é inversa à outra?

3/4

Jailton Rocha

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Superman II – A Aventura Continua (Richard Lester/Richard Donner, 1980)

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A primeira coisa a se dizer sobre Superman II – A Aventura Continua são as confusões que ocorreram nos bastidores da produção. O diretor Richard Donner tinha sido contratado para realizar dois filmes baseados nas HQs do Superman, e realizar dois filmes simultaneamente não é algo fácil, ainda mais naquela época (fim dos anos 70), então os problemas inevitavelmente surgiram. A intenção inicial era lançar ambos os filmes somente depois de os dois estarem prontos, mas com os vários atrasos que houve, Donner se viu obrigado a finalizar o primeiro filme, e lançá-lo antes de concluir o segundo. Só que depois do sucesso de Superman – O Filme, e como desde o início, a produção do filme se desentendia com a direção, os produtores se acharam no direito de demitir Donner, já que pouca coisa do segundo filme faltava para terminar, e chamaram o diretor Richard Lester para concluir tudo. Mas com a demissão do diretor, parte importante do elenco e equipe técnica saiu também da produção. Assim, Marlon Brando, que interpretou Jor-El, pai do herói, no filme original, não teve nem seu nome ou sua imagem incluída na continuação, fazendo com que Suzanne York, a mãe de Superman, filmasse as cenas dele, e Gene Hackman, o vilão Lex Luthor, se negou a terminar suas cenas, sendo substituído assim por um dublê em alguns takes. Claro que é lamentável isso tudo que ocorreu, mas apesar disso, Superman II é uma ótima continuação. Donner tinha filmado quase tudo, faltando muito pouco para Lester acrescentar, e ele se limitou a só terminar o filme mesmo, não influenciando tanto o resultado final, já que não mudou muita coisa. Nem poderia mudar, porque se quisesse fazer isso, grande parte do elenco não estava mais lá para filmar qualquer cena extra. Com isso, mesmo que oficialmente quem dirigiu o filme foi Lester, quase tudo foi filmado e idealizado pelo Donner, então por isso me coloquei no direito de colocar o nome dos dois no topo do texto.

Esse segundo filme trabalha muito bem uma característica que de cara beneficia muita continuação, que é a de não precisar apresentar personagens, já que isso ficou para o filme original, restando para continuação a função básica de movimentar a história. Já conhecemos Superman, Lois Lane, Lex Luthor e todo mundo mais, e estamos dentro daquele universo, então não haveria necessidade de uma grande introdução como houve antes, resultando em mais cenas de ação, todas ótimas e muitas delas em cima dos três excelentes vilões que surgem. Já o vimos antes no começo do primeiro filme: General Zod (Terence Stamp), Ursa (Sarah Douglas) e Non (Jack O’Halloran). Três malfeitores que foram capturados em Krypton, antes de sua destruição, e condenados à prisão eterna na Zona Fantasma. Se antes o Superman era o único que tinha sobrevivido à destruição de Krypton, sendo assim o único da sua espécie no planeta, aqui vemos que ele não foi o único e que vai enfrentar três personagens tão fortes quanto ele. Curiosamente, a fuga do trio da Zona Fantasma se dá pelas mãos do próprio Superman, que os liberta da prisão sem querer.

No primeiro filme, o que se trabalhava era a construção desse personagem, principalmente, nessa sua imponência por ter superpoderes na Terra, sendo assim indestrutível, mas aqui, nesse segundo filme, tudo isso se quebra. Tanto a sua indestrutibilidade física como a emocional se rompem. Com a presença dos três vilões vindos de Krypton, Superman perde sua indestrutibilidade física, já que Zod, Ursa e Non, tendo os mesmo poderes dele, e sendo em maior número, poderiam sim derrotá-lo e destruí-lo. Um perigo real assim se apresenta. E paralelamente, ao surgimento desses três personagens na Terra, também vemos o desenrolar da relação entre Clark Kent/Superman e Lois Lane, o que provoca a perda da indestrutibilidade emocional do herói. Essa parte emocional é um limiar que o personagem vive desde o começo. Superman veio para ajudar, e para se ajudar tem que haver essa compaixão, ele tem que se importar com as pessoas da Terra, mas não poderia se envolver muito, a ponto de ultrapassar certa barreira e querer ser um de nós. Ele só poderia ajudar vivendo às margens da sociedade, sem ser parte integrante dela. Através de sua relação com Lois, Superman não quer se sentir mais responsável pelo mundo, e não quer mais ser diferente. Ele quer se tornar mortal para viver ao lado dela, e toma assim uma decisão drástica. O problema é que depois de tomar essa decisão, ele fica diante da situação dramática que o planeta passa quando General Zod e seus comparsas estão dominando o mundo. Essa é a sina do herói que vê que não pode deixar de ser herói, ao mesmo tempo em que sente essa extrema necessidade de não ser mais. Tudo isso termina na excelente batalha aérea nos céus de Metrópolis, quando os três vilões enfrentam o Homem de Aço. Com certeza, um dos pontos altos não só do filme, mas da série toda.

Uma dúvida que rola em relação a Superman II é até que ponto foi prejudicado com a demissão de Donner. Claro, que houve esse prejuízo, não dá para negar. Só que o filme ficou ótimo de qualquer forma, mesmo que o Richard Lester tenha colocado certas bobagens típicas dele na montagem final, mas, particularmente, não acho que nem o Superman III foi muito prejudicado por isso, e ele foi todo filmado pelo Lester. Sem falar que, recentemente, ao assistir Superman – O Retorno, tendo que presenciar toda aquela bobeiragem dramático-romântica do Bryan Singer, ficou a impressão de que se Donner tivesse continuado, poderia ter tentado colocar isso filme dele, e Superman II ter perdido sua essência de filme de aventura e caído na desgraça de tentar ser algo que não é. Isso é exagero meu, já que tenho certeza que Donner nunca iria fazer isso, mas o filme do Singer me deixou traumatizado a ponto de me perguntar: Que filme do Superman, eu vi? Será que foi o mesmo que o Singer viu? Será que foi o mesmo que Donner idealizou? Enfim. No final de tudo, me lembro daquela frase que diz que “Há males que vem para o bem”, então, me limito a acreditar nisso, e em vez de ficar imaginando o que o filme poderia ter sido com o Donner, fico curtindo essa ótima versão aqui mesmo. Ela tem qualidades mil, apesar de todos esses problemas que aconteceram na sua produção.

4/4

Jailton Rocha

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Superman – O Filme (Richard Donner, 1978)

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Na segunda metade da década de 70, o diretor Richard Donner foi contratado para trazer para as telas de cinemas as aventuras do super-herói das HQs, Superman, que é com certeza, um dos personagens mais conhecidos desse meio. Ao contrário de hoje, em que filmes baseados em HQs ganharam uma importância muito grande devido a enorme quantidade de fãs, tanto crianças como adultos, dos mais variados heróis, filmes assim nessa época não tinham uma relevância muito grande. Então, para se fazer uma aventura baseada em HQ sem cair em cima de qualquer preconceito que isso poderia gerar, Donner colocou a palavra “verossimilhança” como meta na sua produção. Essa palavra é meio perigosa quando se fala em filmes de aventura, mas ela surgia simplesmente para que se realizasse um filme em que o público pudesse entrar naquele universo da melhor forma possível, e a partir do momento que público embarcasse, Donner se sentir livre para explorar todo aquele universo da forma que considerasse melhor. E se hoje, muito filme baseado em HQ sente necessidade de se levar a sério demais (inclusive Superman – O Retorno) aqui isso não era o objetivo. A verossimilhança era simplesmente para que todo aquele universo da HQ se encaixasse na telona sem o grande público estranhar tudo, mas o filme em si está bem longe de ser tão “sisudo” como os atuais.

O início do filme, onde presenciamos a origem do personagem, é a sua parte mais séria. Tanto nas cenas em Krypton, com seus pais biológicos, e depois em Smallville com seus pais adotivos na Terra, tudo é tratado de forma diferenciada do resto do filme, com um tom sóbrio todo próprio, a ponto de termos atores consagrados como Marlon Brando interpretando Jor-El, o pai biológico de Superman, e Glenn Ford interpretando Jonathan Kent, seu pai adotivo aqui na terra. Mas o filme ganha um ar bem mais leve quando chegamos à idade adulta do herói e o encontramos como um jornalista na grande Metrópolis. O contraste dessas duas fases do filme se baseia nas das duas versões de Clark Kent. Temos na fase inicial a sua versão jovem, um pouco mais introspectivo, que não sabe muito sobre si e porque tem os poderes que tem, e no resto do filme, já adulto, o herói estando mais seguro sobre si e seus poderes, passa a adotar Clark Kent como identidade secreta, seu disfarce perante os outros habitantes do planeta. Assim, no início Clark Kent era o próprio herói, sua identidade verdadeira, um personagem real, por isso o tom mais sóbrio, e depois quando ele vira um mero personagem fictício por onde herói se esconde, o filme passa a adotar esse tom mais agradável de filme de aventura.

Incrível ver como o filme acerta em cada detalhe, desde a fodástica e inesquecível trilha de John Williams, passando pelos efeitos especiais (que ganharam o Oscar da época) até seu elenco grandioso, com personagens bem desenvolvidos. De um lado temos o herói, Superman, interpretado por Christopher Reeve, que foi a escolha perfeita para o papel. Ele não só o interpreta, mas o incorpora. Isso se torna um feito ainda maior quando somamos o fato de na realidade ser duas personalidades distintas presas dentro do mesmo personagem: Superman e Clark Kent. Se na tela, a única diferença física que vemos entre eles é o uso ou não de óculos, mas na ótima interpretação do Reeve isso aumenta numa proporção incrível. A postura que ele adota com Superman e o jogo de cintura que tem com as trapalhadas do Clark fazem com que não duvidamos por um minuto que sejam dois personagens diferentes, mesmo sabendo que se trata da mesma pessoa. Sua companheira de cena também foi outra grande escolha. Margot Kidder, como Lois Lane, acentua ainda mais essas duas personalidades do herói, quando age de forma natural, mas bem distinta perante um e o outro. Daí se tira que dali, dentro daquele universo, não daria para ninguém pensar por um momento que Clark Kent é o Superman. A identidade secreta dele estaria segura. E do outro lado, temos o vilão Lex Luthor, que Gene Hackman interpreta de forma magistral, tornando Lex um vilão inesquecível. Se Superman tinha essa dubiedade de ser dois personagens dentro de um, Luthor carregava essa dubiedade dentro de sua personalidade única onde se apresenta ao mesmo tempo o perigo eminente por ser a pessoa que quer destruir Superman, mas também uma pessoa carismática, que se intitula “a maior mente criminosa do nosso tempo”. Ele instiga simultaneamente no público essa simpatia, por ser um personagem agradável, e uma antipatia, por não deixar de ser o vilão perigoso que é. E as cenas dele com seus capangas incompetentes é o que melhor representa esse humor acertado que o filme tem. Ao contrário do pastelão da Parte 3, ou da falta de humor do recente O Retorno, aqui tudo é bem construído. Mesmo porque o humor surge naturalmente quebrando assim qualquer título de “filme que se leva a sério demais”. Donner tinha consciência que estava fazendo uma aventura baseada em HQ, então o filme carrega sua leveza através desse humor.

O marketing de Superman – O Filme era todo virado ao simples fato de podermos ver um homem voando na tela, coisa não tão comum na época, ainda mais de forma verossímil que era o que se pretendia aqui. E esse homem não só voava, ele fazia outras coisas incríveis, como ir para o espaço sideral, correr mais rápido do que um trem, resistir a tiro de balas, levantar carros, caminhões, helicópteros e qualquer outro tipo de peso, entre várias outras coisas incríveis, ou seja, hoje, o filme não soa como novidade, já que qualquer super-herói de beira de esquina se propõe a fazer isso, mas numa época cética, Superman fez com que isso tudo pudesse virar realidade na tela, numa dimensão gigantesca, e assim abriu as portas para todo um gênero que hoje em dia está muito em alta (para o bem ou para o mal). E depois de tanto tempo, o filme continua importante dentro desse gênero, a ponto de até hoje ser usado como base ou referencial para todo e qualquer outro super-herói que queira sair das HQs e ir para a telona do cinema. Em cima disso tudo, Superman – O Filme, tanto na época como atualmente, se tornou um filme único.

4/4

Jailton Rocha

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A Liberdade é Azul (Krzysztof Kieslowski, 1994)

Galera, estréia do nosso amigo de longa data Thiago Duarte no Multiplot!, que não pôde estar com a gente no início mas antes tarde do que etc. E já começa falando de Kieslowski, o maldito.

A Liberdade é Azul (Krzysztof Kieslowski, 1994)

Quando a personagem da Juliette Binoche acorda na cama, é como se começássemos a fazer um tour pela expressão humana. O nosso guia obviamente é a câmera, e é um guia bem indiscreto. Ele circula pelos poros a procura do maior encadeamento da dor, e nós somos turistas segurando máquinas fotográficas à procura do melhor ângulo. “Aqui vemos uma sutil tremida de queixo. Não vai durar muito, viu? Parou. Não me perguntem por que, mas isso sempre acontece. Agora se me acompanharem até aqui… Observem esse olhar. Conseguem acreditar que existe um ser vivo esmagado por ele? Ah, e não se aproximem muito para não serem sugados para o oco infinito que ele carrega. E nada de alimentar os animais”. Kieslowzski vai além de filmar a carne como simples carne, ele praticamente usa a câmera como uma seringa enfiada na medula. Ao em vez de puxar qualquer líquido dela, ele traz qualquer coisa que não seja física. É a melancolia ganhando contornos.

Ao sair do quarto do hospital ela minimiza sua vida a um estado de conta-gotas. “Menos um dia. Menos dois dias. Menos dois dias e 6 horas”, e isso fica bem evidente em uma cena especial, quando ela está sentada em um banco na rua e olha uma senhora, muito velha, com o corpo inclinado, se arrastando pela rua, fazendo um esforço descomunal apenas para largar uma garrafa no lixo reciclável. Ela não a observa com pena, mas sim com inveja. Com uma nostalgia inversa, em saber que ainda resta esperança “eu ainda vou envelhecer e morrer, pena que falta tanto”. Ela praticamente renuncia todos os sentimentos e espera a hora chegar.

É uma pessoa que sente uma dor constante, que não da trégua, que é capaz de fazer uma espécie de “pacto” com a dor física se automutilando “eu deixo você entrar em cena, desde que consiga monopolizar meu corpo. Nem que seja por míseros segundos, por favor”.

Não tem como resumir o filme de outra forma, ele é um tratado sobre a dor, sobre a perda, sobre a incapacidade de viver mesmo sobrevivendo. E uma atuação monstruosa da Juliette Binoche. Um dos filmes mais sufocantes que já assisti.

4/4

Thiago Duarte

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Jogos do Poder (Mike Nichols, 2007)

Chato é argumento? Se é ou não, nesse momento, simplesmente não me interessa. Afinal, não consigo arranjar um termo tão perfeito pra definir o último trabalho de Mike Nichols (Closer).

Jogos do Poder é chato, c-h-a-t-o, chatíssimo. Incrível que nada se salva, pra não dizer que exagero, Seymour Hoffman tem os únicos “bons” momentos do filme, já seus companheiros de elenco, meu Deus, péssimos. Tom Hanks e Julia Roberts estão, atualmente no mesmo “time” de Nicolas Cage – astros decadentes e que tem o condão de irritar, pelo simples fato de estarem em cena.

Pra mim, é particularmente triste ver um filme tão desinteressante de Nichols, digo isso, porque sou grande admirador de Closer e, sem dúvida, esperava algo bom desse novo.

Tio Nichols, volte a filmar relacionamentos e deixe a politicagem de lado. Obrigado.

1/4

Djonata Ramos

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Huckabees – A Vida é uma Comédia (David O. Russel, 2004)

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Coincidências. Esse é o pontapé inicial do filme I Heart Huckabees, que a partir desse tema tenta tratar de questões existenciais, que muitos em algum momento podem querer analisar em suas vidas. E ao contrário do que possa parecer, o competente diretor David O. Russel não retrata isso de forma dramática ou pesada, que seria o mais óbvio por se tratar de um tema difícil, mas sim de uma forma cômica, com bastante bom humor, através de um roteiro inteligente e certeiro, somado ao desempenho de seu excelente elenco.

O personagem principal aqui é Albert Markovsky (Jason Schwartzman). Um cara que já começa o filme questionando a si mesmo e a sua vida no geral, mostrando ser uma pessoa cheia de dúvidas e incertezas (afinal, quem não as tem). Ele é um ambientalista que faz parte de uma entidade chamada “Espaços Abertos”, uma organização que tenta evitar com que o progresso urbano acabe com os espaços naturais como bosques, florestas e campos. Por ter tantas dúvidas na cabeça, principalmente depois que uma estranha coincidência ocorreu recentemente em sua vida, ele vai procurar uma agência de “detetives existenciais” para fazer uma investigação sobre essa coincidência. Logo nas cenas iniciais, onde se passa os créditos do filme, já o vemos perdido no prédio onde fica a agência, andando por dentre vários corredores. Albert se vê num labirinto, que não deixa de ser uma referência ao “labirinto emocional” que vai acontecer com ele no decorrer do filme.

Na agência de detetives, conhecemos Vivian e Bernard Jaffe (Lily Tomlin e Dustin Hoffman), casados, e que se autodenominam “detetives existenciais”. Eles investigam passo a passo a vida da pessoa que pediu os serviços de investigação para assim descobrir qual seria o motivo de alguma coincidência que tenha acontecido ou simplesmente a resposta de alguma dúvida que a pessoa está tendo sobre sua vida. Segundo a filosofia deles, tudo que acontece no universo tem uma ligação, tudo é conectado de alguma forma. Nada acontece por acaso. Tudo é importante. O exemplo usado aqui é o de um lençol. O universo seria um lençol, e cada pessoa, cada evento, cada coisa é uma parte desse lençol. Notamos a maneira que o roteiro simplifica coisas, usando uma linguagem um pouco mais simples, para não cair na armadilha de tentar ser um “filme cabeça” demais, coisa que não era o objetivo aqui. Esse é um dos charmes do roteiro. As pessoas podem gostar ou não do filme, aprovar ou não as filosofias apresentadas aqui, mas entender, elas entendem. O filme dá todas as ferramentas para isso. E voltando ao Albert, ele aceita essa filosofia de Vivian e Bernard, e a “investigação existencial” de sua vida começa.

Como poderia acontecer com qualquer pessoa, a investigação dos detetives deixa Albert muito incomodado, já que eles invadem cada espaço de sua rotina diária para observar e anotar o que ele faz e como ele faz as coisas, porque segundo Vivian qualquer pequeno detalhe dessa sua rotina “pode ser a chave para sua realidade”. Mas incômodo maior é quando eles entram no seu ambiente de trabalho, porque Albert está num momento delicado, enfrentando muitas dificuldades. Essa é a teia que se monta em volta dele: Por causa das dificuldades no trabalho, ele começa a se questionar e questionar a própria razão de sua existência. Esse questionamento o fez prestar atenção nas coincidências, das quais ele atribui a algum tipo sinal, e em busca do significado desse sinal, ele contrata os detetives, cuja investigação representa essa sua busca por uma verdade universal. Mas quando os detetives, querendo investigar mais sobre ele, invadem seu espaço de trabalho, complicando ainda mais as coisas, ele começa a rejeitá-los. Ou seja, os problemas que tem no trabalho acabam sendo o que atrai e o que afasta Albert pela busca dessa verdade, que ele tanto anseia.

No decorrer da investigação, outros personagens surgem e são envolvidos direta ou indiretamente nela. O primeiro é Brad Stand (Jude Law). Ele é rival de Albert, e trabalha para uma rede de shoppings conhecida como Huckabees (que dá nome ao filme). Os dois estão num atrito porque a empresa quer construir mais um shopping numa área de conservação ambiental, defendida pela organização Espaços Abertos. Para atrapalhar o rival, Brad chega a encomendar uma investigação existencial para si, mas com isso, envolve também a sua namorada, a bela modelo Dawn Campbell (Naomi Watts), a garota-propaganda da Huckabees, que forma com ele o típico casal jovem, bonito e bem sucedido, mas com a investigação descobrem como são incrivelmente fúteis. Ele, por sempre querer ter muito sucesso na vida, se anula atrás de uma imagem de cara boa praça e simpático, enquanto ela se anula para poder parecer sempre bonita e carismática diante os outros, e estrelar os comerciais da empresa. Primeiramente, é Dawn que cai nessa crise existencial e passa a se vestir de qualquer jeito, renegando sua beleza física, e cobrando mais seriedade de Brad. Logo depois é ele, que demonstra certa resistência em aceitar a filosofia dos detetives, mas através de uma conversa reveladora com eles, acaba falando a frase “Como eu não sou eu mesmo?”. Isso cai como um raio em sua cabeça, e o faz se sentir mal, chegando ao ponto de vomitar ao tentar manter o mesmo comportamento que vinha tendo no decorrer da vida. O lado emocional dele acaba interferindo diretamente no lado físico de tão pesado que ele se sente. Com isso, ao tentar sabotar o rival, Brad acaba atingindo a si mesmo.

Outros personagens que são afetados por toda essa investigação em volta de Albert são: Tommy Corn (Mark Wahlberg) e Caterine Vauban (Isabele Huppert). Tommy também está sendo investigado por Vivian e Bernard. Ele é um bombeiro e teria entrado numa crise depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001, e assim pedido a investigação sobre sua vida. Encontramos ele indagando sob os malefícios que o petróleo causa no mundo, como as guerras, miséria e ditadura. Mais que indagação, ele sofre de uma grande obsessão por esse tema. Tommy, com certeza, é um dos grandes destaques do filme, formando uma ótima dupla com Albert, depois que os dois se conhecem na agência de detetives. Mark Wahlberg dá ao personagem o tom certo de fúria e incertezas pelo qual o personagem passa. E falando em coincidências, uma que ocorre aqui é que Mark e o diretor David já trabalharam juntos antes no ótimo filme Três Reis (Three Kings, 1999) que se passa na Guerra do Golfo, guerra que se ocasionou por toda a disputa de petróleo, que é o que motiva a fúria do personagem do Mark aqui. Já a outra personagem importante que surge é Caterine Vauban. Ela é uma escritora, que traz uma filosofia inversa ao de Vivian e Bernard. Enquanto os detetives defendem que tudo está ligado no universo, ela afirma que nada importa, e as coisas acontecem de forma aleatória. Somos nada e temos que aceitar isso. O filme trabalha paralelamente muito bem essa duas filosofias inicialmente opostas. E é essa inversão que faz Albert cair cada vez mais nesse abismo emocional, quando primeiramente aceita a proposta de Vivian e Bernard, acreditando que tudo tem ligação e importância, e depois quando tudo dá errado, passa a ouvir as teorias de Caterine, que diz que somos nada. Ele vai do céu ao inferno, e do inferno ao céu, num piscar de olhos durante vários momentos do filme. Se ele vai sobreviver a isso tudo, só depende dele e de suas conclusões que irá chegar depois desse processo.

Por fim, o filme acaba admitindo a possibilidade de ambas as filosofias apresentadas aqui, não serem opostas ou excludentes, seriam sim, complementares uma à outra. O “Tudo” de Vivian e Bernard não existiria sem o “Nada” de Caterine e vice-versa. Não deixa de ser uma possibilidade, mas o mais importante que as conclusões que qualquer um pode ter tido ao ver o filme, foi ter a certeza de ter acompanhado uma história rica e muito divertida com I Heart Huckabees. Uma comédia existencial totalmente divertida com uma história deliciosa e elenco idem.

4/4

Jailton Rocha

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Mas pra que eu vou discutir cinema, diabos?

Pra que serve, afinal? Pensa assim: você assiste a um filme, acha ele fantástico, e em seguida, conversa com um amigo seu que é versado no assunto (assim como você se considera), alguém com quem você sempre troca idéias sobre filmes, etc.

Então, você comenta com ele que adorou esse filme, mas, pra sua surpresa, ele detestou, e te elenca “n” motivos pra embasar a opinião dele. Aí eu te pergunto: você vai deixar de amar o filme se caso constatar que seu amigo tem “razão”? Digo “razão” – entre aspas – pois o cinema, como todos sabemos, é uma arte, o que o enquadra na família das coisas subjetivas. Mas ok, ele tem razão, e você não consegue contra-argumentar o que ele disse, até porque ele está absolutamente certo no que disse, você consegue visualizar na obra tudo o que ele falou. E aí? Você vai deixar de gostar do filme por causa disso?

Acredito que não, pois o que aconteceu foi envolvimento sentimental. Por mais que seu amigo tenha razões lógicas pra questionar o filme, e você visualize todos os tais defeitos na obra… ao final do filme você adorou tudo o que viu, mesmo que com ressalvas.

Então, eu reitero: pra que discutir sobre cinema? “Pra trocar pontos de vista” você vai me dizer. Mas e daí? Mesmo que os pontos do seu amigo lhe pareçam sedutores o suficiente pra você odiar o filme, você, certamente, não terá como apertar um botão e odiá-lo a partir de então. Como fica essa questão pra vocês?

Djonata Ramos

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