Paris, Texas (Wim Wenders, 1984)

Não existe um “meio homem”, ou se é inteiro ou não se é nada. Então Travis tinha consciência de que no momento em que perdeu quem amava ele não era nada. Ela havia deixado seu filho na casa de seu irmão e partiu, ele fez o mesmo. Vagou pelo deserto como um espectro perdido em busca de sua alma. Em busca de qualquer coisa que o faça um ser humano de novo. Tinha a aparência de quem foi abduzido por um óvni, e agora vaga carregando o incomodo segredo de saber mais do que sua limitação permitia. Se isolou para pensar, ou para esquecer o que puder ser esquecido, e o que não puder, pelo menos ser disperso pelo monte de nada a sua volta. Ou só para encontrar a liberdade, ou claridade. Ele fugiu ou fez o que achava certo, o que realmente não importa. Ele apenas foi, pois precisava ir. Vagou por 4 anos sozinho, abdicando até da companhia da sua voz. Deixou as saudades enrugarem assim como um lábio exposto no sol sedento por água. O deserto indecente o seduzia com promessas de esquecimento. Quanto mais ele seguisse, menos se tornava, e conseqüentemente, menos teria do que se lembrar. É um processo de desumanização. De desencontro emocional. De estar onde nunca esteve para não lembrar do que já foi. De usar o mundo como esteira de academia. O problema é que, assim como um lábio volta a pulsar quando beija a água depois de muito tempo, a saudade e todo o podre conjunto que sempre a acompanha, volta com mais intensidade depois que qualquer estimulo do passado encosta no seu ombro. E esse estimulo maldito foi seu irmão, que o retirou do seu voluntarioso encarceramento ao ar livre – porque mesmo tendo todo o mundo para percorrer, era como se grades invisíveis estivessem o cercando, a diferença é que teria que caminhar um pouco mais para chegar nelas, sempre teria que dar um passo a mais. Ele foi retirado do deserto que o amamentou por todos esses anos, e jogado em um poço preso com seus fantasmas do passado: seu filho e a lembrança da mulher.

Seu filho, de agora 7 anos, estava morando com seu irmão e esposa. Apesar de o amar desesperadamente, o remorso o corroia por dentro. A culpa de não ser o que o garoto precisava, de não ter ficado com ele por não ser apto para isso. Mas 4 anos poderiam ter sido tempo o suficiente, e então pai e filho, partem em uma jornada pessoal para encontrar a mamãe. Apesar de reticente no começo, o próprio garoto, mesmo com toda sua ingenuidade e despreparo para o mundo, entendia que o motivo que fez com que o pai não ficasse com ele por todos esses anos era maior. A melancolia que o pai passava pelos olhos o comovia, fazendo com que esse fosse incapaz de odiá-lo, mas sim ama-lo, como se ama um pai realmente. E então eles partem. O certo naquele momento é encontra-la, assim como o certo antes foi vagar sozinho. Não existe o porquê racional, apenas o impulso emocional, e que ambos estavam ligados no mesmo objetivo.

Eram 3 almas que só conseguiriam ser inteiramente felizes juntas, o que era impossível de acontecer. A viagem ganha contornos suicidas, já que sabemos que ninguém vai encontrar o que procura. O máximo que pode acontecer é uma chance de um novo enfrentamento ou algo do tipo. É a angustia de um cara que foi fadado a andar em um mundo pequeno demais para o seu remorso e saudade.

4/4

Thiago Duarte

4 Comments

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4 Responses to Paris, Texas (Wim Wenders, 1984)

  1. Ivan

    To estreando aqui, mas prometo voltar inúmeras vezes.
    ABraços primo

  2. Luis Henrique Boaventura

    Bem-vindo Ivan, e apareça mesmo!

    Abraço!

  3. Sei pouco do Win Wenders… seu texto me empolgou quanto a este filme dele..

    vlws

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