Persona (Ingmar Bergman, 1966)

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Nenhum ser humano é livre da culpa que sente por determinada coisa que tenha feito ou pensando em fazer em sua vida. O remorso é talvez o sentimento mais corrosivo que se pode carregar. Quando o temos, o levamos para o resto da vida, e a nossa única defesa é encarcera-lo em algum lugar inatingível do nosso intimo. O trancamos ali e esperamos pra ver o que acontece. Dificilmente ele vá sumir, pode vez ou outra colocar suas mãos por debaixo da porta balançando o dedo insinuantemente nos lembrando de que ele ainda vive por ali. Mas aprendemos a conviver com ele, de um ser estranho vira uma parte indigesta da personalidade, mas parte da pessoa, está sobre o controle, desde que as portas não sejam completamente escancaradas novamente.

Não se sabe porque, mas Elisabeth, uma respeitada atriz, resolve de uma hora para outra parar de falar. Ela não ficou muda ou louca, apenas parou, como se engrenagens parassem de rodar, ou quando um ator esquece o texto de uma peça e se esforça para puxar da memória, Elisabeth esquece do porque de continuar com qualquer coisa. Ela fica oca, não no sentido de alguma alienação emocional, mas na incapacidade de achar sentido para qualquer uma de suas emoções. Ela vira uma espectadora passiva dos seus sentimentos e dos outros, não sente, apenas analisa. Alma, uma enfermeira, é encarregada de cuidar de Elisabeth em uma casa isolada na praia. Quando uma irmã pergunta para Alma o que ela achou de Elisabeth a primeira vista, Alma diz que ainda não tinha uma impressão muito clara, mas que parecia ter um semblante suave, como o de uma criança, mas com um olhar maligno. Elisabeth é um dos seres mais diabólicos criados pelo cinema.

Isoladas do mundo, Elisabeth e Alma criam um vinculo emocional intenso. Alma falava e Elisabeth ouvia. Se completavam no pior sentido que essa palavra pode carregar. Elisabeth seduzia com uma expressão acolhedora, seu suposto desvinculamento com a realidade, e Alma falava de tudo, mais do que podia. Alma falava sem parar, como uma caixa de música que não para de tocar enquanto alguém continuar girando a manivela, e Elisabeth é quem faz isso. Elisabeth seduz Alma a espiar pela fechadura, depois abrir apenas um pedaço da porta e olhar pelas frestas, ou quem sabe colocar só um pé para dentro, até finalmente escancarar e deixar com que tudo saia de dentro. As palavras de Alma entram em confronto com o silêncio de Elisabeth. O silêncio de Elisabeth faz com que as palavras de Alma saiam de forma extremamente impactante. É como se ela falasse algo e o silêncio que exalava de Elisabeth refletisse essas palavras, fazendo com que elas ganhem forma, com que a culpa ganhasse contornos, ricocheteando na sala até atingir novamente quem as disparou. Elisabeth é um espelho que faz você lembrar do seu pior lado, e faz esquecer de qualquer outro, é a personificação da culpa, algo demoníaco. Não demonstra nada, apenas ri.

4/4

Thiago Duarte

ou: Persona (Ingmar Bergman, 1966) – Luis Henrique Boaventura – 4/4

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