Editorial: O ser como paixão

Por Diogo Serafim

Onde nasce o impulso de filmar? Por que se dedicar ao registro de tempos já mortos? Da onde vem o gosto pela cristalização do passado?

Se o ato de filmar é, acima de tudo, modelar a matéria do mundo de acordo com um estado de espírito específico, o cinema é, por sua vez, a articulação do invisível através desse artesanato. A arte pressupõe um padecer do espírito por uma condição ontológica superior, isto é, um ímpeto vital que exige a entrega total de um sujeito frente uma representação das suas obsessões, memórias e paixões.

De qual forma esse circuito de afetos, interesses, sentimentos – esse circuito de paixões – afeta o indivíduo, seu entorno e, principalmente, como o ato de filmar esses desdobramentos eleva e intensifica ou empobrece e manipula uma realidade na qual o amor e o desejo para além da razão guiam e regem a existência humana?

Cézanne certa vez disse que gostaria de morrer enquanto pintava. Uma paixão que, no seu paroxismo, aproxima o indivíduo da morte. O próprio Bazin definiu a arte da imagem como a arte do embalsamento: se a morte é a vitória do tempo sobre a vida, por sua vez congelar a vida em uma película – isto é, na matéria do mundo – é uma maneira de resistir a morte.

Embalsamar o passado para embalsamar uma paixão, para que nesse exercício de conservar a estética do instante, seja como registro ou como representação, o sentimento possa ser eternizado de maneira adjacente. Para que um dia outras pessoas possam amar o que você já amou. Nós somos a história dos desejos desejados.

Mas um instante não é a descrição do mesmo. Confrontar uma imagem é confrontar a existência dela na sua memória, no seu espírito. Aí é que está o truque: essa abertura para o imaginário só pode existir enquanto abstração. O instante já ficou pra trás.

Existe algum estado de espírito que permita a vivência de algo para além da memória? Seria possível, com a força da representação, encontrar em um fluxo de imagens um resquício das coisas que você amou? Vivê-las para além da sua descrição. O problema da representação é esse: é difícil imaginar as coisas que não estão mais lá, mesmo quando elas se apresentam na sua frente. O cinema é uma busca, tentar encontrar alguma singularidade na qual o tempo e o espaço possam colapsar, mesmo que por um instante, onde a subordinação do espírito para a memória possa dar lugar a um absoluto fora de si mesmo.

Feche os olhos e veja. Boa leitura.

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