Publicado em O Tempo e o Modo, nº27, Maio de 1965. Transcrito do catálogo “João César Monteiro”, organizado por João Nicolau para a Cinemateca Portuguesa.
SUNRISE (1927) F. W. Murnau
por João César Monteiro
A aurora é o prenúncio do dia liberto do ventre nefasto da noite que o gerou: restituição às coisas e aos seres da sua face unívoca.
Herdeiro do sopro romântico de Hölderlin, Tieck ou Novalis, Murnau é o poeta das melodias da noite, do que vem dissolver-se no inexprimível e tocar o inefável. Se a sua linguagem tem um condão silencioso, não é por se expressar no cinema mudo, mas por ser, como diz outro quase tão grande poeta, “igual por dentro ao silêncio”.
A noite murnauliana é contagiosa, propensa à propagação dos malefícios: Nosferatu é o portador da peste, fatalidade epidémica que invade e apodrece tudo o que é vivo. Em SUNRISE, a mulher da cidade transforma a volúpia numa criminosa apetência de sangue; o seu corpo ganha sucessivamente atributos ofídicos, sirénicos ou felinos, criaturas vampíricas que se alimentam vorazmente da essência dos seres, rejeitando-os para um mundo em tudo ameaçado pela imanência da morte.
Como nenhum outro cineasta, nem mesmo Hitchcock, seu discípulo prestigioso, Murnau sabe, subtilmente, fazer deslocar as suas personagens num espaço sujeito a uma dialéctica de luzes e sombras, que ele nunca acentua à maneira dos caligáricos, e situá-las na discrição de uma destas zonas, de acordo com o estado de alma que as anima. Possuído pelos avatares das trevas, o corpo do camponês é alienado de sua liberdade. O fardo que transcende multiplica-lhe o peso, fá-lo curvar-se a um jugo informe que, progressivamente, o converte, não em objecto de horror, mas na essência mesma do horror. A cena no barco com a mulher que, diga-se de passagem, é em SUNRISE a única personagem ligada à luz (o louro dos cabelos, o branco resplandescente do vestido, a suavidade clara dos gestos e atitudes, a limpidez do olhar, reflectem-lhe a pureza e simplicidade espontâneas), não tem outra explicação: é que o horror fascina e mobiliza.
O génio de Murnau é este segredo incomparável de através das formas do corpo descobrir o conteúdo da alma, através das aparências nos revelar o ser, através do falso nos transmitir o verdadeiro. Um olhar que mergulhando no real nos manifesta subitamente a presença do fantástico.
Só o amor, o mais poderoso dos elementos diurnos, pode lutar contra a morte que se oculta nos meandros terríficos das trevas, e daí lançar-lhe um desafio. A ida à cidade do casal, atesta-o bem; mas, a noite citadina é andrógina, marcada pelo relativismo de uma indecisão que o aparenta ao dia — armadilha do destino para dar lugar a falsos exorcismos, à ilusão do noivado; ilusão que a prova da tempestade desvanecerá, repondo o domínio diurno e selando a vitória da precaridade humana sobre as forças ignotas do destino.
Se me alonguei (tão pouco!) nestas notas ao mais belo filme de sempre, foi por que se Griffith inventou, é certo, o cinema, a sua obra só ao cinema se refere. Pelo contrário, a de Murnau é esfíngica — é um “au-delà” do cinema.
Este texto faz parte da Edição #25 – Melodrama. Clique aqui para ler outros textos da edição.












