Corpo, desejo e morte: Para sempre mulher, de Kinuyo Tanaka

Para Sempre Mulher (1955), terceiro filme dirigido por Kinuyo Tanaka, consolida no interior de uma indústria japonesa majoritariamente masculina uma autora que faz do corpo, do desejo e da morte lugares possíveis de enunciação. Pela via do melodrama, Tanaka dá forma à complexidade de habitar a pele de uma mulher para a qual as insígnias culturais do seu tempo não necessariamente reservaram um lugar. Apontado como o primeiro filme de caráter pessoal de uma cineasta que, antes de passar para trás da câmera, havia sido uma das maiores estrelas do cinema japonês desde os anos 1920, o filme leva para a direção uma intimidade com a cena que Tanaka acumulara como atriz em sua estreita colaboração com alguns dos maiores nomes do cinema japonês, como Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi, experiência que contribuiu para um estilo que mira nas formas de enquadramento, ritmo e tempo dramático. Passar para trás das câmeras, em alguma medida, foi uma importante mudança de posição realizada por Tanaka: daquela que era olhada para aquela que ocupa o outro lado da cena, o lado de quem olha e organiza a própria imagem. 

Em Para Sempre Mulher, Tanaka contou pela primeira vez com a parceria da roteirista Sumie Tanaka (uma longa colaboradora de Mikio Naruse e, embora com o mesmo sobrenome de Tanaka, sem parentesco com ela). A colaboração entre as duas mulheres, a diretora e a roteirista, pode ser lida também como condição mesma da enunciação do filme, em que a expressão de uma experiência subjetiva de ser mulher, especialmente em um Japão pós-guerra, em meio às ruínas, situava outros lugares para o feminino, diferentes daqueles de esposa e mãe, que a própria Tanaka tantas vezes ocupara como atriz nos filmes. 

Ao adaptar a biografia da poeta Fumiko Nakajô, morta de câncer de mama aos trinta e um anos, Sumie Tanaka e Kinuyo Tanaka recusam o lugar da mulher como objeto de comoção ou de sensibilidade e o deslocam para o lugar de quem escreve, de quem deseja e de quem decide sobre a própria vida e a própria morte. Na tela, Nakajô torna-se Fumiko Shimojô, mulher infeliz, casada com um marido adúltero e negligente, mãe de dois filhos. Nos primeiros minutos de filme, somos apresentados a uma cena cotidiana de uma família do interior agrário do Japão, na qual a mulher/esposa está estendendo roupas, cuidando dos filhos, preparando a comida e organizando a casa. Desde então, vemos uma relação ruidosa com o marido, em que Fumiko permanece silenciosa e contida, ora ajudando-o a vestir-se, ora tentando agradá-lo sem sucesso. Em uma cena em que os dois discutem, aparece mais fortemente o desejo de Fumiko de ser poeta, que, tão logo enunciado, ela mesma rebate: “Eu, uma poeta? Não!”.

Conforme o filme vai avançando e o casamento declinando, acompanhamos a protagonista frequentar um círculo de poesia, onde encontra, no convívio com outros escritores e no incentivo de seu tutor, Hori (que é casado e a quem Fumiko ama e admira com uma distância respeitosa), um espaço de respiro e de invenção de si que a vida de casada jamais lhe ofereceu. É também esse percurso que precipita o fim do matrimônio: ao flagrar uma luva deixada por outra mulher em sua própria casa, Fumiko decide pelo divórcio, gesto raro para uma mulher de seu tempo e que, de algum modo, a faz nutrir ainda mais sentimentos e fantasias pelo seu tutor. A separação, porém, tem um preço, inscrito na própria condição da lei e do costume de sua época: Fumiko precisa deixar sua casa e retornar à casa da mãe, levando consigo apenas a filha, enquanto o filho mais velho fica sob a guarda do pai. O divórcio, que para ela é uma afirmação e abertura para um campo de desejo e de escrita, se paga com a partilha dos filhos, pois logo vemos algumas cenas de angústia em que a filha some e é encontrada na casa do pai. Essa sequência de cenas, que vamos acompanhando à medida que o sacrifício sem fim vai dando lugar ao adoecimento, anuncia a segunda parte do filme.

Assim, a primeira parte de Para sempre mulher, marcada pela perda do lugar que ela antes ocupava, compõe uma sucessão de tragédias diante das quais Tanaka não recua nem suaviza para o espectador. Cena a cena, seguimos a dor de uma mulher que sofre, mas que, paradoxalmente, jamais é reduzida ao sofrimento. É talvez aqui que o dispositivo visual e o formalismo de Tanaka entram em jogo. Na primeira parte, quando Fumiko está aprisionada ao casamento tradicional, a câmera é contida, próxima ao rigor formal de Ozu. Por outro lado, na metade final, em que acompanhamos o adoecimento da personagem, seu diagnóstico, o tratamento no hospital e a noite de amor com outro homem, a câmera de Tanaka se faz, ao mesmo tempo, fluida e restrita, assumindo o enclausuramento do espaço em que Fumiko aparece confinada, frequentemente filmada por entre grades que bloqueiam a visão do espectador. É nesse confinamento, porém, que a personagem vai firmando sua recusa progressiva de ser amável ou submissa, no mesmo movimento em que se torna escritora. 

Tornar-se escritora, num gesto que ressoa a célebre formulação de Simone de Beauvoir segundo a qual não se nasce mulher, mas se torna mulher, é talvez um dos percursos mais singulares do filme. A escrita e a poesia são, para a personagem, um espaço em que ela pode se inventar de outra forma, no qual começa a ver o mundo com a sutileza de um haicai, onde um passeio até o lago, em que seus pés brincam na água debaixo do sol quente, a faz escrever: “Serei como um caule branco, flutuando sem raízes”. É a partir do desprendimento da vida conjugal, dos papéis prescritos de esposa e mãe, do desenraizamento da vida doméstica, que Fumiko vai podendo dizer-se, escrever-se. É especialmente diante do diagnóstico de câncer, diante da morte, quando o corpo se desfaz e a doença avança, que Fumiko relança a possibilidade da escrita e nela se inscreve, transformando a perda e a finitude em registro. O que poderia ser apenas a narrativa de uma agonia torna-se, pela via da poesia e sobretudo pela câmera de Tanaka, a afirmação de uma subjetividade que se faz justamente onde tudo conspira para desfazê-la.  

Diante do diagnóstico, da mastectomia, da morte que avança, acompanhamos outro movimento cirúrgico, que é a recusa em transformar o corpo da mulher doente em espetáculo. É na célebre cena do banho que essa recusa atinge seu ápice. Após a mastectomia, Fumiko vai até a casa de sua amiga Kinuko e pede para tomar banho na mesma banheira que outrora pertencera a Hori, o marido já falecido de Kinuko e professor de poesia por quem Fumiko nutria um amor silencioso. Por uma pequena janela, Kinuko vê por acaso o peito desnudo da amiga e percebe as cicatrizes deixadas pela cirurgia. Em vez da exposição do corpo mutilado da mulher, Tanaka propõe outra frontalidade: o que vemos é o rosto da amiga e as costas de Fumiko. O ângulo da câmera nos impede de ver a cicatriz; em seu lugar, vemos o rosto de Kinuko, profundamente abalada pelo que vê. Acompanhamos o pavor da Kinuko para, em seguida, a câmera se voltar para Fumiko, que olha diretamente para o espectador e pede que Kinuko olhe bem para o seu peito sem os seios. 

Tanaka não nos dá o corpo a ver; ela nos dá o olhar do outro sobre esse corpo, e, nessa subtração da imagem, faz da mulher mastectomizada sujeito, e não objeto, do olhar. Quem comanda a cena é Fumiko, e quem a encerra também é ela, que fecha a janela por sua própria vontade no instante em que a imagem poderia oferecer ao espectador os seios ausentes. Fumiko não se oferece ao olhar, ela o ordena, faz dele uma cena que dirige. É talvez esse o ponto em que a câmera de Tanaka se aproxima, mais do que a poesia de Fumiko já vinha fazendo na escrita, de um modo de inventar, de transformar a perda e a mutilação no lugar mesmo de onde uma mulher se afirma. E é justo aqui que o enredo do filme gira como um espelho e reflete a trajetória da própria Kinuyo Tanaka. Assim como Fumiko pouco a pouco vai tornando-se escritora, criando uma possibilidade de invenção de si ali onde o corpo e o casamento a confinavam, com Para Sempre Mulher, Tanaka deixa de ser a atriz olhada por todos, corpo oferecido à câmera dos homens, para tornar-se aquela que dirige e ordena o olhar; quem escreve e inscreve um estilo próprio, uma assinatura singular como realizadora. A passagem de atriz para cineasta repete, no plano da autoria, o mesmo gesto que Fumiko realiza no plano da escrita.

E é assim que o final acontece. Já no leito de morte, Fumiko conhece Ōtsuki, o jovem jornalista enviado da cidade grande para escrever sobre a história dela. Acompanhamos o paradoxo do desejo, a aproximação e o afastamento entre os dois, o medo que Fumiko tem do próprio corpo e de suas cicatrizes. Em um plano singelo, vemos o sutiã com os enchimentos que simulam os seios ausentes. Depois do encontro amoroso, na manhã seguinte à noite em que Fumiko e Ōtsuki passam juntos, o mesmo sutiã reaparece, agora sem os enchimentos, e essa diferença é fundamental porque Fumiko não precisa mais simular o corpo que perdeu, depois de ter sido desejada nele tal como é. Essas cenas são filmadas em contraste, no jogo de sombra e luz, entre confinamento e espaço aberto, em planos e contraplanos onde os corpos se procuram, com um travelling que acentua a reação emocional de Fumiko e faz da própria câmera o anteparo de sua excitação. 

Por fim, Fumiko luta com a vida e com a morte, ao reconhecer que é justamente o adoecimento e sua finitude que a tornarão uma poeta célebre. É a iminência da morte que legitima seus versos diante do mundo literário, e ela própria desconfia disso, suspeita que sua fama se deve mais à doença e ao divórcio do que àquilo que consegue escrever, como se o mercado da arte estivesse interessado apenas na imagem que é exposta para o mundo. O filme não esconde essa crueldade. Ela precisa morrer para que a escrita se faça conhecer. Na cena final, Fumiko pede que entreguem aos filhos um bilhete guardado dentro de um de seus livros publicados, onde se lê “Crianças, aceitem a minha morte, é a única coisa que deixo a vocês” . Essa frase, endereçada aos filhos, é, de alguma forma, também a frase que Tanaka endereça a nós. Aceitem que a atriz que vocês conheceram, o rosto olhado e dirigido por outros durante décadas, ceda lugar a autora que agora dirige a cena, que escreve imagens. Tanaka deixa um legado ao espectador, uma assinatura de cineasta, uma herança que só se entrega ao preço de uma morte – a de uma figura anterior de si para surgir outra nova, em outra posição. Tornar-se autora passa necessariamente por um processo de invenção, não sem custos, nem sem sacrifícios, não sem morrer – pelo menos um pouco. E assim, aceitar que algo precisa morrer para que outra coisa, talvez mais inteira e interessante, possa enfim fazer-se ver e ler. Aceitar a morte, a própria morte, é deixar algo diferente surgir, é dar lugar a outra cena, ao desejo, é abrir espaço para que escrita, autoria e assinatura encontrem sua condição para inscrição de um nome próprio. 

Este texto faz parte da Edição #25 – Melodrama. Clique aqui para ler outros textos da edição.

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