Olhar de Cinema: Nasir

Por Camila Vieira

Inspirado no conto A Clerk Story, de Dilip Kumar, a estrutura dramática do longa-metragem Nasir, do indiano Arun Karthick, também assume ser concentrada e compacta. É a história de um homem comum, Nasir Bhai, que trabalha em uma loja de tecidos. Ele tem uma família; dorme, se acorda e sai de casa todos os dias para trabalhar; fuma alguns bidis (cigarro local) e interage fortuitamente com personagens corriqueiros que aparecem no meio do caminho. Ele demonstra preocupação em ajudar a família: carrega potes de água para casa e entrega o almoço do sobrinho na escola.

O protagonista pertence a uma minoria muçulmana em uma comunidade predominantemente hindu. O alto-falante nas ruas anuncia que a procissão do festival hindu está perto de acontecer. Mas Nasir não se preocupa e continua a cumprir sua rotina, ainda que surjam problemas que afetam sua vida. As pessoas ao redor de Nasir também parecem viver um dia de cada vez. Os momentos em que a valorização do comum fica evidente no longa-metragem são os que mostram a interação entre os colegas funcionários da loja de tecidos. O protagonista recita para eles um de seus poemas que termina com o verso “o que é a vida senão solidão e silêncio?”

Nos trechos em que os personagens dormem, os peixes pintados nas paredes e refletidos nos abajures parecem compor a atmosfera de quem também sonha apesar do enfrentamento diário cotidiano. Mesmo que seja difícil entregar uma encomenda em um lugar distante ou guardar o pouco dinheiro que se ganha para melhorar de vida, Nasir é um personagem em constante movimento. Ele não se paralisa diante das adversidades, ainda que, ao fim de tudo, o infortúnio apareça para ameaçar sua existência.

Publicações recentes

Amores de Perdição: Schroeter e Oliveira

João César Monteiro sobre Aurora, de F. W. Murnau

Vozes sobreviventes: amor apesar dos campos de concentração em Phoenix, de Christian Petzold

Corpo, desejo e morte: Para sempre mulher, de Kinuyo Tanaka

De Ophuls a Vecchiali: Variações do imaginário melodramático

Valerio Zurlini e a fragilidade do mundo

Miguel Marías: O melodrama – refúgio de românticos

Filmar o Oculto – Entrevista com Eugène Green

Um cinema dentro da cabeça: imaginário e ficção melodramática em Días de Otoño, de Roberto Gavaldón

Melodramas de cinema: Two Weeks in Another Town, de Vincente Minnelli

Sangue do meu sangue, de João Canijo: Melodrama e naturalismo ou Era uma vez um filme punk à beira do caminho

A Alma da Casa: A Casa Assassinada, de Paulo César Saraceni