Os filmes de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa têm dado forma às existências do mundo noturno dos trabalhadores precarizados, como vemos em Madrugada (Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, 2022) e Cassino (Gianluca Cozza, 2024), numa pegada que passa pelo soturno e fantasmático, chegando a alguns momentos cômicos. São curtas da correria de jovens periféricos do Rio Grande do Sul que habitam um ambiente limítrofe entre o trabalho e a informalidade. Pois Grão (2026), novo filme da dupla, radicaliza essa aventura ao narrar alguns caminhos de Leandro, um rapaz cujo labor é extraviar restos de soja num porto da cidade de Rio Grande. O personagem circula pela cidade com seu carro turbinado, que conta com um sistema de som automotivo barra pesada.
O filme começa com um vídeo aparentemente filmado com celular ou câmera de baixa resolução. A imagem de um navio partindo do porto de Rio Grande aparece ao som de comentários do cinegrafista. Uma música insólita começa a crescer, sobrepondo-se à voz. Um corte nos leva para dentro do carro do personagem, que escuta a música em questão – volume no talo. “Vou dar a buceta pra esse novinho safado”, canta a artista na canção supracitada. Em seguida, caímos na região do porto. Um som de sirene toca em loop na banda sonora enquanto uma barca atravessa o quadro. O que se segue é uma sequência que mostra Leandro trabalhando. Ele varre restos de soja nos arredores do porto e os recolhe num saco, gesto laboral que delineia a classe social do personagem: trata-se de uma versão contemporânea do que Marx chamou de lumpemproletariado. Podemos chamá-la também de precariado ou, num termo vernacular, correria.
A partir daí, o curta se desenvolve como uma história situada entre a solidão e a solitude deste personagem. Seguimos sua travessia no corre e na farra à noite, jornada que desemboca no fracasso, na falta de grana – na desilusão diante das forças petrificantes do capitalismo contemporâneo. Sem trampo e sem dinheiro, resta a Leandro tentar vender seu carro, acontecimento que ganha densidade dramática por conta dos rolês que o espectador realiza ao perseguir as voltas do personagem na cidade em seu precioso automóvel.
O carro é protagonista. O filme fabula, por meio do realismo fantasmagórico, um modo de existência da máquina. A presença do automóvel transborda os limites da narrativa, se impondo como um ser que apresenta seus traços existenciais no decorrer da fita – rebaixado, cor vermelha, som pancadão e outras modificações perceptíveis. O carro funciona como espécie de extensão do corpo do personagem, ao mesmo tempo que se distingue, paradoxalmente, da figura de Leandro.
E o som tem um papel fundamental nessa costura de carne e aço. Podemos dizer que o som também é protagonista no filme, o que lembra as palavras de Tantão: “volume é drama”. O curta solta efeitos sônicos na medida que o personagem deambula pela cidade em sua “nave”. A paisagem sonora quieta e pacífica do Rio Grande noturno é rasgada pelos graves do som automotivo. Numa cena, um plano detalhe revela os grãos de soja em cima dos auto-falantes. A música começa e parece soltar um feitiço, fazendo os grãos saltarem e dançarem. O som treme tudo – nós também.
A putaria corre solta nas canções que emolduram a obra, o que chega a ser hilário, criando um choque de humores. “Te amo piranha. Mas vou ter que provar essa pica”, diz uma das músicas que conhecemos dentro do carro de Leandro. O filme também é cheio de tesão, que aparece nos momentos em que o protagonista manda áudios e tira fotos sexys de si para uma mulher que o filme não mostra, seja em imagem ou som, o que contribui para a sensação de que ele está, ao fim e ao cabo, falando sozinho – os fantasmas escutam.
No final da obra, vemos Leandro numa festa sozinho. Ele entra furtivamente numa área proibida da casa de shows, vai para um canto e se masturba de costas para a câmera. O som parece incentivar o gesto do protagonista, que se prolonga por um tempo diante de nós. Um corte interrompe a punhetinha em seu ápice e nos joga na ruína do personagem. O encontramos jogado na areia de uma praia à luz do dia. O rapaz levanta e fala ao telefone a respeito da possível venda do seu carro com alguém, pois sua situação financeira degringolou por conta da baixa nos trabalhos de extravio. Logo notamos um punhado de grãos de soja em meio a água salgada e areia. O filme termina com Leandro recolhendo a mercadoria molhada, numa imagem sisífica do correria. O trabalho continua de forma instável numa espécie de eterno retorno da precariedade laboral.
A obra inventa uma visão pessimista do futuro das classes subalternas no Brasil, marcada pelo trabalho informal, o tesão e o fracasso. Leandro, no final das contas, não tem futuro. Ele segue a vida de maneira extremamente solitária e precária, funcionando como aparição do lumpesinato atual num triste país. Estamos diante de um personagem emergente no campo artístico: o trabalhador do corre, figura que encontramos, com as devidas variações, em filmes como A cidade é uma só? (Adirley Queirós, 2011) e Arábia (Affonso Uchôa, 2017). Isso nos leva a pensar que está acontecendo uma metamorfose nas formas de figurar o trabalhador no Brasil atual. Se o documentário dos anos 1970 fez surgir a imagem do operário no cinema brasileiro, presenciamos, atualmente, a emergência do correria no campo do cinema. O operário de outrora se desdobra no correria do agora, que nasce das vísceras do neoliberalismo e persevera na danação num mundo solitário, exaustivo e hostil aos pobres. Apesar de tudo, Leandro insiste no corre. A guerra das classes sociais continua.
Este texto faz parte da cobertura do 28º FestCurtasBH. Clique aqui para ler outros textos da cobertura.












