O curta-metragem Flor e o Jequitibá (2026), dirigido por Ieda Maria Lagos, foi exibido na Mostra Minas do 28º FestCurtasBH e apresenta a história de uma mulher que se isolou num sítio depois de perder a neta. A personagem, chamada Flor, é interpretada por Fernanda Viana numa bela performance marcada pela solidão, o luto e a posterior abertura às conexões sobrenaturais – ou supernaturais – que se anunciam no decorrer da obra – nessa jornada, o filme confronta passado, presente e futuro da mulher enlutada.
A relação com as plantas é algo fundamental para o filme. A protagonista cuida do jardim sozinha, fazendo deste lugar seu habitat através de seu corpo em relação com o mato. Numa cena, ela enterra uma caixa com objetos de memória que remetem à criança que morreu – não sabemos a causa da morte, mas a performance do luto adensa dramaticamente as questões que ficam escondidas na obra. Ela enterra suas memórias no jardim e, assim, vai se misturando ao seu quintal. A câmera direciona planos detalhe das mãos de Flor a trabalhar nas plantas e de seus pés que pisam e se esfregam na terra. A personagem, portanto, parece entrar em uma espécie de simbiose com seu ambiente doméstico.
Pois a simbiose é tamanha que algo estranho acontece. A árvore enraizada ao lado do local onde a mulher enterra suas memórias começa a falar. Diante disso, a personagem passa a questionar sua sanidade mental, mas aos poucos vai cedendo à voz terna da planta. Com o tempo, elas passam a conversar sobre a vida e o passado, estabelecendo uma amizade interespécies. Mas o tom dessa voz infantiliza o filme, que vai mostrando as suas fragilidades.
A imagem e o som são límpidos, perfeitos, claros. Trata-se de um cinema cartesiano que aposta numa suposta excelência técnica como padrão de qualidade e beleza. Tudo no filme é equilibrado. A imundície e a instabilidade da experiência passam por uma limpeza que deixa a obra estanque e esteticamente alienada em relação à realidade do mundo contemporâneo. Parece haver aí um paradigma importado do mercado do cinema de arte europeu, incorporado sem perspectiva crítica, sem qualquer esforço de reterritorialização dessas tendências estilísticas no solo brutalizado do Brasil. Too much world cinema. Claro que a obra é fantasiosa, mas considero que a boa fantasia está atrelada à experiência. O fantástico deforma o mundo, transfigura-o em delírio. O curta, ao contrário, se ergue apartado do mundo e, assim, não deixa espaço algum para o delírio. A imagem e o som não deliram. Tampouco o texto, que tenta anunciar a alucinação, mas não cumpre suas promessas na própria fatura do filme.
A voz da criança post mortem saindo de uma muda de planta termina de enterrar o filme, insulado numa noção de cinema pautada pela concórdia, pelo equilíbrio e pela limpeza total da imagem e do som. Tudo parece calculado para evitar o risco, para cumprir os requisitos da técnica e garantir a comunicação com o espectador. Mas o cinema não se resume a executar corretamente uma operação nem a transmitir uma mensagem. É preciso que haja uma aventura, uma travessia, algum embate com aquilo que escapa ao controle. Aqui, tudo parece resolvido de antemão. É um filme que morre na praia — ou melhor, no quintal.
Este texto faz parte da cobertura do 28º FestCurtasBH. Clique aqui para ler outros textos da cobertura.












