Vozes sobreviventes: amor apesar dos campos de concentração em Phoenix, de Christian Petzold

Phoenix (2014) é um dos filmes que compõem a trilogia de Christian Petzold chamada “Amor em tempos de sistemas opressivos”, ao lado de Barbara (2012) e Transit (2018). A sequência explora paixões e deslocamentos em meio a regimes de controle e momentos históricos severos, com foco na Segunda Guerra Mundial e seus desdobramentos na Europa do pós-guerra.

O filme conta a história de Nelly, uma cantora sobrevivente dos campos de concentração nazista que volta à Alemanha com a ajuda de uma amiga. Trata-se de um melodrama idiossincrático, notadamente minimalista em seu aspecto visual, narrativo e performático. A obra, escrita por Harun Farocki, mostra a travessia da protagonista de volta à nação que tentou aniquilá-la, com performances marcadas pela concisão e contenção de arroubos de emoção típicos do melodrama hollywoodiano. 

O drama gira em torno de um gesto aterrador extraído da guerra: a desfiguração. Nos campos, Nelly tem seu rosto desfigurado pelos nazi, o que fez com que sua face – e sua identidade – tenha sido recriada por um médico durante a ocupação norte-americana de Berlim. Sua imagem, portanto, foi destruída e reinventada. Apesar da personagem insistir em querer parecer exatamente como antes, o médico lhe assegura: nada será como antes. 

Figura frágil e insólita, vulto que perambula pelas ruínas de uma Berlim destruída, a personagem tenta se reerguer e seguir a vida. Entre esquinas, destroços e cabarés, Nelly se torna um corpo desconjuntado com uma alma viva. Apesar dos avisos de sua amiga, que lhe assevera que seu marido havia a entregue aos nazistas, a mulher zumbificada zigue-zagueia à noite no lixo e nos escombros dos bombardeios por entre soldados americanos, prostitutas e gângsters em busca de seu Johnny, um pianista que trabalha como garçom. 

A ruína é uma imagem premente do filme. Tanto o espaço fílmico quanto a persona da protagonista são caracterizados pela ruína do projeto de sociedade da modernidade europeia que desembocou nas duas grandes guerras mundiais. Apesar disso e contra tudo e todos, Nelly persegue obstinada seu amor torto. Podemos dizer que a ruína é a força motriz da obra – é a esquina imunda onde os sobreviventes seguem seus corações perturbados pela faca, a bomba e o fuzil. 

A amiga, que já não suporta a música alemã por conta da propaganda nazista, tenta a auxiliar em sua reconstrução, mas suicida diante do amor louco da protagonista. E ficamos a escutar o som melancólico da música norte-americana, seja em seu apartamento, seja no cabaré de luzes vermelhas chamado Phoenix. A música tema do filme, Speak Low, martela suavemente nossos ouvidos vez ou outra, como um sussurro que nos diz: o amor vencerá. “Speak low when you speak, love”. 

A relação entre Johnny e Nelly é marcada por um jogo de alteridade e semelhança, o que torna a obra mais sombria. O homem não reconhece a mulher, que virou outra depois da reconstrução facial. No entanto, ele percebe nela uma semelhança com a esposa, que julga estar morta. Diante disso, Johnny a convence a mimetizar a companheira para conseguir se apoderar de sua herança. Perdida diante da sobrevivência do amor pelo marido, Nelly se resigna e aceita seu papel neste teatro de sombras. Meio a meio, negócio fechado.

A princípio, Petzold apresenta sua protagonista com o rosto coberto por bandagens e cicatrizes. Depois, a mulher oculta seu rosto com um chapéu. Sua perambulação pelas ruínas da cidade é marcada pela ocultação de seu rosto – e sua identidade. Nas sombras, ninguém a reconhece. Pouco a pouco, as feridas da cirurgia vão cicatrizando, e o filme passa a revelar seu rosto entre as outras pessoas. Phoenix faz o movimento da ocultação para a revelação do persona de Nelly. Ao fim e ao cabo, ela está viva – sobrevivendo em meio a paisagens de outrora destruídas no agora. 

Nesse ínterim, Petzold realiza algo que também está em outros de seus filmes, como Transit. Os tempos se sobrepõem na narrativa, de modo que o passado ressurge no presente com outra face. Um passado transfigurado pela guerra e pelo genocídio do povo judeu reaparece em cena. A narrativa espelha o passado no presente, mas num espelho partido, destruído pela tempestade do progresso. Uma temporalidade fantasmagórica é tecida por essa operação estética.

O clímax deste melodrama está no seu desfecho. O teatro do marido funciona, mas Nelly descobre que ele, de fato, a denunciou e, logo após sua prisão, contraiu o divórcio. Após o reencontro com amigos na estação de trem – sem explosões de amor -, resta o espanto diante da realidade. O grupo, formado por Johnny, Nelly, amigos e amigas, celebra o retorno da sobrevivente com vinhos e cervejas. Subitamente, a protagonista puxa o ex-marido para o piano e sussurra: “Speak Low”. Os dois então começam a performar a música. No início, Nelly sussurra, com a voz um pouco rouca, a canção tema do filme. Com o tempo, sua voz se solta, o sangue pulsa, as cordas vocais vibram e o demônio do reconhecimento possui Johnny, que se petrifica diante da mulher que ele abandonou e jogou no inferno. Ficamos com a voz da sobrevivente: “Love is a spark, lost in the dark too soon, too soon”. Ela pega o casaco e vai embora.

Este texto faz parte da Edição #25 – Melodrama. Clique aqui para ler outros textos da edição.

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