Uma mulher está morta, deitada sobre a mesa da sala, sem caixão, sem sapatos, sem qualquer luxo. É velada unicamente por André (Augusto Lorenzo), filho com quem manteve uma relação incestuosa. Nina, vivida por Norma Bengell, é a protagonista da obra-prima de Paulo César Saraceni, um drama com elementos de tragédia grega e melodrama. Afinal, Silvia Oroz, em seu livro “Melodrama: Cinema de Lágrimas da América Latina” (1992), destaca que o melodrama foi estruturado sobre quatro mitos da cultura judaico-cristã: o amor, a paixão, o incesto e a mulher.
Os confrontos, dilemas morais e punições que se abatem sobre os personagens de A Casa Assassinada (1971) surgem no seio de uma sociedade religiosa, conservadora e preconceituosa do sul de Minas Gerais. Um flashback nos transporta ao tempo em que Nina, a heroína forasteira e transgressora, chegou a essa terra assombrada. Moça do Rio de Janeiro, ficou noiva de Valdo (Rubens Araújo), um dos irmãos Meneses, últimos descendentes de uma família enraizada em uma propriedade rural que se tornou improdutiva. Não há cultivo, criação ou rendas que sustentem essa família que sobrevive de aparências.
Os Meneses vivem sob o austero sistema de vida do irmão mais velho de Valdo, Demétrio (Nelson Dantas), que é casado com Ana (Tetê Medina), uma mulher que sofre de angústias e solidão. O terceiro irmão Meneses é Timóteo (Carlos Kroeber). Desprezado pela família e permanentemente confinado a seu quarto, ele se maquila e se veste com as roupas e jóias da sua falecida mãe, enquanto planeja e torce pelo fim dos Meneses. Timóteo é atendido e visitado unicamente por Betty (Leina Krespi), a governanta da casa, até a chegada de Nina. Com a nova cunhada, estabelece uma relação de cumplicidade. A ela, conta a história de uma antepassada que se vestia com roupas masculinas. A foto dessa mulher que desafiava os rígidos costumes locais foi removida da sala principal, por determinação de Demétrio.
Do lado de fora da casa, um canteiro de violetas se sobressai em meio às árvores e folhagens de um jardim selvagem. O jovem jardineiro Alberto, vivido pelo mesmo Augusto Lorenzo que atua como André, diariamente colhe um ramo de violetas que deposita na janela de Nina, atendendo a um pedido dela. Essas flores são subtraídas por Timóteo, que escapa furtivamente de seu quarto pela sacada para cometer esses furtos, desencadeando mal-entendidos e sofrimentos. Desses atos e desse jardim emana um romantismo trágico que se soma à atmosfera de decadência da casa. Úmidas paredes vão se revestir de manchas indeléveis de sangue.
Vários filmes do cinema moderno brasileiro foram adaptados de obras literárias: Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963), A Hora e a Vez de Augusto Matraga (Roberto Santos, 1965), Menino do Engenho (Walter Lima Jr., 1965), O Padre e a Moça (Joaquim Pedro de Andrade, 1966), Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969), São Bernardo (Leon Hirszman, 1972). Paulo César Saraceni, um dos principais nomes do Cinema Novo, era um grande admirador de Lúcio Cardoso. Ele pensava em adaptar “Crônica da Casa Assassinada” (1959) desde o início dos anos 1960, no que seria o seu primeiro longa-metragem. Lúcio Cardoso chegou a escrever um roteiro, do qual Saraceni gostou. Uma adaptação também foi escrita por Millôr Fernandes, mas essa não foi apreciada pelo diretor. Enfim, Saraceni decidiu escrever um novo roteiro, sob aprovação de Lúcio Cardoso. Sintetizou em 35 páginas o livro de quase quinhentas páginas. Dez anos depois, o filme foi realizado a partir desse roteiro, composto apenas de diálogos.
Lúcio Cardoso (1912-1968) é um dos grandes nomes da literatura psicológica brasileira. Alfredo Bosi aponta a “criação de atmosferas de pesadelo” como um pendor do autor. “Crônica da Casa Assassinada”, seu último romance publicado em vida, é considerado a sua obra-prima. Ele deixou inédito o romance “O Viajante”, adaptado posteriormente por Saraceni no filme homônimo lançado em 1999. Apreciador de cinema, Lúcio Cardoso foi convidado por Saraceni para escrever o roteiro original de Porto das Caixas (1962), primeiro longa-metragem do diretor, que inaugurou sua Trilogia das Paixões, composta por esses três filmes.
A narrativa de “Crônica da Casa Assassinada” é estruturada por meio de diários, depoimentos, cartas e confissões dos vários personagens envolvidos nos dramas que se sucedem. Saraceni, com seu apuro técnico, mostra os variados pontos de vista aproximando a câmera dos atores enquanto transmitem seus monólogos interiores, os relatos de suas conversas, o conteúdo de suas cartas. Os silêncios são preenchidos com sons da natureza e a música de Tom Jobim. Na conversa de Nina com o médico que atendeu Valdo após a sua tentativa de suicidio, a câmera se detém apenas nela, grávida e decidida a abandonar o marido a quem deixou de amar. Só a voz do médico é ouvida, respondendo às perguntas de Nina. O desespero de Ana nas cartas em que escreve ao padre, já depois da morte de Nina, é encenado de forma que as emoções dela transparecem enquanto confessa a um padre inalterável em seu silêncio seus terríveis atos. Ela conta que o amor que se supunha incestuoso entre Nina e André por fim não era. André é filho de Ana com o jardineiro Alberto, que se suicidou com a partida de Nina. Retornando à casa dos Meneses, dezessete anos após sua partida para o Rio de Janeiro onde Ana a procurou em busca de seu filho recém nascido, enquanto ocultava de todos a sua própria gravidez, Nina reconheceu no jovem André os traços de Alberto, por quem tinha se apaixonado no passado.
Por mais dramáticas e inverossímeis que sejam as situações e exacerbados sejam os sentimentos e as reações dos personagens, A Casa Assassinada não peca por excessos de sentimentalismo ou se aproxima de um cinema popular. Pelo contrário. A elegância que se desprende de suas imagens lembra o decadentismo presente nas obras de Luchino Visconti. Há inclusive um tom operístico, bem acentuado nas cenas de Timóteo. Sua aparição insólita e inesperada no velório de Nina, no momento em que estão presentes os insossos burgueses da cidade, é surpreendentemente bela.
É costume que do melodrama resulte uma moral. Lúcio Cardoso era um escritor católico e há uma religiosidade que perpassa A Casa Assassinada de Saraceni. Nina é uma mulher bonita, jovem e moderna que não se encaixa no ambiente pesado da casa dos Meneses. Ela compromete a ordem estabelecida por se render às suas paixões. O casal de cunhados fica obcecado por ela e é a partir dessas fixações que as desgraças sobrevêm. Por fim, a morbidez e a morte tomam conta de tudo. Com a morte de Nina, a casa, que caía aos pedaços, perde a alma. Com a vingança de Timóteo, perde a reputação.
Este texto faz parte da Edição #25 – Melodrama. Clique aqui para ler outros textos da edição.












