Poucas formas narrativas são tão persistentes no cinema e, ao mesmo tempo, tão contestadas quanto o melodrama. Herdado do teatro e do folhetim dos séculos XVIII e XIX, o melodrama foi incorporado ao cinema logo em suas primeiras décadas, atravessando matrizes dramáticas das mais variadas cinematografias: do classicismo hollywoodiano às principais indústrias latino-americanas, dos dramas existencialistas europeus aos cinemas orientais, passando por diversas fases do cinema brasileiro e de outros cinemas pelo mundo. Apesar da presença constante, jamais foi objeto de consenso entre a crítica e a cinefilia.
Para uma parte significativa da crítica, sobretudo a partir dos anos 1950, o melodrama parecia representar aquilo que o cinema deveria superar naquele momento: os excessos sentimentais, o maniqueísmo, a dependência de convenções herdadas do drama teatral, a ênfase no espetáculo. A rejeição, contudo, carregava um paradoxo. Muitos dos cineastas admirados por essa mesma geração trabalharam dentro ou nas bordas do melodrama, encontrando em seus elementos um terreno fértil para explorar as relações entre emoções e a forma cinematográfica. Nas décadas seguintes, o melodrama seria progressivamente revalorizado, ainda que nem sempre com rigor, passando com certa frequência da condenação para uma aceitação igualmente indiscriminada.
Este número da Multiplot parte dessas tensões para propor uma investigação sobre o melodrama. Não apenas sobre seu conjunto de temas recorrentes – os amores possíveis e impossíveis, as diferenças sociais, o casamento, a família, a morte, o luto, o sofrimento humano –, mas sobre seu modo particular de representar essas experiências. Partimos justamente do entendimento de que o melodrama acontece no encontro entre o peso das situações narradas e o tratamento cinematográfico que as materializa em imagens e sons. É uma das proposições do crítico espanhol Miguel Marías em El melodrama – Refugio de románticos, ensaio escrito em 1996 que publicamos nesta edição em tradução inédita para a língua portuguesa. O ensaio questiona os dois extremos que marcaram a recepção do melodrama e propõe, a partir de uma perspectiva formalista e historicamente fundamentada, algumas bases para pensá-lo como um sistema formal repleto de nuances.
Os demais textos reunidos nesta edição percorrem diferentes épocas e tradições, analisando obras de cineastas como F. W. Murnau, Vincente Minnelli, Max Ophuls, Paul Vecchiali, Valerio Zurlini, Roberto Gavaldón, Paulo César Saraceni, Kinuyo Tanaka, Rainer Werner Fassbinder, Rita Azevedo Gomes, João Pedro Rodrigues, João Canijo, Christian Petzold e Sarah Friedland. Um conjunto de autores e autoras que percorre desde o período clássico até o contemporâneo do cinema, refletindo uma reinvenção contínua das formas melodramáticas.
A edição apresenta ainda trechos de uma entrevista exclusiva com Eugène Green, realizador de belas obras como O Mundo Vivente, A Ponte das Artes e A Religiosa Portuguesa. Herdeiro de tradições que perpassam o teatro barroco e a literatura clássica, Green construiu uma filmografia singular em que as emoções raramente se apresentam ao espectador de maneira direta, sendo mediadas pelas palavras e por composições estéticas rigorosas. Em conversa com o crítico Fernando de Mendonça, o cineasta oferece reflexões valiosas para pensar alguns dos elementos essenciais do cinema e do melodrama, como a palavra, a luz, o tempo e a música.
Boa leitura.
Este texto faz parte da Edição #25 – Melodrama. Clique aqui para ler outros textos da edição.












