Confluências (Dácia Ibiapina, 2024)

Etnografia da amizade

João Paulo Campos

Confluências parte do encontro de Dácia Ibiapina com Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, que assina a co-direção do curta-metragem. O filme começa em movimento. Uma música vibrante embala as imagens filmadas de dentro de um carro. As paisagens vão passando e a música energiza nossos corpos. Estamos a caminho do quilombo Saco-Curtume, na zona rural de São João do Piauí, onde Nego Bispo vivia e compartilhava seus saberes com seus camaradas.

O filme é formado por registros das celebrações de aniversário de Bispo em seu quilombo. O lugar se torna palco não apenas da farra coletiva, mas também de uma troca de ideias que desvela o pensamento do autor e sua cultura. Ali, a vida é “começo, meio e começo”, diz o sábio numa das conversas, atestando uma forma de vivenciar o tempo e espaço completamente distinta dos ditames da modernidade capitalista.

Confluências é uma obra intensiva. Através dela mergulhamos na experiência da festa do quilombo de Bispo. O curta consegue, além de descrever a vida que ali se desdobra, captar a energia dessa gente em estado de farra. A fita vibra com os corpos em movimento e a música animada, fazendo a obra se tornar um filme-festa. 

Trata-se de um documentário etnográfico que se arrisca no mundo sem medo de desvios de rota. Como disse a diretora em sua apresentação no festival, Confluências é um documentário que lida com os imprevistos da experiência. O maior deles foi a morte do co-diretor e protagonista, que fez a realizadora assumir um registro intensivo do aniversário de Nego Bispo, em vez de optar por um caminho extensivo no tempo. 

Ibiapina observa, mas também participa do evento registrado. Uma das cenas mais belas do curta mostra Nego Bispo dançando. De repente, ele puxa Dácia do fora de campo e arrasta um forró com a diretora. Nota-se, nessa cena, a relação de confiança e amizade que a documentarista desenvolveu com Bispo no decorrer das filmagens. O filme dá uma forma amorosa à alteridade, como se fosse uma etnografia da amizade.

A obra de Ibiapina mimetiza o pensamento de seu interlocutor. A montagem de Cristina Amaral amarra os caminhos do filme numa confluência guiada pelo pensamento e presença de Nego Bispo. O que encontramos no quilombo de Bispo é uma forma de vida alheia ao individualismo capitalista. O filme descreve uma cultura marcada pela coletividade e a amizade.

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