Olhar de Cinema: Por Trás da Linha de Tijolos Vermelhos

Por Pedro Tavares

Uma informação básica e que aparentemente passa como uma sombra em Por Trás da Linha de Tijolos Vermelhos é a consequência de um tempo assolador dos protestos registrados. Após seis meses de ocupação das ruas de Hong Kong, um capítulo novo então é escrito e registrado por câmeras que não possuem donos, identidade, conceitos estéticos ou até mesmo uma função para elas fora o imediatismo de seu registro.

Estas imagens podem ser fruto da hipérbole das redes sociais ou para uso particular, porém, juntas, a pensar em diversos realizadores não identificados, temos um capítulo escrito. A princípio enquanto os estudantes ocupam as ruas e pedem iniciativa da população o filme remete aos trabalhos de Sylvain George como a ocupação do espaço por corpos além de suas motivações. Porém este capítulo que cessa a liberdade enquanto a polícia os cerca durante os quatorze dias de ocupação da universidade politécnica exibe a urgência da produção de imagens tem suas vantagens.

Como uma automática denúncia de abuso de poder essas imagens captam a autodefesa dos estudantes além do protesto: eles querem e precisam descansar, ir para a casa, se alimentar, se banhar. O poder, enquanto isso, os afunila no campus da faculdade. E como é um filme feito para os efeitos dessas imagens além de qualquer construção paralela fica evidente como não há um filtro do que deve ou não ser exibido afim de maior impacto – tudo é bem didático, naturalmente ilustrativo.

Resiste o tempo que é possível para que o corpo peça para desistir. A pressão é, principalmente, psicológica, mas por trás dessa linha, o que o estado guarda para estes jovens não é um simples acordo ou ao menos notar os seus pedidos. Fica evidente como e para quem ele está a funcionar e sempre a base do horror.

Publicações recentes

Amores de Perdição: Schroeter e Oliveira

João César Monteiro sobre Aurora, de F. W. Murnau

Vozes sobreviventes: amor apesar dos campos de concentração em Phoenix, de Christian Petzold

Corpo, desejo e morte: Para sempre mulher, de Kinuyo Tanaka

De Ophuls a Vecchiali: Variações do imaginário melodramático

Valerio Zurlini e a fragilidade do mundo

Miguel Marías: O melodrama – refúgio de românticos

Filmar o Oculto – Entrevista com Eugène Green

Um cinema dentro da cabeça: imaginário e ficção melodramática em Días de Otoño, de Roberto Gavaldón

Melodramas de cinema: Two Weeks in Another Town, de Vincente Minnelli

Sangue do meu sangue, de João Canijo: Melodrama e naturalismo ou Era uma vez um filme punk à beira do caminho

A Alma da Casa: A Casa Assassinada, de Paulo César Saraceni