Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: Higiene Social (Denis Côté) 

Em cada plano, o personagem Antonin interage com cinco mulheres diferentes: sua irmã Solverg, sua esposa Églantine, sua amada Cassiopée, a funcionária Rose e a teóloga Aurore. Pelas conversas, descobrimos que Antonin afirma-se como um dândi e sente cansaço e dores no corpo. Seu destino é ter muitos amigos, não se submeter ao trabalho e viver da arte do furto. Enquanto ele, Aurore e Rose vestem roupas contemporâneas, Solverg, Églantine e Cassiopée apresentam-se com vestidos e adereços de séculos passados. De início, cogita-se que Antonin seja um personagem à frente de seu próprio tempo. No entanto, em algum momento, eles falam sobre facebook, cinema e computador. Engana-se Antonin quando diz que “sua civilização não vai deixar rastros”. O tempo atual ainda é afetado pelo conservadorismo dos pensamentos tradicionais.  

Apesar de insistir que o “mundo é uma fadiga moral”, Antonin é constantemente questionado pelas mulheres ao seu redor. Solverg defende o trabalho como forma de seu irmão livrar-se da prisão, sentir-se útil e realizado. Églantine julga Antonin por não cumprir seus deveres como marido. Cassiopée não deseja vê-lo novamente e o protagonista incita um duelo ridículo com seu oponente desconhecido. A fiscal Rose reafirma que Antonin deve cumprir a lei e a ordem. 

A única personagem que desarranja a própria forma do filme é Aurore, uma jovem que aparece caminhando pela floresta nos intervalos de uma cena e outra. Seu corpo é filmado próximo e a câmera segue seus movimentos, até o momento em que se escuta uma música de rock que a faz dançar. No encontro com Antonin, ela o ridiculariza como um “ladrãozinho sem moral”. Como uma espécie de comédia de costumes, Higiene Social desenvolve o quanto o masculino perde-se em seu próprio narcisismo e fragilidade.    

* Visto na programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Publicações recentes

Amores de Perdição: Schroeter e Oliveira

João César Monteiro sobre Aurora, de F. W. Murnau

Vozes sobreviventes: amor apesar dos campos de concentração em Phoenix, de Christian Petzold

Corpo, desejo e morte: Para sempre mulher, de Kinuyo Tanaka

De Ophuls a Vecchiali: Variações do imaginário melodramático

Valerio Zurlini e a fragilidade do mundo

Miguel Marías: O melodrama – refúgio de românticos

Filmar o Oculto – Entrevista com Eugène Green

Um cinema dentro da cabeça: imaginário e ficção melodramática em Días de Otoño, de Roberto Gavaldón

Melodramas de cinema: Two Weeks in Another Town, de Vincente Minnelli

Sangue do meu sangue, de João Canijo: Melodrama e naturalismo ou Era uma vez um filme punk à beira do caminho

A Alma da Casa: A Casa Assassinada, de Paulo César Saraceni