Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: Coisas Verdadeiras (Harry Wootliff)

Por Camila Vieira

Inspirado no romance True Things About Me, de Deborah Kay Davies, Coisas Verdadeiras encena uma narrativa em torno de uma mulher millennial. Kate Perkin mora sozinha e prefere ficar distante de seus pais controladores; trabalha como atendente, mas chega sempre distraída ou atrasada; e sua rotina a coloca em constante estado de apatia. Sem vontade para se acordar e com baixa auto-estima, ela mal consegue manter laços sólidos de amizade e se encontra em uma posição vulnerável.   

Mais do que se sentir desejada, Kate busca alguma conexão com um homem ex-presidiário que ela conheceu em um dos seus atendimentos. Depois de interpretar um homem pouco confiável em The Souvenir (2019), o ator Tom Burke assume um registro semelhante ao interpretar Blond, o desconhecido que se envolve com Kate e se aproveita de sua fragilidade. Ele aparece e desaparece quando sente vontade. O sexo é sempre apressado. Blond altera rápido de humor: às vezes, é carinhoso e solícito; em outras, é grosseiro e estúpido. 

Por meio de uma câmera instável, o filme centra o olhar para Kate e o modo como ela vai absorvendo aos poucos suas próprias angústias e insatisfações. Ao acompanhar o descompasso cotidiano da personagem, a cineasta Harry Wootliff quer se solidarizar com uma mulher comum que sofre os efeitos de uma vida pouco desejável. Apesar do acúmulo de situações desconfortáveis, ela não desmorona totalmente e, ao mesmo tempo, sua tomada de consciência não se seduz pela estratégia fácil de transformá-la em heroína. 

* Visto na programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

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