Gertrud, Gertrud, Gertrud,…

Por Gabriel Linhares Falcão

– Mulher incomum. Quem é você de verdade?

– Sou muitas coisas.

– Quem?

– O orvalho da manhã, caindo das folhas das árvores, nuvens brancas viajando para onde ninguém conhece.

– Quem mais você é?

– Sou a lua, sou o céu.

– E o que mais?

– Sim, sou uma boca. Uma boca buscando outra.

Diálogo entre Earland e Gertrud

O cinema tinha o papel de mostrar o movimento e o que se via, mas não a palavra. Dreyer superou esta atitude, e vocês veem o que isso proporcionou. Compreendemos que a palavra não corta a imagem e que a imagem não precisa ficar sozinha.

Manoel de Oliveira[1]

Este vídeo-ensaio nasceu a partir de uma pequena obsessão. A primeira memória que sempre me vem à mente ao pensar em Gertrud de Carl Theodor Dreyer é a diversidade de dicções utilizadas no chamamento da protagonista. A memória se tornou uma problemática quando, ao falar o nome do filme, precisava pensar para escolher a dicção mais adequada para o lamento dinamarquês. Gertrud, Gertrud, Gertrud …

Primeiramente, buscava ouvir em conjunto cada uma das 61 Gertruds, entretanto, acabei encontrando um novo problema. A falante e corajosa protagonista se apresentou quase muda e imóvel em seu retrato vocal por lamentos majoritariamente masculinos. A expressão incrédula de olhar perdido é predominante nos momentos em que ouve seu próprio nome. Pela variedade de dicções encontramos também a persistência e a repetição. No recorte, a complexidade psicológica das personagens foi reduzida a matéria e forma, destacando a pressurização sofrida por Gertrud, figura motriz agora silenciada.

Cortando a imagem para ouvir as palavras sozinhas, podemos observar a disposição dos tempos, entonações e silêncios das vozes que preenchem com densidade dramática a mise-en-scène de movimentos concentrados e reduzidos, e também, interrogar o que resta e o que se mantém das forças retóricas originais de Gertrud, personagem que não permite a própria evasão diante de investidas de terceiros sobre o passado e que pela fala alicerçada na receptividade e dignidade enfrenta seus anseios e segue seus desejos, engendrando passo a passo uma sabedoria afetuosa, cirúrgica e inconformada.

Agradecimentos à Roberta Pedrosa


[1] Transcrição da apresentação do cineasta Manoel de Oliveira à sessão de Gertrud, realizada por ocasião da comemoração dos 50 anos dos Cahiers du Cinéma em Paris. Publicado originalmente em Cahiers du Cinéma nº 557, maio de 2001, pp. 102-103; traduzido por Calac Nogueira (In: https://estadodaarte.estadao.com.br/foco-elogio-a-gertrud/)

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