Sex and the City (Michael Patrick King, 2008)

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Sex and the City, a série, foi uma das mais interessantes obras vinculadas na televisão em muitos anos. Acompanhando a rotina de vida de 4 mulheres de Manhattan, em seu mundo de luxo, futilidades e preocupações sentimentais (sexo, sexo, sexo!!!), a série se revelou um bom estudo do comportamento feminino universal, mesmo que ali estivessem retratadas mulheres de alto poder aquisitivo e um meio tão superficial. O caso é que o texto delicioso espantava qualquer vestígio de obviedade e capacitava os dramas ao alcance de qualquer “leitor” mais atencioso. Além da ousadia impar – até então – na abordagem da liberdade sexual em um meio de comunicação tão amplo (ainda que Sex and the City passasse na HBO, a quantidade de pessoas que alcançava era gigantesca), com mulheres de 30 anos se portando como homens e libertando de amarras para discutir – e fazer – (MUITO) sexo na busca de suas definições pessoais. No final das contas, Sex and the City, a série, não tem muitos poréns, foi de execução primorosa. Já Sex and the City, o filme, tem lá suas muitas cotas de erros. Em primeiro lugar, a obviedade de parecer um episódio estendido, ou 5 episódios unidos, já que o filme tem inacreditáveis duas horas e meia de duração. Na primeira meia hora ele se basta em “explicar” um pouco a série para quem não acompanhava (outra obviedade) e se limita aos preparativos do mais comum dos eventos em qualquer comédia romântica que se preza: o casamento. E aqui está uma absurda obviedade ao se considerar fazer o filme, a vontade de ganhar dinheiro. E desenvolver o filme como uma comédiazinha qualquer auxiliaria em um alcance maior de público, os mais conservadores poderiam não se chocar tanto. Por sorte, uma “reviravolta” (oh) muda os rumos do filme que aos poucos vai ganhando os contornos conhecidos de maior acidez nos conflitos e os personagens se tornam mais interessantes para o público (quem que viu a série vai compreender a Carrie querendo se casar?). E aparece, finalmente, o sexo, personagem importante na série, mas mero coadjuvante errôneo no filme. Como outros vários coadjuvantes, como Jennifer Hudson, com funcionalidade óbvia e descartável.

Mesmo que em alguns momentos role uma boa inspiração no texto, como em citações críticas da inflação (através do aumento do custo dos clássicos Manolos), de referências boas à série ou em várias “piadinhas” internas (a homossexualidade de Cynthia Nixon), o geral é bastante razoável, ficando muito aquém da qualidade indubitável do texto da série. Sorte as quatros atrizes estarem tão bem em seus papéis (destaque para Kristin Davis, a de menor brilho, tanto na série quanto no filme, mas dona da cena mais forte do filme) e conhecerem seus personagens como cada um de seus sapatos de 525 dólares. Sorte mesmo foi a palavra determinante para avaliar Sex and the City, o filme, positivamente, mesmo depois de tantos pontos contra. Afinal, houve um dia uma série brilhante.

2/4

Thiago Macêdo Correia

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Rebecca (Alfred Hitchcock, 1940)

Um dos mais populares filmes de Alfred Hitchcock é este Rebecca, tanto por representar o único Oscar de melhor filme recebido pelo gorducho mais popular da velha Hollywood quanto por ser o primeiro de seus trabalhos financiado por um estúdio norte-americano. Mas não vejo outros motivos para que tenha se transformado em ícone cinematográfico que não sejam ligados a este grupo de conquistas extra-filme. Embora passe muito longe de figurar entre seus piores filmes, como Suspeita e Cortina Rasgada, Rebecca vale nitidamente mais por ser o primeiro veículo do diretor dentro da grande indústria de cinema, já que como filme consegue desperdiçar boa parte dos atrativos apresentados pelo excesso de carga amarrada às costa do desenvolvimento do mistério.

O principal motivo para tanto parece ser bem simples, já que não existe filme no mundo produzido por David O. Selznick, o grande símbolo dos estúdios cinematográficos do período de maior respeito da indústria, que não tenha sofrido intervenções particulares do produtor. Rebecca é vendido como um grande show-room das principais características do cinema de Hitchcock, e embora comprado por muito mais, justifica-se exatamente dessa forma. É uma extensa vitrine de obsessões e características do diretor, moldada do jeitinho que o chefe gosta, quase como um cartão de entrada no qual estão inscritas as mais importantes feições que o suspense iria revelar em Hollywood nos anos seguintes, através das inovações técnicas e narrativas do primeiro especialista do gênero.

Embora seja sedutor saber de um filme que catalisa a essência de Hitchcock em uma estória só, o conceito acaba revelando também a fragilidade que o cinema de superfície apresenta quando feito de forma superficial. São mais de duas horas de esquetes que tentam trabalhar sob o mesmo discurso – é um filme sobre o passado-, mas que passam longe de vitaminar uma construção de continuidade, transmitindo uma sensação de inconstância narrativa e contando com momentos mais longos do que o ideal e outros que poderiam ter sido inflados sem que se perdesse fluência. Mas nem isso é suficiente pra fazer de Rebecca um filme ruim, o próprio universo gótico em que se insere permite a Hitchcock filmar alguns momentos muito interessantes, além de inaugurar um conceito fantástico de filme ligado a uma imagem que nunca existiu.

2/4

Daniel Dalpizzolo

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Santos e Demônios (Dito Montiel, 2006)

Lançar um olhar sobre um filme como Santos e Demônios requer cautela, das mais cuidadosas possíveis. Estamos diante de um dos filmes mais pessoais já feitos, sem sombra de dúvidas. Ele não é simplesmente uma reunião de lembranças de um passado que é projetado na tela por seu realizador, Dito Montiel. É Dito também que está retratado, autenticamente e complexamente em cada frame do filme. Ele se assume como realizador de uma leitura própria de sua história e resolve contar o que aconteceu por meio de sua memória, real e imaginária, que conflitam durante o filme em momentos que personagens falam para a câmera, se assumindo claramente como algo, definições e constatações, sejam elas dos próprios personagens, sejam elas de Dito sobre eles/ele (em determinado momento ele, Dito personagem, assume que irá abandonar todos no filme, sendo isso sua memória atual de um passado que ele irá revisitar buscando esses motivos). Existe também a opção do off sempre em ritmo mais brando que a cena que acabou de ser projetada, a repetição exata da fala em cima de outra cena, mas que prova que o fragmento ali transposto por Dito, o diretor, pode ser o que ele pensou que fosse e não exatamente como se deveu a realidade exata. Ou ainda que devesse seguir da maneira mais eloqüente, justamente a fim de evitar as complicações que decorreram dali.

Santos e Demônios se utiliza da metalinguagem de maneira extraordinária. Dito é diretor e personagem, e o personagem no filme que revisita seu passado o faz por meio da leitura de seu livro, da sua dramatização da própria história; mas essa dramatização pode não condizer necessariamente com o que foi, mas com o que ele projeta ter sido e o conflito dele com essa “realidade histórica” no presente é que leva Dito, diretor e personagem, ao reconhecimento e confrontação de si mesmo. Um estudo inexplicável a uma alma perdida em suas rupturas, brilhantemente interpretado por todo o elenco, de Shia LaBeouf a Rosário Dawson, de Chazz Palminteri a Dianne Wiest, chegando a um desempenho magistral de Robert Downey Jr, ator capaz de compreender todo o momento de (re)visão interior que seu personagem – e o diretor – imprime ao longo desse caminho. Notável a coragem de Dito Montiel em se lançar em algo desse nível de intimidade. E absoluto o resultado alcançado por ele.

4/4

Thiago Macêdo Correia

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Agente 86 (Peter Segal, 2008)

Agente 86, a série de TV, surgiu na década de 60, época em que a série James Bond era uma novidade e uma grande febre, então uma paródia de Bond era algo até ousado. Infelizmente, não conheço a série para tecer maiores comentários, mas atualmente, depois de vários filmes do agente 007, além das cópias, variações, clones e paródias afins, o quê Agente 86, o filme, poderia trazer? Felizmente, muita coisa. A principal foi não se apoiar tanto no agente britânico. Claro que aqui temos mais um agente que trabalha para um órgão secreto do governo (C.O.N.T.R.O.L.E.) que tem suas bugigangas e trabalha com uma parceira (Agente 99) tentando combater uma organização terrorista (K.A.O.S.), mas Maxwell Smart, aqui vivido por Steve Carell, definitivamente não é um James Bond. Carell traz uma certa inocência ao personagem que sonha em largar o serviço burocrático da C.O.N.T.R.O.L.E. e ser um agente de campo, para executar as missões secretas. Essa disputa interna na Agência é muito bem trabalhada no filme, mostrando o atrito entre os agentes. Maxwell se encontra no meio dessa disputa quando vê que os agentes de campo não levam a sério o serviço burocrático, então, ao mesmo tempo em que tem que provar que esse serviço é tão importante quanto o trabalho em campo, também não vê a hora de largar isso e partir para as missões.

Steve Carell é um dos melhores comediantes da atualidade, que utiliza um humor que não dispensa o pastelão, mas muitas vezes é mais discreto que outros como Jim Carrey ou Mike Myers. Ele não faz tantas “caras e bocas” como Carrey e nem se monta para fazer mil personagens como Myers na série Austin Powers. Nada contra os outros (que também curto), mas Carell é diferente e essa diferença é bem vinda. E falando de Austin Powers, outra paródia famosa de James Bond, Agente 86 se diferencia dela e muito já que em nenhum momento se vê na obrigação de apelar para chamar a atenção. Aqui não temos cenas bobas que muitas vezes constrangeram o público, nem piadas de baixo calão. Essa necessidade de querer aparecer a qualquer preço muitas vezes incomoda nos filmes do gênero. Agente 86 se difere dos demais quando consegue ser bem engraçado sem precisar se rebaixar. Além disso, o filme também investe em ótimas cenas de ação. Para completar o pacote, temos a beleza de Anne Hathaway fazendo a Agente 99 formando um ótimo par com Carell, e o elenco de apoio também rende muito. Dwayne Johnson (ex-The Rock) faz o 23 que é o agente sensação da C.O.N.T.R.O.L.E., Alan Arkin (que trabalhou com Carell em Pequena Miss Sunshine) faz o chefão da agência e Terence Stamp é Siegfield, chefe da K.A.O.S., sem falar nas divertidas participações de Bill Murray e James Caan. Dessa forma, Agente 86 se destaca como uma das melhores comédias dos últimos tempos.

4/4

Jailton Rocha

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O Incrível Hulk (Louis Leterrier, 2008)

Diversão. Essa palavra define bem o que os estúdios Marvel têm conseguido apresentar desde que resolveram tomar conta de alguns de seus super-heróis. Como já haviam conseguido em O Homem de Ferro. O Incrível Hulk é engraçado, cheio de ação e uma trama bem amarradinha. Além disso, conta com um elenco bem sintonizado: Norton está ótimo, como de costume; William Hurt, apesar de discreto, é o William Hurt; Liv Tyler é um monumento e não fica só nisso, desempenha muito bem o papel de donzela em perigo, representando muito bem a urgência que Hulk tem em resolver problemas. E, por fim, Tim Roth. Como é bom vê-lo em um papel importante (não, não acho Roth um grande ator, mas também não o acho ruim ao ponto de ser relegado somente a produções sem expressão alguma) e ele dá conta do recado como principal rival do gigante esmeralda, demonstrando uma obsessão doentia por derrotar Hulk e, de certa forma, uma inveja crescente dos poderes do gigante.

As cenas no Rio de Janeiro ficaram muito boas, é interessante e engraçadíssimo ver o Ed Norton arranhando no português. No final, ainda temos uma surpresa pra quem já assistiu ao Homem de Ferro até o final dos créditos.

3/4

Djonata Ramos

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Harry Potter e o Cálice de Fogo (Mike Newel, 2005)

Antes de qualquer coisa, não sou um pottermaníaco. Não li nenhum dos sete livros, e não gostei tanto assim dos três filmes iniciais, A Pedra Filosofal, A Câmara Secreta e O Prisioneiro de Azkaban. São bons, mas não me despertaram tamanha paixão para que ficasse fã do personagem. Mas gostei e muito dos dois últimos filmes, O Cálice de Fogo e A Ordem da Fênix, principalmente, desse quarto episódio dirigido pelo inglês Mike Newel.

Os três filmes iniciais da série Harry Potter são eficientes e funcionam mais como uma grande introdução da história. Através deles passamos a conhecer os personagens (mocinhos e vilões), a escola, as magias, e todas as demais situações e características que envolvem esse universo. Então, até aqui sabemos de tudo sobre Harry Potter: Quando bebê quase foi morto quando sofreu o ataque de um poderoso bruxo, Voldermort, o mesmo que matou seus pais. Como órfão foi posto para adoção, sendo assim criado por seus tios maternos, que sempre fizeram questão de tratá-lo mal por saber o que o Harry poderia representar. Aos 11 anos descobre sua história quando é convocado a ir estudar na escola de magia e bruxaria de Hogwarts. Os filmes mostram e muito bem essa jornada do personagem quando este passa a conhecer mais sobre seu passado, descobrindo esse novo mundo onde foi posto. Só que depois de três filmes, já sabemos tudo o que tínhamos que saber, e assim, a história tinha que começar para valer. É isso que esse quarto filme faz de maneira muito eficiente.

Harry Potter e o Cálice de Fogo atira a história para frente adotando uma postura “montanha-russa” de filmes como De Volta Para o Futuro Parte II e Indiana Jones e o Templo da Perdição. Claro que aqui não temos um ritmo tão frenético como desses outros filmes, mas para quem se acostumou com o ritmo da série, vai achar que tudo é rápido demais, e para quem leu o livro, com muitas tramas e sub-tramas, nem vai sentir o filme passando. Tudo no FF. Mas filmes desse tipo não têm que perder muito tempo explicando história ou personagens, até porque são continuações de filmes que já conhecemos, por isso já estamos introduzidos nesse universo previamente. E esse quarto filme de Harry Potter se põe assim, principalmente quando os personagens são atirados de uma situação para outra, sem tempo para tomar decisões, agindo na maioria das vezes de forma instintiva. Harry já teve que agir desde os primórdios de forma mais instintiva, só que antes ele tinha um inimigo claro à frente, fazendo com que ele pudesse analisar melhor o que fazer em certas situações. Lembrando disso nos outros filmes: No primeiro, ele tinha que evitar que alguém pegasse a pedra filosofal; no segundo, tinha que descobrir quem era a pessoa que abria a câmara secreta; e no terceiro, tinha que tomar cuidado com um possível ataque de Sirius Black, o fugitivo de Azkaban. Mesmo que o mal não era o que ou quem o Harry imaginava inicialmente, o personagem sempre tinha um inimigo claro e visível. Aqui isso não ocorre. O mal não se mostra de forma alguma e age nos bastidores conseguindo manipular a tudo e a todos para conseguir o que quer. Harry não tem quem combater, passando a sair tateando pelas situações que apresentam diante dele. O personagem está totalmente perdido, sem saber o que fazer. Assim que as coisas funcionam por aqui.

Outra coisa que vemos é o sentimento de isolamento que Harry sofre quando os demais estudantes pensam que ele agiu de má fé, e até uma briga com o melhor amigo rola por aqui. Perdido e isolado, é assim que ele se sente, e isso não deixa de ter uma relação direta com o que muito adolescente (ele já é adolescente!) sente nessa faixa de idade. Isso é possivelmente o que chama atenção do público geral para o personagem, já que mesmo vivendo num mundo bem diferente e fantasioso, ele não deixa de passar por muita coisa que qualquer um pode passa pela idade dele. Lembrando também que o público o acompanha desde os 11 anos de idade e assim acabou crescendo junto com ele. Uma ilustração disso tudo é a cena de Baile dos Estudantes que acontece aqui. Fica claro como aqueles personagens cresceram e são “normais” mesmo estando nesse mundo totalmente diferente. O diretor Mike Newel consegue explorar bem essa cena envolvendo os devaneios românticos de molecada de Hogwarts

Visualmente, o filme herdou do 3º filme (O Prisioneiro de Azkaban) a mudança geral que houve quando se abandonou os aspectos mais infantis dos dois primeiros filmes passando para um visual mais sombrio. O visual da série (e a série em si) cresceu muito com essa mudança e esse quarto filme acompanha esse crescimento. Aqui isso é acrescido quando temos várias mudanças de cenários/situações durante o filme, com cenas que muitas vezes se contrastam umas com as outras. Entendendo melhor isso: A Copa Mundial de Quadribol, que acontece logo no começo, tem um visual ultra-colorido e bem movimentado, ao contrário da cena do Dragão no Torneio Tribruxo que possui um visual mais seco e sem overdose de informações. Basicamente, é só o Harry e o dragão quando antes era uma platéia enorme e animada diante dos jogadores de quadribol. Esses contrastes são bem explorados e em nenhum momento o filme fica com o visual cansativo.

Sobre a história, sei que muitos que leram o livro reclamam do corte de muita coisa. Várias tramas e sub-tramas foram excluídas. Inicialmente, a idéia era de fazer dois filmes para caber tudo (ou quase tudo), mas isso foi abandonado e fizeram um resumo do que de principal acontece na história. Uma decisão acertada a meu ver porque: 1) Cinema e literatura são duas linguagens bem diferentes e muita coisa do livro poderia simplesmente não funcionar tão bem no filme; 2) A série vinha num ritmo devagar. Os filmes anteriores são longos, cheio de explicações e detalhes, então era necessário dar uma turbinada na história nesse quarto filme. Ele tinha que ter uma rapidez para que a série pudesse ir logo ao que interessa (que no fim de tudo é o eterno combate do bem contra o mal). O filme se apresenta muito bem do jeito que ficou, e se ficaria melhor se tivessem incluído uma coisa ou outra do livro, isso eu deixo para imaginação de quem é fã.

3/4

Jailton Rocha

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A Casa do Espanto II (Ethan Wiley, 1987)

Depois do sucesso de Sexta-feira 13, a dupla responsável pelos primeiros filmes dessa série, Sean S. Cunningham, diretor da Parte 1, e Steve Miner, diretor das Partes 2 e 3, se reuniram para um novo filme de terror. Surge aí: A Casa do Espanto (House, 1986), com Sean produzindo e Steve dirigindo. Até Harry Manfredini responsável pela trilha sonora de Sexta-feira 13 também compareceu (por isso não estranhe as semelhanças nas trilhas). Se antes tentaram reproduzir os slashers movies italianos, em House realizam um tradicional filme de casa mal-assombrada, gênero em alta na época por causa de sucessos como Poltergeist – O Fenômeno e Terror em Amityville. Só que para House não quiseram investir num filme de “terror sério” então criaram um filme que não tem medo de usar o humor na sua história e personagens. Assim, o filme se tornou um dos mais famosos “terrir” da década de 80, e com o sucesso, veio a inevitável continuação. A equipe responsável pelo primeiro filme volta, com exceção do diretor Steve Miner, que pulou fora e foi substituído por Ethan Wiley, roteirista do filme anterior, que aqui acumula as funções de diretor e roteirista.

História: Um casal é morto misteriosamente numa casa, mas antes disso acontecer, eles dão o filho deles, ainda bebê, para adoção. 25 anos se passam e o filho, Jesse, já adulto, volta para casa junto de uma namorada. Logo depois, aparece Charlie, um amigo dele que também traz uma namorada a tiracolo, para passar um tempo com o amigo. Jesse é obcecado pela história da família que não conheceu, e ao ler os livros abandonados pela casa, descobre que seu tataravô no velho Oeste teria descoberto uma caveira de cristal com poderes especiais. Ele, com a ajuda de Charlie, resolve ir desenterrar o tal tataravô para descobrir pistas de como achar a tal caveira. Daí tudo começa. Esse é o resumo da história e por esse resumo já vemos que House II comete uma das piores coisas que uma continuação pode cometer que é simplesmente não ser continuação, já que renega tudo do primeiro filme. Não só na história, mas o filme se tornou uma “Sessão da Tarde” quando abandonou o lado terror, para ser mais um filme de aventura. Isso ocorre porque quiseram dar uma ênfase aos “universos paralelos” que existem dentro da casa, coisa que o primeiro filme lidou relativamente pouco. E assim, em vários momentos, os personagens são transportados de dentro da casa para outros mundos, como um tempo pré-histórico; um templo onde uma tribo faz sacrifícios de virgens; e, claro, o velho oeste (afinal, o tataravô de Jessé viveu lá). Tudo isso num clima de aventura mesmo, nada de tentarem dar um ar mais pesado ao filme. A Casa do Espanto II deixa de ser “casa do espanto” para se tornar uma espécie de “Indiana Jones dentro de uma casa”. Isso o público, na época, não perdoou. Mas esquecendo que o filme em si não se põe com necessidade de ser algo que o primeiro foi, indo numa direção oposta, ele até funciona bem dentro desse contexto de filme de aventura descompromissado.

Outra coisa que sumiu aqui nessa pseudo-continuação foi a sensação de isolamento do personagem principal. Roger Cobb, do filme anterior, tinha que lidar sozinho com as maluquices da casa, já o Jesse daqui, além do amigo Charlie, ainda conta com o recém ressuscitado tataravô, e outros personagens que ele vai “coletando” a cada nova aventura nesses mundos paralelos. Surge então um estranho cão-lesma (?), um filhote peludo de pterodátilo (?), e uma virgem que ele resgata de um ritual. Mesmo que muito desses personagens sejam fracos, sem muitos atrativos, é através deles que o filme monta uma estrutura boa para o personagem principal. Jesse que foi para casa tentar descobrir algo sobre a antiga família, aos poucos vai “adotando” os demais personagens que vai encontrando pelo caminho, e assim formando uma bizarra nova família. Duas cenas legais em relação a isso são a do jantar onde todos estão sentados à mesa e Jesse olha orgulhoso para todos e afirma que aquela é família dele; e a cena final quando ele abandona tudo para viver com essa família que ele formou no decorrer do filme. Talvez isso não seja algo tão bem trabalhado, mas é bem interessante.

Claro que o filme original é bem melhor, mas perdoando A Casa do Espanto II pelo tom totalmente diferente (não justificando o II no título) e os personagens fracos, não chega a ser desagradável. De alguma forma bizarra, o filme funciona. E na prova do tempo, o segundo resistiu mais, já que o primeiro ficou datado, com cara de anos 80 mesmo, e esse aqui, por algum motivo desconhecido, não demonstra tanto a idade avançada. Um aviso final: Passem longe das continuações que vieram depois. Tanto A Casa do Espanto III, como (principalmente) A Casa do Espanto IV são, de todas as formas, intragáveis.

2/4

Jailton Rocha

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Invasores de Corpos (Abel Ferrara, 1993)

Apenas dois fatores fazem de Invasores de Corpos um produto nada típico na carreira de Abel Ferrara. O primeiro diz respeito à origem, já que além de ser seu único trabalho em um estúdio – a Warner – trata-se da refilmagem de uma estória já contada em outras oportunidades pelo cinema (respectivamente em Vampiro de Almas, por Don Siegel, e Os Invasores de Corpos, por Phillip Kaufman). O segundo fica por conta do formato de filmagem, já que também ineditamente desde que estreou com o caótico O Assassino da Furadeira Ferrara faz filmes em Cinemascope, formato que aproveita o máximo possível das laterais da imagem.

Quem conhece o cinema do nova-iorquino pode ficar receoso pelas circunstâncias em que Invasores de Corpos foi realizado, inclusive eu mesmo sempre me mantive cético antes de assisti-lo. Mas bastaram dois ou três minutos e algumas linhas de narração pra que o pé atrás se transformasse em um salto, de felicidade e de surpresa, na mesma medida. Porque a visão de Ferrara sobre o material e sobre os próprios filmes de Siegel e Kaufman é tão extraordinária que eu não consigo acreditar que outro diretor da atualidade tenha tamanha facilidade de se auto-imprimir em projetos tão distintos como ele demonstra em trabalhos aparentemente tão impessoais como esse.

Ferrara trabalhou o filme de gênero em diversas oportunidades e formatos, já viajou pelo policial (O Rei de Nova York, Vício Frenético, Cidade do Medo), pela ficção-científica (New Rose Hotel), pelo horror (The Addiction), pelo metalingüístico (The Blackout, Olhos de Serpente), pelo drama (Maria, O Assassino da Furadeira), mas manteve uma unidade em torno de suas obsessões – que assumem variações importantíssimas – em todas as oportunidades. Os Invasores de Corpos é mais um capítulo de suas aventuras – e dessa vez ainda mais forte do que a maioria das citadas – pelo gênero cinematográfico, e como de costume também não deixa de tratar de temas caros à essência do cineasta.

A primeira grande sacada – e aqui vai uma nota ao nosso querido Roland Emmerich – é deslocar seus personagens a um microcosmo, coisa que não ocorre com tanta intensidade nos anteriores. Aliás, tenho a impressão de que todo filme catástrofe sempre demonstre a necessidade de se apegar a uma definição irredutível de limites, não em seu quadro de personagens ou trama – como faz Emmerich no horroroso O Dia Depois de Amanhã, querendo falar da política mundial e de questões nitidamente universais se apegando à história frágil e fracassada de um pai que corre o país todo para salvar o filho – mas sim na própria construção do ambiente em que vai panfletar seu discurso (de certa forma muitos fazem, mas não conseguem controlá-los).

A seleção desse microcosmo, pra facilitar, não poderia ser mais acertada do que a da base militar de Ferrara, que é pra onde vai a família protagonista – inteligentíssima também a própria desconstrução que ele aos poucos faz dessa instituição, sem rompê-la, simplesmente entregando-a ao processo gradativo de desumanização. É lá que os primeiros indícios de estranheza são verificados e também é nela que as coisas vão começar efetivamente a acontecer. Contrariando o que havia feito em O Rei de Nova York e Vício Frenético, Ferrara substitui sua apreciação por terceiros atos – esses dois particularmente iniciam exatamente onde há o princípio do fim – por um estudo das origens, da instalação do mal, e que curiosamente é concluído no momento em que um diretor comum daria início ao seu ato intermediário e esfregaria as mãos de felicidade por finalmente engatar seu filme.

Invasores de Corpos, ao invés de um olhar que procura invadir o físico, como quase todo filme de Ferrara – curiosamente o próprio Ferrara é o grande invasor de corpos do cinema contemporâneo -, nada mais é do que seu mais trabalhado relato de projeção, no caso a projeção da tragédia, do apocalipse, uma projeção que talvez preencha o espaço deixado a completar em filmes anteriores e que dá deixa à mais genuína sensação de inexatidão. É o cinema de Ferrara feito de dentro pra fora, um nascimento que jamais parte do natural, pelo contrário, nasce do oco, do vão deixado pela transformação dos corpos humanos para a imperialização dos alienígenas – figuras que podem ser consideradas a própria materialização da psicologia de seus protagonistas anteriores, sempre marginalizados, desumanizados.

A noção de apocalipse que toma conta desse estabelecimento de bases transforma Invasores de Corpos em uma obra-prima sem nem mesmo ser necessária uma revisitação aos conceitos de Ferrara, tanto pela noção de estrutura que toda a decorrência do mistério e, principalmente, a forma e o momento em que a conclusão inconclusiva se instala na narrativa apresentam, quanto pela estética particularmente surpreendente. O filme poderia tranquilamente ser exemplo acadêmico pela utilização das extremidades do Cinemascope – ver no cinema deve ter sido um espetáculo -, e mais ainda, um seguidor genuíno no que diz respeito ao ritmo de gradatividade elucidatória de outro extraordinário filme de alien contemporâneo – e outra refilmagem, vale lembrar -, O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter.

Só vence ele, aliás, por um fator determinante. O final de The Thing é particularmente desesperador por discursar pelo pessoal no isolamento (microcosmos), mas o pessoal a serviço do social em que se instala o final feliz mais sem perspectivas de que eu me recordo desde que Wilder filmou Farrapo Humano faz deste Invasores de Corpos um dos momentos mais importantes da ficção-científica em anos – só foi batido pelo próprio Ferrara em New Rose Hotel, um filme que sinceramente acredito que deva ser melhor compreendido daqui a umas quatro décadas. Consegue resolver tão bem o passado e deixar uma incerteza tão assustadora para o futuro que a sensação de desespero acaba superando qualquer outra já transmitida por um filme de invasão.

4/4

Daniel Dalpizzolo

ou: Invasores de Corpos (Abel Ferrara, 1993) – Thiago Duarte – 4/4

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Especial M. Night Shyamalan

O diretor indiano M. Night Shyamalan conseguiu algo bem interessante entre os multiplotistas neste terceiro especial do blog, e que serve praticamente de retrato do cineasta da Filadélfia sob a óptica da comunidade cinéfila no mundo: quem gosta do cara, correu para rever seus filmes (alguns, a filmografia toda) para poder escrever sobre, na confecção deste especial. Já quem não gosta, fugiu de qualquer possibilidade de precisar entrar em contato com seu cinema de novo. É quase traumático. De modo que resenhas negativas nem puderam ser escritas sob pena de uma reação quase fisiológica. Entretanto, a Equipe toda está convocada e convoca os leitores para debates, aqui mesmo no blog, ou no orkut. Pontos das resenhas de cada um serão discutidos e não podemos garantir a continuidade do Multiplot! após eventuais atentados dos seus membros uns contra os outros, hahaha. É sério, as coisas estiveram incandescentes por estes dias, nos bastidores.

São sete textos abordando a filmografia de Shyamalan (fora quase não visto Playing With Anger por entendermos que a carreira do cara começa mesmo em Olhos Abertos), incluindo Fim dos Tempos (que estreou sexta, dia 13 de junho), já extremamente mal recebido pela crítica em todo o mundo.

É isto. Fique à vontade para falar, opinar, e de preferência, xingar pra caramba, haha.

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Fim dos Tempos (M. Night Shyamalan, 2008)

Contém spoilers:

A curiosidade é uma das características humanas mais arraigadas. E, como tal, apresenta-se nas configurações mais diversas ao decorrer da vida de um indivíduo, mas jamais desaparece.

Na infância se manifesta de forma explícita, simples e óbvia. As perguntas formuladas nesta fase são claras e diretas, sinais de inteligência para a criança ou até mesmo constrangimento de seus receptores em alguns casos. Mas há de se dizer que, durante este período, a curiosidade sempre é observada a fim de avaliar o potencial do futuro adulto de construir sua própria história de responsabilidade, sucesso e prosperidade.

À medida que crescemos, nos tornamos mais sofisticados. Pouco sabemos sobre o mundo que nos cerca (assim como não sabíamos quando éramos crianças), mas tudo se torna mais complicado, as perguntas mais elaboradas, as formas de exibirmos nossa ignorância perante o universo encontra formas mais dissimuladas. E quanto mais alto o nível, mais diferentes são as perguntas, mais sofisticadas. A ciência “institucionaliza” o processo por completo. A poderosa ferramenta racional estabelece métodos descritos minuciosamente (ao menos em teoria), confere substância à prática de sua utilização e enumera conceitos e condições para aceitação dentre as diversas correntes de pensamento científico.

Fala-se muito no que podemos explicar. De todo o conhecimento obtido até hoje extraímos substâncias que compõem medicamentos que salvam vidas de pessoas por doenças outrora catastróficas, construímos complexos computadores capazes de coordenar o trânsito de uma grande metrópole, interligamos pessoas através de meios de comunicação inimagináveis há um século atrás, enfim, tornamos a vida um “bem” mais duradouro e muito mais agradável.
Mas…e o que não podemos explicar? E nas situações onde a ferramenta racional não é adequada? E quando todas as explicações possíveis possuem falhas? O que acontece com nossa curiosidade?
É justamente nessa lacuna que o novo filme de M. Night Shyamalan encontra sua maior dádiva (e, por consequência, seu maior risco). A vingança da natureza contra os homens já fora tratada em outras projeções, inegável, mas não há simplificação da temática em “Fim dos Tempos”, uma vez que o filme traz à tona as possibilidades de análise do fenômeno natural. Explicar o inexplicável, um enigma da ciência, nós a serem desatados por inúmeras mãos através do conhecimento agregado por séculos de estudo.

Enquanto normalmente as explicações são estapafúrdias ou simplesmente se evita falar a respeito das causalidades de algo que distorce nossa noção de lógica, em Fim dos Tempos elas estão ali, tentando desesperadamente satisfazer a curiosidade das vítimas e a nossa…mas elas não funcionam, simplesmente não funcionam. Todas as possibilidades avaliadas possuem problemas. E Shyamalan parece se deliciar fazendo o máximo para que isso ocorra (e, talvez, mesmo brincar com seus abundantes detratores instigando-os a questionar se o que presenciamos é sua genialidade ou erros abruptos no roteiro).

Os estranhos e devastadores eventos na Costa Leste dos Estados Unidos são retratados de modo aterrorizante e a atmosfera sufocante chega a nos envolver por completo em alguns pontos (a cena da morte dos garotos é desesperadora, por exemplo), gerando calafrios terríveis na espinha.

É nesse ponto que os problemas de Fim dos Tempos começam a se tornar mais evidentes, por outro lado. As excessivas tiradas de humor, irritantes, em sua maioria, impedem uma interação mais perturbadora da estória com o espectador, ocasionando um contraste com o descrito no parágrafo anterior que não funciona nada bem para a receptividade do público.

Adicione-se a este elemento personagens insossos, sem profundidade psicológica e interpretações pavorosas de Mark Walhberg (que jamais deveria ter sido escolhido para o papel, soa extremamente artificial nos momentos mais tensos) e de Zoey Deschanel (belíssima fisicamente, mas horrível em todas as aparições) e, infelizmente, o resultado é um filme irregular, que peca pelos minutos finais por excesso de detalhes (especialmente com a relação “eventos-tempo”), peca por algumas situações ridículas que não se encaixam no contexto sério do tema (o tão falado deboche) e que desperdiça uma grande idéia com instrumentos inadequados.

Mas, sem dúvida, é, no mínimo curiosa a abordagem de Shyamalan, e apesar de longe de ser um filme excelente, proporciona um bom divertimento. O controverso diretor está de volta.

2/4

Sílvio Tavares

ou: Fim dos Tempos (M. Night Shyamalan, 2008) – Thiago Duarte

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