Santos e Demônios (Dito Montiel, 2006)

Lançar um olhar sobre um filme como Santos e Demônios requer cautela, das mais cuidadosas possíveis. Estamos diante de um dos filmes mais pessoais já feitos, sem sombra de dúvidas. Ele não é simplesmente uma reunião de lembranças de um passado que é projetado na tela por seu realizador, Dito Montiel. É Dito também que está retratado, autenticamente e complexamente em cada frame do filme. Ele se assume como realizador de uma leitura própria de sua história e resolve contar o que aconteceu por meio de sua memória, real e imaginária, que conflitam durante o filme em momentos que personagens falam para a câmera, se assumindo claramente como algo, definições e constatações, sejam elas dos próprios personagens, sejam elas de Dito sobre eles/ele (em determinado momento ele, Dito personagem, assume que irá abandonar todos no filme, sendo isso sua memória atual de um passado que ele irá revisitar buscando esses motivos). Existe também a opção do off sempre em ritmo mais brando que a cena que acabou de ser projetada, a repetição exata da fala em cima de outra cena, mas que prova que o fragmento ali transposto por Dito, o diretor, pode ser o que ele pensou que fosse e não exatamente como se deveu a realidade exata. Ou ainda que devesse seguir da maneira mais eloqüente, justamente a fim de evitar as complicações que decorreram dali.

Santos e Demônios se utiliza da metalinguagem de maneira extraordinária. Dito é diretor e personagem, e o personagem no filme que revisita seu passado o faz por meio da leitura de seu livro, da sua dramatização da própria história; mas essa dramatização pode não condizer necessariamente com o que foi, mas com o que ele projeta ter sido e o conflito dele com essa “realidade histórica” no presente é que leva Dito, diretor e personagem, ao reconhecimento e confrontação de si mesmo. Um estudo inexplicável a uma alma perdida em suas rupturas, brilhantemente interpretado por todo o elenco, de Shia LaBeouf a Rosário Dawson, de Chazz Palminteri a Dianne Wiest, chegando a um desempenho magistral de Robert Downey Jr, ator capaz de compreender todo o momento de (re)visão interior que seu personagem – e o diretor – imprime ao longo desse caminho. Notável a coragem de Dito Montiel em se lançar em algo desse nível de intimidade. E absoluto o resultado alcançado por ele.

4/4

Thiago Macêdo Correia

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One Response to Santos e Demônios (Dito Montiel, 2006)

  1. Patricia

    Acabei de assistir o filme. Vc tem razão, D.Montiel é bem corajoso em sua exposição, mas bem nais talentoso na escolha dos atores que simplesmente arrasaram no filme. Um soco no estômago, sem dúvidas. Quem, afinal, nao refinou suas memórias? Quem não achou que ouviu algo, que na verdade não foi dito. E pior, quem não deixou de ouvir a frase mais importante da conversa? O tempo sempre embaça a lembrança. Final feliz. Quem não quer ser lembrado sempre. Sorte dele, que foi.