Batman – O Retorno (Tim Burton)

[image]

No dicionário, “herói” está definido exatamente assim:

1.Homem extraordinário por seus feitos guerreiros, seu valor ou sua magnanimidade.
2.P. ext. Pessoa que por qualquer motivo é centro de atenções.
3.Protagonista de uma obra literária.
4.Mit. Semideus (2). [Fem.: heroína.]

Por esses quatro itens, a primeira impressão é a de que Batman se encaixaria no primeiro deles. O Batman que se procura é o cara extraordinário por seus feitos, seu valor, sua generosidade, longanimidade, sua coragem, sua moral ilibada.

Felizmente, não é esse Batman que o diretor Tim Burton apresenta neste que considero o filme de Batman definitivo até agora (a comparação match-to-match chega só 16 anos depois com O Cavaleiro das Trevas, de Nolan). Ciente de que replicar na tela grande a expectativa que o ser humano tem da noção da palavra “herói” soaria contra producente e um tremendo lugar comum, Burton encara o Batman como aquilo que ele efetivamente é: uma aberração, alguém que vê a atitude de se vestir de morcego como um fardo, uma maldição, que só é feita por ele porque alguém precisa fazer o trabalho sujo e não tem ninguém mais para isso. Mas acima de tudo, Burton encara o Morcego como uma criatura amoral. Batman é igual àqueles que combate e o pior: ele mesmo mal se dá conta disto. Num mundo que eleva aberrações ao status de celebridade, sua principal figura se mescla à multidão justamente por também ser igual a ela.

Há uma hipocrisia velada no universo de Batman – O Retorno. A sociedade corrupta que cerca o personagem exige dele uma postura moral diferenciada, quando ela mesma não dá esse exemplo. É esse “desleixo”, esse “foda-se” com que Burton olha para esse universo que faz de Batman – O Retorno um filme tão fascinante. Como Kubrick que, com seus filmes, pega um espelho e coloca na frente do expectador para que este veja-se a si mesmo como é na realidade, Burton simplesmente liga sua câmera e permite que o vaso sanitário despeje de volta tudo aquilo que foi jogado lá, sem interferir… Ele tão somente mostra como aquele universo é.

Nesse mundo caótico, desesperançoso (nem o Batman consegue trazer uma brisa de acalento para a situação, sendo apenas parte de um grande círculo vicioso), Burton orquestra um triângulo inusitado entre 3 aberrações, animais, párias da sociedade que, quando juntos, exteriorizam seus traumas nas suas maneiras de agir fazendo da cidade de Gothan City a “baixa de guerra”. As 3 aberrações são, claro, Batman, Pingüim e Mulher-Gato.

O primeiro, já é conhecido (bom, nem tanto) de qualquer um; o segundo emerge literalmente do esgoto, da fossa, para cobrar da sociedade o que ele acredita que lhe foi tirado; a terceira é tudo aquilo que o Batman é, mas que não assume para si mesmo, é alguém que ligou o botão do “foda-se” e percebe o sentido da vida na inexistência de regras para si mesma.

É justamente no relacionamento dela com o Batman onde se vislumbra a humanidade de ambos, o semblante muda, uma nova perspectiva surge, uma vida sem máscaras, como sugere uma cena em particular do filme.

Da bizarrice e da amoralidade, Burton extrai romance e uma atração explosiva entre dois de seus protagonistas, levando a um clímax que deixou os fãs de quadrinhos de cabelo em pé.

Trata-se de uma obra que em momento algum esforça-se para ser “nice” com o seu público. Batman – O Retorno não quer “bunitinho”, não quer mostrar que o seu protagonista principal é “cool”, o romance se dá entre duas pessoas atormentadas por traumas e a atração entre elas se dá exatamente pela descoberta mútua de perturbações emocionais traumas. É um filme mais ressonante dentro da série de filmes do Batman e mais pesado psicologicamente dentro do gênero adaptações de HQ. Burton não fez concessões e pagou o preço por ser honesto consigo mesmo e com aquele universo sujo, corrupto e que não merece redenção alguma.

Fica portanto a genialidade esculpida num trabalho magnífico que ainda hoje, 16 anos depois de seu lançamento, provoca ojeriza em quem insiste em ver nos Batman de Tim Burton um festival carnavalesco sem sentido. Felizmente Batman – O Retorno se beneficia do clássico provérbio de Nelson Rodrigues: toda unanimidade é burra e talvez por isso tenha sobrevivido fantasticamente ao maior e mais justo de todos os avaliadores da Arte: o tempo.

4/4

Daniel Costa 

3 Comments

Filed under Resenhas

Batman (Tim Burton, 1989)

O fato de eu tanto não ser fã como ter uma certa aversão por esta cultura de HQs provoca uma simpatia imediata pelos Batmans do Burton, e por conseqüência, uma abominação pelo Begins do Nolan (que é um cara muito talentoso, apesar disso) e todo o resto dessas adaptações de ultimamente. Porque a farra e o tom de fim de semana com que o diretor parecer realizar os dois filmes reproduz o universo do Batman como deve ser: caricato, fantástico, como a HQ vista e filtrada na imaginação. E o modo de encará-lo define como serão as quatro horas desta experiência.

Apesar de aquele estilão gótico já conhecido de Tim Burton estar bem mais saliente no Returns – resenhado pelo Daniel Costa – (muito pela segurança já fortalecida após o sucesso deste primeiro filme e pelo seu exercício bem-sucedido de estilo em Edward Scissorhands), o primeiro passeio por Gotham City já revela becos sombrios, prédios que parecem ter derretido ao sol, chaminés monstruosas, indústrias, uma atmosfera cheirando a borracha e óleo queimado. Não é necessário consumir tempo para situar o espectador no caos e no pesadelo que é a cidade de Gotham, basta recriar uma atmosfera que fale por si.

A escolha de Michael Keaton para o papel do Batman é a representação exata da visão de Tim Burton sobre o material de sua adaptação. Ou pelo menos da sua intenção ao transportá-lo para a tela. Poucas pessoas no mundo têm menos cara de Batman que o ator (praticamente um comediante), e a expressão de deboche de como ele parece levar Bruce Wayne é fantástica. Na verdade, Bruce/Batman é inútil no filme, é um pateta com parafernálias bacanudas e um mordomo faz-tudo. Aliás, o próprio admite. “Sem ele eu não encontraria minhas meias”. A iniciativa de representar Bruce Wayne como um pateta desajeitado e, principalmente, contrapô-lo à figura extremamente carismática do Coringa, deixando o espectador um pouco órfão de um herói contra um vilão tão sedutor, é algo pelo que Burton precisa ser referenciado até a morte.

No entanto, o que faz de Batman um apenas bom filme é uma (talvez inevitável) insegurança. Batman era o maior projeto com que Burton já havia trabalhado, a adaptação de uma lenda das HQs que já traz inerente a pressão de uma massa de fãs, um blockbuster gigante. É claro que ele nunca atacaria o personagem explicitamente (até por que, a abordagem sutil na inversão das expectativas quanto ao herói é o que há de mais elegante na visão do cara), mas a exploração deste lado no filme teria sido maior, assim como o livre fluxo daquele humor tão característico do diretor que encontra no Coringa um canal perfeito por onde se expressar, e que permaneceu apenas na superfície de duas ou três piadas realmente fodas (ele gritando “estou derretendo!” é sensacional). Além disso, o longo processo de recortes e remendos pelo qual o roteiro passou só não arruinou o projeto porque Tim Burton é o cara.

De qualquer forma, Batman é válido pelo tom escrachado, por ter irritado um bando de fãzóides que não sabe a diferença entre uma adaptação fanática e uma releitura, e por ser da única interpretação no meio dessas diversas adaptações de HQs que não se leva a sério, porque amputar os super-heróis da sua fantasia e fincá-los num mundo real é a antítese de tudo que o conceito representa.

1/4

Luis Henrique Boaventura 

3 Comments

Filed under Resenhas

Batman – O Homem Morcego (Leslie H. Martinson, 1966)

POW! ZUPT! SOC!

Essas são onomatopéias clássicas e reconhecidas que remetem imediatamente ao Batman. Mas o primeiro Batman, aquele da TV e bem camp. A série fez bastante sucesso, e esse filme veio no embalo. Mas como todo mundo que conhece esse lado percebe, ficou incrivelmente datado e até meio esquecido; que deixou o terreno propício para Tim Burton resgatar a série mais de vinte anos depois de maneira brilhante.

Mas é pra falar deste filme. O grande charme em assistir o primeiro Batman para o cinema, seja conhecer mesmo esse lado mais trash, de Adam West e Cesar Romero, entre outras coisas. Neste longa, o Coringa, o Pingüim, o Charada e a Mulher Gato se unem todos para um plano mirabolante, maquiavélico e absurdo para dominar as pessoas (num algo que não é lá bem explicado pra se entender, um quê de armas científicas etc para desidratar as pessoas. quase que um escracho com o pânico com as armas da guerra fria, e isso é engraçado de se ver até).

Hoje o filme fica como curiosidade basicamente, e pra quem tem a veia camp mesmo. De conhecer a afetação dos astros da série, o tema clássico do The Ventures, de ver as cenas de ação com todo aquele charme (pow! soc!), ver a tosquisse e o absurdo das situações, enfim. E também é difícil esconder o filme do formato de “episódio-extendido-da-série” (que fazia tantos filmes não é de hoje), já que não é questão de acrescentar nada, é que o formato é praticamente o mesmo (e quando você assiste ao filme você pode ficar com o pensamento de que podia era ter pego vários episódios da série). Mas enfim, até vale a pena pra assistir de zueira mesmo, ao contrário dos do Schumacher, que nem graça tem.

Os (d)efeitos especiais são um show à parte. Destaque para a cena em que o Batman desce pela escada do helicóptero, ainda no começo enquanto eles procuram o QG dos bandidos, e atacado por um tubarão de uma perfeição… faz parte e você acha graça se entra no clima. Não é o melhor que se pode fazer com o escracho (a melhor versão do Batman, contando Burton, Schumacher, Nolan e este de 66, é o obscuro Feira da Fruta. vale a pena conhecer), mas ainda assim é interessante.

O filme vale mais como curiosidade mesmo, não pra quem leva o herói a sério demais, e pode achar graça no lado tosco do morcego.

2/4

Pedro Kerr

Comments Off on Batman – O Homem Morcego (Leslie H. Martinson, 1966)

Filed under Resenhas

10º Festival de Curtas de BH

Do dia 25 ao 31 de julho a apaixonante Belo Horizonte será atacada por cineastas do Brasil e do mundo na celebração incontida do cinema de curta-metragem, e o Multiplot! vai estar por lá. Thiago Macêdo Correia fará uma cobertura com atualizações diárias comentando tudo que ele ver e ouvir. Os melhores, as decepções, as surpresas, quem se destacou no Festival.

Site oficial do Festival

Curta o 10º Festival de Curtas de BH aqui no Multiplot!, que a gente promete nunca mais chegar a um nível tão baixo de infâmia, hahaha

Comments Off on 10º Festival de Curtas de BH

Filed under Comentários

Resultado do Concurso sai Terça-feira

Pedimos um milhão de desculpas, mas acasos acontecem e um dos jurados não pôde entregar as avaliações no prazo, portanto, o resultado fica pra amanhã.

5 Comments

Filed under Comentários

Farrapo Humano (Billy Wilder, 1945)

Antes da crítica em si, um comentário: eu queria saber o porquê da mania das produtoras e distribuidoras brasileiras colocarem um título nacional que, ou acaba se mostrando totalmente ridículo, ou ainda parece querer resumir todo o filme em apenas duas palavras, sendo, dessa forma, tão discreto quanto um rinoceronte dançando o Lago dos Cisnes. Será que eles acham que isso atrairá os telespectadores? O título desse filme é uma das provas disso que estou falando. “The Lost Weekend” ( O Fim de Semana Perdido) se mostra muito mais apropriado do que Farrapo Humano.

Pronto, feito o desabafo, vamos direto ao ponto.

Já consideraria Billy Wilder um dos caras mais fodas do cinema só pelo fato dele ter concebido “Crepúsculo dos Deuses”, a maior obra-prima do cinema. Mas, graças á Deus e para deleite de nós, amantes do cinema, ele concebeu inúmeras outras obras-primas tão relevantes quanto. Farrapo Humano é uma delas.

Uma das qualidades mais latentes de Wilder é a maneira como ele tratava temas polêmicos com maestria ímpar – a frieza do cinema com estrelas mais antigas em “Crepúsculo dos deuses” ou a idéia de adultério em “O pecado mora ao lado” – e aqui não é diferente. O tema tratado já afligia – e ainda aflige – grande parte das famílias estadunidenses e do mundo: o álcoolismo. E aqui Wilder não poupa esforças para tocar nas feridas expostas do público, trazendo o retrato mais realista do efeitos físicos e psicológicos do álcoolismo.

O Filme mostra, sem fazer concessões na maior parte do tempo, o drama vivido num final de semana (daí o título original) de Don Birman, um aspirante a escritor que têm todas as suas aspirações destruídas pela bebida, sofrendo uma degradação dfísica e moral perante toda uma sociedade. NO meio desse turbilhão, temos o seu irmão, que o abandona à própria sorte depois de seis anos tentando livrá-lo do vício; e sua devotada namorada Helen, uma moça rica absolutamente apaixonada pelo escritor, que não desiste dele mesmo sabendo de seus problemas com a garrafa.

Desde o seu início, quando temos uma panorâmica mostrando toda a cidade, aproximando-se de um prédio onde vemos uma garrafa de uísque presa através de uma corda em seu parapeito (cena essa regstrada na foto acima), percebemos a temática do filme: um mergulho em sensaçôes até o momento totalmente incomuns aos dramas filmados na época: medo, angústia, dor e, principalmente, sofrimento. Se levarmos em conta a época que o filme foi produzido, percebemos com mais clareza o quão ousada foi a obra em questão: além da crise de 1929 estar presente nas mentes dos norte-americanos, tínhamos ainda a segunda Grande Guerra nos seus momentos finais. Com esse quadro, o cinema procurava justamente o caminho inverso: reanimar aquela sociedade tão abatida pr conta desses acontecimentos (por isso não me surpreende o fato do filme quase não ser lançado, devido à fraca reação de prévias exibições para audiência, que, provávelmente, não estavam preparadas para um tema tão forte).

O maior responsável pelo impacto do filme é, sem dúvida, Ray Milland. Sua interpretação pode ser facilmente colocada como uma das melhores de toda a história do cinema (conquistando o mais que merecido Oscar). Apesar de um papel extremamente complicado de interpretar (devido ao grande risco do personagem soar caricato e exagerado), ele nos brinda com um trabalho extremamente detalhista e extremamente intenso. Suas mãos trêmulas, o cabelo despenteado, os olhares se alternando entre o totalmente deslumbrado e o totalmente perdido (de acordo com o “nível de embriaguez” do personagem) renderam uma construção de personagem simplesmente magnífica, provocando uma crecente angústia no telespectador, à medida que acompanhamos a sua intensa jornada rumo à sua degradação por conta do vício. A sensação que temos é de que estamos junto com o personagem nessa montanha-russa de emoções, sofrendo junto com ele – e como nós fôssemos ele – as suas angústias. E, quando um ator consegue isso, pode ter certeza: é a sua consagração.

Mas temos outros fatores que ajudam a construir essa obra. Além das características habituais que encontramos num filme de Billy Wilder (a amargura e a melancolia injetada em suas obras, o roteiro extremamente bem trabalhado, a ironia latente nas falas, a direção precisa e inventiva), é preciso ressaltar a trilha sonora. Composta por uma das pessoas mais requisitadas para a função naquela época (e, para mim, um dos maiores realizadores dela, perdendo apenas para Bernard Herrmann), Miklos Rozsa, ela se utiliza de um tons graves e impactantes. Isso foi graças, sobretudo, a inserção do teremin, um instrumento musical responsável pela criação de um som muito utilizado em filmes de alienígenas. Aqui, ele exerce uma função primordial: ressaltar a situação de embriaguez e depedência de Don, como se fosse uma voz que o instinga a saciar o seu vício.

Exceto pelo seu final (que me pareceu uma solução bastante cômoda do Wilder talvez por imposições da produtora. Mas fiquem tranquilos, temos pessoas aqui no grupo que discordam disso. 😀 ), Wilder nos entrega uma jornada alucinante, perturbadora, realista e extremamente angustiante sobre as consequências do alcoolismo, no maior retrato do que esse vício pode causar. Em tempos de volta da lei seca aqui no Brasil (pelo menos no que diz respeito às estradas), assistir esse filme é mais do que um deleite cinematográfico: é um grande serviço social prestado pelo cinema dentro de uma excelente obra. E essa é uma das coisas que faz o cinema ser uma coisa única e fascinante.

4/4

Adney Silva

1 Comment

Filed under Resenhas

O Estranho Vício da Sra. Wardh (Sergio Martino, 1971)

Adoro giallos, mas das duas uma: ou as expectativas para os finais são tão grandes que fazem com que eu nunca consiga me satisfazer por completo (acredito que as únicas exceções sejam Banho de Sangue e Tenebre, cuja seqüência derradeira, com todo mundo correndo prum mesmo lugar somente pra morrer, é uma das melhores do gênero), ou realmente é um negócio muito complicado – e tendencialmente fadado ao fracasso – concluir de maneira surpreendente um filme que desfilou o tempo todo a inventividade como princípio básico de sua estrutura narrativa – e que, por isso, normalmente apresenta duas ou três reviravoltas/surpresas antes mesmo de seu ato final.

O Estranho Vício da Senhora Wardh deve ser o maior exemplo disso, junto de Terror na Ópera, mas com um efeito muito diferente do daquele. Enquanto no genial suspense operístico de Dario Argento, os 20 minutos finais parecem fazer parte de qualquer outra coisa, menos do filme – tudo o que envolve corvos e lagartos é de um constrangimento absurdo -, neste aqui não existe qualquer sensação de deslocamento, e nem mesmo seus problemas chegam a surpreender ou decepcionar. E talvez o problema seja exatamente esse; a preguiça e a falta de excitação das reviravoltas, bem como a lambança típica de se auto-explicar a todo o momento, tiram a força do que seria um grande filme.

Mas nem por isso deixa de ser bom. Aliás, justamente o contrário, é muito, muito interessante – e legal de se ver, principalmente nos dois primeiros atos. Mesmo sendo um dos grandes representantes genuínos dos elementos fundamentais do giallo – assassino de luvas pretas; lâminas cortantes; reviravoltas na trama; assassinatos tensos; etc – o filme acaba revelando que o próprio gênero, na realidade, é somente o pano de fundo – ou a cortina – das verdadeiras intenções de Martino, que por diversas razões parecem muito mais partir para a análise imaginativa social do que concentrar seus esforços na construção de suspense – e talvez os problemas surjam exatamente quando as coisas se invertem.

O filme todo é concentrado nas ações da mulher que dá nome ao título, que retorna à Itália depois de um longo período de vida nos EUA, onde reside com o marido. Junto de sua volta, começa uma onda de crimes contra mulheres, e o reaparecimento de um ex-namorado violento e sadomasoquista – vício que também compõe o título e do qual ela compartilha – faz com que sua vida seja colocada em risco quando ele demonstra interesse em retomar a relação. Ao mesmo passo, a moça conhece um meio-primo seu, por quem se apaixona e com quem começa a ter um caso extraconjugal. Os fatos que sucederão darão a entender que um dos três (amante, ex e marido) pode ser o assassino.

Martino utiliza o giallo quase como um catalisador da efervescência sexual da época em que produziu o filme, pouco depois de toda a revolução contracultural da segunda metade dos anos 60 – que teve incidência direta no cinema, obviamente. Mulheres bonitas e independentes, sedução, orgias e festas mucho locas são os limites desse universo, no qual a protagonista é arremessada e, mais do que isso, sofre as conseqüências que supostamente poderiam brotar desse liberalismo – ainda que o final, novamente ele, destrua boa parte desse discurso, quase que negando todo o filme por causa de uma explicação fácil articulada acerca da ganância do homem.

É um recurso curioso, prum filme genuinamente giallo, largar mão de toda a estória de assassinato e concentrar-se exclusivamente sobre a problemática da protagonista, ainda mais por ser uma mulher e por ter em foco suas paqueras e aventuras sexuais antes de qualquer outra coisa – fato que deixa tudo naturalmente com um ar romântico, o que reflete inclusive na fotografia, lindíssima, mas extremamente limpa, colorida e bonitinha, se comparada à de qualquer outro filme do estilo [ainda que considere um grande charme]. Isso faz com que seja um filme com poucos picos de tensão, mas dois deles, talvez os únicos, são sensacionais, e valem pelo resto.

O primeiro é, coincidentemente, a primeira tentativa de assassinato a Sra. Wardh, na garagem do prédio em que está instalada. Não existe nada de muito original ali, ou pelo menos que tenha superado o tempo que separa a produção dos dias atuais sendo ainda surpreendente, mas há um domínio muito grande da linguagem e da construção de tensão. O mesmo se repete no segundo e último exemplo, que inclusive remete à seqüência de exploração da mansão em Prelúdio Para Matar, só que abusando do silêncio, ao invés da música estupradora de Goblin: o momento em que ela e o marido vão investigar a casa de seu ex-namorado – e atual suspeito das mortes.

Ambas são importantíssimas pra ilustrar um dos principais méritos de O Estranho Vício da Senhora Wardh, a capacidade ilimitada de brincar com a identidade do verdadeiro assassino – não o que está nos jornais, mas o que pressiona a protagonista. E é curioso como Martino consegue explorar essa questão fazendo praticamente um jogo de extremos, deixando tão óbvio em certos momentos que um ou outro personagem envolvido é o assassino que as coisas começam a se embolar cada vez mais, a ponto de esses suspeitos em potencial se tornarem indissolúveis – fato que acaba materializado na conclusão, infelizmente.

Senhora Wardh precisa é se esconder de sua própria sede por sexo.

2/4

Daniel Dalpizzolo

1 Comment

Filed under Comentários

De Olhos Bem Fechados (Stanley Kubrick, 1999)

Foram duas semanas e 14 textos (13 filmes e a introdução) de reverência ao grande mestre, mas eis que o Especial Stanley Kubrick chega ao fim. Thiago Macêdo Correia, que abriu com o soturno Fear and Desire, fecha nosso especial ao som da funesta marcha de De Olhos Bem Fechados. Obrigado a todos que nos acompanharam nestes últimos dias. Lembrando que o prazo pro envio do texto do concurso termina em poucas horas, e o resultado será divulgado segunda-feira. E depois? Bem, no fim de semana sombras e morcegos invadirão o Multiplot!…

De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999)  

…uma mulher, um homem…um homem, uma mulher…

Uma mulher se despe. Esta mulher se veste em seguida, um homem se prepara para sair. Ambos irão deixar o lugar que dividem juntos há anos em busca da recompensadora sensação de relaxamento em uma festa com amigos, ainda que os tais amigos sejam pessoas totalmente desconhecidas e a diversão seja ficar por algumas horas interagindo separados um do outro. Ele se divide entre duas belas modelos, o fetiche masculino por excelência. Ela rodopia pelo salão com um cavalheiro europeu mais maduro, a definição da estabilidade. As luzes que rodeiam o ambiente da festa – e todos os ambientes que compartilharemos com eles, em seguida – são de todas as cores, iluminam todas as possibilidades. Ele nada faz, é interrompido por um chamado urgente. Ela nada faz, é interrompida por uma manifestação de consciência de sua situação: é casada e isso impossibilita que ela faça o que deseja fazer. Sociedades são fundamentadas em regras básicas de convívio, necessárias para que se estabeleça uma ordem de relacionamentos entre os integrantes delas. Daí a idéia de evolução, pois sem ela seriam hoje todos como animais selvagens, dispostos a matar pela sobrevivência, a não respeitar o indivíduo, a viver sem pudor, a fazer sexo por instinto. Mas o que são todos os homens senão estes mesmos animais? Talvez a única diferença que exista entre os primatas e os sábios homens contemporâneos seja o fato de a morte, o egoísmo, o sexo não serem questões de instinto animal somente e sim práticas sociais que se deve negar eventualmente, em nome da tal ordem. Mas aquele homem e aquela mulher parecem querer trair esta condição. O retorno ao lar reserva àqueles dois um confronto singular em sua vida conjunta. A mulher provoca o homem a respeito das duas mulheres que ele acompanhava na festa; o homem quer saber da mulher o que o cavalheiro grisalho tanto almejava durante a dança; a mulher acha prudente saber se o homem sente desejo por outras mulheres, que não ela; o homem acha prudente mentir parcialmente e isso faz com que ele seja parcialmente verdadeiro; a mulher se irrita diante da mentira eminente e pede a verdade sobre o desejo dele por ela; o homem nega qualquer sentimento de posse e assim, neste passo em falso – já que a mulher nada mais queria que não a sensação de aprovação – ele despenca para ouvir a verdade que ela guarda. Encarar a verdade pode ser algo danoso e irreversível, já que o pilar principal de qualquer relação humana é a mentira, ainda mais aquelas que buscam a proteção do outro, que querem evitar conflitos como os que estariam por vir. Quebrado o trato da relação perante a verdade, a mulher assume um desejo antigo seu que seria, ele sozinho, capaz de fazê-la abandonar o homem para sempre. As palavras vêm regadas com doses galopantes de crueldade, pois manter a verdade escondida por muito tempo faz com que ela saia com o máximo de força possível. Nesses momentos, é deixada de lado a tal consideração social pelo outro e finalmente os homens são capazes de abandonar as máscaras de suas personalidades. O que leva a mulher a falar é seu estado de alucinação. Sendo assim, um estado “normal” impossibilitaria qualquer acesso a essa verdade, sempre se fazendo necessário um impulso para tanto: uma droga, uma briga, uma raiva, uma traição, o desejo. Se a mulher foi verdadeira ao sentir desejo e abdicou de sua necessidade em nome do relacionamento com o homem, ela assume assim sua parcela de mentira no desenvolvimento daquela união. E assim, a desestabiliza. O homem é chamado a confrontar um fato, a morte de um amigo. O fim daquela vida acontece simultaneamente ao fim da própria vida que ele dividia com a mulher. Seus passos seguintes são solitários, no que concerne à mulher, e ele se envereda numa busca pela consciência de seus próprios sentimentos. Tentado pelo convite de uma prostituta, ele troca com ela um beijo que poderia vingar a traição imaginada da mulher. No encontro com o amigo do passado, ele vê a possibilidade de uma vingança ainda maior, uma novidade mais tentadora. Se fantasiar para o tal novo é deixar o velho para trás, usar uma máscara para proteger sua identidade é assumir seu desprezo inconsciente pelos métodos sociais. Penetrar uma festa restrita, uma orgia marginal, onde rituais sexuais se confundem com os de cunho religioso, tudo ressoa como transgressão moral. Se a moralidade fica de lado resta a tentativa da verdade nas sensações. Mas o homem é retirado dali – ou teria sido salvo? -, jogado para fora de tais possibilidades, obrigado a se reiterar de sua condição de homem, médico, pai, marido, hipócrita. Ele volta para a mulher que nada sabe sobre o que ele vivenciou. O homem busca o amigo do passado, vai devolver a fantasia (mas esquece a máscara), descobre a identidade de quem lhe avisou sobre os perigos daquela incursão no meio da noite, só que tudo parece fora de lugar, o leva a criar soluções para os problemas pontuados. O homem ouve de um amigo que naquela festa tudo foi encenado, nada era real. Mal sabia o homem que seu amigo estava certo, diante da lógica das relações. Se para que o homem seja ele mesmo é necessário que ele saia de si, nunca é possível estar diante da realidade quando se está consciente. Portanto, a inconsciência do homem o destina ao que realmente existe, ao seu eu mais íntimo. Na tentativa lógica do homem em confrontar a si mesmo perante a mulher, ele derrapa em uma impossibilidade: a de viver perante a verdade. Ele diz a ela o que aconteceu, ela se entristece com tudo. Mas a conclusão a que ela chega é que foi bom para eles terem saído de tais situações e estarem agora, um com o outro. A mulher admira o sonho, mas fica feliz de ter acordado. O homem deseja que este estado seja eterno. E, por fim, a mulher deseja, novamente, sonhar.

Estava tudo muito claro nessa longa história, desde a primeira seqüência. A mulher se despe, mas a mulher se veste em seguida, pois um estado natural não pode ser sustentado por muito tempo. O sexo como verdade é possível desde que a maior parte das coisas seja ocultada e vivenciada somente de modo inconsciente, com os tais olhos fechados, como num sonho que ainda irá se encerrar. Ao acordar, ao se vestir, ao recobrar a consciência, à realidade, o reinado constante da hipocrisia social, para o bem de todos. Stanley Kubrick dirigiu assim seu último filme, um manifesto sobre a condição humana impossível no campo da realidade. A mulher, Nicole Kidman. O homem, Tom Cruise. A orgia, todos nós.

4/4

Thiago Macêdo Correia

4 Comments

Filed under Comentários

Morte em Veneza (Luchino Visconti, 1971)

Gustav von Aschenbach é um músico determinado a fazer de sua obra a busca incessante pela perfeição. A criação da beleza é, não somente o objetivo, quanto todo caminho. Mas segundo um amigo de Aschenbach a beleza não pode ser criada, ela simplesmente existe. E assim sendo seria a busca de Aschenbach algo totalmente vão – e, por sua vez, sua vida. A visita com propósitos de descanso à Veneza revelará para Aschenbach a mais terrível das surpresas: a beleza personificada. E com ela a obsessão apaixonada, um amor impossível, a decadência gradativa e a finitude do ser.

Luchino Visconti realiza uma obra verdadeiramente irretocável. É possível notar o cuidado absoluto de Visconti em cada plano do filme, em cada movimento concebido exaustivamente (nos extras do DVD há um breve documentário sobre o trabalho do diretor), o que torna Visconti o maior esteta que já pisou na Terra e os planos de Morte em Veneza ainda mais impressionantes que de outro filme que prima pela tal beleza, Barry Lyndon. E com o filme de Kubrick este guarda uma semelhança feliz: o uso do zoom. Visconti não ousa aproximar sua câmera de seu personagem e ele nos coloca na posição de voyeur (mesma do personagem diante do mundo ao redor), quebrando a observação geral para nos aproximarmos relativamente de Aschenbach. Mas ao mesmo tempo que essa aproximação é incentivada, ela revela também um caráter de ironia daquele ser que Aschenbach se torna com o desenvolver do filme. Em determinado momento o músico expõe em palavras uma força interior que ele já não mais era capaz de guardar, mas sua figura só é capaz de causar um tristeza absoluta. Acompanhamos Aschenbach e entendemos seu possível estado interior por meio da música extraordinária que permeia todo o filme (poucas falas, longos silêncios), mas seu declínio é dificultado pela estruturação extraordinariamente complexa do filme. Visconti relativiza o tempo e o espaço e muitas vezes é difícil manter a convicção que antes havíamos sustentado, diante de alguma constatação. Até mesmo a paixão por Tadzio é algo inteiramente ambíguo, dentro da tênue limite entre a obsessão pela perfeição e a impossibilidade do alcance. Seguimos um caminho terrível com Aschenbach, sem nenhuma concessão possível; tudo é a desgraça da destruição. A cólera que invade decompõe com muito mais fervor o homem que ama do que corpos menos vorazes pela plenitude. Assim, a impossibilidade da última visão de Tadzio é, sem dúvida alguma, a cena mais bonita do cinema e numa proporção equivalente, uma das mais tristes também.

Morte em Veneza é o filme maior de um gênio, um filme absoluto sobre o amor e o filme definitivo sobre a beleza. Ainda que terrivelmente cruel.

4/4

Thiago Macêdo Correia

ou: Morte em Veneza (Luchino Visconti, 1971) – Cassius Abreu – 4/4

7 Comments

Filed under Resenhas

Morte em Veneza (Luchino Visconti, 1971)

Sabe quando você vê pega uma série de ótimos filmes para assistir e fica tão satisfeito com todos eles que não consegue “catar” uma obra-prima maior dentre todos eles, seja por estar assistino em muita quantidade os bons seguidamente, seja porque se sente padronizado a adorá-los igualitariamente, por não conseguir assumir uma preferência individual e prefere não os rotular como o supra-sumo justamente por este patamar de igualdade? Pois bem, isso vinha acontecendo comigo há quase dois meses; quando vi que obras-primas aparecem mesmo em séries maravilhosas de filmes, apesar de eu estar há quase uma semana sem ter visto filme algum. Morte Em Veneza é destas preciosidades que são descobertas quando se menos espera: eu vira Noites Brancas justamente no último pacote e, apesar de adorá-lo, fiquei com um pé atrás em relação à denominação de perfeito que lhe vinha sido atribuído. Morte Em Veneza, do mesmo Visconti, conseguiu convencer-me da riqueza e genialidade do seu autor, ao conferir um aspecto sentimental único, de incomum devastação e sobre o qual escrever algo a mais seria tornar a obra abaixo do merecido, clichezenta e melosa. Morte Em Veneza, desde o seu primeiro instante, impacta ao aliar o talento de dois gênios: Visconti e Gustav Mahler (efeito anteriormente só conseguido por Kubrick, num aspecto irônico, em Laranja Mecânica; e de forma semelhante por Milos Forman em Amadeus). E é por esta união que se rompem quaisquer convenções na própria cinematografia, conferindo a Morte um resultado ultra-romântico na idealização de suas personagens.

O professor Gustav von Aschenbach viaja de férias à cidade veneziana. Aparentemente introspectivo, refinado e sem vícios, a pouca informação de seu passado a que temos respeito chega aos poucos; em geral, por diálogos entre ele e Alfred, um suposto amigo seu que critica seu trabalho artístico, desde suas origens e inspirações. Visconti filma com singular maestreza Veneza, mas o mais importante é realçar a paixão secreta que começará a se estabelecer entre o professor e um jovem loiro, Tadzio. Os closes de Visconti, repentinos e precisos, mostram a troca de olhares entre os dois, sendo que a primeira reação ao olhar Tadzio é de mera contemplação de beleza. A partir daí, começa-se a buscar por alguma proposta no filme (partiria Gustav para cima de Tadzio; haveria alguma relação do passado do professor com o rapaz), mas tal caçada logo mostra-se tola. O que Visconti evidencia é o sofrimento de Gustav ao tentar reprimir a sua reação espontânea de desviar o olhar para a face de Tadzio, como se se culpasse por tal. Curiosamente, o homossexualismo sequer é discutido nesta obra; e é o que de menos importa, apesar de que, tenho certeza, deve ter causado – e causa ainda – cert a rejeição por parte do público. O próprio filme nega tal caráter, num dos tais diálogos entre Alfred e Gustav, em que o segundo diz que a beleza é espiritual, enquanto o primeiro classifica-a como uma junção dos sentidos. Oras, se a espiritualidade fala mais alto a Gustav – e quiçá a todos nós – porque categorizá-la por aspectos terrenos? O mérito, todavia, deve-se à própria presença do jovem ator, que, com um sorriso disfarçado, traduz o angelical e o tenro, como nas pinturas medievais em que pouco importava o carnal. Tal relação com a arte vai ainda além: é quando ocorre o supracitado encontro da música erudita com o cinema.

Na adaptação do livro de Thomas Mann para o cinema, Visconti aproveitou-se da personagem principal e dos recursos cinematográficos de que dispunha para alterar uma característica fundamental: Gustav é um músico e não um escritor, como no livro. Portanto, nada mais justo que colocar as duas maiores sinfonais de Mayer durante o filme. Isso faz com que as personagens expressem-se quase que unicamente pela forma de andar e olhar, como no cinema mudo, com o diferencial de que as poucas falas são encaixadas no momento certo (o “eu te amo” individual, isolado, e sem ecoar, a certo momento, é terrivelmente castigante). E, enquanto andam por uma Veneza recheada de turistas – burgueses que muito falam num primeiro momento, mas aos poucos são suprimidos pela mera existência passional da dupla – e que é corroída pela cólera asiática, tocam as músicas a preencherem as personagens, que coexistem com e como tais. Para quem pensasse o contrário, Visconti ainda insere duas cenas antológicas para comprovar a dualidade no filme. Numa delas, Gustav ouve Tadzio tocando Für Elise e relembra-se de outro momento seu, em que também não foi capaz de chegar ao prazer carnal, torturando-se pela atração pelos olhares com uma mulher e pela beleza da música, atração esta que não se consagra, como no caso da paixão em Veneza até então. Numa outro, um grupo de músicos que é liderado por uma figura grotesca e banguela aparece no hotel – gera certo constrangimento, até porque as autoridades temem que ele revele algo sobre a doença para os visitantes –, mas é capaz de entreter aquela burguesia fanfarrona; enquanto que Gustav, apesar de estar diante de Tadzio, novamente permanece estático e finge maiores preocupações com a desinfestação de Veneza.

Aos poucos, Visconti faz um filme riquíssimo de beleza e dor, angústia e esperança. O caminho que Gustav procura seguir, após ter confirmação do que chega a Veneza e chega a ele, homem adoentado, é o de ver a morte, como a da filha e a da mulher, sem descambar em emoções (por isso as críticas de Alfred à sua música, que deveria ser mais libertada). Ele próprio se questiona sobre isso, porém percebe que o dado momento de sua vida é o de espera pela morte, pois sua última apresentação vista fora um total fracasso – aí entra o meu “suposto” amigo de Gustav, pois a reação de Alfred é de total castigo a ele, como se fosse uma mera figura interior e psicológico do próprio músico, vide que sua mulher nada faz para afastar o presente na cena (e isso torna a leitura da obra ainda mais rica, mostrando que o professor teria um lado para se manifestar a todo momento, mas que só vem em sonhos e pensamentos momentâneos rapidamente aterrados) – e anda com a música para o túmulo. É curioso que um filme em que o par romântico sequer troca conversas (e individualmente também falam pouquíssimo) tenha efeito tão destrutivo durante vários trechos. O final, com um sol voltando sobre a praia veneziana enquanto os turistas vão-se embora, é o status quo da máxima poesia cinematográfica.

Morte Em Veneza é opressor e fétido como o siroco; tem traços perfeitos e charmosos como Tadzio e explode em cena quando Dick Bogarde, Gustav Mahler e Visconti juntam-se para o silêncio nada confortável diante do turbilhão de evocações que passam pela alma.

4/4

Cassius Abreu

ou: Morte em Veneza (Luchino Visconti, 1971) – Thiago Macêdo Correia – 4/4

1 Comment

Filed under Resenhas