Farrapo Humano (Billy Wilder, 1945)

Antes da crítica em si, um comentário: eu queria saber o porquê da mania das produtoras e distribuidoras brasileiras colocarem um título nacional que, ou acaba se mostrando totalmente ridículo, ou ainda parece querer resumir todo o filme em apenas duas palavras, sendo, dessa forma, tão discreto quanto um rinoceronte dançando o Lago dos Cisnes. Será que eles acham que isso atrairá os telespectadores? O título desse filme é uma das provas disso que estou falando. “The Lost Weekend” ( O Fim de Semana Perdido) se mostra muito mais apropriado do que Farrapo Humano.

Pronto, feito o desabafo, vamos direto ao ponto.

Já consideraria Billy Wilder um dos caras mais fodas do cinema só pelo fato dele ter concebido “Crepúsculo dos Deuses”, a maior obra-prima do cinema. Mas, graças á Deus e para deleite de nós, amantes do cinema, ele concebeu inúmeras outras obras-primas tão relevantes quanto. Farrapo Humano é uma delas.

Uma das qualidades mais latentes de Wilder é a maneira como ele tratava temas polêmicos com maestria ímpar – a frieza do cinema com estrelas mais antigas em “Crepúsculo dos deuses” ou a idéia de adultério em “O pecado mora ao lado” – e aqui não é diferente. O tema tratado já afligia – e ainda aflige – grande parte das famílias estadunidenses e do mundo: o álcoolismo. E aqui Wilder não poupa esforças para tocar nas feridas expostas do público, trazendo o retrato mais realista do efeitos físicos e psicológicos do álcoolismo.

O Filme mostra, sem fazer concessões na maior parte do tempo, o drama vivido num final de semana (daí o título original) de Don Birman, um aspirante a escritor que têm todas as suas aspirações destruídas pela bebida, sofrendo uma degradação dfísica e moral perante toda uma sociedade. NO meio desse turbilhão, temos o seu irmão, que o abandona à própria sorte depois de seis anos tentando livrá-lo do vício; e sua devotada namorada Helen, uma moça rica absolutamente apaixonada pelo escritor, que não desiste dele mesmo sabendo de seus problemas com a garrafa.

Desde o seu início, quando temos uma panorâmica mostrando toda a cidade, aproximando-se de um prédio onde vemos uma garrafa de uísque presa através de uma corda em seu parapeito (cena essa regstrada na foto acima), percebemos a temática do filme: um mergulho em sensaçôes até o momento totalmente incomuns aos dramas filmados na época: medo, angústia, dor e, principalmente, sofrimento. Se levarmos em conta a época que o filme foi produzido, percebemos com mais clareza o quão ousada foi a obra em questão: além da crise de 1929 estar presente nas mentes dos norte-americanos, tínhamos ainda a segunda Grande Guerra nos seus momentos finais. Com esse quadro, o cinema procurava justamente o caminho inverso: reanimar aquela sociedade tão abatida pr conta desses acontecimentos (por isso não me surpreende o fato do filme quase não ser lançado, devido à fraca reação de prévias exibições para audiência, que, provávelmente, não estavam preparadas para um tema tão forte).

O maior responsável pelo impacto do filme é, sem dúvida, Ray Milland. Sua interpretação pode ser facilmente colocada como uma das melhores de toda a história do cinema (conquistando o mais que merecido Oscar). Apesar de um papel extremamente complicado de interpretar (devido ao grande risco do personagem soar caricato e exagerado), ele nos brinda com um trabalho extremamente detalhista e extremamente intenso. Suas mãos trêmulas, o cabelo despenteado, os olhares se alternando entre o totalmente deslumbrado e o totalmente perdido (de acordo com o “nível de embriaguez” do personagem) renderam uma construção de personagem simplesmente magnífica, provocando uma crecente angústia no telespectador, à medida que acompanhamos a sua intensa jornada rumo à sua degradação por conta do vício. A sensação que temos é de que estamos junto com o personagem nessa montanha-russa de emoções, sofrendo junto com ele – e como nós fôssemos ele – as suas angústias. E, quando um ator consegue isso, pode ter certeza: é a sua consagração.

Mas temos outros fatores que ajudam a construir essa obra. Além das características habituais que encontramos num filme de Billy Wilder (a amargura e a melancolia injetada em suas obras, o roteiro extremamente bem trabalhado, a ironia latente nas falas, a direção precisa e inventiva), é preciso ressaltar a trilha sonora. Composta por uma das pessoas mais requisitadas para a função naquela época (e, para mim, um dos maiores realizadores dela, perdendo apenas para Bernard Herrmann), Miklos Rozsa, ela se utiliza de um tons graves e impactantes. Isso foi graças, sobretudo, a inserção do teremin, um instrumento musical responsável pela criação de um som muito utilizado em filmes de alienígenas. Aqui, ele exerce uma função primordial: ressaltar a situação de embriaguez e depedência de Don, como se fosse uma voz que o instinga a saciar o seu vício.

Exceto pelo seu final (que me pareceu uma solução bastante cômoda do Wilder talvez por imposições da produtora. Mas fiquem tranquilos, temos pessoas aqui no grupo que discordam disso. :D ), Wilder nos entrega uma jornada alucinante, perturbadora, realista e extremamente angustiante sobre as consequências do alcoolismo, no maior retrato do que esse vício pode causar. Em tempos de volta da lei seca aqui no Brasil (pelo menos no que diz respeito às estradas), assistir esse filme é mais do que um deleite cinematográfico: é um grande serviço social prestado pelo cinema dentro de uma excelente obra. E essa é uma das coisas que faz o cinema ser uma coisa única e fascinante.

4/4

Adney Silva

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One Response to Farrapo Humano (Billy Wilder, 1945)

  1. Don Birnam: Ela estraga meu fígado, não é? E meus rins, sim.
    Mas o que ela faz para a mente?
    Ela libera os sacos de areia para que o balão possa voar.
    De repente eu estou acima do normal. Confiante, altamente confiante.
    Eu estou caminhando sobre uma corda bamba nas cataratas do Niagara.
    Sou um dos grandes queridos.
    Sou Michaelangelo, moldando a barba de Moisés.
    Sou Van Gogh pintando a pura luz solar.
    Sou Horowitz, tocando o Concerto Imperador.
    Eu sou John Barrymore antes do cinema pega-lo pelo pescoço.
    Eu sou Jesse James e seus dois irmãos, todos os três deles.
    Sou W. Shakespeare.
    E lá fora não é Third Avenue qualquer tempo, é o Nilo.
    Nat, é o Nilo e se move para baixo da barcaça de Cleópatra.
    Um das pérolas do grande diretor e roteirista Wilder.

    Parabens pelo post!
    =)