De Olhos Bem Fechados (Stanley Kubrick, 1999)

Foram duas semanas e 14 textos (13 filmes e a introdução) de reverência ao grande mestre, mas eis que o Especial Stanley Kubrick chega ao fim. Thiago Macêdo Correia, que abriu com o soturno Fear and Desire, fecha nosso especial ao som da funesta marcha de De Olhos Bem Fechados. Obrigado a todos que nos acompanharam nestes últimos dias. Lembrando que o prazo pro envio do texto do concurso termina em poucas horas, e o resultado será divulgado segunda-feira. E depois? Bem, no fim de semana sombras e morcegos invadirão o Multiplot!…

De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999)  

…uma mulher, um homem…um homem, uma mulher…

Uma mulher se despe. Esta mulher se veste em seguida, um homem se prepara para sair. Ambos irão deixar o lugar que dividem juntos há anos em busca da recompensadora sensação de relaxamento em uma festa com amigos, ainda que os tais amigos sejam pessoas totalmente desconhecidas e a diversão seja ficar por algumas horas interagindo separados um do outro. Ele se divide entre duas belas modelos, o fetiche masculino por excelência. Ela rodopia pelo salão com um cavalheiro europeu mais maduro, a definição da estabilidade. As luzes que rodeiam o ambiente da festa – e todos os ambientes que compartilharemos com eles, em seguida – são de todas as cores, iluminam todas as possibilidades. Ele nada faz, é interrompido por um chamado urgente. Ela nada faz, é interrompida por uma manifestação de consciência de sua situação: é casada e isso impossibilita que ela faça o que deseja fazer. Sociedades são fundamentadas em regras básicas de convívio, necessárias para que se estabeleça uma ordem de relacionamentos entre os integrantes delas. Daí a idéia de evolução, pois sem ela seriam hoje todos como animais selvagens, dispostos a matar pela sobrevivência, a não respeitar o indivíduo, a viver sem pudor, a fazer sexo por instinto. Mas o que são todos os homens senão estes mesmos animais? Talvez a única diferença que exista entre os primatas e os sábios homens contemporâneos seja o fato de a morte, o egoísmo, o sexo não serem questões de instinto animal somente e sim práticas sociais que se deve negar eventualmente, em nome da tal ordem. Mas aquele homem e aquela mulher parecem querer trair esta condição. O retorno ao lar reserva àqueles dois um confronto singular em sua vida conjunta. A mulher provoca o homem a respeito das duas mulheres que ele acompanhava na festa; o homem quer saber da mulher o que o cavalheiro grisalho tanto almejava durante a dança; a mulher acha prudente saber se o homem sente desejo por outras mulheres, que não ela; o homem acha prudente mentir parcialmente e isso faz com que ele seja parcialmente verdadeiro; a mulher se irrita diante da mentira eminente e pede a verdade sobre o desejo dele por ela; o homem nega qualquer sentimento de posse e assim, neste passo em falso – já que a mulher nada mais queria que não a sensação de aprovação – ele despenca para ouvir a verdade que ela guarda. Encarar a verdade pode ser algo danoso e irreversível, já que o pilar principal de qualquer relação humana é a mentira, ainda mais aquelas que buscam a proteção do outro, que querem evitar conflitos como os que estariam por vir. Quebrado o trato da relação perante a verdade, a mulher assume um desejo antigo seu que seria, ele sozinho, capaz de fazê-la abandonar o homem para sempre. As palavras vêm regadas com doses galopantes de crueldade, pois manter a verdade escondida por muito tempo faz com que ela saia com o máximo de força possível. Nesses momentos, é deixada de lado a tal consideração social pelo outro e finalmente os homens são capazes de abandonar as máscaras de suas personalidades. O que leva a mulher a falar é seu estado de alucinação. Sendo assim, um estado “normal” impossibilitaria qualquer acesso a essa verdade, sempre se fazendo necessário um impulso para tanto: uma droga, uma briga, uma raiva, uma traição, o desejo. Se a mulher foi verdadeira ao sentir desejo e abdicou de sua necessidade em nome do relacionamento com o homem, ela assume assim sua parcela de mentira no desenvolvimento daquela união. E assim, a desestabiliza. O homem é chamado a confrontar um fato, a morte de um amigo. O fim daquela vida acontece simultaneamente ao fim da própria vida que ele dividia com a mulher. Seus passos seguintes são solitários, no que concerne à mulher, e ele se envereda numa busca pela consciência de seus próprios sentimentos. Tentado pelo convite de uma prostituta, ele troca com ela um beijo que poderia vingar a traição imaginada da mulher. No encontro com o amigo do passado, ele vê a possibilidade de uma vingança ainda maior, uma novidade mais tentadora. Se fantasiar para o tal novo é deixar o velho para trás, usar uma máscara para proteger sua identidade é assumir seu desprezo inconsciente pelos métodos sociais. Penetrar uma festa restrita, uma orgia marginal, onde rituais sexuais se confundem com os de cunho religioso, tudo ressoa como transgressão moral. Se a moralidade fica de lado resta a tentativa da verdade nas sensações. Mas o homem é retirado dali – ou teria sido salvo? -, jogado para fora de tais possibilidades, obrigado a se reiterar de sua condição de homem, médico, pai, marido, hipócrita. Ele volta para a mulher que nada sabe sobre o que ele vivenciou. O homem busca o amigo do passado, vai devolver a fantasia (mas esquece a máscara), descobre a identidade de quem lhe avisou sobre os perigos daquela incursão no meio da noite, só que tudo parece fora de lugar, o leva a criar soluções para os problemas pontuados. O homem ouve de um amigo que naquela festa tudo foi encenado, nada era real. Mal sabia o homem que seu amigo estava certo, diante da lógica das relações. Se para que o homem seja ele mesmo é necessário que ele saia de si, nunca é possível estar diante da realidade quando se está consciente. Portanto, a inconsciência do homem o destina ao que realmente existe, ao seu eu mais íntimo. Na tentativa lógica do homem em confrontar a si mesmo perante a mulher, ele derrapa em uma impossibilidade: a de viver perante a verdade. Ele diz a ela o que aconteceu, ela se entristece com tudo. Mas a conclusão a que ela chega é que foi bom para eles terem saído de tais situações e estarem agora, um com o outro. A mulher admira o sonho, mas fica feliz de ter acordado. O homem deseja que este estado seja eterno. E, por fim, a mulher deseja, novamente, sonhar.

Estava tudo muito claro nessa longa história, desde a primeira seqüência. A mulher se despe, mas a mulher se veste em seguida, pois um estado natural não pode ser sustentado por muito tempo. O sexo como verdade é possível desde que a maior parte das coisas seja ocultada e vivenciada somente de modo inconsciente, com os tais olhos fechados, como num sonho que ainda irá se encerrar. Ao acordar, ao se vestir, ao recobrar a consciência, à realidade, o reinado constante da hipocrisia social, para o bem de todos. Stanley Kubrick dirigiu assim seu último filme, um manifesto sobre a condição humana impossível no campo da realidade. A mulher, Nicole Kidman. O homem, Tom Cruise. A orgia, todos nós.

4/4

Thiago Macêdo Correia

4 Comments

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4 Responses to De Olhos Bem Fechados (Stanley Kubrick, 1999)

  1. Caio Lucas Martins Matos

    Muito bom o desfecho do especial.

    Acho seu último trabalho a sua pior escolha, apesar de eu gostar muito, muito mesmo.

  2. Daniel Dalpizzolo

    Pior escolha?

  3. Caio Lucas Martins Matos

    De adaptação, digo. E demorou tanto pra escolher…

    Dan, extra-plot!, tô precisando falar contigo. É que estou vendo alguns (no plural) Cronenberg’s e gostaria de discutir.

    Perdão por usar o post para isso.

  4. Sílvia Furtado

    Thiago, gostei muito de ler o seu texto. Escrevi um texto sobre o mesmo filme e fiquei impressionada de ter idéias parecidas com as suas.
    Sílvia