Banho de Sangue (Reazione a Catena / Bay of Blood – Mario Bava, 1971)

Banho de Sangue é um dos filmes mais sarcásticos e filhos da puta de todo o cinema, brincando com o espectador num jogo ilimitado que estreita as relações do que ocorre dentro e fora da tela até um nível de quase interação para finalmente se mostrar como uma tomada de poder irrefutável do cineasta sobre seu filme e seu público. O início dá o tom perfeito, porque logo depois que o Bava assassina o assassino com cinco minutos de filme você sabe que não está diante de qualquer coisa.

Os personagens de Banho de Sangue são todos pedras em falso de um caminho que não leva para frente, mas para baixo, para o abismo de um pesadelo onde o espectador não tem a quem recorrer. Os centros de gravidade de uma história comum são desintegrados sobre o fundo de uma mensagem clara: você está amarrado e forçado a curtir apenas e nada mais que uma dúzia de miolos e tripas se esparramando – como a vítima em Terror na Ópera – portanto pare de chiar e aproveite.

Os pólos de sentimento despertados usualmente, o ódio e a empatia, são chacoalhados e confundidos do início ao fim. Primeiro que já não podemos odiar um assassino que morre na mesma seqüência em que matou, depois que todo personagem pelo qual começamos quase a simpatizar ou morre de forma espetacular antes de qualquer coisa ou se revela um filho da puta, o que até poderia incitar também um princípio de simpatia, é claro, caso não fosse espicaçado por algum outro assassino logo em seguida.

O resultado é absurdo, é inédito. Banho de Sangue é algo como o teste de fogo, a porta da frente desse cinema fantástico italiano. Os 80 minutos formam um trajeto de ‘purificação’ (ou maculação, como queiram) sobre o público, do qual é extirpado qualquer poder, qualquer influência, qualquer peso minimamente significativo dentro do filme, restringido apenas a assistir o que ocorre e se deleitar com o sadismo maravilhoso de Mario Bava. O espectador nunca foi tão impotente como em Banho de Sangue, que é ao mesmo tempo um manifesto em favor deste mesmo espectador, do ato de assistir a um filme. O material mais convincente possível de como é bom parar de se preocupar com o mundo e curtir uns corpos estraçalhados. Além de ter aquele que é provavelmente um dos 5 melhores finais de todos os tempos…

4/4

Luis Henrique Boaventura

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La Jetée (Chris Marker, 1962)

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Vinte e seis minutos que evocam, geram, dizem coisas num fluxo inacreditável. É um experimento dos limites da linguagem cinematográfica retirando exatamente aquilo que é seu atributo mais característico, o movimento das imagens – aqui são só fotos, e que fotos, acompanhadas de narração. Não, não fica menos expressivo. Não é menos cinema. Não fica menos nada, na verdade: tudo é potencializado, ganha mais força, dramaticidade, e quando chega a imagem acima – só pra dar um exemplo – o envolvimento é tão completo que é impossível não sorrir junto, e sentir certa tristeza também, por saber que é um momento tão breve entre os dois. Também pela sensação de passado que o uso de fotografias insufla em quem vê, e uma melancolia se desprende dali.

Mas acima disso é uma empreitada praticamente visionária na busca de transpor com fidelidade para a tela o que é a memória. Porque nós não nos lembramos exatamente de movimentos, de uma virada de cabeça, enfim de nossa decupagem pessoal da vida através dos olhares (hahahaha), mas de imagens, de sons, de sensações. A vida que tudo isso recebe quando lembramos fica por nossa conta, quando a imaginação pega lá um pouco do espaço e adiciona aquele brilho a mais em tudo, que faz o que é lembrado parecer tão melhor do que o que é vivido no agora. Marker sabe jogar com o espectador, as imagens estão lá, há uma narração dizendo o que ocorre, e o resto fica por nossa conta, num acesso inédito ao repertório de lembranças de outra pessoa, que vamos reconstruindo aos poucos, colocando muito de nós mesmos no processo. É tão superior a qualquer outra coisa feita sobre o tema exatamente por isso, por se recusar a mostrar as lembranças de um indivíduo através da ótica dele próprio, preferindo trazer para nós a lembrança bruta e deixar que façamos o restante. E até onde é possível levar uma proposta assim no Cinema, Chris Marker levou.

4/4

Robson Galluci

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Uma Garota Dividida em Dois (Claude Chabrol, 2007)

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Tudo que está em tela em Uma Garota Dividida em Dois parece um jogo de Claude Chabrol. Ao mesmo tempo que existe o paradoxo, existe a obviedade. Gabrielle das Neves (Ludivine Sagnier, a mulher mais hipnótica do cinema, atualmente) se apaixona, de um segundo para o outro, por um sedutor escritor mais velho e com ele começa uma relação de amor e ódio, submissão e veneração. Simultaneamente, Gabrielle vira objeto de desejo – também de supetão – de um playboy milionário que, por ironia do destino, odeia o tal escritor com toda a potência de sua existência. As relações são relativizadas e pontecializadas ao mesmo tempo, nos levando a questionar as relações sentimentais ao mesmo tempo que ele parece reafirmar a veracidade daqueles sentimentos, para depois voltar a colocá-los na berlinda e desprezá-los. Desse modo, o que é encenado é absolutamente importante para a narrativa e se prova verdade no campo da imagem, mas incerteza, no aspecto existencial dos personagens. Chabrol filma subvertendo expectativas, mesmo quando lança mão de coisas muito claras. Quando esperamos que ele faça um longo plano, revelando a dor de Gabrielle passeando de moto, vem um corte brusco e inesperado; quando imaginamos que ele humanizará o playboy Paul (Benôit Magimel, extraordinário, como em A Professora de Piano), nos deparamos com a direção mais objetiva possível, já que o está em tela é justamente o que Paul é, sem sutilezas ou metáforas.

E mesmo quando se vale de metáforas, Chabrol é pesado, lança mão descaradamente de circunstâncias evidentes, que leva o público até mesmo a questionar a própria esperteza ao acompanhar o romance, que vira suspense, que vira drama; no filme de Chabrol, ele é mais esperto que a gente, muito mais por não querer esconder nada. Algumas coisas não são importantes para a tela e é isso que ele parece assinar o tempo todo, ainda mais no truque da ilusão. No cinema, o mais importante pode ser o que se vê, não o que se quer entender.

4/4

Thiago Macêdo Correia

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O Exército das Sombras (Jean-Pierre Melville, 1969)

O Exército das Sombras é a fonte, o resumo, a pedra angular na carreira do diretor francês, ou ao menos no que tange aos três noirs com Alain Delon. Não que seja seu melhor filme, pelo contrário, mas basta olhar pra esse quadro cinza e aborrecido pra entender de cara de onde vieram filmes tão amargos, tão tristes e doloridos como Le Samouraï, Le Cercle Rouge e Un Flic.

O fato de Jean-Pierre Melville ter integrado a resistência francesa torna de imediato O Exército das Sombras num auto-retrato assumido, compadecido e cheio de um pessimismo natural. Não no discurso, não como bandeira narrativa, mas como atmosfera que desaba sobre todos os personagens, que são pedaços de memórias, sentimentos e experiências de Jean-Pierre.

Não são precisos 140 minutos pra perceber por que, sempre, os heróis e condenados de Melville passam por cada filme mermando até partirem-se ao meio. A relação do francês é tão estreita com a dor e a finitude porque o flerte com a morte estabelecido em algum bar de Marselha da década de 40 parece nunca ter sido superado. As sombras do exército, assim como todos os três Delons das obras anterior e seguintes, não são homens e nem sequer estão vivos. Largaram tudo para cumprir uma função. São peças em torno de algo maior, ferramentas sempre tentadas a revelar sentimentos e sempre tentando escondê-los sobre pilhas de um metal enrijecido nas faces.

O final, como sempre, é cruel. É depressivo, desumano, e os textinhos secos são bem representativos quanto aos destinos destes homens (não os personagens) na história, memorados com um tributo por Jean-Pierre Melville, que se abre ao meio e convida o público pra um passeio pela essência mais primitiva do seu trabalho como cineasta.

3/4

Luis Henrique Boaventura

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Festival do Rio 2008 – Top! e Considerações Finais

Nessa última quinta-feira, o Festival de Cinema do Rio teve as suas últimas sessões (claro, sem levarmos em conta a repescagem do dia 10 ao dia 16 nos cinemas do grupo Estação). Ao longo desses 10 anos, o Festival já fixou o seu lugar no panteão dos Festivais Internacionais, com várias visitas de atores/atrizes/diretores nacionais e Internacionais.

Esse é o meu quinto festival (compareço regularmente desde 2004), além de ter sido o ano onde eu assisti mais filmes (18 no total, e os dois curtas). Infelizmente, como em outros anos, não posso tecer comentários mais embasados sobre a Premiere Brasil, uma vez que só assisti um, que acabou ganhando o prêmio do público (Apenas um Fim). Sobre ele, posso comentar que com certeza o lobby feito pelo pessoal da PUC (Universidade onde o diretor do filme estuda cinema), que compareceu em peso a sessão, contribuiu e muito para esse resultado, mesmo o filme sendo apenas mediano. Também infelizmente não assisti nenhum documentário.

Em compensação, nunca arrisquei tanto como esse ano. Resolvi deixar os grandes figurões de lado (exceto o Takashi Miike; os caras de olhos puxados são garantia de bons filmes no Festival desde 2006 – “Trilogia da Vingança”) e resolvi apostar em alguns filmes antigos que não conhecia e também em alguns filmes vindo de países como Israel e Indonésia. Algumas apostas foram certeiras ( “A Fronteira da Alvorada”; “A Maldição da Múmia”), outras nem tanto (“Soi Cowboy”; “14 Kilômetros”). Mas isso faz parte de todo grande Festival.

Acho que, no final das contas, fui bem-sucedido nessa minha escolha, pois acabei conhecendo alguns bons filmes, me surpreendendo com outros e ainda puxei um papo rápido com a Érica Mader logo depois da sessão de “Apenas o Fim” (e, antes que me perguntem: sim, ela é muito bonita e simpática!!). Sem falar que o clima de um Festival de cinema é sempre bom, mesmo com toda a correria de sair de uma sessão para entrar em outra em outro cinema (ainda mais quando você têm apenas 10 minutos para chegar no cinema).

Para finalizar, deixo aqui o top dos filmes que assisti no Festival, e desde já inauguro a contagem regressiva: faltam cerca de 365 dias para o Festival do Rio 2009 (e o Multiplot! estará lá mais uma vez!!)

Top! Festival do Rio 2008

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01. Sukiyaki Western Django (Takashi Miike, 2007)
02. A Fronteira da Alvorada (Phillippe Garel. 2008)
03. A Maldição da Múmia (Ivan Cardoso, 1981)
04. O Castelo da Pureza (Arturo Ripstein, 1972)
05. Duas Mulheres (Vittorio de Sica, 1960)
06. Canção de Baal (Helena Ignez, 2008)
07. Praça Saens Pena (Vinícius Reis, 2008)
08. Tora-San Reencontra Lily (Yoji Yamada, 1975)
09. A Irresistível Sabella (Dino Risi, 1957)
10. Blackout (Daniel Resende, 2008)
11. Sad Vacation (Shinji Aoyama, 2007)
12. The Photograph (Nan Achnas, 2007)
13. Gesto Obsceno (Tzari Grad, 2008)
14. Sanguepazzo (Marco Túlio Giordana, 2008)
15. Domingo de Páscoa (Pedro Amorim, 2008)
16. Apenas o Fim (Matheus Souza, 2008)
17. O Visitante (Tom McCarthy, 2007)
18. Sol Secreto (Lee Chang-dong, 2007)
19. Soi Cowboy (Thomas Clay, 2008)
20. 14 Kilômetros (Gerardo Olivares, 2007)

Adney Silva

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Novidade!

Fala galera! Seguinte, pra facilitar a vida de todo mundo a gente fez um índice por diretores (que vai ficar ali em cima, na aba à direita do Aquivo). Assim, quem quiser ter acesso a todos os textos postados de filmes do Bergman, por exemplo, ou do Buñuel, etc, basta clicar no nome do cidadão. Sai de cena o Cinéfilos, que ao menos esse ano não sai mais.

O objetivo é facilitar as buscas e a navegação dentro do Multiplot!, que é insuficiente só pelo índice alfabético do Arquivo ou pelo search.

Era isso, um abraço!

MP!

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Duas Mulheres (Vittorio de Sica, 1960)

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Um dos filmes representativos do neo-realismo italiano, onde vemos que os horrores provocados pela Segunda Grande Guerra vão além das pilhas de pessoas mortas. Mais do que a dor física, temos a dor psicológica, as vidas completamente mudadas (e para pior), a dor de ter que reconstruir toda uma vida, a dor da perda precoce da inocência por conta do mundo-cão em que vivemos, e, principalmente, a dor da constatação de que, por mais que tentamos, não podemos fugir da cruel realidade. Vittorio de Sica consegue tudo isso com um realismo impressionante, ancorado por uma atuação soberba (e pela beleza estonteante) de Sophia Loren.

3/4

Adney Silva

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The Photograph (Nan Achnas, 2007)

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A fotografia é, antes de tudo, um testemunho. Um testemunho fiel e real de um momento, de um segundo onde a pessoa se entregua física e sentimentalmente para o fotógrafo. Por ela captar os mais profundos sentimentos (a ponto de, no seu início, algumas pessoas acharem que as máquinas fotográficas roubariam a sua alma), ela mostra realmente o que estamos sentindo, por mais que tentamos esconder. Nan Achnas retrata essa premissa de maneira muito eficiente nesse filme, com o desenvolvimento no ponto certo, e, acima de tudo, com profundo respeito com as tradições antigas Indonésias e com as relações humanas.

3/4

Adney Silva

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Sad Vacation (Shinji Aoyama, 2007)

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Aqui temos um filme que envolve certos sentimentos um tanto quanto conflitantes. Ao mesmo tempo em que temos o tema da vingança presente através do personagem principal (mas não com tanta intensidade quanto em “Oldboy”, por exemplo), temos também uma atmosfera quase que Capriana envolvendo todos os outros personagens. Nada mais apropriado para o nem do filme (título da canção que Jhonny Thunders fez em homenagem a Sid Vicious, que inclusive é o tema de abertura do filme). Mais do que isso, “Sad Vacation” é um filme que versa sobre a família (seja ela consanguínea ou não) e as responsabilidades de cada membro dentro dela. Tudo isso contado num ritmo que pode ser consederado lento e efadonho por alguns, mas que se mostra necessária para o desnvolvimento da trama principal, além de mover o filme num tom surpreendentemente solar e feliz, mesmo durante uma tragédia anunciada.

3/4

Adney Silva

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O Castelo da Pureza (Arturo Ripstein, 1972)

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Interessantíssimo. O diretor mostra que o que aprendeu com Luis Buñuel (do qual foi assistente de direção), e nos entrega um drama bastante tenso e extremamente relevante. Ao mostrar o drama de uma família que vive durante dezoito anos trancafiada em um casarão pelo patriarca da família, que está convencido de que o Mundo Cão que se formou lá fora é extremamente prejudicial para a sua imaculada família, Ripstein demonstra com propriedade que o homem é um ser, acima de tudo, que depende da interação, da sociabilidade. O tem encontra eco nos dias atuais, quando vemos cada vez mais famílias se aprisionando em condomínios altamente seguros, mas que cortam cada vez mais os laços de interação entre a sociedade.

Conforme o desenvolvimento do filme, vemos e acompanhamos a degradação daquele ambiente outrora perfeito. Por conta do crescimento dos seus filhos (dois deles adolescentes), e, por consequência, da curiosidade deles em relação ao mundo lá fora, além dos problemas envolvendo a sua fábrica de insetcidas (onde os seus filhos o ajudam), Gabriel Lima vê o seu mundo perfeito desmoronar, e tudo isso é retratado brilhantemente pela câmera intrusiva de Arthuro, onde a fotografia, com tons bastante pálidos (expressando a falsa solidez daquela situação) contribuem para o clima gerado no filme.

4/4

Adney Silva

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