A Missão (Roland Joffé, 1986)

“Os acontecimentos desta história são verdadeiros e ocorreram nas fronteiras da Argentina, Paraguai e Brasil no ano de 1750” é a frase que abre A Missão. E é num tom realista que o filme aborda um fato relacionado com nossa história. O pano de fundo aqui é a colonização da América do Sul pelos espanhóis e portugueses no século 18, mostrando as missões jesuítas da Igreja Católica ocorridas nesse período. Temos um pedaço da nossa história retratada. E muito bem retratada.

Numa das cenas iniciais, vemos um grupo de índios jogando num rio um corpo de um padre amarrado numa cruz. Isso já simboliza o tema principal: A civilização dos índios da América do Sul através do cristianismo. Se por um lado, isso foi um meio de um grupo (os missionários jesuítas da Igreja Católica, especificamente falando) tentar defender esse povo da colonização, por outro pode se julgar o mal que isso poderia ter sido na cultura dos índios, que praticamente foram obrigados a abandonar seus ritos e tradições em troca de uma “civilidade”, que era o que o cristianismo significava na época. Civilidade esta, que era imposta pelos colonizadores tanto espanhóis como portugueses, justamente quem devastava as terras indígenas e escravizavam os índios. A Missão relata através da história da Missão de São Carlos comandada pelo Padre Gabriel (Jeremy Irons) todos os meandros da colonização desenfreada da América do Sul. Podemos ver no filme a discriminação que os índios sofriam dos colonizadores que os tratavam como meros “animais selvagens”; a escravidão que foi imposta a uma enorme quantidade deles; a luta pelo controle de terras indígenas colonizadas; a Igreja que praticamente os abandonou quando viu que estava perdendo o controle (leia-se poder) na região, e simplesmente deixou acontecer os massacres; e, claro, os jesuítas que acabaram se voltando contra os colonizadores e contra a própria Igreja, na busca pela proteção dos índios e de suas terras.

Depois dessa cena com o padre sendo jogado no rio, somos apresentados ao personagem de Jeremy Irons, padre Gabriel. Um missionário jesuíta que vai tentar um contato com uma tribo de índios guaranis. Começamos vendo a dificuldade que ele tem para chegar ao local onde está a tribo, quando tem que atravessar um rio, escalar uma cachoeira e depois adentrar a floresta. E é quando Gabriel encontra os índios que temos uma cena onde já se destaca um dos elementos chaves do filme: A Música. Tendo a dificuldade de comunicação com eles, pela falta de conhecimento de seu dialeto, Gabriel apela para uma flauta. Ele toca uma música que desperta a curiosidade dos índios, que mesmo após a ira de um deles (um índio mais velho da tribo quebra a tal flauta) acabam por aceitar a presença dele. O problema de comunicação que poderia haver, não existe mais; e esse é o primeiro elo que se forma entre o padre e os índios. A importância que a trilha sonora tem nessa cena é a mesma que tem no filme como um todo. Sendo de assinatura do mestre Ennio Morricone, temos nessa pequena cena como essa trilha é importante para se contar essa história, ou melhor, para se fortalecer as estruturas dessa história. O Padre usa a música para se mostrar aos índios como um “igual” e assim eles passam a confiar em alguém de fora por causa dessa música. E em outras cenas, o inverso é feito. Gabriel muitas vezes para tentar mostrar ao “povo civilizado” (tanto os colonizadores, como o representante da Igreja) que os índios não são “animais” como eram taxados, ele novamente usa a música. Numa dessas cenas, ele coloca em frente de uma platéia um pequeno índio cantando, e logo se vê como algumas pessoas ficam maravilhadas ao ouvir um índio cantando de tal forma. São cenas como essa que o filme mostra a música como sendo uma linguagem universal que ultrapassa barreiras culturais, de linguagens, de idiomas e dialetos. A trilha sonora é um dos alicerces d’A Missão.

Outro alicerce é o personagem Capitão Rodrigo Mendonza, perfeitamente interpretado pelo ator Robert DeNiro. Já com um rol de personagens marcantes, tanto antes desse filme como depois dele, De Niro tem mais um personagem forte em mãos que, como de costume, ele realiza muito bem. No início, Rodrigo é um mercenário, um mercador de índios. Ele os captura na floresta e os vende como escravos para colonizadores. Aqui o vimos como um homem que faz seu trabalho com muita frieza, sem demonstrar muita emoção. Ele simplesmente cumpre a função, sem se preocupar com as conseqüências ou com a uma suposta moralidade no que faz, mas que, ao mesmo tempo, se mostra muito apegado a sua família, no caso, sua mulher Carlotta (Cherie Lungh – a única personagem feminina com fala do filme) e seu irmão mais novo Felipe (Aidan Quinn). A situação dele começa a se desenvolver quando sua mulher assume que se apaixonou pelo seu irmão. Rodrigo não busca vingança ou algo que o valha. Ele simplesmente tenta a todo custo não se deixar cair qualquer sentimento negativo, pelo amor que sente do irmão. Ou seja, aquele homem que se mostrava frio – pelo menos perante os índios que capturava – aqui mostra sua humanidade. E mesmo depois de ver a mulher e seu irmão juntos na cama, Rodrigo, não os confronta, tenta ir embora, mas acaba tendo um duelo de vida e morte, o que resulta na morte de Felipe. Isso tudo está bem trabalhado na trama, e não soa como “novela mexicana”. Com a condução correta do diretor Roland Joffé e a interpretação de De Niro tudo fica num patamar bem superior.
 
Após a morte do irmão, Rodrigo passa a se martirizar. Não consegue viver com a dor, e aí que o Padre Gabriel o encontra novamente. Ele o convence a ir para a Missão de São Carlos ajudar os índios, e fazer algo por alguém, principalmente para aquele povo, em que ele, Rodrigo, sempre condenou no passado. Temos então a cena da redenção dele, que é ótima e com uma bela conclusão. Para chegar à tribo de guaranis, ele leva consigo um peso amarrado ao corpo. Esse peso representando o peso do passado, da culpa que ele carrega pela vida que levava e também pela morte do irmão. Mesmo com toda dificuldade de chegar à tribo, com rio, cachoeira e uma floresta densa pelo caminho, ele continua a carregar o tal peso, mesmo com reprovação por parte dos outros Padres jesuítas que o acompanham. Um deles (interpretado pelo ator Liam Neeson – aqui no início de sua carreira) até tenta o livrar desse peso, mas Rodrigo se nega a deixá-lo para trás. E ao chegar ao topo da cachoeira, acontece a conclusão do seu martírio quando ele se depara com os índios. Vemos juntos os desempenhos de Robert DeNiro com a trilha de Morricone. O jeito que Rodrigo chora e ri ao mesmo tempo quando se livra do peso pelas mãos dos índios é comovente, e com a música de Ennio ao fundo, forma o melhor momento do filme.

Depois dessa redenção de Rodrigo, e com ele se tornando um dos padres jesuítas da Missão de São Carlos, o que se segue no filme é a disputa que tomou conta da região. Colonizadores portugueses e espanhóis, tentando acabar com as missões Jesuítas. Afinal, as missões davam voz e terra aos índios, coisa que a colonização desenfreada que ocorria por aqui não poderia permitir. A Igreja Católica comparece no meio dessa disputa, através de um representante vindo da Europa. Uma autoridade da Igreja que vem incumbido de dar uma solução para o conflito. O personagem mostra certa dualidade. Ele vê a importância das Missões para o povo indígena, mas ao mesmo tempo vê que devido aos vários interesses em jogo não conseguiria evitar o conflito, e acaba por “lavar as mãos”. Assim o massacre dos índios começa. Antes das cenas de batalhas, temos um belo diálogo entre Rodrigo e Gabriel. Rodrigo quer deixar de ser padre para poder enfrentar a luta armada junto com os índios, e Gabriel se recusa a entrar em guerra ou dar permissão para que Rodrigo faça isso. Daí surge uma quebra entre os jesuítas, já que enquanto Gabriel vai simplesmente realizar mais uma missa tendo como platéia mulheres, crianças e idosos da tribo, Rodrigo e todos os outros jesuítas formam com os homens da aldeia um exercito para tentar enfrentar os soldados colonizadores. As cenas de batalha ilustram bem a covardia em que ocorriam nesses confrontos. Os índios contando com poucos recursos, enquanto os soldados colonizadores tinham toda uma estrutura e, principalmente, as armas de fogo. Comparado com filmes atuais, essa batalha não é tão violenta, mas ainda sim se mostra bem cruel.
 
A Missão se posiciona como um “filme denúncia”, assumindo certas posições extremas, como tratar os jesuítas sendo os heróis – não vemos ninguém ruim no lado deles – e os colonizadores sendo os vilões – não vimos ninguém bom no lado deles. E até a Igreja Católica, que não tomou uma decisão feliz ao “lavar as mãos” em relação ao conflito, também é poupada. Mas como o foco seria a situação dos índios, principalmente, o massacre que ocorreu com eles, o filme optou por não se por com um olhar isento, mas para se colocar assim, teve aqui uma engenhosa manobra narrativa, quando vemos que tudo é contado por um dos personagens. Tudo ali está sendo visto com um olhar bem específico de alguém que participou de tudo e que reprova tudo que aconteceu ali. Tanto que a primeira e a última imagem do filme é justamente o olhar de reprovação desse personagem para com a história. Só que se por um lado a situação dos índios era o foco, por outro lado, os mesmos índios não demonstraram muita empatia na tela. O diretor Rolland Joffé resolveu não usar atores profissionais para interpretá-los. Como era o realismo que ele buscava, então aqui foi usado uma tribo de verdade – os Waunana, do sudoeste da Colômbia – para interpretarem os índios guaranis. Assim não temos um personagem dentre eles que chame maior atenção. Tem uma tentativa com um pequeno índio que segue o Robert De Niro, e um outro que comanda a tribo, mas pouco se consegue nesse sentido. No geral, se tem a impressão que os índios são “parte do cenário”. Isso acabou se voltando a favor do filme, já que como disse, o foco era a situação dos índios e situação deles era essa na época: Eles não tinham importância, e sim essa disputa que acontecia em nome deles e das suas terras.

Para finalizar: O filme, na época de lançamento chamou atenção, ganhando até a Palma de Ouro de Cannes. Atualmente, é pouco lembrado. Talvez pelo fato do diretor Rolland Joffé não ter feito nada relevante depois dele, mas precisamos prestar atenção em A Missão, principalmente nós, já que conta uma história envolvendo a colonização do nosso continente. Embora como “cinema” cometa deslizes, – como, já citado, não olhar para essa história com um olhar mais isento – mas como “aula de história”, cumpre muito bem a função. Belas imagens, direção de arte caprichada, trilha sonora inesquecível, ótimas interpretações, uma boa narrativa. Se toda aula de história fosse assim, com uma trilha de Ennio Morricone no fundo e interpretação de Robert De Niro, evasão escolar seria algo que não existiria mais.

3/4

Jailton Rocha

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A Noiva Era Ele (Howard Hawks, 1949)

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Não é novidade alguma dizer que Hawks era alegórico e tremendamente anárquico quando o assunto é narrativa cômica, mas às vezes ele se passava. I Was a Male War Bride pode ficar bem distante de ser o mais engraçado surto do diretor – lembrando que falamos do responsável pelo mais veloz e exaustivo esguicho de piadas por segundo já filmado, é mais do que natural que jamais consiga repetir o mesmo feito -, mas temos uma situação inusitada trabalhada da forma mais dilatada possível, quase que lutando contra sua definição, num processo orgânico e visível de abstração.

Pode-se dividir o filme em uma série de esquetes, sempre concluídos com um pequeno e insano exercício de descontração, mas é difícil determinar o que, afinal, conduz a aventura. Se nos basearmos no que Hawks utilizou como título – também alegórico, vale lembrar – perdemos uma hora de material ao limbo. É, acima de tudo, uma câmera a acompanhar o processo de apaixonamento de dois militares durante a segunda guerra mundial, seguido das dificuldades que ambos encontram em transar depois do casamento, já que a moça é recrutada… pronto, tentei por alguns segundos, mas quase conto o filme todo.

Mesmo para uma comédia de época, I Was a Male Bride War é lento e irregular em boa parte de seu tempo, mas jamais perde charme, vida. Hawks tem o perfeito timing cômico das screwball comedys, e quando a coisa aperta, quando se precisa de humor, sabe como e quando fazer. Como na maior parte dos filmes do diretor, há a fuga completa das ideologias, a não ser das pessoais. Pinta-se a guerra como painel de fundo, mas tão abstrato quanto a própria linha que conduz o romance. É um Cinema à margem de tudo, vivendo seu próprio universo.

E que outro universo poderia ser tão apaixonante quanto aquele em que Cary Grant, desiludido pela perda de sua noite de lua-de-mel e exausto por não encontrar lugar para dormir, precisa se alistar como noiva de guerra e se travestir de oficial americana para poder, finalmente, passar uma noite junto da esposa? Se a guerra é uma piada para Hawks, é também o lugar perfeito para que desfile alguns de seus fetiches mais bizarros.

3/4

Daniel Dalpizzolo

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Halloween (John Carpenter, 1978)

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Sem nenhum especial, nem nada por trás, é uma oportunidade boa para reaver o clássico do Carpenter (que completa hoje sem muito alarde trinta anos de lançamento) e deixar um lembretinho aqui.

O mote principal do filme é o retorno de Michael Myers à sua cidade natal, para fazer um pouco de sushi com algumas ninfetinhas e otras cositas más. Ninguém sabe pra que na verdade, se é por necessidade, pra se divertir, por vingança, ou o que seja. Carpenter não faz a menor questão de explicar comos e porquês, as coisas simplesmente acontecem. Não a toa boa parte de seus filmes são inconclusivos, e ficam martelando na sua cabeça a fio depois de terminados. E assim fica suspenso, por um bom tempo – seja os acontecimentos, a atmosfera, a trilha, a história, aquela cena, dura mais do que se imagina.

Carpenter geralmente cita Leone como suas influências, e não sei ao certo, mas as vezes parece que assim como ele, faz com que a história acompanhe a trilha sonora, e não o inverso tradicional (Leone, por exemplo, tinha as trilhas prontas antes de começar a filmar). E mesmo num filme de espaços limitados como esse (uma pequena cidade e suas casas), Carpenter consegue assinar sua tendência em tornar espaços abertos claustrofóbicos, e pequenos armários espaçosos. O clima vem em primeiro lugar – e o casamento entre tudo isso afinal, acabou bem. O filme se passa no espaço de 24 horas, e a dinâmica que ele faz com esse tempo também é impressionante (até as taglines cheesy, “A Noite em que ELE voltou pra casa”, acabam ganhando um sentido bacana).

Não se pode esquecer também que Halloween revitalizou o terror de tal forma que surgiram vários filmes na sua esteira (Sexta Feira 13 e cia ltda), dando origem e enorme popularidade aos slashers, os filmes dos assassinos-com-facões-à-solta. Mesmo tendo sido influenciado por vários exemplares populares (Psicose, sendo que o nome do Dr. Sam Loomis é uma óbvia homenagem; Prelúdio Para Matar, citado por Carpenter, entre vários outros giallos), foi Halloween o ponto de virada. Mesmo parecendo não só mais um no subgênero, especialmente pensando no que se tem de autoral, do espírito que ele consegue dirigir para essa visita do Mal a uma pacata cidade na noite de 31/10.

4/4

Pedro Kerr

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Jogos Mortais V (David Hackl, 2008)

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Não que seja algo assim tão diferente dos anteriores, mas me surpreendeu positivamente esse 5º filme da série. A trama se resume a aparar todas as pontas soltas de todos os filmes anteriores, principalmente da horrenda Parte 4, mas tanto coisas do 1, 2 e 3 são resolvidas/revistas aqui. É isso mesmo, a única e exclusiva função do filme é essa e até que fez isso muito bem, tanto que poderia muito bem ter sido o final de tudo (infelizmente, não vai ser). Sem falar que todos os anteriores, tem uma trama metida a esperta que tenta surpreender/chocar o público o tempo todo com suas reviravoltas e finais-surpresas e etc, e esse aqui não sofre disso, já que tudo é meio óbvio e isso acabou sendo uma qualidade, por incrível que pareça.

O público que gosta da série e a acompanha desde o início, é bem provavel que vai achar esse o pior filme, porque, como disse, a trama não é tão “rocambolesca” como antes, sem falar nas cenas de morte/tortura que não chegam a chocar tanto, mesmo porque já estamos no 5º filme e é difícil mostrar algo a mais nesse sentido que já não tenha sido feita nos anteriores. Mas o fato de ter colocado o pingo nos “is” na série toda foi algo que colaborou muito para o bem estar desse quinto episódio.

Resumindo: Com a função de aparar as pontas soltas, e sem a mínima necessidade de muitas reviravoltas tolas na trama, como ocorria nos filmes anteriores, Saw V se torna a melhor continuação de Jogos Mortais.

2/4

Jailton Rocha

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O Filme de Nick (Wim Wenders & Nicholas Ray, 1980)

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O que Ray e Wenders tramam em Lightning Over Water é impressionante, visceral e provavelmente inigualável. Se o fascínio do cineasta alemão pela morte do Cinema tomaria-lhe a obra anos mais tarde, sua melhor e mais consistente observação sobre o tema continua aqui, neste pequeno exercício conceitual em que ambos exploram os limites da mídia como forma de registrar os últimos momentos em vida de Nick, pouco antes de ser abatido pelo câncer que lhe fragilizava há anos – a morte literal não é da própria arte, mas de um de seus mais importantes fundamentadores, cabe então à dupla radicalizar estética e narrativa para provocar a ruptura do classicismo tão de perto sonhado em deixar para trás.

Há muito pouco de parâmetro artístico se comparado O Filme de Nick a qualquer outro filme feito até então. O emblemático esquema de filmagens intercaladas, diegéticas e extra-diegéticas, em película ou vídeo, naturalmente metalingüísticas ou plenamente ensaiadas, como se surgissem como um novo em meio ao processo maquiavélico de manipulação, utiliza muito das experimentações de Welles em seu feroz Verdades e Mentiras. Wenders e Ray deixam claro jamais se importarem com o quanto de verídico restará ao corte final – Ray sequer participou da edição, por motivos óbvios – e nem mesmo isso é necessário para transformá-lo em um melhor ou pior filme. Se vemos Ray esbravejar enquanto acorda ou participar de um sonho de Wenders como figura mística, é natural que tudo faça parte da visceralidade conceitual, do choque.

E é choque duplo, esta ode pessoal – fica difícil, na realidade, separar o que é de Wenders e o que é de Ray, ao passo que Ray é o próprio filme – ao diretor de tão importantes filmes como No Silêncio da Noite, Johnny Guitar ou Sangue Sobre a Neve. Ao mesmo passo em que acompanha-se uma impressionante coleção de registros de ideais, pensamentos e, no fundo, um verdadeiro acerto de contas de Ray, uma figura marcada pelo mau-trato do tempo – sua aparência, em certos momentos, é assustadora, desgastada, cansada, apática, e sempre salientada pela câmera abusivamente, muito próxima ao pensamento de envelhecimento, de morte, que, afinal, era seu interesse – vive-se um processo de constante readaptação à linguagem, de cuja origem é um mistério.

É verdadeiramente impossível separar a verdade da encenação em Nick’s Film, mas tampouco importa. O câncer de Ray é verdadeiro, e suficiente. Seus gestos, olhares, voz envelhecida, feição destruída pela doença, mas sem jamais largar o cigarro – a pose clássica de Ray, encarando os atores segurando o pito, é cena marcante do filme dentro do filme, enquanto ele mesmo tenta dar prosseguimento a testes de elenco para o filme que, segundo o material restante, pretendia fazer – são o próprio filme. Tudo está ali, em um plano, um gesto ou olhar. Ao afirmar, durante uma exibição de The Lusty Man, que jamais trabalhava com roteiro pronto, que seus finais ditavam o começo, logo dava a dica do que realmente move o filme. Ele sabia estar à beira da morte o tempo todo, tanto é que este foi o fato que lhe mobilizou a chamar Wenders para o projeto. Sabia como terminaria, e assim pensava o resto. Se pode parecer um abuso de Wenders permitir tão maldosas imagens após a morte do Mestre, esquece-se a moral. Fica clara a necessidade em se preservar os desejos de Ray, tanto quanto é visível que a alma do projeto era simplesmente ele.

Se, ao final, a experiência é desgastante, passando-se quase que por um processo de anti-filme – O Filme de Nick é lento, esquisito e provavelmente muito pouco pensado narrativamente -, temos certeza de que tudo era proposital. Pensa-se o Cinema de outro jeito, vive-se outro momento, uma única experiência. É muito menos um filme do que Cinema e sua intersecção com a vida, com o efêmero, pura e simplesmente. Wenders faria logo em seguida o genial O Estado das Coisas, dessa vez com Samuel Fuller – se O Filme de Nick é a morte, O Estado das Coisas só pode ser o funeral. Poderia ter parado por aí. Já havia discursado– e muito – sobre o fim dessas coisas, e o fruto da insistência fora bem maior do que o imaginado. Afinal, de tanto falar sobre a morte do Cinema, Wenders acabaria matando o seu próprio. “Cut”, Wenders. Jamais esqueça a hora de cortar – até na morte, Nick Ray ensina.

4/4

Daniel Dalpizzolo

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Awake – A Vida Por um Fio (Joby Harold, 2008)

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Clay Beresford (Hayden Christensen, numa atuação bastante razoável, a meu ver) é um cara bem sucedido, pelo menos no sentido mais famigerado da expressão, mas que guarda um complexo de inferioridade em relação ao pai, morto quando ainda era pequeno de forma nebulosa (até o clímax, onde algumas peças se encaixam e os motivos para essa postura são explicitadas), além de manter um relacionamento secreto com uma garota (Jessica Alba, gostosíssima) que é desaprovada pela sua mãe (com quem também tem uma relação conflituosa) e precisa de um transplante de coração para continuar vivendo mais um tempo, missão essa que ele confia a um médico amigo seu (apesar de ser conhecido por já ter cometido erros em transplantes do mesmo tipo).

E é quando enfim ele consegue isso, o órgão para o transplante, que começa a ver, ironicamente somente depois que é sedado (mas a anestesia não faz o efeito esperado e ele pode sentir e escutar tudo o que acontece a sua volta), é que passa a enxergar coisas determinantes, deixando-o em desespero por não poder fazer nada, estando na situação que está, completamente imobilizado pela medicação.

Thriller com enredo interessante, que aborda de forma nem tão criativa assim a má prática da medicina (mas de forma eficiente), além de usar toda a problemática do personagem que se cria com a situação de forma interessante ao se contar e se re-contar a mesma história mais de uma vez no próprio filme. Curioso.

3/4

Rodrigo Jordão

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Morte Súbita (Greg McLean, 2008)

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Leiam essa sinopse: um cruzeiro pelas águas da Austrália se transforma em terror quando um grupo de turistas se torna presa fácil para um enorme crocodilo devorador de homens. Esperando em vão pela chegada do resgate em uma pequena ilha lamacenta, o medo rapidamente toma conta de todos. Muito provávelmente você pensou: “Meu Deus, mais um filme envolvendo crocodilos assassinos! Deve ser um desastre!!”.

E realmente seria, se o diretor fosse um qualquer. Mas nas mãos de Greg McLean, o promissor diretor de filmes de terror que surgui no cenário com o ótimo “Wolf Creek”, o filme se torna um suspense/terror interessantísssimo, graças ao tratmento quase documental que ele propõe na sua direção (ajudado pelas locações, no país natal do diretor, Austrália). Além disso, Greg McLean segue algumas premissas básicas de como prolongar o suspense, como a opção de só mostrar o monstro/vilão no final da película, ou ainda a opção de investir na tensão quase que constante (e de mostrar muito pouco dos ataques) ao invés de litros e litros de sangue e decapitações/mutilações/mortes em câmera lenta. O resultado: um filme extremamente tenso, que prende o telespectador drante todos os 96 minutos de filme.

Com essa estrutura, esse filme lembrou muito outro clássico de criaturas/vilões feito há mais de 30 anos atrás: Tubarão. Toda a sua estrutura (um ataque nos primeiros minutos de filme; a ambientação, com a apresentação dos personagens; o aparecimento do monstro; os personagens sendo atacados um a um; a tensão pela iminente presença do monstro, mesmo que não o vejamos, e o eletrizante confronto final) evoca boas lembranças do filme que despontou Spielberg. E, não só ele, como outros mestres do suspense/terror, ficariam bastante satisfeitos com o filme.

Com esse filme, Greg McLean se firma como um dos diretores mais promissores do terror na atualidade.

3/4

Adney Silva

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As Duas Faces da Lei (Jon Avnet, 2008)

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Era uma vez um diretor não exatamente aclamado. Ele gostava muito de filmes policiais e, um belo dia, resolveu juntar dois dos grandes nomes do cinema para um filme. Então, ele chamou Robert de Niro e Al Pacino e fez “Fogo Contra Fogo”, um filme que marcou época não apenas por ser excelente, mas justamente por ter colocado frente a frente esses dois grandes atores pela primeira vez. A história podia acabar aí. Mas, 13 anos depois, Jon Avnet resolveu juntar esses dois atores mais uma vez e fez o seu “As Duas Faces da Lei”. Dessa vez, Pacino e de Niro são dois parceiros (bem veteranos) na polícia. Após demonstrarem uma truculência ímpar ao espancarem o traficante Spider (50 Cent, numa “atuação” já esperada), são obrigados a passar por sessões psicológicas e se vêem envoltos em uma seqüência de assassinatos contra os bandidos que perseguiam. Enquanto tentam desvendar os crimes, precisam lidar com a desconfiança dos companheiros, que acham que Turk (de Niro) é o assassino.

O filme não é ruim. Longe disso. Mas, para um projeto que fez tanto alarde sobre si mesmo, Pacino e de Niro acabam sendo os únicos trunfos realmente interessantes. O roteiro é fraco, evidenciando o tempo todo que, ao final, seremos surpreendidos de alguma forma. Porém, pior que isso, é o fato de que dezenas de pistas são dadas no decorrer do filme, apenas para causar o efeito “meu Deus, estava o tempo todo na minha cara e eu não percebi”. A direção de Avnet também não ajuda. No final da projeção, a sensação é de “sim, e daí?”.

Definitivamente, por melhor que sejam Al Pacino e Robert de Niro, não basta apenas uní-los para se fazer um “Fogo Contra Fogo”.

2/4

Murilo Lopes de Oliveira

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Corrida Mortal (Paul W.S. Anderson, 2008)

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Confesso que fui assistir esse filme sem esperança alguma de que possa extrair algo de bom (ou, ao menos, de divertido, nele). Ainda mais quando temos na direção o, para ser bonzinho, abaixo da média Paul W.S. Anderson, diretor de tranqueiras como “Alien Vs Predador”.  Os únicos atrativos desse longa era o roteiro trash (refilmagem de “Death Race 2000”, com o David Carradine e Sylvester Stalone como antagonista!!!!), e a presença do grande papa dos filmes B, padrinho de muitos diretores famosos (Coppola é um deles), e que também produzia essa refilmagem, Roger Corman.

No fim, o que se pode constatar é que Death Race era o legítimo “filme de Macho”: temos a violência sendo servida aos galões, carros com as modificações mais absurdas possíveis, transformando os bólidos corrspondentes em “Máquinas para Matar” (algo como o antigo jogo – que foi proibido no Brasil – Carmageddon), Jason Shatham com cara de poucos amigs (como sempre), frases dignas de figurar em “pérolas do humor involuntário”, Joan Allen como uma “real bad ass motherfucker bitch”, e uma personagem feminina (a co-pilota de Jason, interpretada pela Natalie Martinez. Não sabe quem é? Veja o pedaço de mau caminho da foto.) que está lá apenas para mostrar seus atributos físicos (com direito a close na bunda dela). Só que acabei me divertindo com tudo isso!

Mais do que mostrar litros e litros de sangue, mortes, carros explodindo e tudo mais do que se espera em filmes de ação (com o ponto positivo de não explorar em demasia cenas em CGI, deixando todo o trabalho para os dublês e a física), o filme mantém um climão de filme B, muito provávelmente pela presença do Roger Corman na produção. Isso acaba gerando, se não um entusiasmo grande por uma obra-prima, ao menos um contentamento por uma diversão escapista duranta os 96 minutos do longa. É o típico filme para levar todos os seus amigos (especialmente se você tiver menos de 20 anos) e se divertir com a violência gratuita mostrada. Não é muito, mas acabou transformando “Death Race” na melhor incursão de Paul W. S. Anderson na direção.

Quem sabe isso não é um sinal para que o diretor abrace de vez a idéia de se transformar num diretor de filmes B?

2/4

Adney Silva

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Premonição (Sette Note in Nero / The Psychic – Lucio Fulci, 1977)

A obsessão como matéria-prima daquele suspense catalogado por Alfred Hitchcock se encontra quase sempre nas vias do desespero como a manifestação mais pura e brutal de um aparentemente simples sentimento de vazio, uma necessidade que só pode ser alimentada com o próprio corpo, entregue à rede da determinada investigação até que ele mesmo se torne o objeto investigado ou se confunda irreversivelmente com a substância, e embora os exemplos partam do film noir, Vertigo, Blow Up até o próprio Profondo Rosso, nunca o círculo se fechou num desenho tão irônico e simétrico como em Sette Note in Nero.
 
Por pouco o filme do Fulci nem é um giallo, estando mais para o suspense inglês do que para horror italiano, começando pela trama atipicamente valorizada dentro do fluxo incontido de imaginação que os velhos sádicos cultuam. E ela é conduzida quase que com minimalismo por um Lucio Fulci que embora não enlouqueça completamente como em Terror nas Trevas ou Pavor na Cidade dos Zumbis, demonstra uma elegância com a câmera que eu simplesmente não conhecia no cara, tido sempre como o mais grossão (e não menos espetacular) do triunvirato italiano.
 
Mas o filme é lindo… Apesar de essa beleza emergir livremente apenas durante a meia hora final, que talvez até por isso seja inteira um clímax (e a hora anterior, inteira um prelúdio). Não havia ainda encontrado no Fulci uma confluência de som e imagem tão plástica e perfeccionista como no Sette Note, o que o aproximou demais do Bava e do Argento no modo religioso e fanático de tratar esta imagem, mesmo que as proporções neste sentido ainda devam ser guardadas.
 
Sette Note só não é candidato a obra-prima porque a inversão na dosagem de distribuição da história ao longo dos noventa minutos resultam em dois terços de puro desenvolvimento quase desprovido de estilo, ou de criação autoral do diretor, descarregada no entanto intensamente durante a extraordinária meia hora final. Não em forma de surto como nos trabalhos posteriores, mas na embalagem vermelha de um verdadeiro artista visual, movimentando a câmera com uma leveza e uma doçura infernais, unindo a isso a trilha absolutamente fora de série que como se não bastasse tem importância narrativa explícita e acabou virando título do filme (ah propósito, ignorei o título nacional porque, primeiro, é pouquíssimo conhecido, segundo que é um spoiler e terceiro que é uma bosta).

Sette Note in Nero (ou Seven Notes in Black, ou The Psychic, ou Premonição, etc) é tão especial exatamente porque a heroína em questão não assimila um acontecimento externo como bandeira própria e parte numa cruzada para resolvê-lo e ao mesmo tempo resolver a si mesma. Ela é o tempo inteiro o próprio material de estudo, mesmo sem perceber. Não como em Blow Up onde o fotógrafo captura uma imagem alheia a sua vida e a toma para si, como também ocorre em Vertigo, Janela Indiscreta, Blow Out, Veludo Azul, etc… O labirinto percorrido por todos estes personagens, no caso de Virgínia, é interno, e ela não pode encontrar no seu final outra solução que não ela mesma, e neste sentido, Sette Note é mais como Peeping Tom. Não pode haver melhor exemplo de que a sede da obsessão só é saciada por um copo do próprio sangue.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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