O Círculo Vermelho (Jean-Pierre Melville, 1970)

A atmosfera épica de Le Cercle Rouge é suficientemente vasta para compreender tanto este neo-noir pintado pela óptica metódica de Melville quanto o próprio gênero de sombras e fumaça fundado do outro lado do Atlântico. São mais de duas horas de elegância, beleza, emoldurações frame-a-frame com precisão matemática e muito, muito pessimismo, assumido aliás como discurso explícito.

Já disse no post do Un Flic mas repetir não custa, até porque nenhum outro traz este elemento tão evidente quanto O Círculo Vermelho: os personagens de Jean-Pierre Melville suplantam sua humanidade pelos dogmas e pela moral do seu trabalho, e é exatamente pelas vias dessa mecânica profissional que, sempre, ao fim de tudo, é necessário o sangue incandescente, como apenas o homem possui, para mover essas engrenagens. Porque a maldade, a ambição e as rotas da traição acabam entregando que são apenas fracos e suscetíveis seres humanos os que se escondem sob as máquinas que desfilam sempre tão imponentes de sobretudos ao longo dos noirs de Melville.

Levando a doutrina de Jules Dassin debaixo do braço, Melville volta a filmar o tempo real com lentes forjadas do hipnotismo. São 25 minutos de assalto a uma joalheria (e o estilo todo do diretor é perpetrado pela contemplação tributária à ação da cena, mas este é sempre o melhor exemplo) que, embora não tencionem reproduzir a mesma e quase insuportável tensão dramática de Rififi, prendem o espectador com uma linha invisível da pura mágica que o mestre francês faz com a câmera e o som, amplificado aqui ao terreno de uma bem orquestrada sucessão, simplesmente, de passos, portas fechando, ferramentas funcionando.

Admiro profundamente quem consegue fazer tanto com, aparentemente, tão pouco. Com a quase inexistência de artifícios aos quais um cineasta comodamente pode recorrer pra seqüências bacanudas e planos ishpertos. O mesmo ocorre com Alain Delon, que sendo o mesmo Edouard Coleman ou Jeff Costello, ainda sem mover um músculo do rosto, consegue ser simplesmente perfeito, insubstituível. Pode ser no modo de olhar, de se mover, de falar, pouco importa… Delon é brilhante sem precisar de um milímetro de esforço pra tanto, e insinuar que seja menor ator por isso é qualquer coisa à qual eu ainda darei nome no meio de um estado de fúria durante uma próxima goleada que o meu time sofra no Gre-nal.

De qualquer forma, obra-prima (outra…) do francês, embora menor que O Samurai e Expresso Para Bordeaux, mais pela inspiração encantada que os governa do que qualquer eventual demérito do Le Cercle Rouge. Mas algo é preciso deixar claro: independente da ordem, o filme do círculo é o que até agora melhor representa este casamento entre o minimalismo de Melville e a depressão do film noir clássico pra composição de uma identidade mais sólida que nunca pro noir europeu, algo digno de ser documentado pra posterioridade, tratado ilustrativo de uma visão cética e talvez mais realista que pessimista sobre as motivações humanas, porque, pra Melville, todos os homens, sem qualquer exceção, terminam sob o alvo iridescente de um círculo vermelho.

4/4

Luis Henrique Boaventura

1 Comment

Filed under Comentários

Canção de Baal (Helena Ignez, 2008)

[image]

Poderia-se dizer que esse é um “filme musical totalmente controverso e outsider” sobre um personagem igualmente outsider. O primeiro longa da Helena Ignez funciona em muitos momentos, mas se perde um pouco na opção por fazer uma narrativa não-convencional e excessivamente lírica em certos pontos, o que provavelmente repeliria espectadores mais convencionais. Mas, tirando esses contratempos, o filme mostra-se bastante interessante.

3/4

Adney Silva

Comments Off on Canção de Baal (Helena Ignez, 2008)

Filed under Comentários

Sukiyaki Western Django (Takashi Miike, 2007)

[image]

PQP!!! Ca-ra-lho!!!Só mesmo um bom palavrão para expressar o meu contentamento com esse filme. Foi exatamente o que eu esperava: uma homenagem a todo um gênero – no caso, o western – com trocentas milhões de referências e arquétipos característicos do gênero e do cinema Ocidental, com uma história que se sustenta mesmo com todas essas informações, extremamente insano, bizarro e genial ao mesmo tempo. Faz um bom tempo que não divertia tanto assim em um cinema. E tudo isso filmado maravilhosamente com tomadas e cenas bizarras bem ao estilo do diretor (apesar de ser o mais “normal” dele,se é que vocês me entendem). Consigam-o de qualquer maneira, já que seria impossível que ele estreasse em grande circuito.

Simplesmente o melhor filme do Festival, mesmo não tendo visto um décimo de todos os filmes.

4/4

Adney Silva

1 Comment

Filed under Comentários

Apenas o Fim (Matheus Souza, 2008)

Chega a ser surpreendente que um menino de 20 anos tenha o seu longa de estréia passando em um grande Festival como o Festival do Rio. Pois o aluno do 5º período de cinema da PUC-RJ conseguiu esse feito (com direito a sessão lotada e discurso de abertura do próprio diretor). O resultado: uma mistura de Antes do Amanhecer (no que diz respeito a câmera como acompanhante dos dois persoangens principais) e Juno (em relação as referências pop e geek presentes no filme). Entretanto, essa necessidade de inserir uma referência ou uma frase espirituosa a cada cinco minutos acaba prejudicando o filme, imprimindo uma artificialidade exagerada que muitas vezes incomodava. No mais, o diretor mostra que, uma vez aparadas as arestas, pode seguir uma carreira satisfatória no cinema.

2/4

Adney Silva

9 Comments

Filed under Comentários

Praça Saens Pena (Vinícius Reis, 2008)

[image]

Quando se fala em filmes que usem o Rio de Janeiro como cenário principal, temos os dois extremos: ou a glamourosa Zona Sul, ou o cotidiano das favelas. Só por esse motivo, esse longa, que versa não só sobre a Praça supracitada, mas toda a região que empreende a Tijuca e o Grajáu (ou seja, a Zona Norte), já merce destque. Mas, além disso, o filme mostra extrema sensibilidade ao abordar de foram extremamente sutil os conflitos vividos por uma família da região, utilizando a Praça e toda a Zone Norte, tão querida pelos cariocas (eu incluído), como plano de fundo, gerando uam homenagem bastante singera e sincera à região. O filme trata com extremo carinho os seus personagens e a região, sem deixar de lançar um olhar crítico (mas sem ser piegas) sobre a situação da região atualmente.

Tomara que mais filmes dessa linha surgam a partir de agora.

3/4

Adney Silva

1 Comment

Filed under Comentários

Gesto Obsceno (Tzari Grad, 2008)

[image]

Se fosse resumir o filme em uma única linha, seria algo do tipo ” “Um Dia de Fúria” ambientado em Israel”. Ao abordar os conflitos vividos pelo personagem principal quando sua esposa faz um gesto obsceno a um ex-veterano de guerra com altas conexões, o diretor mostra a lenta caminhada do personagem até a libertação da fera que temos em todos nós. E essa transição é mostrada com fluidez e num ritmo bastante adequado. Recomendadíssimo!

3/4

Adney Silva

1 Comment

Filed under Comentários

Domingo de Páscoa (Pedro Amorim, 2008)

[image]

Gostei. Nesse curta temos um roteiro bem delineado, que conecta com propriedade os destinos de quatro personagens em um Sábado de Aleluia. Além disso, o curta se utiliza muito bem dos closes para delinear as sensações dos personagens, mostrando que o cinema é, acima de tudo, uma arte visual.

3/4

Adney Silva

Comments Off on Domingo de Páscoa (Pedro Amorim, 2008)

Filed under Comentários

Blackout (Daniel Rezende, 2008)

[image]

O curta do renomado montador (Cidade de Deus, Ensaio Sobre a Cegueira) vale principalmente pelo clima de descontração (foi gravado em um galpão no quintal da produtora O2 que ainda guardava restos da produção “Ensaio sobre a Cegueira”) e, sobretudo, pelas atuações impagáveis de Wagner Moura, Agusto Madeira e do próprio César Charlone (que fez a fotografia do curta). O plot absurdo (Dois assessores parlamentares entram em uma sala em reforma na Assembléia Legislativa para fumar um baseado no final do expediente de sexta-feira. De repente, acontece um blackout e os dois ficam presos na sala escura) também contribuem muito para o sucesso do curta.

3/4

Adney Silva

1 Comment

Filed under Comentários

A Maldição da Múmia (Ivan Cardoso, 1981)

Fazer filmes falando de Nordeste, violência e favelas brasileiras é mole. Quero ver se alguém tem bagos de fazer um filme mostrando a aparição de uma múmia no Brasil, em forma de comédia, como em “O Segredo da Múmia”. Ivan Cardoso é um dos diretores mais subestimados do cinema nacional. Foi ele que, no começo dos anos 80, inaugurou (mesmo que os norte-americanos digam o contrário) o terrir, com esse filme. As interpretações exageradas; o roteiro maluco, impagável e genial ao mesmo tempo; a criatividade para utilizar os poucos recursos existentes, os momentos impagáveis (e são muitos), os inúmeros clichês do cinema (o mocinho destemido, a mocinha, a femme fatale, o cientista louco, etc…), tudo isso é mostrado sem exageros e forma extremamente prazerosa, feito por dois apaixonados pelo cinema (o diretor e o roterista Rubens Luchetti). Já conhecia “As Sete Vampiras” dele (que, aliás, é outro exemplar maravilhoso), mas esse é uma obra-prima do terrir.

4/4

Adney Silva

Comments Off on A Maldição da Múmia (Ivan Cardoso, 1981)

Filed under Comentários

Tora-San Reencontra Lily (Yoji Yamada, 1975)

[image]

Primeiro filme que vejo do Yoji Yamada, sendo que já tinha ouvido falar dele de outros Festivais do Rio. E gostei. É basicamente uma comédia simples, centrada nas desventuras do personagem título, um caixeiro viajante. Na verdade, esse personagem é bastante recorrente do diretor, já que temos uma série de filmes com ele (são 48 filmes envolvendo o personagem). É um filme bem singelo que versa sobre temas temas como família, educação, terra natal, solidariedade e honestidade, tudo isso em contraste com a expansão tecnológica e a urbanização, que provocam o distanciamento das pessoas. São temas simples, mas muito bem trabalhados pelo diretor.

3/4

Adney Silva

Comments Off on Tora-San Reencontra Lily (Yoji Yamada, 1975)

Filed under Comentários