Thiago Duarte
Filmaram o inferno. Só.
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Uma salada exótica, sem sal ou pimenta para agradar. Assim é este delírio egocêntrico de Fellini, em que seus aleatórios devaneios floreados valem mais do que personagens ou uma trama consistente. É bem verdade que, há cerca de um mês, eu louvava sua “viagem” em Oito e Meio; mas o diferencial que leva um filme ao ápice e outro ao descalabro vem desde sua propusta e seu condutor. E La Nave Va, naquilo que se repetirá em certos momentos da obra, começa com uma tentativa de metáfora à essência filmística – como um filme mudo e de tom amarronzado, como nos curtas noticiários e documentários que eram exibidos na década de 1910, em que é situada a obra felliniana -, mostrando seus vários personagens entrando no navio Gloria N., que leva as cinzas de uma diva da ópera. Uma colcha de erros claramente gerada por certo desprezo de Fellini: a obra indefine-se, afinal, não é um painel de personagens atípicos bem estruturado, como parece a capa, não é uma homeangem concreta à ópera, como supõe a contracapa do DVD da Versátil, muito menos é uma metonínima sobre as embarcações / viagens de navio e a I Guerra Mundial.
Pode ser que o objetivo de Fellini tenha sido exatamente esse; engordar e rechear seus 126 minutos, com referências e metáforas que quase exclusivamente lhe cabem respeito; mas, dane-se, não gosto disso. Arrogância pessoal (que tantos brilhantes cineastas tinham, como Hitchcock e Kubrick) não pode se confundir com arrogância profissional. E, pasmem, a chatice de E La Nave Va é muito maior que os meus centopéidicos textos e frases. Deixando de lado a série de disparos objetivos, tentarei argumentar exemplificando rapidamente sobre as indecisões citadas no final do primeiro parágrafo. Quando todos sobem a bordo, quem assume a narração é um cronista que relata picuinhas dos famosos presentes no nvaio; e suas respectivas relações com a falecida (ou não, conforme seja-lhe válido mencionar). Mas nenhum é capaz de chamar a atenção para si, seja a atenção do cronista, disperso (à exceção de uma misteriosa garota – que, como entra, some), seja a da platéia: todas as personas parecem mesquinhas e rasas. O resultado é que, não fossem as extravagâncias físicas – bem destacadas pela maquiagem -, todos seriam iguaizinhos na falta de conteúdo – inclusive, não me recordo do nome de ninguém depois de 2h de ter assistido ao filme. O pior é que os atores parecem destinados e guiados a seguir tal prescriçaõ e idéia: atuações fraquíssimas, também limitadas a preencher extravagâncias físicas com caras-e-bocas dignas de Casseta & Planeta, e cantorias pessimamente filmadas e editadas, além do som ser bizarramente elevado ou destruído conforme a vontade do diretor. A comprovação da ridicularidade deste tema vem na cena em que se cria um estardalhaço em torno de um dos navegantes, por ser ele capaz de hipnotizar uma galinha gritando “óóóó”.
Tão ruim quanto individualmente – ou até pior -, são as personagens coletivamente (na integração quase desperciba de tão artificial) e nos questionamentos que poderiam montar uma figura de Edmea, a tal obituária. A nenhuma conclusão se chega a seu respeito e mais uma patética nea resume a procura pela essência de tal figura: um média incorpora Edmea para desespero de uma bichina tresloucada, que se veste de fantasma e assusta os poucos presentes na sala, fazendo uma senhora desmaiar. Se isso significa alguma coisa para alguém, ótimo. Só que, para mim, isso é a prova da falta de boa-vontade do autor para com seu público. O filme só apresenta alguma melhora quando os refugiados sérvios são resgatados e a cena em que todos dançam é, enfim, de idéia louvável; cada qual com sua loucura e seus problemas, no meio da guerra, unidos pela tal ópera (mas aí fazem falta os 2/3 iniciais para que o espectador não esteja dormindo neste ponto ou verdadeiramente importe-se com cada um ali). A relação com o navio austro-húngaro é igualmente boa (as duas realidades do cronista servem a isso), e só; porque o funeral não comove de jeito algum e a cena “de guerra” é tosca. Aliás, esta faz um panorama geral do que é E La Nave Va: um híbrido de bizarrices sem propósito, como num filme B, e cenas de “ricas leituras” e intepretações cuja serventia é a mesma. O desfecho é perfeito para a minha linha de raciocínio: temos o cúmulo de Fellini filmar-se a si filmando, com ondinhas de papel (para “homenagear” os defeitos especiais de outrora?), sobre a qual terminam o seu cronista – ele – e o rinoceronte, mais um ícone calibrado de parcos recursos; encerrando como começara, fingindo ser um looney-tune genial.
1/4
Cassius Silva de Abreu
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Ópera da sedução, da amargura e do alucínio; um arranjo dissonante entre o clássico e o novo, entre a literatura, a música e o teatro. Luiz Fernando compõe sua Capitu sobre o painel víscero e sangüíneo da memória, desfilando cores numa orgia audiovisual, numa relação sexual entre o som e a imagem para parir este objeto inédito, esta obra forjada nos contornos do barroco e levada aos subterrâneos da imaginação numa espiral hermética, lírica e imagética.
Capitu é uma bosta. E é interessante como o LFC consegue oferecer matéria fértil pro uso desses terminhos sonoros. Vi muito por aí, durante a semana de exibição da microssérie, uma galera discorrendo quanto à “arte” de Capitu e à sofisticação que não agradaria às “pessoas normais”, porque LFC supostamente filma para os cultos, os literatos, os machadianos, os eruditos e os idiotas. Não estou dizendo que quem curte Capitu é idiota (porque é idiotice e porque os princípios da subjetividade estão aí, todos implícitos nos seus devidos lugares). Idiota é taxar Capitu de a grande revolução estética da televisão e usar aquele causo da roupa do rei de que ‘só os inteligentes podem ver’, melhor ainda se a série for um fracasso de audiência, aí os estereótipos de brasileiro-burro-só-gosta-de-novela se acasalam à vontade.
Quem lê o MP! (Caio, mamãe) sabe que Lavoura é um dos meus cinco filmes favoritos de sempre, e eu não cheguei a perceber até semana passada o quão limitado o Luiz Fernando Carvalho é como diretor (só tinha visto A Pedra do Reino e adorado, mas não sei o que acharia dele hoje). Nunca me incomodou como deveria, até este momento, a fidelidade religiosa do cara aos textos originais. Pelo contrário, é possível que Lavoura só tenha dado certo porque ele apenas filmou o texto e que aquela pulsação efervescente da cultura sertaneja em A Pedra do Reino estivesse mais ligada ao próprio Suassuna do que ao Carvalho, fora que o próprio Quaderna é que era o “modesto Cronista-Fidalgo, Rapsodo-Acadêmico e poeta-Escrivão”, a verdadeira persona da pretensão desmedida, então se poderia dizer ainda que o LFC tivesse apenas se apropriado da óptica e da palavra do próprio narrador como artifício de metalinguagem, mas essa não cola mais.
A questão é que quando o cara preserva até os títulos dos capítulos (teve um dia aí, acho que na quinta-feira, que foram uns 4 ou 5 em dois minutos, pqp), é porque qualquer coisa tá muito errada. Falava com o pessoal da equipe sobre isso. Não havia oportunidade melhor que com uma adaptação de Dom Casmurro, tão cravado e sacramentado no imaginário popular e principalmente “acadêmico-intelectual-whatever”, para que Luiz Fernando se provasse como um autor de verdade, não um pobre reprodutor de palavras e idéias alheias mascarado sob a égide monumental desta estética berrante e afetada. Dêem Suspiria ao LFC pra ver o que sai. Merda? Não, não sai nada, ele ficaria perdido sem a muleta da narrativa num filme que sequer trama tem, apenas talento. E o pior é o discurso de revolução estética sendo correspondido com uma série de chiliques e vícios que vêm sendo repetidos indefinidamente (e assim será até o final do tal Projeto Quadrante, se ninguém da Globo se der conta de que está sendo passado pra trás). E aquelas metáforas ishpertas como o Dom Casmurro seguindo a linha desenhada pela Capitu (eu quase não acreditei na cara-de-pau) ou o uso de elementos do teatro como os bichos mecânicos que ele está aplicando, se não me engano, pela terceira vez, sem falar da maquiagem, do narrador afetado e da câmera bêbada-traço-artística-traço-não-sei-filmar-de-outro-jeito.
Adaptação de um livro não significa filmar sua leitura debaixo de um pretexto artístico exacerbado que comporte todo tipo de exageros e histerias wanna be’s apenas por ter um pretexto artístico exacerbado.
Ademais, Letícia Persiles dançando é a coisa mais linda do mundo todo, mas isso não tem nada a ver com Capitu.
0/4
Luis Henrique Boaventura
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Se há filmes feitos pro cérebro, pro coração, pros olhos, ouvidos e até pro moleque pequeno [/Analista de Bagé], Buio Omega vai direto no estômago. D’Amato despe seu filme de todo tipo de artifício ou sofisticação visual comum no gênero (não estou dizendo que foi uma escolha consciente, porque não foi e pouco importa) mantendo apenas o que, pro italiano, é o que realmente interessa: sangue, tripas, carne retalhada, membros decepados e uns bons pares de peitos mortos.
Quase sempre entre os italianos somos transportados pra uma dimensão de perversidade e corrupção onde personagens e o próprio diretor conspiram para criar uma atmosfera de absoluto pessimismo e desesperança, e quase sempre resta um personagem, um elo que nos liga ao mundo de parâmetros e proporções morais devidamente moldadas. Em Buio Omega, D’Amato elimina este ponto de equilíbrio. Além de fazer do próprio Frank Wyler um monstro (sem recusar aquela tão óbvia mas providencial dubiedade de inocência) e de nos aproximar dele quase ao nível de uma 1ª pessoa, o suposto único bem-feitor da história é subvertido numa tiração de sarro impagável com o espectador.
Digo, aí depende do espectador. Quem sai à cata de Buio Omega e o assiste até o fim comendo uma pizza bem gordurosa de peperoni não pode esconder que quer mais é que todos se explodam, de preferência com aquela violência gráfica habitual dos caras. E o D’Amato é completamente maluco. Sei que a gente usa o termo às vezes, mas é literal agora, o cara é demente, é retardado mental, e é maravilhoso. Em geral os mestres do giallo se divertem é no ritual anterior e no momento da morte da vítima, mas D’Amato tá interessado mesmo é em brincar com o corpo humano como um bom açougueiro tarado. Inclusive a necrofilia de Frank Wyler é uma extensão da tara do próprio diretor. Há um momento em que ele passeia a câmera por um corpo sendo cremado de um jeito carinhoso e compulsivo, que culmina no momento em que ele dá um close todo tarado num mamilo pegando fogo. É inacreditável de se assistir e lindo presenciar alguém levando pra tela seu lado mais podre sem medo ou vergonha nenhuma.
Obra-prima ao instinto, à doença e ao mau-gosto.
4/4
Luis Henrique Boaventura
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Não bastasse construir No vale das sombras sobre um episódio de gênero apático e quase sem nenhum arroubo, Paul Haggis continua tingindo seus filmes com uma irritante importância, quando na verdade insiste na defesa de uma visão simplória de seus temas. E repleto da sua visão deturpada e preconceituosa de mundo.
Primeiro que, no fim das contas, o conteúdo anti-bush é uma atualização antibelicista que não traz frescor algum ao caminho de gênero que argumenta em cima dos bons meninos que, enclausurados num recorte de mundo completamente fucked-up, sofrem uma degradação psíquica tragicamente irreversível. Por isso o viés genérico ser desanimador, pois Haggis acaba descartando boa parte do impacto de tentar soar contemporâneo.
Segundo que boa parte da responsabilidade pela ruína de No vale das sombras é a maneira como Paul Haggis mantém a preconização de valores preconceituosos, tal como toda e qualquer gangue de traficantes ser composta única e exclusivamente por mexicanos. E o centro do mundo é estadunidense, pois Haggis só consegue enxergar um homem de El Salvador não sabendo como posicionar a bandeira dos Estados Unidos, assim como a detetive que busca a igualdade mas não dá atenção a um caso dito menor.
Mas o mais importante e alarmante de tudo é como Haggis consegue casar a discriminação e o simplismo de idéias: a guerra do Iraque é rigorosamente reprovável e abominável justamente por cercear o futuro dos jovens e ocasionar um desastre social nos EUA. A destruição de um outro país – em qualquer dimensão imaginável – por meio de uma ação irracional e alheia ao bom senso não é levada em consideração nunca.
Pavoroso.
0/4
Vinícius Laurindo
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210 minutos é o tempo requisitado por este petardo inigualável de Jean Eustache. São os mais longos e torturosos minutos jamais filmados, os mais sensíveis, subversivos e verdadeiramente avassaladores também. É fruto claro de toda a baderna em torno de Maio de 68, movimento estudantil e perda de perspectivas da juventude européia do início da década de 70, mas o que realmente fica pode muito bem ser assimilado se contextualizado com qualquer outro período histórico – especialmente os de maior desorientação, como hoje.
Pode-se buscar a grosso modo uma definição como filme de relacionamentos, assim sendo, um filme sobre o humano e sua clara imperfeição. A Mãe e a Puta tem início com Jean-Pierre Léaud, ator fetiche da nouvelle vague, sendo rejeitado por um affair. Seguimos a partir daí seus passos entre a vida com a colega de quarto – namorada de relacionamento aberto – e uma enfermeira que aos poucos começa a conhecer – num terceiro momento, temos a intersecção entre as duas vidas na inconscientemente consciente tentativa de um relacionamento a três.
É ao mesmo tempo o mais simples e calculado dos filmes. Cada movimento, gesto ou palavra parece ter sido devidamente filtrado por Eustache em busca da exatidão em seu super-controle de tempo e ação. Há um equilíbrio por vezes inacreditável na forma como cada momento – sem necessariamente representar uma ação – é coligado ao próximo, e assim mantém-se até a rigorosamente opaca mise en scéne implodir em um dos mais bem sustentados closes do Cinema – onde há também a ruptura de todas as idéias apresentadas até então sobre estereótipos trabalhados nas entrelinhas.
O resultado é tão devastador quanto a trabalhada idéia de solidão, vazio e necessidade. Eustache veicula cada movimento do filme como vertente à verbalização da idéia final – quão bom seria se todos soubessem decidir exatamente o que há a se dizer. E se, ao final de tudo, podemos ver uma grande ponta de esperança no subversivo momento derradeiro, há também uma espécie de fortificação da dúvida que se cria através da lembrança da enérgica e pragmática falta de sentido de tantos outros.
Trata-se, afinal, do humano.
4/4
Daniel Dalpizzolo
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Daniel Dalpizzolo
O mais vulgar e errático dos giallos. Em Torso, outra de suas tentativas de compreender o mundo em plena febre libertina, Sergio Martino atinge o mais depravado pico do gênero italiano. Filme perverso, esquizofrênico; safado, sem vergonha e sempre impressionante. Genial como o melhor Argento, ou os grandes momentos de Lucio Fulci.
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Se temos um diretor brasileiro que pode ser chamado de maldito, esse é Zé do Caixão. A maioria das pessoas conhece apenas a sua persona e, por isso, muitos a acham no mínimo inusitada, para não dizer ridícula. Mas poucos o conhecem como diretor, como ator e, sobretudo, como realizador de obras no mínimo interessantes, ainda mais se lembrarmos que ele é o único “bandeirante brasileiro” do terror, e que, na imensa maioria dos seus filmes, contava com recursos ínfimos, tendo que abusar e muito da sua criatividade e talento em contar histórias macabras. Das suas obras, “Ritual dos Sádicos/O Despertar da Besta” é a mais maldita e a mais genial.
Para quem desconhece, o filme, sob o nome de “Ritual dos Sádicos”, teve sua exibição proibida pela censura do governo militar, que não satisfeita, tentou ainda destruir todas as cópias e negativos. Mojica ainda tentou relançá-lo três anos depois, com alguas pequenas mudanças, sob o nome “O Despertar da Besta”, novamente sem sucesso. E assim, o filme ficou anos e anos nas duras e grotescas mãos da ditadura militar, até que, já na década de 80, com o fim do Regime, ele foi liberado e assim participou de vários festivais ao redor do Brasil. Entretanto, Ritual dos Sádicos acabou não entrando em circuito nacional, permanecendo até hoje inédito nos cinemas.
Assistindo ao filme, compreendemos o porquê dele ter sido proibido com tanta veemência pelos sisudos homens de farda. Merecedor do título de ousado e polêmico, o Ritual abordava diretamente, pela primeira vez no cinema brasileiro e em pleno auge da repressão militar, o uso de drogas como maconha, cocaína e LSD. Não apenas abordava, mas mostrava os personagens consumindo “tóxicos” (assim eram referidos os entorpecentes no filme) antes de sessões coletivas de coprofilia, sadismo, zoofilia, misoginia e outras “perversões”. Tanto material não passaria em brancas nuvens por eles.
Entretanto, toda essa amostra de práticas nefastas e condenáveis pela maioria das pessoas não foi colocada apenas para chocar. Mojica consegue mostrar uma obra memorável, recheada de citações metalinguísticas das mais variadas fontes, desde da sua própria persona (que muitas vezes é confundida com o diretor, fato esse abordado no filme), com a sua fama de maldito (ao inserir uma apresentação de um programa televisivo de grande audiência na época, chamado “Quem tem medo da verdade?”, onde ele era julgado por vários artistas), e com o próprio cinema (no espetacular plano final). Aqui também Mojica se utiliza do artífício de pincelar a cena-chave do seu filme com cores, constratando com a sua forma documental preto-e-branco habitual. O resultado, além de estéticamente ser fenomenal, ainda carrega em suas entranhas e nas cores escolhidas uma importância fundamental para a trama.
Como resultado de todas essas referências, temos uma obra inovadora, que não só é muito a frente do seu tempo, mas também confronta o telespectador, convidando-o a caminhar durante os 90 minutos no mundo bizarro e espetacular de Zé do Caixão, que é nada mais do que a representação de muitas das nossas bizarrices, que carregamos no nosso íntimo, mas que fazemos o possível para que as pessoas não a conheçam. Nas palavras do próprio: “O meu mundo é estranho, mas digno de todos que o queiram aceitar. E nunca corrupto como querem fazê-lo. Pois é composto, meu amigo, de pessoas estranhas, mas não mais estranhas que VOCÊ!!!!” E, com isso, temos, por fim, uma obra genial, não só do cinema brasileiro, mas do cinema em geral, feito por uma pessoa que, apesar de sempre se autodeclarar um ignorante, um semi-analfabeto, tem uma grande sensibilidade e uma visão do ser humano (e de suas aberrações) fora do comum.
E nós cinéfilos devemos dar graças a Deus que ele resolveu mostrar essa visão em forma de filmes.
4/4
Adney Silva
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A história é a conhecida do pistoleiro Billy the Kid (Kris Kristofferson), não sua trajetória de fora-da-lei, mas seu final e a relação com o xerife Pat Garrett (James Coburn) – sob a ótica completamente amoral de Sam Peckinpah. Garrett acaba se tornando xerife por interesse em deixar sua vida de outlaw, e poder enriquecer, engordar e envelhecer supostamente em paz. Billy pode ter sido um dos bandidos mais famosos do Oeste, mas na história só foi ser realmente perseguido quando seu amigo Pat passou a ter de honrar sua estrela no peito. Sendo western, e com a trilha de Dylan, figuraria talvez com tranqüilidade nos dois tops anteriores aqui.
O filme funciona como uma viagem ao Oeste, montado num cavalo lerdo, uma garrafa de whisky pra matar a sede no deserto, e o arsenal de vagabundos e vagabundas sempre presentes nos filmes de Peckinpah. Não há nenhum segredo nem pudor, a maior parte do filme acaba sendo as viagens pelos lugares que Kid e Garrett passam em seu jogo de gato e rato – passando por fazendeiros corruptos, chicanos alegres, o bizarro personagem de Bob Dylan, putas de segunda categoria, velhos bêbados, outros outlaws que se tornaram xerifes, e os clássicos assassinatos com corpos caindo maravilhosamente em câmera lenta (muitos testemunhados por crianças).
“Há pouco tempo, eu era a lei, às ordens de Chisum. E o velho Pat era um fora da lei. A lei é uma coisa engraçada, não é? É melhor nos acostumarmos com ela.”, essa frase dita por Billy também mostra muito do clima que é colocado no filme inteiro. Com todos os percalços legais, perseguições e ditas fugas para o México, a parceria entre os dois nunca é posta em cheque. A lei, a moral, é uma coisa engraçada pra se acostumar, e ela pode terminar dentro de um copo de whisky, ou num corpo caindo em câmera lenta.
É uma jornada sem pressa, que Peckinpah vai conduzindo no tempo que te dá na telha. São duas horas em um deserto árido, o amarelo de lá tomando os olhos, cheiro de whisky, no mundo de Peckinpah – ninguém sabe direito qual é a de ninguém, tem uma melancolia meio estranha, meio feliz, entre todos os personagens; como se cada um soubesse exatamente o seu papel e sua responsabilidade nesse mundo sujo e vagabundo. Nada melhor como trilha como o próprio Dylan e sua Knockin’ on Heaven’s Door (‘Mama take this badge off me’) – e uma amizade estranha, mas genuína, entre os dois antagonistas.
4/4
Pedro Kerr
ou: Pat Garret & Billy the Kid (Sam Peckinpah, 1973) – Daniel Dalpizzolo – 4/4
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Daniel Costa
Terça-feira é dia de pagar pau pros mestres e contemplar o que os caras conseguem fazer com uma câmera. Dessa vez, o Daniel Costa nos traz dez imagens de uma das mais importantes obras no círculo do horror, a pedra angular dos slasher movies: Halloween – A Noite de Terror [/subtítulos idiotas mode = off]. Ganha um doce quem achar o Myers nas imagens, hehe.
*texto: Halloween (John Carpenter, 1978) – Pedro Kerr
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