Buio Omega (Joe D’Amato, 1979)

Se há filmes feitos pro cérebro, pro coração, pros olhos, ouvidos e até pro moleque pequeno [/Analista de Bagé], Buio Omega vai direto no estômago. D’Amato despe seu filme de todo tipo de artifício ou sofisticação visual comum no gênero (não estou dizendo que foi uma escolha consciente, porque não foi e pouco importa) mantendo apenas o que, pro italiano, é o que realmente interessa: sangue, tripas, carne retalhada, membros decepados e uns bons pares de peitos mortos.

Quase sempre entre os italianos somos transportados pra uma dimensão de perversidade e corrupção onde personagens e o próprio diretor conspiram para criar uma atmosfera de absoluto pessimismo e desesperança, e quase sempre resta um personagem, um elo que nos liga ao mundo de parâmetros e proporções morais devidamente moldadas. Em Buio Omega, D’Amato elimina este ponto de equilíbrio. Além de fazer do próprio Frank Wyler um monstro (sem recusar aquela tão óbvia mas providencial dubiedade de inocência) e de nos aproximar dele quase ao nível de uma 1ª pessoa, o suposto único bem-feitor da história é subvertido numa tiração de sarro impagável com o espectador.

Digo, aí depende do espectador. Quem sai à cata de Buio Omega e o assiste até o fim comendo uma pizza bem gordurosa de peperoni não pode esconder que quer mais é que todos se explodam, de preferência com aquela violência gráfica habitual dos caras. E o D’Amato é completamente maluco. Sei que a gente usa o termo às vezes, mas é literal agora, o cara é demente, é retardado mental, e é maravilhoso. Em geral os mestres do giallo se divertem é no ritual anterior e no momento da morte da vítima, mas D’Amato tá interessado mesmo é em brincar com o corpo humano como um bom açougueiro tarado. Inclusive a necrofilia de Frank Wyler é uma extensão da tara do próprio diretor. Há um momento em que ele passeia a câmera por um corpo sendo cremado de um jeito carinhoso e compulsivo, que culmina no momento em que ele dá um close todo tarado num mamilo pegando fogo. É inacreditável de se assistir e lindo presenciar alguém levando pra tela seu lado mais podre sem medo ou vergonha nenhuma.

Obra-prima ao instinto, à doença e ao mau-gosto.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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One Response to Buio Omega (Joe D’Amato, 1979)

  1. Filme B onde a mente de seu diretor vai além das limitações orçamentais. Ótimo estudo da alma humana regado a Gore que apenas os italianos sabiam fazer.