Ritual dos Sádicos (José Mojica Marins, 1970)

Se temos um diretor brasileiro que pode ser chamado de maldito, esse é Zé do Caixão. A maioria das pessoas conhece apenas a sua persona e, por isso, muitos a acham no mínimo inusitada, para não dizer ridícula. Mas poucos o conhecem como diretor, como ator e, sobretudo, como realizador de obras no mínimo interessantes, ainda mais se lembrarmos que ele é o único “bandeirante brasileiro” do terror, e que, na imensa maioria dos seus filmes, contava com recursos ínfimos, tendo que abusar e muito da sua criatividade e talento em contar histórias macabras. Das suas obras, “Ritual dos Sádicos/O Despertar da Besta” é a mais maldita e a mais genial.

Para quem desconhece, o filme, sob o nome de “Ritual dos Sádicos”, teve sua exibição proibida pela censura do governo militar, que não satisfeita, tentou ainda destruir todas as cópias e negativos. Mojica ainda tentou relançá-lo três anos depois, com alguas pequenas mudanças, sob o nome “O Despertar da Besta”, novamente sem sucesso. E assim, o filme ficou anos e anos nas duras e grotescas mãos da ditadura militar, até que, já na década de 80, com o fim do Regime, ele foi liberado e assim participou de vários festivais ao redor do Brasil. Entretanto, Ritual dos Sádicos acabou não entrando em circuito nacional, permanecendo até hoje inédito nos cinemas.

Assistindo ao filme, compreendemos o porquê dele ter sido proibido com tanta veemência pelos sisudos homens de farda. Merecedor do título de ousado e polêmico, o Ritual abordava diretamente, pela primeira vez no cinema brasileiro e em pleno auge da repressão militar, o uso de drogas como maconha, cocaína e LSD. Não apenas abordava, mas mostrava os personagens consumindo “tóxicos” (assim eram referidos os entorpecentes no filme) antes de sessões coletivas de coprofilia, sadismo, zoofilia, misoginia e outras “perversões”. Tanto material não passaria em brancas nuvens por eles.

Entretanto, toda essa amostra de práticas nefastas e condenáveis pela maioria das pessoas não foi colocada apenas para chocar. Mojica consegue mostrar uma obra memorável, recheada de citações metalinguísticas das mais variadas fontes, desde da sua própria persona (que muitas vezes é confundida com o diretor, fato esse abordado no filme), com a sua fama de maldito (ao inserir uma apresentação de um programa televisivo de grande audiência na época, chamado “Quem tem medo da verdade?”, onde ele era julgado por vários artistas), e com o próprio cinema (no espetacular plano final). Aqui também Mojica se utiliza do artífício de pincelar a cena-chave do seu filme com cores, constratando com a sua forma documental preto-e-branco habitual. O resultado, além de estéticamente ser fenomenal, ainda carrega em suas entranhas e nas cores escolhidas uma importância fundamental para a trama.

Como resultado de todas essas referências, temos uma obra inovadora, que não só é muito a frente do seu tempo, mas também confronta o telespectador, convidando-o a caminhar durante os 90 minutos no mundo bizarro e espetacular de Zé do Caixão, que é nada mais do que a representação de muitas das nossas bizarrices, que carregamos no nosso íntimo, mas que fazemos o possível para que as pessoas não a conheçam. Nas palavras do próprio: “O meu mundo é estranho, mas digno de todos que o queiram aceitar. E nunca corrupto como querem fazê-lo. Pois é composto, meu amigo, de pessoas estranhas, mas não mais estranhas que VOCÊ!!!!” E, com isso, temos, por fim, uma obra genial, não só do cinema brasileiro, mas do cinema em geral, feito por uma pessoa que, apesar de sempre se autodeclarar um ignorante, um semi-analfabeto, tem uma grande sensibilidade e uma visão do ser humano (e de suas aberrações) fora do comum.

E nós cinéfilos devemos dar graças a Deus que ele resolveu mostrar essa visão em forma de filmes.

4/4

Adney Silva

6 Comments

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6 Responses to Ritual dos Sádicos (José Mojica Marins, 1970)

  1. Sem dúvida um dos dez melhores filmes brasileiros de todos os tempos!

  2. Nunca vi esse, inclusive vi poucos filmes do Zé do Caixao… tava querendo muito ver o recente dele… A Encarnação do Demônio…

  3. Luis Henrique Boaventura

    Ritual tá aqui só aguardando pelo momento oportuno :B

  4. Luis Henrique Boaventura

    Visto. Do caralho demais, pqp. Eu esperava perversão e insanidade do Mojica, mas não uma sofisticação narrativa nesse nível, cada surto e cada colapso de sadismo cuidadosamente calculado, e uma aplicação da realidade sobre a ficção com o cara utilizando sua própria criação de um jeito ESPETACULAR atestando o poder do cinema e da sua própria mitologia sobre as pessoas. É além de tudo uma grande homenagem ao autoral e este talento tão condenado de se captar, assimilar e passar pra tela a fantasia impregnada em cada palmo da realidade. Mojica mostra que de modo algum são mundos distintos. Eles se misturam, se confundem, se transmutam um no outro até o momento em que se torna claro que vida alguma vale a pena sem um pouco de sonho e de imaginação.

  5. não conhecia o cinema do josé mojica até “encarnação do demônio”. achei repulsivo e ao sair do cinema tive a certeza que não faria a mínima questão de ver mais nada do diretor.

    diante de tantos elogios, fiquei curioso em assistir este, apesar de achar que não irei gostar – vide os grandes elogios para enc. do demo.

    tem em dvd ou pra download?

  6. Jeff, foi lançado para DVD numa compilação de seis filmes do diretor:

    http://www.2001video.com.br/detalhes_produto_extra_dvd.asp?produto=4904

    Esses DVD’s também são vendidos separadamente (dessa coleção falta para mim apenas o Finis Hominis e o A Meia Noite…), cada um por R$ 12,90 (a caixa com os seis sai por R$ 69,90).

    Jeff, se você não gostou do Encarnação, vai odiar ainda mais esse, já que o nivel de “repulsividade”, sadismo e peversidade (especialmente na primeira metade do filme) é ainda maior. Mas, cara, quando se vai ver algum filme do Mojica (especialmente os da década de 60 e 70), têm que estar preparado para cenas bem chocantes viscerais mesmo. Tudo isso faz parte do Universo que ele criou (que, sob uma outra ótica, está presente em todos nós). Ele apenas mostra esse Universo.