Neblinas e Sombras (Woody Allen, 1992)

Caramba, me surpreendi bastante. Como nunca tinha ouvido falar nesse, fui pensando que podia ser aqueles Allen menores, tipo Trapaceiros etc, só pra dar umas risadas mesmo, mas ele usa um ambiente pesado, soturno, com aquela neblina em movimento sempre, becos sem saída, paredes estreitas, aquela sensação de janelas vazias, de que mesmo com pessoas por de trás delas, nenhum grito seria ouvido, ou apenas ignorado. Joga um assassino pelas ruas com a intenção de aflorar o questionamento sobre a morte, e utiliza todo o ambiente pra brincar com os dois personagens, modificando a vida deles da mesma forma que a neblina e sombras modificam aquela cidade. Tem uma parte com a Mia Farrow e o Woody Allen, em que eles estão perto de uma ponte e olhando pro céu, bem quando a neblina decide dar uma tregua, e tem um diálogo mais ou menos assim, que ela começa falando:

– Mas isso é real, não? E bonito. Basta pensar sobre isso por um minuto. Aqui estamos nós, dois desconhecidos, andando pela noite, e está tudo tão.. tranquilo e sossegado. De repente surge uma brecha na neblina e podemos enxergar as estrelas. Este momento não parece perfeito?
– Sim… Mas, sabe, passa tão rápido. Veja, a neblina está voltando. Tudo está sempre se movendo. Em constante movimento, não me admira que eu fique enjoado.

Tudo está em constante movimento no filme. A neblina, a cidade, os personagens, a morte, a vida, a sombra e principalmente o tempo. É como se o importante fosse apenas fazer parte desse movimento, essa seria a recompensa. Como quando o personagem do John Cusack fala “suicidio, já pensei nisso. E em boa parte do tempo meu cerébro falou ‘pq não?’ Nada tem sentido. Mas alguma parte do meu sangue sempre diz ‘viva, viva…’ e eu sempre escuto o meu sangue”. E é assim que o Woody Allen brinca no filme. Ele joga os dois personagens na cidade, que mais parece uma maquete, ou um labirinto de ratos, e adianta manualmente o relógio da forma que bem entende, não na questão do tempo, mas das consquências que aquele movimento vai causar na vida deles. E fora que tem algumas das melhores frases dele. Ah, e é engraçado pra caramba.

3/4

Thiago Duarte

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Everest (David Breashears/Stephen Judson/Greg MacGillivray, 1998)

Um pouquinho de história: em 29 de maio de 1953, o neozelandês Edmund Hillary, acompanhado do sherpa Tenzing Norgay, chegou ao topo da montanha mais alta do mundo, o Monte Everest. De lá pra cá, muitos viriam a repetir esse feito e outras centenas viriam a morrer, vítimas de avalanches, tempestades, edemas, hipoxia, quedas em fendas e outras tantas fatalidades que um lugar inóspito como esse pode oferecer. A pergunta que fica é a seguinte: se o lugar é perigoso pra caralho, porquê diabos tem tanta gente indo pra lá se arriscar (e pra mim, ainda fica mais uma pergunta: porquê diabos acho tudo isso tão legal?)?

Em busca de uma resposta pra essa pergunta, David Breashers pegou carona na expedição liderada por Ed Viesturs, em 1996, e, levando todo o equipamento necessário para uma filmagem IMAX (equipamento que foi carregado por três sherpas montanha acima), se mandou acompanhado, ainda, por Araceli Segarra (alpinista espanhola que, nessa expedição, tentava se tornar a primeira espanhola a pôr os pés no ponto mais alto do planeta) e por Jamling Tenzing Norgay, filho do sherpa Tenzing Norgay, que chegou ao topo ao lado de Sir Edmund Hillary.

Puta que pariu, como eu gostaria de ter visto esse documentário em formato IMAX. Cada imagem é um espetáculo visual, cada depoimento da equipe é revelador e confuso ao mesmo tempo. Tudo acompanhado da narração distante de Liam Neeson que parece se surpreender com o que está vendo, também.

Um ponto especial nesse documentário é o registro do maior desastre ocorrido no Everest. No dia 10 de maio de 1996, as equipes dos experientes Rob Hall e Scott Fischer foram pegas por uma tempestade no topo do Everest. Não entrarei em detalhes maiores (embora a história seja fascinante)… quem tiver interesse, os livros “No Ar Rarefeito”, de Jon Krakauer, e “A Escalada”, de Anatoli Boukreev, contam tudo em minúcias. Mas é simplesmente tocante ouvir os comentário de David Breashers sobre a morte de seu amigo Rob Hall, que acabara ficando isolado e preso no meio da neve.

Ao final, mesmo que a equipe de Viesturs tenha tido melhor sorte do que Hall e Fischer, conseguindo atingir o cume da montanha, a pergunta lá de cima ainda resta. Pra que diabos subir a montanha? Parece que a única resposta decente continua sendo a de Andrew Irvine (que ao lado de George Mallory, tentou realizar a primeira ascensão ao Everest, em 1924) que, quando questionado por um jornalista sobre o porquê de tentar subir a montanha, respondeu “porque ela está lá”.

3/4

Murilo Lopes de Oliveira

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O Dia em Que a Terra Parou (Scott Derrickson, 2008)

Ao contrário de muita gente, não sou contra os remakes. Inclusive várias pessoas que são completamente contra esquecem de alguns fatos. Primeiro, que os remakes já acontecem desde que Hollywood é Hollywood. Inclusive, vários diretores já fizeram remakes de seus próprios filmes (Alfred Hitchcock e Cecil B. DeMille, só para ficar em dois exemplos). Segundo, que não é via de regra que o remake não será tão bom quanto o original (Como exemplos, “Nosferatu”, de Herzog, e “O Homem Que Sabia Demais”, do Hitchcock). Muito desse sentimento de repulsa em relação aos remakes, especialmente se o material original é considerado clássico, é o fato de que “na comparação, o remake sempre sairá perdendo”. E exemplos disso não faltam. Infelizmente, “O Dia em Que a Terra Parou”, refilmagem do filme de Robert Wise, é mais um deles.

Um ds grandes méritos do longa original é justamente o tom sombrio, pendendo para o suspense, que nos faz perguntar até, em certos momentos, se Klaatu realmente está impelido em salvar a Terra, além de ter um gosto um tanto quanto amargo (mas bastante adequado) ao fim do filme. Mas nesse filme, tudo isso é trocado pela ação digna de um filme catástrofe, diluindo todo o clima de suspense (que até aparece na primeira meia-hora do longa). UIsso acaba se agravando na sua última meia0hora, quando o longa abandona a conclusão interessante do original e parte para uma solução muito mais cômoda e fácil, destruindo todo o discurso de alerta produzido na sua metade inicial.

Por mais incrível que isso possa parecer, uma das poucas coisas boas é justamente Keanu Reeves. Fiquem calmos: não estou dizendo que ele se tornou um bom ator de uma hora para outra. Mas a “falta de emoção” de Klaatu acabou caindo como uma luva para a inexpressividade do ator. Por outro lado, Jennifer Connelly, apesar de ser uma das coisas mais belas criadas pela natureza, acaba tendo sua atuação prejudicada pela composição de seu personagem. Mas o maior desastre do filme atende pelo nome de Jaden Smith (filho de Will Smith). O que seria um dos elos de ligação entre o alienígena e a humanidade se transforma em um personagem extremamente chato e concebido apenas para inserir um conflito familiar extremamente desnecessário ao filme. John Cleese é o único que se salva do desastre completo, mas como a sua participação é bastante reduzida, não é o suficiente para tirar o filme do desastre.

O que poderia ser um longa extremamente oportuno e de acordo com a situação mundial (visto que ainda brincamos de “Quem destrói o seu semelhante mais rápido?”) acaba se tornando um desperdício de tempo e dinheiro. O que, curiosamente, me força a transcrever a mesma frase da minha resenha anterior, mas por outros motivos: prova de que nós, apesar de nos considerarmos “seres racionais”, não conseguimos aprender com os nossos próprios erros.

1/4

Adney Silva

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Cheap Magic Inside (Vincent Moon, 2007)

Cheap Magic Inside nem é um filme, direito. Tá mais pra uma “sacada criativa”, mesmo. Mas vamos pelo começo: Zach Condon é um rapaz de mais ou menos 22 anos que tem um projeto musical chamado Beirut. Em 2007, foi lançado “The Flying Club Cup”, segundo cd do projeto e, simultaneamente, foi lançado o DVD com esse “Cheap Magic Inside”. A grosso modo, “Cheap Magic Inside” é “The Flying Club Cup” filmado. A câmera de Vincent Moon persegue Zach Condon em imensos planos-seqüências, mostrando ele se encontrando com os demais músicos do projeto e cantando as músicas do seu mais novo album. Tocando em lugares que vão desde o jardim de um prédio até um estacionamento de caminhões de sorvete (!), Zach e os demais não têm a piedade da câmera. Tudo é filmado no seco, sem cortes e, arrisco dizer, no improviso. Acredito ter visto, no máximo, uns 5 cortes durante toda a projeção (o vídeo tem pouco mais de uma hora de duração), todos muitos sutis e aproveitando-se do ambiente (por exemplo, em um momento, a câmera entra em uma coxia de teatro e fica tudo escuro. Certamente, há um corte ali, mas, como a câmera volta a operar ainda no escuro, a sensação de imediatismo e continuidade não se perde). Compreendendo a presença realmente constante da câmera como algo positivo, a banda realmente se despe de qualquer “pudor técnico” e se permite improvisar, também. Alguns desafinam, outros intrometem-se na cantoria de Zach. Tudo é permitido para que se expresse sentimentos enquanto a música é tocada. E a câmera passeia por entre os músicos, dança e se permite alguns invencionismos, também.

Servindo ainda, como um tapa de luva nos eruditos teóricos da música (músicas como as da banda Beirut certamente pediriam ambiências mais adequadas, que dessem privilégio à acustica e mais uma meia dúzia de coisas que não entendo… mas os caras fazem questão de tocar em corredores de prédios, em escadas, ao lado de uma mesa de bilhar, no galpão onde ficam os caminhões dos sorveteiros, no parque, na rua mesmo…), “Cheap Magic Inside” é algo simples e bonito, que consegue potencializar tudo o que a música da banda de Zach Condon evoca. Entretanto, por mais que tente adotar uma roupagem “indie”, mostrando uma filmagem “granulada” e insistindo que foi tudo feito “na louca”, eles não enganam ninguém. Ao menos, aquele cinegrafista sabia muito bem o que estava fazendo.

4/4

Murilo Lopes de Oliveira

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Billy Elliot (Stephen Daldry, 2000)

Revendo hoje Billy Elliot (após certa madrugada distante, na Globo), percebo que o filme está longe de ser aquele “nada” pretensioso que imaginava. Isso porque Billy Elliot não é sobre repressão, nem é sobre um garoto vivendo um período de revolução na Inglaterra necessariamente. Muito menos é um filme sobre o balé. Esta sensível obra de Stephen Daldry tem como procura a felicidade em momentos delicados – e aí são aplicados alguns panos-de-fundo como estes, muito bem explorados ao longo dos minutos – e de forma sutil, sem nunca explodir definitivamente ou alcançar uma redenção imediata.

Billy Elliot é um garoto de 12 anos que cuida de sua debilitada avó, enquanto seus pai e irmão fazem uma greve à firma das minas onde trabalham. Enquanto vai a uma aula de boxe, conhece a turma de balé comandada pela Sra. Wilkinson e, conforme já gostava de música clássica e de tocar piano, logo descobre também na arte da dança uma atração pessoal, inexplicável. Billy, lógico, passará por algum percalço tendo em vista o fato de o balé ser considerado historicamente feminino, mas jamais o filme procura tratá-lo como “coitado”. Mesmo seu pai jamais lhe dá uma surra ou faz uma caçada à procura do filho, obrigando-o a voltar ao boxe. Todos os sentimentos são contidos, sejam eles os das crianças – que se abrem diante de Billy: Michael, o futuro gay, e Debbie, à procura de uma companhia – ou sejam os dos adultos – a vida cansada de Wilkinson e as formas distintas com as quais seus familiares tratam a greve.

O filme alcança seu ápice quase à 1 hora de projeção, numa cena em que a sra. Wilkinson decide falar com o pai e o irmão de Billy, logo após este perder uma audição para uma escola de balé. Neste momento, percebemos toda a situação conflituosa interior no rapaz – e isso fala muito a mim, em particular –: esquerda, direita, homofobia, dificuldades financeiras, prisão, viagem, distância, perda. São tantos os debates e os problemas que ocorrem à sua volta (e com os quais ele é obrigado a conviver) que ele se vê sem saber tomar um lado, afinal não quer magoar ninguém. E, realmente, agradar a todos e ainda se satisfazer é o lado mais difícil para a nossa espécie. Ou mais: sacrificar suas vontades para não deixar alguém mais triste.

O que Billy faz é, simplesmente, dançar, aceitem ou não, na escola ou nos caminhos que percorre. Como admitirá ao auditor em Londres, ali ele desaparece e consegue um momento efusivo de alegria, é a vida no máximo. Quando decide dançar para seu pai, mesmo sabendo que este é contra a sua inscrição, ele consegue convencê-lo e também levar um pouco de alegria a seu velho, mostrando que possui um talento. E não importa se o pagamento virá de grevistas, de burgueses para sua inscrição.

Ao fim, todos lutam pelo sucesso de Billy e pela sua felicidade. Contidos ainda, os personagens coadjuvantes – a quem ele tanto devotara – agora tornam seu futuro maior e melhor mesmo que voltem para seu presente comum e sórdido. Até a grande exibição, em que ninguém precisa ser “salvo” ou se redimir por completo, afinal todos erraram e contribuíram, afinal. Tudo vale a pena quando a alma não é pequena – Pessoa e Daldry estão certos.

4/4

Cassius Abreu

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O Dia em Que a Terra Parou (Robert Wise, 1951)

Uma das coisas que mais admiro nas obras que abordam a ficção-científica, é o caráter quase que messiânico que elas carregam. Muitos das obras desse gênero conseguem, se não prever com total exatidão acontecimentos futuros, delinear, de forma implícita, fatos que ocorrerão futuramente. Isso se deve ao fato dessas obras, em sua maioria, serem produzidas por mentes prodigiosas, o que somente prova o quão tênue é a linha que separa a arte da inspiração divina. E, de acordo com esse caráter messiãnico, o cinema é um dos mais prolíficos.

O Dia em Que a Terra Parou pode ser considerado um marco do gênero, ao abordar várias questões que premeavam o mundo pós-segunda grande guerra. Uma vez que o “grande inimigo” foi vencido, é hora de “dividir o bolo”. E, como os governantes das duas maiores nações mundiais da época não tolerariam ter um pedaço menor do que o outro, inicia-se então uma disputa, não através da guerra em si, mas através da ameaça dela, ou, melhor dizendo, através da ostentação de poderes. Nascia, então, a Guerra Fria. E, apenas 6 anos depois da Segunda Grande Guerra, ainda no início dessa Guerra Fria, temos um filme que traça um quadro completo e espantoso de suas possíveis consequências.

O diretor Robert Wise consegue imprimir um clima totalmente soturno, com uma carga de suspense constante ao longo dos seus 90 minutos. Somado a isso, temos ainda as boas atuações dos personagens principais (especialmente de Michael Rennie, que interpreta o alienígena Klaatu). Mas o maior mérito em criar o clima de suspense constante deve-se a trilha sonora perfeita de Bernard Herrmann, que usa com maestria os sons graves nos momentos adequados, além do uso oportuno do teremim como contraponto a esses sons, imprimindo um aspecto sobrenatural ao longa, na falta de uma palavra melhor.

Apesar do clima soturno que permeia toda a trama, o filme ainda traz uma mensagem de alerta no final que pode ser interpretada de diversas maneiras. Apesar de soar como uma alerta, pode-se dizer que Klaatu sugere a prevenção da destruição do planeta pela opressão, já que, em suas palavras, “ao mínimo sinal que os povos se degladiarão e ameaçarão outros planetas, a Terra seria exterminada sem dó.”. Em tempos onde temos governantes que se declaram protetores da humanidade, e provocam uma guerra para tentar reafirmar essa posição, é de se admirar que essa mensagem tenha sido feita ainda na década de 50.

Assim, O Dia em Que a Terra Parou ainda se firma como um dos mais relevantes filmes de ficção-científica de todos os tempos, ainda se mantendo atualíssimo. Prova de que nós, apesar de nos considerarmos “seres racionais”, não conseguimos aprender com os nossos próprios erros.

3/4

Adney Silva

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Screenshots! – Manhattan (Woody Allen, 1979)

Thiago Macêdo Correia

O primeiro filme que Woody Allen fez sem cores parece uma brincadeira para esconder em sombras a paixão que emana na tela. Manhattan é o lugar mais apaixonado do mundo, na tela de Allen, mesmo que pintada de branco e preto.

Clique nas imagens pra ver em tamanho original:

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Delírios de um Anormal (José Mojica Marins, 1978)

As décadas de 60 e 70 foram, sem dúvida nenhuma, um período negro para o cinema brasileiro. Com a censura e a liberdade de expressão bastante podada, pouquíssimas obras não sofriam providenciais cortes pelo departamento militar responsável, em nome da moral e dos bons costumes. E cada corte, por mínimo que seja, retira boa parte da identidade estética e narrativa do filme. E, como já devia se esperar, José Mojica Marins foi o mais prejudicado nessa época.

Nessa época, no auge de sua criatividade, Mojica via suas obras sendo brutalmente cortadas, e até mesmo impedidas de serem exibidas, mesmo após os cortes. Claro que tudo isso abalou significativamente o cineasta, a ponto de, durante alguns anos, abandonar o seu maior personagem e até mesmo o estilo que abraçou, passando a filmar comédias e até mesmo pornochanchadas (sobre o pseudômino de J. Avelar). Entretanto, Mojica, sendo um homem visionário, guardou cada uma das cenas cortadas, pensando, talvez, em utilizá-las em algum momento oportuno.

Eis que os anos passam, e o momento oportuno chegou.

Já no final da década de 70, com os dentes da censura não tão afiados assim, Mojica resolve voltar ao personagem e ao gênero que o consagrou. Através de um roteiro brilhantemente concebido por seu habitual colaborador Rubens Luchetti, ele conseguiu que as cenas cortadas anteriormente (e que, de certa forma, representavam parte do seu universo podado) fossem concebidas em um novo conceito. Com elas, e cerca de meia horas de cenas filmadas (que servem para delinear o mote do filme), Mojica, tal qual Dr. Frankestein, concebe uma magnífica criatura através da junção de pedaços de outros filhos seus. Nascia, assim, “Delírios de um Anormal”.

Em Delírios de um Anormal, o personagem principal é o Dr Hamilton, um famoso psiquiatra que é atormentado por pesadelos nos quais Zé do Caixão toma a sua esposa, Tânia, para ser a mulher que irá gerar o filho perfeito para o coveiro. Os colegas médicos de Hamilton decidem buscar ajuda para esses pesadelos sem fim do amigo e entram em contato com o cineasta José Mojica, que tenta fazer com que Hamilton acredite que Zé do Caixão é apenas um personagem fictício.

Através desse roteiro, Mojica tinha o veículo certo para costurar todas as cenas anteriormente censuradas e adequá-las a um novo conceito, no caso, as cenas envolvendo os delírios de Dr. Hamilton. E o trabalho final desasa colagem é extremamente criativo e impactante, não só pelo trabalho de edição fenomenal de Nilcemar Leyart, mas por também ser, em uma livre itnerpretação, um libelo, um desabafo de Mojica contra aqueles que ameaçaram podar sua criatividade e visão anos atrás. Principalmente se levarmos em consideração que o filme (mesmo sendo aterrorizante e, até certo ponto, insano e imoral como os seus outros trabalhos) ter passado de forma integral (sem cortes) pela censura.

Além de apresentar um das mais maravilhosas e significativas comprovações do experimento de Mosjukin (onde a adição de um plano, ou mesmo a colagem de vários planos, pode alterar o significado de outro), Mojica nos apresenta um soberbo uso da metalinguagem (tal qual “Ritual dos Sádicos”), desta vez com um embate entre criador e criatura, e com um desdobramento final que explora essa relação de forma inteligentíssima, onde, mais uma vez, ele mostra sua sensibilidade em perceber o lado mais obscuro do ser humano.

Com tudo isso, “Delírios de um Anormal”, se não é a obra mais significativa dele, se firma como uma das experiências cinematográficas mais intensas e sensacionais que eu já vi. Ritual dos Sádicos continua sendo o meu preferido, mas esse chega muito perto!

4/4

Adney Silva

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Felizes Juntos (Wong Kar-Wai, 1997)

Um filme narrado, onde supostamente a lógica deveria determinar seu andamento. A narração é em primeira pessoa, algumas vezes permite a liberdade de se modificar o ponto de vista, ouvir um outro narrador. Todos falam sobre eles mesmos. Que lógica pode se exigir de um filme onde os personagens amam e andam de acordo com o amor? Felizes Juntos não faz nenhum sentido, é todo “errado”. Uma profusão de imagens, estéticas diferentes, um preto e branco de uma memória que se mistura ao tempo real, a cor berrante de um momento atual, que esbanja paixão, em dias verdes e noites vermelhas. Um frio e um calor, acelera-se o tempo e depois a velocidade é retraída, nos já tradicionais slows de Wong Kar Wai. Se está aqui, em meio ao ódio, para depois se estar lá, em meio ao amor. Fica tudo relativo ao esquema propulsor das sensações, da textura da cor, da inundação de sons. E uma catarata, que reverte para dentro de si toda a pulsão de força. É o amor indo pra dentro, jorrando lágrimas brutais em corpos incapazes de derramá-las pro mundo. Resta então continuar.

4/4

Thiago Macêdo Correia

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Multiplot! em Números

O Murilo, homem das estatísticas aqui no MP!, tá produzindo um anuário pra gente e levantou uns números que sinceramente nos surpreendeu. O MP! abriu as portas no dia 11 de maio de 2008, desde então tivemos 77 mil visitas (40 só nos últimos três meses), mais de 1500 comentários, 5 especiais, cobertura de 2 festivais e, além disso, foi postado, com exceção de tops, screenshots, páginas para os diretores e comentários como este, o seguinte:

Acervo Geral – 142 textos
Festival Internacional de Curtas em BH – 25 textos
Especial Indiana Jones – 4 textos
Saga Batman – 7 textos
Superman 30 Anos – 5 textos
Especial Western – 16 textos
Especial James Dean – 15 textos
Especial M. Night Shyamalan – 8 textos
Especial Stanley Kubrick – 13 textos
Estréias 2008 – 37 textos
Festival do Rio – 20 textos

Total: 292 textos, em 7 meses e meio.

E vamos em frente!

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