Delírios de um Anormal (José Mojica Marins, 1978)

As décadas de 60 e 70 foram, sem dúvida nenhuma, um período negro para o cinema brasileiro. Com a censura e a liberdade de expressão bastante podada, pouquíssimas obras não sofriam providenciais cortes pelo departamento militar responsável, em nome da moral e dos bons costumes. E cada corte, por mínimo que seja, retira boa parte da identidade estética e narrativa do filme. E, como já devia se esperar, José Mojica Marins foi o mais prejudicado nessa época.

Nessa época, no auge de sua criatividade, Mojica via suas obras sendo brutalmente cortadas, e até mesmo impedidas de serem exibidas, mesmo após os cortes. Claro que tudo isso abalou significativamente o cineasta, a ponto de, durante alguns anos, abandonar o seu maior personagem e até mesmo o estilo que abraçou, passando a filmar comédias e até mesmo pornochanchadas (sobre o pseudômino de J. Avelar). Entretanto, Mojica, sendo um homem visionário, guardou cada uma das cenas cortadas, pensando, talvez, em utilizá-las em algum momento oportuno.

Eis que os anos passam, e o momento oportuno chegou.

Já no final da década de 70, com os dentes da censura não tão afiados assim, Mojica resolve voltar ao personagem e ao gênero que o consagrou. Através de um roteiro brilhantemente concebido por seu habitual colaborador Rubens Luchetti, ele conseguiu que as cenas cortadas anteriormente (e que, de certa forma, representavam parte do seu universo podado) fossem concebidas em um novo conceito. Com elas, e cerca de meia horas de cenas filmadas (que servem para delinear o mote do filme), Mojica, tal qual Dr. Frankestein, concebe uma magnífica criatura através da junção de pedaços de outros filhos seus. Nascia, assim, “Delírios de um Anormal”.

Em Delírios de um Anormal, o personagem principal é o Dr Hamilton, um famoso psiquiatra que é atormentado por pesadelos nos quais Zé do Caixão toma a sua esposa, Tânia, para ser a mulher que irá gerar o filho perfeito para o coveiro. Os colegas médicos de Hamilton decidem buscar ajuda para esses pesadelos sem fim do amigo e entram em contato com o cineasta José Mojica, que tenta fazer com que Hamilton acredite que Zé do Caixão é apenas um personagem fictício.

Através desse roteiro, Mojica tinha o veículo certo para costurar todas as cenas anteriormente censuradas e adequá-las a um novo conceito, no caso, as cenas envolvendo os delírios de Dr. Hamilton. E o trabalho final desasa colagem é extremamente criativo e impactante, não só pelo trabalho de edição fenomenal de Nilcemar Leyart, mas por também ser, em uma livre itnerpretação, um libelo, um desabafo de Mojica contra aqueles que ameaçaram podar sua criatividade e visão anos atrás. Principalmente se levarmos em consideração que o filme (mesmo sendo aterrorizante e, até certo ponto, insano e imoral como os seus outros trabalhos) ter passado de forma integral (sem cortes) pela censura.

Além de apresentar um das mais maravilhosas e significativas comprovações do experimento de Mosjukin (onde a adição de um plano, ou mesmo a colagem de vários planos, pode alterar o significado de outro), Mojica nos apresenta um soberbo uso da metalinguagem (tal qual “Ritual dos Sádicos”), desta vez com um embate entre criador e criatura, e com um desdobramento final que explora essa relação de forma inteligentíssima, onde, mais uma vez, ele mostra sua sensibilidade em perceber o lado mais obscuro do ser humano.

Com tudo isso, “Delírios de um Anormal”, se não é a obra mais significativa dele, se firma como uma das experiências cinematográficas mais intensas e sensacionais que eu já vi. Ritual dos Sádicos continua sendo o meu preferido, mas esse chega muito perto!

4/4

Adney Silva

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2 Responses to Delírios de um Anormal (José Mojica Marins, 1978)

  1. Conheço pouco do Zé do Caixão… aliás faz muito tempo que assisti a um filme dele que nem lembro como era…

  2. arthur

    O “experimento de Mosjukin”(esse era o nome do ator dos planos) também é conhecido como efeito kulechov, pois foi a partir dos experimentos e ideias deste cineastas russo que surgiu essa concepção, esse entendimento na montagem.
    O experimento consiste em confrontar uma mesma imagem, a principio (teoricamente) indiferente, de um homem com diferentes plano para causar significados diferentes, que surgiriam a partir do conflito das duas imagens. Ex: Mosjukin+frango frito=fome, Mosjukin+mulher bonita com “aquela luz” difusa=paixão, e mais o que você puder pensar. {Se você não sacou, um cara chamado Alfred pode lhe explicar: http://www.youtube.com/watch?v=hCAE0t6KwJY }
    De fato, o filme do zé é uma grande colagem, mas não é o efeito original, é algo que parte dele, pois a questão desse efeito foi levantada numa era pré-cinema moderno. Em uma época em que a linguagem e as formas no cinema estavam caminhando e sendo experimentadas. Kulechov descobriu certos princípios da montagem, em como fazer a construção de discursos – como podemos lembrar, o cinema dele estava em um polo oposto ao do cinema narrativo americano, o das narrativas burguesas, como era entendido por todo comunista mais progressista: toda arte revolucionária precisa não só de conteúdo revolucionário, mas também de uma forma nova, que o acompanhe e favoreça a revolução também na frente cultural. (Existe até uma passagem no pequeno livro vermelho de Mao ,no cápitulo sobre arte e cultura, que argumenta da mesma forma pedindo a mesma forma de ação.)
    Assim, o cinema soviético, prezava pelo efeito que o discurso iria produzir, pelo seu entendimento, assim como também pelo discurso de efeito, pelo impacto e pela força.
    As duas cenas mais expressivas, e mais conhecidas (talvez por isso), são de dois filmes de Sergei Eisenstein. São estas pertencentes ao filme A Greve, cena em que um massacre de operário é intercalado com cenas de um boi sendo abatido no matadouro, e a outra é do filme O Encouraçado Potemkin, onde um carrinho de bebê “desce” as escadarias de Odessa, mas numa montagem que justapõe o massacre de um lado e o carrinho desgoverno do outro. É a violência passional da ânsia por liberdade frente ao absurdo da condição (social) humana e a agressividade do discurso revolucionário (classista) inflamado.

    cena de potemkin: http://www.youtube.com/watch?v=euG1y0KtP_Q
    cena de A greve: http://www.youtube.com/watch?v=jWiDciPuSW4

    Mas, bem, o filme do zé é muito mais uma colagem DADA {http://www.artchive.com/artchive/h/hausmann/hausmann_art_critic.jpg}, usando-se de pedaços e cenas cortadas, ressignificando as mesmas dentro de um novo contexto, do que um experimento kulechov, mas tem origem numa mesma essência de pensamento, a idéia da colagem-montagem – não tenho uma palavra pra isso (e nem quero fixar uma), alguns chamam colagem, outros montagem, uns outros de plágio, ou desvio (o détournement) e até mesmo de cut-up (William Burroughs).
    Assim como toda construção é formada por elementos menores, toda arte é também uma montagem, uma construção (cor azul, quero esse plano não aquele, composiçãode tela, música em Dó, versos, luz azul, pessoas, etc.). Burroughs disse que toda arte no fundo é um cut-up, um recorte de outras que vimos e agora queremos montar. Mas aqui já passamos para outro assunto (um ótimo debate): autoria.

    Mas que seja dito o que eu acho: Cahiers du cinemà contra as colagens-montagem e o plágio. Plágio é uma questão de princípios, Mr. Hegel? Eu acho que é mais uma questão de escolha.

    Bem, é isso que eu penso sobre aquilo que você falou lá atrás.