O Dia em Que a Terra Parou (Robert Wise, 1951)

Uma das coisas que mais admiro nas obras que abordam a ficção-científica, é o caráter quase que messiânico que elas carregam. Muitos das obras desse gênero conseguem, se não prever com total exatidão acontecimentos futuros, delinear, de forma implícita, fatos que ocorrerão futuramente. Isso se deve ao fato dessas obras, em sua maioria, serem produzidas por mentes prodigiosas, o que somente prova o quão tênue é a linha que separa a arte da inspiração divina. E, de acordo com esse caráter messiãnico, o cinema é um dos mais prolíficos.

O Dia em Que a Terra Parou pode ser considerado um marco do gênero, ao abordar várias questões que premeavam o mundo pós-segunda grande guerra. Uma vez que o “grande inimigo” foi vencido, é hora de “dividir o bolo”. E, como os governantes das duas maiores nações mundiais da época não tolerariam ter um pedaço menor do que o outro, inicia-se então uma disputa, não através da guerra em si, mas através da ameaça dela, ou, melhor dizendo, através da ostentação de poderes. Nascia, então, a Guerra Fria. E, apenas 6 anos depois da Segunda Grande Guerra, ainda no início dessa Guerra Fria, temos um filme que traça um quadro completo e espantoso de suas possíveis consequências.

O diretor Robert Wise consegue imprimir um clima totalmente soturno, com uma carga de suspense constante ao longo dos seus 90 minutos. Somado a isso, temos ainda as boas atuações dos personagens principais (especialmente de Michael Rennie, que interpreta o alienígena Klaatu). Mas o maior mérito em criar o clima de suspense constante deve-se a trilha sonora perfeita de Bernard Herrmann, que usa com maestria os sons graves nos momentos adequados, além do uso oportuno do teremim como contraponto a esses sons, imprimindo um aspecto sobrenatural ao longa, na falta de uma palavra melhor.

Apesar do clima soturno que permeia toda a trama, o filme ainda traz uma mensagem de alerta no final que pode ser interpretada de diversas maneiras. Apesar de soar como uma alerta, pode-se dizer que Klaatu sugere a prevenção da destruição do planeta pela opressão, já que, em suas palavras, “ao mínimo sinal que os povos se degladiarão e ameaçarão outros planetas, a Terra seria exterminada sem dó.”. Em tempos onde temos governantes que se declaram protetores da humanidade, e provocam uma guerra para tentar reafirmar essa posição, é de se admirar que essa mensagem tenha sido feita ainda na década de 50.

Assim, O Dia em Que a Terra Parou ainda se firma como um dos mais relevantes filmes de ficção-científica de todos os tempos, ainda se mantendo atualíssimo. Prova de que nós, apesar de nos considerarmos “seres racionais”, não conseguimos aprender com os nossos próprios erros.

3/4

Adney Silva

10 Comments

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10 Responses to O Dia em Que a Terra Parou (Robert Wise, 1951)

  1. Eu sempre quis assistir este filme, inclusive queria assisti-lo agora para conferir a refilmagem, que não espero muita coisa, mas quem sabe…

  2. Luis Henrique Boaventura

    Eu não espero nada dos dois, hehe, mas quem sabe..

  3. Caio Lucas

    Esse não é um dos maiores clássicos da ficção nunca!

    A história já era boba 5o anos atrás, imagina o mesmo enredo 50 anos depois. Parece que o novo é assim.

  4. Caio Lucas

    Pela temática pode ser ainda atual, mas nunca pela abordagem.

  5. Vinícius Laurindo

    “Quem sabe”? Da série não-vi-e-não-gostei, haha.

  6. Luis Henrique Boaventura

    Na mosca Vinny, haha

  7. Leonardo Cruz

    Esse é clássico absoluto.

  8. Luigi, veja. Talvez você goste. XD

  9. Vivi Werneck

    Esse filme é um clássico! Vamos ver se a refilmagem valerá mesmo a pena! Sendo que já tem o Keanu Reeves no elenco então, para mim, já vale o ingresso! Hehehe… Ótimo texto Adney! :D