Billy Elliot (Stephen Daldry, 2000)

Revendo hoje Billy Elliot (após certa madrugada distante, na Globo), percebo que o filme está longe de ser aquele “nada” pretensioso que imaginava. Isso porque Billy Elliot não é sobre repressão, nem é sobre um garoto vivendo um período de revolução na Inglaterra necessariamente. Muito menos é um filme sobre o balé. Esta sensível obra de Stephen Daldry tem como procura a felicidade em momentos delicados – e aí são aplicados alguns panos-de-fundo como estes, muito bem explorados ao longo dos minutos – e de forma sutil, sem nunca explodir definitivamente ou alcançar uma redenção imediata.

Billy Elliot é um garoto de 12 anos que cuida de sua debilitada avó, enquanto seus pai e irmão fazem uma greve à firma das minas onde trabalham. Enquanto vai a uma aula de boxe, conhece a turma de balé comandada pela Sra. Wilkinson e, conforme já gostava de música clássica e de tocar piano, logo descobre também na arte da dança uma atração pessoal, inexplicável. Billy, lógico, passará por algum percalço tendo em vista o fato de o balé ser considerado historicamente feminino, mas jamais o filme procura tratá-lo como “coitado”. Mesmo seu pai jamais lhe dá uma surra ou faz uma caçada à procura do filho, obrigando-o a voltar ao boxe. Todos os sentimentos são contidos, sejam eles os das crianças – que se abrem diante de Billy: Michael, o futuro gay, e Debbie, à procura de uma companhia – ou sejam os dos adultos – a vida cansada de Wilkinson e as formas distintas com as quais seus familiares tratam a greve.

O filme alcança seu ápice quase à 1 hora de projeção, numa cena em que a sra. Wilkinson decide falar com o pai e o irmão de Billy, logo após este perder uma audição para uma escola de balé. Neste momento, percebemos toda a situação conflituosa interior no rapaz – e isso fala muito a mim, em particular –: esquerda, direita, homofobia, dificuldades financeiras, prisão, viagem, distância, perda. São tantos os debates e os problemas que ocorrem à sua volta (e com os quais ele é obrigado a conviver) que ele se vê sem saber tomar um lado, afinal não quer magoar ninguém. E, realmente, agradar a todos e ainda se satisfazer é o lado mais difícil para a nossa espécie. Ou mais: sacrificar suas vontades para não deixar alguém mais triste.

O que Billy faz é, simplesmente, dançar, aceitem ou não, na escola ou nos caminhos que percorre. Como admitirá ao auditor em Londres, ali ele desaparece e consegue um momento efusivo de alegria, é a vida no máximo. Quando decide dançar para seu pai, mesmo sabendo que este é contra a sua inscrição, ele consegue convencê-lo e também levar um pouco de alegria a seu velho, mostrando que possui um talento. E não importa se o pagamento virá de grevistas, de burgueses para sua inscrição.

Ao fim, todos lutam pelo sucesso de Billy e pela sua felicidade. Contidos ainda, os personagens coadjuvantes – a quem ele tanto devotara – agora tornam seu futuro maior e melhor mesmo que voltem para seu presente comum e sórdido. Até a grande exibição, em que ninguém precisa ser “salvo” ou se redimir por completo, afinal todos erraram e contribuíram, afinal. Tudo vale a pena quando a alma não é pequena – Pessoa e Daldry estão certos.

4/4

Cassius Abreu

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One Response to Billy Elliot (Stephen Daldry, 2000)

  1. Bruna

    Filme fantástico…
    Gostei do sua visão do filme!