Marnie, Confissões de uma Ladra (Marnie – Alfred Hitchcock, 1964)

Acho que boa parte do pessoal daqui sabe o quanto eu sou fã do Hitch.. E uma das razões de eu ser fã dele é que, além dos seus maravilhosos filmes mais conhecidos, a sua carreira é composta de pérolas que podem ser consideradas como “obras bastardas”, que, por um acaso do destino, ou por serem avançadas demais para a época, ou ainda por qualquer outro motivo, não são tão exaltadas pelo grande público. Marnie, não só é uma dessas obras, como pode ser considerado o último filme de uma era grandiosa de Hitchcock.

Originalmente produzido para promover a volta gloriosa de Grace Kelly as telas do cinema, “Marnie” parte do conflito psicológico e sexual de uma mulher, causado por um trauma de infância, que a leva a praticar roubos constantes à pessoas com as quais ela trabalha, para explorar todo esse confronto ao passado sombrio da personagem principal, através da obsessão do seu último empregador, que a obriga a casar com ele, a fim de que, tal qual um animal selvagem, ele consiga “curá-la” e domá-la”. Apesar de não ter o suspense habitual de que muitos esperam de uma obra do diretor (na verdade, é um filme de personagem, a Marnie do título), o filme é material legitimamente hitchcockiano, ousado, filmado ao modo clássico de Hitch, o que ainda comsegue provocar o interesse contínuo do espectador.

O modo como é conduzida a trama faz com que todos os personagens mostrem que possuem os seus “esqueletos no armário”. Um grande exemplo é o personagem de Sean Connery. Ao mesmo tempo que percebemos que ele possui um certo apreço por Marnie, algumas de suas atitudes são condenáveis à primeira vista. Mas, mesmo assim, nos pegamos “torcendo” por ele, para que descubra o que a alfige tanto. E, ao observarmos Marnie, compreendemos o que atraiu tanto o personagem de Connery: por trás de uma aparência gélida, há uma certa fragilidade no seu olhar (graças a interpretação de Tippi Hedren), como um “animal acuado”.

Talvez o filme não tenha feito muito sucesso na época, ou ainda não é tão lembrado como tantos outros, mas por trás da falta de suspense habitual, há todos os elementos clássicos da filmografia de Hitch aqui em sua época mais áurea. E isso é um motivo mais do que suficiente para termos uma interessantíssima obra deste diretor.

3,5/4

Adney Silva

3 Comments

Filed under Comentários

500 Dias Com Ela (500 Days of Summer – Mark Webb, 2009)

Em 500 Dias Com Ela, um filme cruel e bonito, alternada e simultaneamente, Tom (Joseph Gordon-Levitt, excepcional) é um arquiteto que, ao invés de exercer sua profissão, trabalha criando textos para cartões de pêsames e de felicitações. No escritório ele conhece Summer (Zooey Deschanel, adequadamente esquisita), uma garota que leva a felicidade a todos que a conhecem, exceto a ela mesma. Mesmo avisado de que a menina é difícil, Tom se envolve com ela e, à medida que a relação se intensifica, se apaixona. Summer o alerta de que não tem nenhum interesse em amor ou em relacionamentos , até porque não acredita neles, e ainda assim, não desgruda do rapaz, sabendo que, no fundo, ele a faz muito bem. Essa será a perdição e, já ao finalzinho do filme, a redenção de Tom.

500 Dias Com Ela não tem nada de comédia romântica. Não é comédia, embora tenha algumas passagens engraçadas, e não é romance de modo algum. Sua estrutura picotada e sem ordem cronológica (os 500 dias do relacionamento são expostos, por amostragem, num sistema de vai-e-vem) leva ao espectador sucessivos momentos de carinho e de desprezo por parte de Summer, uma sucessão de eventos que destrói a estrutura psicológica de Tom, que já era bem frágil. Trata-se de tema nada agradável, embora o diretor Mark Webb doure a pílula o máximo possível com citações cinematográficas, referências à cultura pop e tiradas espirituosas.

Webb constrói Summer como uma criatura de paradoxos. Ao contrário do que seu nome indica, ela é fria como o inverno em grande parte parte do tempo. Apesar de ter a sensibilidade emocional bem apurada, ela é extremamente desapegada a qualquer pessoa e muito cruel, embora não de maneira voluntária. Talvez isso seja o que mais dói, já que não se pode sequer demonizá-la. Summer é assim, e Tom, que tem vocação para a baixa auto-estima e para o masoquismo, demora a perceber.

Entretanto, ambos têm muito a acrescentar ao outro – e nisso reside o maior achado do filme, embora Webb pontue esta percepção por meio de uma narração em off e de um grilo-falante sob a forma da irmã mais nova de Tom, Rachel, que não são nada sutis. Se Summer sai do processo mudada, porém sem maiores traumas, Tom, já naturalmente vulnerável pelo simples fato de estar apaixonado (o que, por vezes, leva o espectador a se perguntar se Summer não está certa, se o amor e a paixão compensam de fato), também muda, e para melhor, porém sofrendo todos os horrores possíveis. Na penúltima cena do filme, de uma beleza embriagadora, ele descobre que terá sido a pessoa mais importante na vida de Summer, embora não do jeito que ele queria. Summer será sempre sua, sem nunca ter sido de fato. Toda a paixão, todo o amor não correspondido e todo o sofrimento, então, terão valido a pena.

3/4

Amílcar Figueiredo

 

6 Comments

Filed under Resenhas

As 3 Faces do Mal (The Washing Machine / Vortice Mortale – Ruggero Deodato, 1993)

Tem um tom de thriller convencional que vai sendo frame-a-frame ‘estragado’ e sugado pra uma atmosfera erótico-hermético-onírico-wtf quase como uma representação do plot policial comum quando absorvido pelo horror (no caso, o italiano [no caso, o de Deodato **no caso, o do cara que fez Cannibal Holocaust**] – dois gêneros que se combinam pra parir uma aberração de muito mau gosto da ‘genética’ cinematográfica – ou qualquer merda nesse sentido).

A estrutura copia o conceito do “Vortice Mortale” (título original), ou seja, segue em ciclos se perdendo e submergindo num espiral de acontecimentos e bizarrices, quando aquela linha espessa entre o sóbrio e o lunático vai se decompondo até que o nosso herói não passe de uma bola de vôlei jogada de um lado pro outro pelas tais “3 faces do mal” do título nacional, três das mulheres mais fantasticamente vagabundas-filhas-da-mãe já representadas num filme (uma delas literalmente o estupra, a outra mantém uma relação lésbico-pedófila com uma garota cega, e a outra quase dá pra ele em um museu diante de dezenas de deficientes visuais – isso pra ficar nos fatos mais notórios).

Não que seja mais um italiano totalmente doido e desorientado, pelo contrário, a elegância da narração do Deodato e o ritmo todo habilidoso com que ele vai te cercando e te trazendo pra o que mentia ser um suspense ordinário e que na verdade é puro delírio são troços que, por mais que travistam o filme em uma aura de anarquia e porralouquice “e ok, derramei chá de coca no roteiro, vâmo filmar essa porra de qualquer jeito”, trazem lá dentro girando uma em torno da outra a mais absoluta loucura coexistindo com a mais transparente consciência, ou seja, sabia que o sabiá sabia assobiá.

4/4

Luis Henrique Boaventura

Screenshots!

Se alguém entendeu alguma coisa de toda essa merda que eu vomitei aí, beleza, pra todos os outros, vejam The Washing Machine; vai ficar claro feito água:

nullnull null null null null null null null null

6 Comments

Filed under Comentários, screenshots

2012 (Roland Emmerich, 2009)

Primeiramente, você conhece Roland Emmerich? Então sabe que ele recebeu essa alcunha de “mestre do desastre” não à toa. Se você gosta de suas catástrofes anteriores, provavelmente goste dessa também, se não gosta, acho que não vai ser aqui que passará a gostar, afinal, ele acaba repetindo-se. Emmerich não passa de um louco que quer ver o circo pegar fogo e não poupa esforços para realizar as mais fantásticas catástrofes que o cinema já concebeu.

Mas vou logo avisando, se você não gosta de filmes com clichês (pais separados, filho que chama o pai pelo nome e gosta mais do padrasto “cool” – leia-se rico – entre outras pérolas) com enredos rasos, com diálogos patéticos tirados dos Teletubies, com choro forçado, com situações nada nada verossímeis, é… passe longe desse. Mas se você é adepto do bom e velho filme catástrofe onde só se preocupa com as… catástrofes, bom, veja! Aqui o Emmerich, por incrível que pareça, amplificou o que já havíamos visto em O Dia Depois de Amanhã. 2012 é totalmente frenético a partir dos seus, sei lá, 40 minutos, quando o Cusack vai buscar sua família numa limousine afim de escaparem dos primeiros sinais do desastre, essa sequencia, na minha opinião, é o grande momento do filme, é tão forçada, exagerada, tão… tão… cinema. Pena que as partes que entrecortam as espetaculares sequências de destruição não sejam boas o suficiente pra dar liga ao filme e torná-lo realmente bom, somado a isso a sua duração exagerada (já que grande parte dela é enxertada com os tais bla bla blas) acabam tirando um pouco do divertimento “porralouca”que se espera, mas nada que comprometa a experiência como um todo.

Enfim, desligue um pouco esse cérebro aí, compre um sacão de pipoca um refrizão e aproveite o fim do mundo.

2/4

Djonata Ramos

ou: 2012 (Roland Emmerich, 2009) – Silvio Tavares/Luis Henrique Boaventura

14 Comments

Filed under Comentários

Teu Vício é um Quarto Fechado e Só eu Tenho a Chave (Sergio Martino, 1972)

O Martino parece ter uma tendência irresistível e maravilhosa pra sempre torcer e anular o gênero conforme lhe der na telha. Aqui ele desmente o giallo (como já havia feito ao final de Sra. Wardh) pra se assumir como uma adaptação de Allan Poe, ter lapsos de thriller erótico/lésbico, depois se transformar num horror claustrofóbico e psicológico permeado por triângulos, quadrados e retângulos amorosos, só pra mudar de idéia outra vez e cair de cabeça numa trama esquizofrênica de conspiração. Pra se ter uma idéia ele troca de protagonista três vezes em 90 minutos, e o modo sem vergonha como usa e joga fora cada personagem é uma das manifestações mais exemplares daquele fluxo de (in)consciência incontido que dominou o jeito de filmar desses italianos. Basicamente tem dois tipos de personagens no filme: os que entram pra morrer e os que entram pra trepar. Apesar de que os que entram pra trepar acabam morrendo também então eu sei lá, enfim.

O mais podre, demente, errado e pervertido dos giallos. Ou seja, é obra-prima.

4/4

Luis Henrique Boaventura

11 Comments

Filed under Comentários

Distrito 9 (District 9 – Neill Blomkamp, 2009)

Muito mais por falta de tempo do que por excesso de vadiagem deixarei de partilhar impressões mais detalhadas de Distrito 9, mas não poderia passar este dia pós-filme sem registrar um pouco do meu contentamento. Posiciono-me mais ou menos ao centro dos dois grupos fanáticos que se formaram para, respectivamente, amar e odiar o debut de Neil Blomkamp – digo “mais ou menos” por estar muito mais próximo à adoração do que ao ódio, embora meu gostar não tenha a mesma entonação que o dos fãs assumidos. Serei aquilo que o filme despreza, rasga e destitui por completo do seu centro gravitacional: um exemplo de precaução e de pretenso equilíbrio.

Distrito 9 é cinema muito próximo da selvageria, onde o instintivo prevalece e o intelecto é deslocado para uma espécie de vácuo. Com isto, recebemos uma peça de estrondo brutalmente manejada como um filme-vômito, onde nada parece ser controlado, onde tudo é grotescamente – reconhecendo a grotesquidade com grande fascínio – arremessado à tela, onde impera o caos e as ideias parecem ser injetadas diretamente na veia do espectador. Em questão de minutos estamos ali, no meio da baderna, compreendendo cada uma das referências ao lado de cá de um jeito um tanto quanto estranho, como se estivessemos a par daquela realidade há anos, o que pode ser considerado o maior dos elogios à medida que reconhecemos no Cinema a necessidade de o realizador fazer o espectador comprar seu mundo particular e, principalmente, respeitá-lo (basta dizer que não há qualquer estranheza em ver o povo alienígena se chapar com comida de gato, muito menos em ver o mercado negro do produto se ampliando, etc – teria outros tantos exemplos). O mesmo acontece com a linguagem de câmera, que mistura conceitos básicos de estética cinematográfica com linguagens dinâmicas e inusitadas como a de televisão e video-game de uma maneira impossível de ser sintetizada por palavras. Através disso, a impressão que se tem é de que poderiam existir milhões de ironias e metáforas e críticas sociais enrustidas, mas não consigo encontrar espaço para pensar o filme fora desta sua realidade, talvez por ela ser tão bem apresentada e sustentada, talvez por transformar-se com o passar do tempo em um monumento de si mesmo. Não que eu não goste do gradativo enxugamento deste universo, desta emulação narrativa de video-game onde todo o filme gira em torno de uma visão em primeira pessoa e da forma como isto consome o filme até transformá-lo em um caroço lapidado. Pelo contrário: residem aqui alguns dos maiores méritos de Distrito 9, alguns dos motivos que fazem deste um filme tão divertido de um jeito tão vulgar. Apenas acredito que, da mesma forma com que torna o filme uma experiência bastante interessante sob este ponto de vista de divertimento porralouquista e vagabundo, permite a ele o contentamento de ser apenas isto. Penetramos no Distrito 9 e, ao sairmos dele, levamos nada além do saco de pipocas vazio para atirarmos no lixo. Novamente reitero: não é defeito, mas a constatação de uma conseqüência natural da proposta – uma proposta que é bastante comum mas que cada vez mais parece difícil de ser executada por Hollywood. Em seu primeiro filme, e fora deste eixo que abriga Michael Bay, Tony Scott e Uwe Boll, Neil Blomkamp conseguiu. Ainda assim, não há nada de novo no front; apenas o referido respeito ao seu próprio cinema, que deveria ser uma regra mas é responsável por fazer deste um filme de tamanho destaque.

3/4

Daniel Dalpizzolo

11 Comments

Filed under Comentários

Olhos de Serpente (Dangerous Game – Abel Ferrara, 1993)

Há dois filmes maravilhosos dentro de Olhos de serpente, de Abel Ferrara, e eles não apenas coexistem de maneira harmoniosa como ainda por cima se completam.

O primeiro deles é um visceral metafilme que impressiona também pelo fato de parecer um compêndio das aspirações cinematográficas de seu diretor, especialmente pela íntima e conflituosa relação entre vício e religião.

O segundo, por sua vez, fala sobre até que ponto uma pessoa pode ser consumida, física e mentalmente, pelo processo de criação artístico. (desafio: tente não pensar em Heath Ledger)

O mais perturbador, no entanto, é quando percebemos o elo com a mente do criador — seria Keitel o avatar do próprio Ferrara? Não sei, mas assusta a maneira como ele insufla que essa Hollywood imunda não é lá muito diferente dos submundos nova-iorquinos de seus outros filmes.

4/4

Vinícius Laurindo

ou: Olhos de Serpente (Abel Ferrara, 1993) – Daniel Dalpizzolo – 4/4

Comments Off on Olhos de Serpente (Dangerous Game – Abel Ferrara, 1993)

Filed under Comentários

Screenshots!: Nastassja Kinski em A Lua na Sarjeta (Jean-Jacques Beineix)

Talvez apenas no próprio Femme Fatale, do De Palma, essa instituição sagrada do film noir tenha sido tratada com tanta devoção como em a Lua na Sarjeta, encarnada aqui pela inacreditável Nastassja Kinski. O cuidado de Beineix é o mesmo: captar o corpo, lábios, olhos, cabelos, e rearranjá-los do outro lado da lente na forma estonteante de uma deusa.

*texto: A Lua na Sarjeta (Jean-Jacques Beineix, 1983) – Luis Henrique Boaventura

null null null null null null null null null

Comments Off on Screenshots!: Nastassja Kinski em A Lua na Sarjeta (Jean-Jacques Beineix)

Filed under screenshots

Cão Branco (White Dog – Samuel Fuller, 1982)

null null null

É, não adianta, esse é obra-prima forte mesmo. O Fuller mostra aqui que dá pra juntar tudo no pacote, clichês, sociologia, trilha sonora, ENQUADRAMENTOS DO CARALHO, polêmica, etc, sem perder a mão. a questão é que, ele pega tudo e faz da forma mais direta possível. Trata do racismo sem nenhuma sutileza (e quem disse que suteliza é qualidade, necessariamente?), entra pela porta dando um bico, esfrega na cara do público médio americano (e do mundo, course) – muito bem representado pelo velhinho simpático e repugnante, dono do cão – a sua hipocrisia.

Um povo que está tão evoluído que, prescinde de um Star Wars (quem viu entenderá a raferência hehe) da vida, sequer soube lidar com uma questão tão… tão… simples? quanto o racismo. Simples do ponto de vista de que é uma imbecilidade tão óbvia que, bom… enfim. E fora que ele filma o cão, dando indícios claros de que ele não é o verdadeiro culpado, não nos faz acusá-lo, mas também não nos faz aceitá-lo, o que é pior, já que a gente não sabe bem o que quer em relação a ele. Fica aquela coisa de se autopodar.

A sequência final é bem ilustrativa disso, ao passo que, ao que parece, o cão está, de fato, curado. A câmera vem flutuando, girando, mostra a feição dele, língua pra fora, simpático… gira, gira, quando fecha os 180º, bom… ali está: a outra face, a raiva estampada na cara do bicho, essa dualidade (sem contar que, ali a gente vê, que não só é um racista, mas um assassino nato e te pergunta: há ressocialização? nah, mete um tiro nessa praga). O Fuller conseguiu mostrar a dualidade através da imagem em questão de segundos, e com um giro de câmera excepcional. E nem vou citar as câmera lenta, esse cara, definitivamente, sabe usá-la (a cena acima que o diga). Dá mais pena ainda daquele vômito que atende pelo nome de Crash.

4/4

Djonata Ramos

12 Comments

Filed under Comentários

Na Teia do Destino (The Reckless Moment – Max Ophüls, 1949)

null nullnull

Existe o universo usual de todos os demais filmes e existe a dimensão obscura do film noir, para o qual qualquer tema, quando abstraído, é ampliado dez vezes. Ou de que outra forma uma alegoria da mulher moderna diante da instituição familiar (cara, como isso soa grotesco) daria uma obra-prima? Na Teia do Destino é devastador, e não é algo semi-pronto como estava Carta de uma Desconhecida. Aqui o Ophüls (um ilusionista diabólico filho da mãe) precisa se virar, e ele arquiteta tudo lindamente, trazendo abaixo (como é característica do gênero) os muros que separam pessoas por classes de moral, jogando com os conceitos de protagonista e vilão da narrativa clássica. Primeiro ele te oferece uma personagem central sólida, com aquela velha situação pronta de heroína numa cruzada pela defesa de um dos pilares-mestres da sociedade. Tudo truque. É a partir da entrada do chantagista (motor do filme e o antagonista exato), um cara que o Ophüls pega nas mãos, amassa, soca, gira no ar, vira do avesso e devolve ao espectador completamente destroçado, que Na Teia do Destino inverte papéis, sabota a si mesmo e arma pra cima do espectador apenas pra destruí-lo no final, o único momento em que o Ophüls finalmente é sincero e te mostra que o filme, na verdade, não era o filme. Que os primeiros 20 minutos são apenas um prefácio e que o tempo todo o ponto de vista esteve do lado errado. Uma das mentiras mais bem contadas do cinema.

4/4

Luis Henrique Boaventura

2 Comments

Filed under Comentários