Olhos de Serpente (Dangerous Game – Abel Ferrara, 1993)

David Lynch trabalha a loucura no universo de feitura cinematográfica hollywoodiano em seu último e mais complexo filme, o imprevisível Império dos Sonhos, mas o conceito de indissolubilidade de filme-dentro-de-filme utilizado pelo mestre do neosurrealismo tem alguns registros anteriores ainda mais interessantes. O principal deles, e talvez, junto de Cidade dos Sonhos (também do Lynch), o melhor trabalho feito sob essa técnica de baixa aceitação fora de certos círculos restritos de adoradores fanáticos, é este Olhos de Serpente, um dos grandes filmes do mestre maior do cinema contemporâneo, Abel Ferrara.

Mas é claro que Ferrara e Lynch nada têm em comum como cineastas, a não ser a própria adoração por técnicas de menor espaço nessa formatação atual de cinema – ressalto aqui nenhum sentido pejorativo. Enquanto Lynch brinca com as inúmeras possibilidades narrativas que seu material lhe empresta, Ferrara gosta de fazer de cada imagem fotografada – independente de sua função na montagem da seqüência – um mistério tão grande ou maior do que a própria idéia geral dos filmes, colocando no pacote ainda a sacanagem ininterrupta que compreende a real origem das imagens (tanto que sempre são projetadas a partir de mídias das mais variadas).

A tenuidade da imagem no cinema de Ferrara é responsável por transformar seu melhor filme (ou pelo menos o meu preferido, mas que muitos apontam incompreensivelmente como um de seus piores), New Rose Hotel, num dos filmes mais charmosos e intrigantes já feitos, e acaba sendo também o grande atrativo deste Olhos de Serpente, que retoma o paradoxo apresentado anteriormente no sensacional Vício Frenético e que de certa forma resume em prática a temática de toda sua filmografia: os limites da moral e da fé católica e dos vícios (representantes genuínos de bem e mal na consciência humana), além da relação entre vida e arte, também bastante estudada pelo cinema ao longo de sua existência – o que me lembra aquele momento fantástico de Maria, quando o personagem de Modine defende seu filme na sala de projeção numa clara idéia de fé sendo construída através da arte (no caso, da sua própria).

A grande diferença de Olhos de Serpente em relação ao seu meio-irmão policial, também protagonizado por um dos maiores xodós do diretor, Harvey Keitel (duas atuações impecáveis, por sinal), além obviamente do universo em que se desenvolvem (um a Nova York suja dos guetos; o outro Hollywood, mas totalmente desglamourizada), fica por conta da estrutura. Vício Frenético mantém o foco sempre na relação interpessoal do protagonista e sua busca pela redenção em meio a uma rotina de vícios. Olhos de Serpente, embora também seja sobre o personagem de Keitel, desvia a todo o momento sua origem, concentrando muito de suas ações nos personagens do filme que está sendo rodado (pode-se dizer que metade do filme é o próprio filme-dentro-do-filme, que ganha vida própria dentro da narrativa e tudo mais), mas sem deixar de falar do protagonista.

O recurso acaba permitindo a Ferrara a liberdade de viajar na relação entre obra e realizador, e a maneira como essa relação aos poucos é apresentada deixa algumas seqüências com uma intensidade inenarrável, em especial nos principais momentos desse clareamento de idéias sobre a própria origem das idéias do protagonista – do filme de Ferrara, não do filme de Keitel – para seu trabalho. E saber que esse limite entre a vida e a arte alcança um ponto de fusão tão indissolúvel durante o decorrer de Olhos de Serpente só transforma a experiência em uma das mais torturantes armações de Ferrara, que consegue imprimir tanta força nos momentos de ficção dentro do filme (a atuação de Madonna não tem como não ser lembrada) que faz dessa jornada infernal um dos momentos mais críveis de sua carreira.

4/4

Daniel Dalpizzolo

ou: Olhos de Serpente (Abel Ferrara, 1993) – Vinícius Laurindo – 4/4

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