Na Teia do Destino (The Reckless Moment – Max Ophüls, 1949)

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Existe o universo usual de todos os demais filmes e existe a dimensão obscura do film noir, para o qual qualquer tema, quando abstraído, é ampliado dez vezes. Ou de que outra forma uma alegoria da mulher moderna diante da instituição familiar (cara, como isso soa grotesco) daria uma obra-prima? Na Teia do Destino é devastador, e não é algo semi-pronto como estava Carta de uma Desconhecida. Aqui o Ophüls (um ilusionista diabólico filho da mãe) precisa se virar, e ele arquiteta tudo lindamente, trazendo abaixo (como é característica do gênero) os muros que separam pessoas por classes de moral, jogando com os conceitos de protagonista e vilão da narrativa clássica. Primeiro ele te oferece uma personagem central sólida, com aquela velha situação pronta de heroína numa cruzada pela defesa de um dos pilares-mestres da sociedade. Tudo truque. É a partir da entrada do chantagista (motor do filme e o antagonista exato), um cara que o Ophüls pega nas mãos, amassa, soca, gira no ar, vira do avesso e devolve ao espectador completamente destroçado, que Na Teia do Destino inverte papéis, sabota a si mesmo e arma pra cima do espectador apenas pra destruí-lo no final, o único momento em que o Ophüls finalmente é sincero e te mostra que o filme, na verdade, não era o filme. Que os primeiros 20 minutos são apenas um prefácio e que o tempo todo o ponto de vista esteve do lado errado. Uma das mentiras mais bem contadas do cinema.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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2 Responses to Na Teia do Destino (The Reckless Moment – Max Ophüls, 1949)

  1. caiolefou

    Taí um dos diretores que mais tenho vontade de conhecer…

  2. Só vi esse e Letter dele até agora, ambos extraordinários.