A Morte Num Beijo (Kiss Me Deadly – Robert Aldrich, 1955)

Em Psicose, Alfred Hitchcock mata a protagonista com pouco mais de 40 minutos de filme. Robert Aldrich, com seu A Morte Num Beijo, faz a ousadia futura do mestre do suspense parecer brincadeira de criança: durante uma seqüência inicial absurda, surpreendente, na qual a personagem principal desta obra-prima absolutamente singular (vocês entenderão que isso não é brincadeira) do film noir corre pela madrugada em uma rodovia, só de roupão, aos berros, e se mete em frente a um carro, ela conhece um detetive particular que aceita lhe dar uma carona à parada de ônibus mais próxima. Qual não é a surpresa quando a trajetória de ambos é interrompida por um carro que surge do nada e tranca a passagem, do qual posteriormente saltam homens que, além de estrangulá-la, jogam a moça, o carro e o homem morro abaixo em um barranco.

Tudo isso acontece com apenas dez minutos de filme, pouco depois de outro elemento inusitado surgir na tela: os créditos de abertura, erráticos, surtados, vindo debaixo para cima e com o sentido ao contrário (o espectador precisa mesmo ler debaixo pra cima). O que sucede este início fora do comum não deixa a desejar em sequer um momento, tanto qualitativamente quanto na competência de surpreender das formas mais exclusivas possíveis – algo que remete, inclusive, a outro filme noir deste mesmo ano, o excepcional O Mensageiro do Diabo, responsável pela atuação mais assustadora de Robert Mitchium, um dos caras mais assustadores do cinema.

Apesar de ser um exemplo maravilhoso, impecável, de cartilha do cinema noir, seus principais elementos e toda a construção atmosférica e narrativa em detrimento ao enredo (porque noir é clima, acima de tudo), necessárias para o bom funcionamento de um filme de estilo, A Morte Num Beijo pode ser considerado uma das principais influencias do cinema de suspense neo-surrealista, mais precisamente da obra de David Lynch e seus filhos mais surtados, A Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos e, em menor escala, em virtude de sua explosão onírica irremediável, Império dos Sonhos – embora tecnicamente remeta ao passado, ao expressionismo, abusando dos contrastes entre luzes e sombras, ambientes fechados e apertados, ângulos assimétricos, esquizofrênicos e com constantes inclinações.

Depois da decorrência de uma hora de filme, na qual toda a trama é fermentada, mas sem qualquer resquício de respostas para o questionamento que move as intenções de todo o quadro de personagens, em especial do protagonista, A Morte Num Beijo passa a apresentar uma renovação inexplicável de sua esfera focal, introduzindo elementos inéditos que dão fôlego não apenas renovado, como inimaginável à trama. Tudo isso seria mais do que o normal para um filme de suspense se manter em maiores níveis de tensão, mas os últimos 15 minutos, que representam um surto absoluto utilizado por Aldrich para chutar a linha e a agulha para o espaço, desamarram qualquer explicação plausível para os fatos e deixam esta jornada com uma sensação gostosamente inexplicável.

A Morte Num Beijo é uma obra-prima absoluta de proporções desmedidas.

4/4

Daniel Dalpizzolo

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Irmãs Diabólicas (Brian De Palma, 1973)

Psicose. Janela Indiscreta. Um Corpo Que Cai. Festim Diabólico.

Não são poucos os elementos conhecidíssimos através de obras como estas, todas elas realizadas por Alfred Hitchcock, maior homenageado de toda a filmografia do mestre Brian De Palma, utilizados para a composição de seu primeiro suspense psicológico, Irmãs Diabólicas. Mas é incrível como De Palma consegue imprimir um fôlego revitalizado a todos eles, dentro de uma obra que, a primeira vista, teria tudo para ser apenas mais uma cópia barata da obra do mais popular diretor de filmes de suspense de todo o cinema.

Irmãs Diabólicas pode ser um grande amontoado de elementos que evocam o cinema de Hitchcock, isto é inegável. Mas, em sua verdadeira essência, é um produto depalmiano por excelência, não apenas pelo tratamento visual inconfundível que desenha em qualquer filme que faça, mas sim pela forma com a qual o diretor consegue transformar o banal em algo totalmente novo, surpreendente, dentro da trama – que, na realidade, é o que menos interessa para o funcionamento do projeto -, fato que também permeia os principais filmes produzidos por ele.

A história sobre esquizofrenia, descrença e investigação amadora tem em sua abertura um dos maiores indícios dessa marca d’auteur de De Palma. No plano inicial, vemos uma garota cega adentrar uma sala e, aos poucos, começar a tirar a roupa. Detrás de um biombo, sai um negro, que a come com os olhos e tem seu olhar acentuado com um close profundo em seu rosto. Enquanto esperamos o desfecho mais absurdo possível, De Palma mostra que tudo não passa de uma brincadeira, apresentando ao espectador a verdadeira origem das imagens: um programa de televisão.

E nada poderia ser mais De Palma do que isso, afinal, brincar com a percepção do espectador e com a composição das imagens são algumas das mais fantásticas qualidades que o diretor desfila por seus principais filmes. Isto, claro, somado à sua perícia técnica fora do comum, das mais impressionantes já apresentadas, algo que fica claro neste seu primeiro trabalho de assinatura principalmente nas seqüências-chave, na composição dos planos que a estruturam e, em especial, nos artifícios utilizados para imprimir tensão – como, por exemplo, o uso absurdo da split-screen e das narrativas paralelas (o homem comprando o bolo enquanto a mulher passa mal no apartamento é coisa das mais incríveis que ele já filmou), dinamizando a ação e fazendo a primeira parte do filme beirar a obra-prima.

Quando o foco narrativo é atirado da protagonista principal, a tal “irmã gêmea”, para a jornalista sensacionalista que decide investigar por conta própria um suposto assassinato que teria visto pela janela do apartamento, o filme perde muito da emoção e da tensão em níveis desmedidos que vinham se construindo – não necessariamente representando uma falha na estrutura do filme, mas sim comprovando a força descomunal daquela primeira parte – nos primeiros 40 minutos, o que não é o bastante para consternar nosso ímpeto maldito de sair gritando pelas ruas escuras da cidade qualquer coisa parecida com “Brian De Palma, seu filho de uma puta, você é um gênio!”.

3/4

Daniel Dalpizzolo

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Masculino, Feminino (Jean-Luc Godard, 1966)

É como se o Godard tivesse resolvido lançar um olhar realista em cima da juventude francesa às vésperas da revolução estudantil de maio de 1968, sem interferir dramaturgicamente e, principalmente, deixando de lado a habitual descontinuidade narrativa.

Masculino, Feminino é pura fluência de uma visão destituída de ornamentos sobre uma sociedade que, invariavelmente, vivia o caos da indecisão, presenciava o conflito de conceitos e construía, a partir das diferenças, uma verdadeira guerra de ideologias – dentro daquela miscelânea entre Coca Cola e Karl Marx muito bem disposta pelo diretor.

Talvez seja o filme de Godard que mais se aproxime do universo de seu principal colega e pensador da Nouvelle Vague, Truffaut – talvez um pouco menos poético, mas extraindo, aos poucos, a poesia da própria vida, exatamente da forma como ela é – sem contar que vale mais do que qualquer coisa produzida por ele.

Esqueça a anarquia apocalíptica de Weekend à Francesa, a utopia libertária de O Demônio das Onze Horas ou o lirismo dramático de Viver a Vida. Masculino, Feminino é a prova de que, às vezes, Godard pode ser sincero, mais sincero do que muita gente que pretende um retrato de fidelidade sobre a vida real.

3/4

Daniel Dalpizzolo

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Senhores do Crime (David Cronenberg, 2007)

Quando acreditava ter concluído todo o seu serviço da véspera natalina, a jovem enfermeira Anna recebe um convite. Não um convite qualquer, mas a chave de um portal. Ou melhor, um bilhete. Um bilhete de loteria, cujo prêmio mórbido, porém irresistível, transportaria seu pequeno corpo a um universo misterioso, de clima pesado, aterrador, onde as sombras guardam segredos que nem mesmo a luz consegue decifrar. Mas não se trata de um outro mundo. E Anna sente. Estranha. Investiga. E descobre: acabara de conhecer, simplesmente, um pequeno canto de seu já tradicional terreno, encoberto por um manto invisível que separa a sua, dessa nova realidade.

Em mais uma de suas viagens alucinantes ao interior da mente e da carne humana, o genialíssimo diretor David Cronenberg promove um pequeno mergulho em um submundo ainda mais obscuro do que o que fora apresentado em sua última obra-prima, o multifacetário Marcas da Violência. Senhores do Crime, tradução medíocre de Eastern Promisses (Promessas do Leste, perspicaz e bem aplicado), retrata a passos curtos uma introspectiva jornada através das ruas escuras e estreitas de uma Londres submersa em pessimismo, protagonizado por uma enfermeira cujo objetivo é descobrir o paradeiro da família de uma prostituta mirim que acabara de falecer durante um parto.

Senhores do Crime representa, possivelmente, o ápice de uma inusitada fusão entre o cinema de gênero e a marca de autor deste doentio psicanalista canadense. Estruturado impecavelmente sobre as principais características de um thriller de máfia, este novo projeto de Cronenberg, na realidade, e como de costume em quaisquer obras do diretor, apresenta-se, conforme passam os minutos, como um conto complexo e mistificado plano a plano. Um conto daqueles que merecem ser descascados a mão, com longo tempo de trabalho. Daqueles que, a cada volta dada pelo ponteiro do relógio, remodela completamente a sua face.

E é no diálogo impecável com seu discurso que a narrativa desta nova obra de arte cronenebergiana funciona tão bem. Atirando sua protagonista dentro da violenta atmosfera das relações mafiosas (lembrando que até mesmo o foco do protagonismo transgride de Anna para Nikolai conforme a relação entre os dois se desenvolve), o canadense apresenta uma realidade podre, miserável sob os aspectos mais salientes da conduta humana, preparando o terreno para a construção de uma pequena parábola sobre a transgressão física e moral de suas peças dentro do território que tão bem consegue armar ao longo dos 90 minutos que antecedem o desenrolar definitivo (e, ao mesmo tempo, mais indefinido do que nunca, pela dualidade de sensações e, principalmente, de significados que resguarda) desta jornada alucinante.

4/4

Daniel Dalpizzolo

ou: Senhores do Crime (David Cronenberg, 2007) – Vinícius Laurindo – 3/4

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A Outra (Woody Allen, 1988)

Incrivelmente otimista, embora seja o filme mais amargo e intimista de Allen. É um conto singelo e poderosíssimo sobre uma mulher que chega a um ponto determinante da vida: o princípio do terceiro ato – analogia muito bem construída em meio às referências dramaturgicas constantes, que culminam na simbólica e maravilhosa seqüência do sonho -, quando finalmente percebe a caoticidade em que se transformou seu mundo particular. A Outra pode ser considerado facilmente um dos filmes mais carregados já realizados. É angustiante, sufocante, uma experiência sadicamente claustrofóbica seguir os passos mortos daquela mulher solitária e insegura, que praticamente virou as costas para a sociedade – e, consequentemente, para a vida – ao perceber que o silêncio no qual se refugiava era simplesmente o grito de desespero que guardava bem ao fundo de sua garganta, enosado, incômodo e impotente. Talvez não exista nada mais cruel do que o momento em que a personagem de Mia Farrow descreve a protagonista para seu psiquiatra, enquanto ela, interpretada de forma indescritível por Gena Rowlands, engole tudo como se bebesse em uma só tragada uma taça cheia de vinho fermentado a ponto de ser considerado vinagre. E mesmo em meio a tanta dor, tanto penar, é admirável que o diretor consiga – proeza semelhante à de seu mestre, Ingmar Bergman, em sua obra-prima máxima, Gritos e Sussurros – concluir o filme de maneira tão bonita, concedendo à sua protagonista não a desejada redenção, mas uma injeção de esperança que a lembra de que ainda existem possibilidades de se transformar o futuro.

4/4

Daniel Dalpizzolo

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Fuga do Passado (Jacques Tourneur, 1947)

Se eu precisasse apontar uma coisa de ruim nos filmes noir da primeira metade do movimento, mais precisamente a década de 1940, sem dúvida alguma escolheria os flashbacks – recurso que de certa forma virou marca registrada do estilo, mas que se perdeu em suas constantes transgressões temáticas e morais. É só ver, por exemplo, Uma Vida Por Um Fio, do russo Anatole Litvak, pra perceber o quanto perde de fluidez e de tensão um filme todo recortado por lembranças e explicações evocadas pela quebra da narrativa – naquele caso, em especial, toda a claustrofobia da estória de uma mulher presa à cama, devido a uma doença, que sabe que será assassinada em determinada hora da noite, é atirada descarga abaixo pelos constantes vai-e-vens (aliás, se jogasse todos os flashbacks fora, o diretor poderia montar um curta genial – de 15 minutos, no máximo).

O curioso, porém, é que mais de trinta dos quarenta e cinco primeiros minutos de Fuga do Passado formam um extenso flashback, utilizado para registrar os comos e os porquês dos rumos que a estória toma em seu prólogo. Curioso porque, no longa de Jacques Tourneur, a insistência em construir a estrutura através das memórias do protagonista, um Robert Mitchum completamente diferente do que se vê em O Mensageiro do Diabo ou Circulo do Medo ou faroestes como El Dorado – aqui até cena romântica o homem mais assustador do cinema faz! -, dá ao filme um charme ainda mais irresistível, transformando uma das brincadeiras mais inventivas de que se tem notícia com os principais elementos do noir – a femme fatale mais femme fatale de todas está aqui, por exemplo – em um trabalho de primeira linha.

Desde o início na cidadezinha pacata até o final, na mesma cidadezinha, agora tomada pela paranóia que envolve a enrolação interminável do protagonista com um mal feitor da cidade grande, Fuga do Passado é uma brincadeira de pega-pega sem qualquer resquício de diversão. E é impressionante a milimetricidade detalhistica do roteiro, sustentando idas e vindas e uma sobriedade impecável mesmo com as constantes aparições de personagens novos e que saem com a mesma rapidez, mortos ou não, além de sustentar muito bem a pendência do protagonista para ambos os lados femininos, o bom e o mau, e construir alguns momentos bem genuínos de charme e requinte românticos, coisa que pouco se vê em um filme policial – ainda que este tenha certos toques dramáticos além dos outros.

Mas o mais interessante é a ambigüidade que cada diálogo ou ação consegue transparecer dentro daquela máxima do noir, de o mundo ser feito de piranhas inescrupulosas, de não se poder acreditar em ninguém nem dormir sem a arma debaixo do travesseiro – o que em alguns casos é levado às últimas conseqüências pela forma e pelo conteúdo, mas aqui tudo é conduzido com muita tranqüilidade e mesmo assim chega ao extremismo pra quase todos os envolvidos. É sacanagem atrás de sacanagem, e até o último minuto não tem com ter certeza de quem está – ou estava – do lado de quem – tanto é que o filme termina com alguém tentando tirar esta mesma dúvida.

4/4

Daniel Dalpizzolo

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Os Homens Preferem as Loiras (Howard Hawks, 1953)

O grande momento da carreira de Marilyn Monroe é Quanto Mais Quente Melhor, obra-prima da comédia sofisticada de Billy Wilder. Mas ninguém, nem mesmo Wilder no auge de sua genialidade, soube utilizar as principais características da persona cinematográfica de Monroe como Hawks neste divertido musical cômico de estúdio. O filme passa longe de ser uma das obras-primas do diretor, é claro, mas impressiona por fundamentar ainda mais um fato impossível de ser contestado: Hawks é tudo aquilo que Marc Foster queria ser, mas não vai conseguir jamais: um verdadeiro camaleão cinematográfico. O mais curioso, inclusive, é a consciência de Hawks ao tratar de seu próprio material, principalmente no que diz respeito à sua atriz – que ainda nem era o símbolo que seria anos depois, mas enfim.

A principal característica de Monroe é transposta para o filme, raso, seco, todo colorido e exagerado, inegavelmente e plenamente construído em volta da ideologia da “dondoquinha fútil e mimada” que só pensa em homens ricos, dinheiros e diamantes. É quase um filme de porcelana. E o diretor, sabendo que extrapolou o tempo todo, ainda promove uma encenação de seu próprio universo ficcional no final – uma metalinguagem sem exteriores, inusitada, entre uma seqüência e o próprio produto. Mas a melhor coisa, de longe, é o personagem do nobre milionário inglês que, na realidade, é uma criança. Suas duas participações no filme são geniais – principalmente naquele que é o melhor momento do filme, quando Marilyn fica entalada na janela de uma cabine. Bobo, mas ótimo.

3/4

Daniel Dalpizzolo

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Thriller: A Cruel Picture (Bo Arnie Vibenious, 1974)

Exploitation que serviu de clara inspiração para que Tarantino surtasse completamente em sua grande obra-prima, Kill Bill. E tem muita coisa retomada pelo mestre do pop-cinema neste filme de vingança sueco dirigido por um ex-assistente de Ingmar Bergman – que grande união de estilos, hein. Desde a estrutura narrativa, praticamente idêntica, até a própria protagonista, que serviu de base para a caracterização da personagem de Daryl Hannah. Mas Thriller fica bem distante de possuir o charme e a empolgação de um Kill Bill, embora contenha momentos verdadeiramente excepcionais.

Na realidade, pode-se dizer que surpreende o fato de ser tão bem acabado, pouco extravagante – com exceção para as cenas de sexo explícito que, embora possam ser consideradas importantes para acentuar a sede de vingança da personagem principal [o que eu não concordo], são muito mal aproveitadas – e com um ritmo beeeeeem lento para um filme b de ação. Aliás, lento demais. Mesmo que saiba montar inteligentemente tanto os três atos da estória quanto os momentos em que duas ou mais espécies de ação concentram-se juntas em determinado ponto da narrativa, Bo Arne Vibenious deixa seu filme, em algumas partes, beirando o tedioso.

Mas o que realmente decepciona, embora seja compensado com aquela seqüência final absolutamente genial em que a moça finalmente confronta seu maior inimigo, o homem que lhe viciou em heroína e obriga-a a ser prostituta para alimentar a dependência, é que a vingança, depois de uma ótima primeira cena de assassinato, se torna repetitiva e chata demais por termos que agüentar o diretor feliz da vida ao descobrir seu novo brinquedo, uma câmera da NASA que capta movimentos em velocidade inédita – e realmente impressionante -, repetindo o modelo da ação umas dez vezes até a gente não agüentar mais.

Independente disso, muito cruel e intrigante, na mesma medida – embora a idéia seja um pouco melhor do que a execução.

2/4

Daniel Dalpizzolo

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Psicose II (Richard Franklin, 1983)

OBSERVAÇÃO: O texto está cheio de spoilers. Veja o filme antes de lê-lo se não quiser estragar as reviravoltas. O texto recomenda a experiência de ter visto o filme para que possa ser melhor apreciado.

“Em 1960, a História do Cinema estava sendo escrita… Já se passaram 22 anos e Norman Bates voltou para casa.” Com essa tagline, a Universal inseriu o público dentro que se tratava Psicose II, a seqüência de um dos maiores clássicos não só do cinema, mas também de um dos melhores filmes da filmografia de Alfred Hitchcock. Não dá pra negar que a continuação foi proposta com o único intuito de pegar carona na onda “slasher” do terror que, em 1982, estava a todo vapor, produzindo filmes de terror em doses cavalares. Para se ter uma idéia, a série Sexta-Feira 13 tinha lançado seu terceiro episódio e já estava anunciando a produção de seu quarto; Halloween, por sua vez, também lançava seu terceiro episódio; Tubarão idem. “Por que não trazer de volta Norman Bates?” deve ter pensado um executivo do estúdio onde Hitch terminou sua prolífica carreira… Neste contexto mercantilista, a continuação teve sua produção iniciada, dirigida pelo desconhecido (e posteriormente amaldiçoado pela crítica) Richard Franklin, mas alguma coisa fez com que o filme deixasse de ser apenas mais um filme de suspense/terror para se tornar um complemento único à excelência que Hitch mostrou de forma tão saborosa no filme de 1960…

Psicose II é um filme sobre alguns assuntos. Um deles é sobre as mães e seus filhos (plural). Norman Bates (Anthony Perkins), tido como incapaz de compreender a natureza de seus atos, é condenado a cumprir sua pena em um sanatório. Duas décadas mais tarde, a Justiça concluiu pela soltura do sujeito por achar que ele restaurou sua sanidade e está apto a ser ressocializado, para desespero de Lila Crane Loomis (Vera Miles, única participante do filme anterior que retornou junto com Perkins), irmã de Marion Crane, a famosa vítima que morreu no chuveiro no filme anterior, que acha que “as pessoas nunca mudam”.

Tendo de volta o seu motel de beira de estrada, Norman tenta retomar sua vida aos poucos, trabalhando numa lanchonete, onde conhece Mary Samuels (Meg Tilly), uma moça com problemas com o namorado, a quem Norman convida gentilmente para passar o tempo que for necessário em seu motel. E é aí que as coisas começam a degringolar. Norman passa a receber telefonemas de alguém que se diz sua mãe e começa a receber bilhetes supostamente assinados por sua mãe exigindo que “a vagabunda precisa sair da casa” – se referindo a Mary. E aí começa o processo de degeneração mental do seu protagonista, numa espiral de vertigem que lembra a viagem ao inferno do protagonista de outro clássico do mestre Hitch: Um Corpo que Cai.

A entrada de Mary na vida de Norman é o estopim que desencadeia seu processo de degeneração e retorno homeopático, porém intenso, à loucura e desorientação. Mary é filha de Lila, manipulada pela mãe obcecada a atender seu capricho: mandar Norman de volta ao sanatório. Neste ponto, a narrativa de Psicose II estabelece um paralelo irônico entre o protagonista e sua amiguinha: ambos são manipulados por suas mamães e Psicose II versa sobre o conflito de ambos em se livrarem dessa influência maternal. Só que as mamães enlouquecem as suas crias que as obedecem o que nos dá uma perspectiva sombria do princípio bíblico “honra tua mãe e teu pai para que te prolonguem teus dias de vida”.

A lenta degeneração de Norman, claro, trará como resultado mais mortes, a começar pela de seu gerente bebum (Denniz Franz, desagradável – no bom sentido – que rouba a cena) que transformou seu motel num puteiro de beira de estrada. Entretanto, quando o expectador começa a querer “comprar” o filme, a narrativa surpreende e insere elementos que jogam quem assiste em diversas direções. Em um momento, pode-se acreditar que Norman seja o assassino; em outro momento, crê-se que Lila e Mary chegaram a um ponto onde o assassinato começa ser o último recurso para surtar de vez o pobre Norman; em outro momento, tem-se a possibilidade de que uma TERCEIRA pessoa possa estar por trás dos assassinatos e até dos telefonemas e dos bilhetes.

Ao oferecer diversas hipóteses para os vários acontecimentos, Psicose II “convida” o expectador a fazer parte daquele amontoado de eventos que remetem à loucura e aí começa o processo de degeneração mental do EXPECTADOR!! Psicose II insere elementos, a princípio, desconexos entre si, informações desencontradas e meias-verdades para fazer com que o expectador partilhe da degeneração de Norman e surte junto com o protagonista chegando a um ponto onde o expectador pode começar a questionar o que é real e o que é fruto da insanidade de seus personagens.

É essa espiral interativa que torna Psicose II um filme saboroso de ser assistido, dentro do contexto ‘caça níquel’ na qual ele fora concebido. Talvez tenha sido o carinho com o qual o roteirista Tom Holland (que, dois anos mais tarde dirigiria aquele que considero seu melhor filme, o fantástico A Hora do Espanto) e o diretor Franklin tenham olhado para o original e o cuidado no qual devem ter concebido este segundo filme que, se não é melhor que o original (desenvolverei mais disso adiante), continua com dignidade todo aquele universo estabelecido por Hitchcock e, mesmo assim, se utiliza da linguagem típica dos filmes de terror do período, ao mesmo tempo em que renegou seus excessos gerando um filme que é quase a cara do terror/suspense dos anos 80, mas também é diferente de tudo que foi produzido no gênero nesse mesmo período.

Sem querer ser superior ao original, Psicose II desenvolve-se de maneira narrativamente surpreendente para uma seqüência de um filme clássico ‘de terror’ onde as suas personagens ditam o rumo e ritmo dos acontecimentos e não o inverso. É um desses filmes onde quem assiste faz aquela pergunta tão preciosa e rara em muitos filmes hoje “como isso vai acabar?”

Entretanto, por ser cria de uma época em que filmes de suspense/terror eram feitos de maneira ‘fast food’, Psicose II possui seus problemas narrativos que, infelizmente, o afastam de atingir a luz do filme original. Esses problemas concentram-se basicamente no epílogo, onde se soluciona uns 60% dos mistérios relativos à trama. Embora termine-se o filme sabendo quem é o responsável pela maioria das mortes, ainda se fica com a dúvida com relação ao restante das mortes não cobertas pela revelação do assassino, o que é sempre bom. Porém, a revelação em si soa mais ou menos como a relação de amor entre Anakin e Padmé em Star Wars – Episódio II: acontece por exigência do roteiro e não por um desenvolvimento natural dos fatos e acontecimentos que levam ao desmascarar do assassino. É como se o responsável por tudo chegasse no final do filme e dissesse ‘Hey, sou eu, eu fiz tudo!!’ Problema idêntico acometeu o primeiro Sexta-Feira 13 onde o assassino chega e praticamente diz “é, eu matei todo mundo mesmo!” A própria idéia de que Norman Bates possa ter tido uma “outra mãe” é também risível e dispensável.

Porém, mesmo após a solução referente a maior parte dos assassinatos, a narrativa volta a flertar com o macabro presente no filme original, brindando a seqüência com uma cena que remete imediatamente ao filme original, fazendo homenagem e introduzindo o expectador de volta ao “status quo operandi” de Norman Bates. Psicose II termina onde o original começa. A sensação de “perda de tempo” pode surgir na cabeça de alguns viewers desatentos, mas acredito que a cinefilia ganhou e muito com o filme, já que o final evita o caminho fácil tão típico dos filmes do gênero, termina de forma angustiante e coloca o expectador diante de uma redenção às avessas, macabra. Para Norman Bates, a sua noção de normalidade é diferente da noção comum do mesmo termo para as outras pessoas. O personagem só encontra paz de espírito na companhia da sua mãe, mesmo que o preço a ser pago seja a sua sanidade e, eventualmente, das pessoas à sua volta.

Tecnicamente, o filme tenta se afastar de seus “primos” do gênero da mesma época. Franklin, exibindo um faro apurado que, até onde eu saiba, não se repetiu em seus filmes posteriores (o cara nunca emplacou no ofício), pinta Psicose II de forma impressionante, mais uma vez, dentro do contexto em que fora concebido. Iniciando seu filme com a cena clássica do chuveiro do filme original – opção que não me agrada de jeito nenhum por razões óbvias, o diretor surpreende quando mostra pq escolheu a cena em questão para abrir seu filme. Ao soar os acordes da impressionante e insana trilha de Jerry Goldsmith, Franklin nos leva do mundo P&B do filme original, para o Technicolor dos anos 80, de forma gradual, na fotografia de Dean Cundey (colaborador de outrora de Spielberg e John Carpenter), com a casa de Norman ao fundo.

E não pára por aí. O diretor sempre que pode insere planos parecidos com os do filme original, prestando homenagem e fazendo referência. O recado é claro: Psicose II não é só uma seqüência do filme de Hitchcock. É uma HOMENAGEM ao filme clássico, como mostram os créditos finais, ao mesmo tempo em que existe independente deste, técnica e narrativamente falando. Amostras disso há aos montes como a idéia de centrar na casa de Norman Bates 60% dos acontecimentos do filme, fazendo da casa um personagem de trama, com seus corredores, sua escadaria tão bem utilizada no original (e aqui replicada de forma fidelíssima) e mostrando outros detalhes como o banheiro da casa (outra referência ao original), a cozinha, a saída dos fundos, o sótão e mais detalhes do porão. Aliás, o porão rende uma das seqüências mais impressionantes tecnicamente falando (e que, de certa forma, é também uma referência ao original): a morte de um rapaz visto pelo lado de fora da janela do porão, janela essa que também reflete de forma sobreposta, o rosto atônito de sua namorada que a tudo assiste.

A trilha sonora, por sua vez, poderia ter trilhado o caminho fácil que seria repetir o tom da trilha de Bernard Hermmann. Mas Goldsmith adiciona melancolia e uma dose pesada de insanidade e descontrole em sua trilha para ressaltar musicalmente a degeneração mental dos personagens (e, eventualmente a do expectador também). Hermann deve ter ficado orgulhoso.

Por fim, Franklin faz um trabalho que, se obviamente não se compara à sutileza e esmero de Hitchcock, tampouco joga seu filme na vala das seqüências típicas do período em que foi feito. Há ali o nítido interesse em criar um suspense genuíno, proveniente do próprio conceito criado por Hitchcock (a dilatação do tempo, de tudo aquilo que faz o coração palpitar mais forte), através de planos curiosos como o do POV do sótão da casa enquanto se vê, lá embaixo, uma pessoa correndo em direção ao mato.

Psicose II é, em síntese, um achado singular. Gerado como uma seqüência totalmente desnecessária (qual a razão criativa de tirar Norman Bates do sanatório e coloca-lo no motel onde se sabe que – ooooh – mais pessoas morrerão de novo?), o filme é a comprovação de que a FORMA com que é feito, dirigido e montado, faz toda a diferença no produto final em relação à sua premissa. Hitch deve ter aplaudido de pé, mesmo com ressalvas, lá do céu dos gênios.

PRESTE ATENÇÃO: Na atuação milimetricamente calculada de Anthony Perkins. O cara consegue agregar camadas ao seu personagem que qualquer um julgaria impossível, após a conclusão do filme anterior. Sentimentos conflitantes em relação ao personagem não serão incomuns. Aproveite e se delicie.

POR QUÊ NÃO PERDER: Porque é uma seqüência diferente do que se está acostumado a ver. Psicose II continua, na melhor acepção do termo, o filme anterior, acrescentando coisas ao que já havia sido estabelecido no filme anterior deixando aquele universo mais rico, sem repetir as coisas. E o próprio trailer do filme já deixa qualquer um com água na boca:

3/4

Daniel Costa

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Prelúdio Para Matar (Profondo Rosso – Dario Argento, 1975)

Não existe experiência cinematográfica mais intensa que Profondo Rosso. Argento agarra e rasga os nervos do espectador num processo de estupro e orgasmo do mais puro cinema já concebido. Nem Janela Indiscreta, nem Veludo Azul, Peeping Tom ou Blow-up. Nada é mais cinema que Profondo Rosso. Pegando emprestado tanto David Hemmings como o espírito obsessivo do seu personagem no filme do Antonioni (e no de Hitchcock, e no de Lynch), e torturando seu espectador de forma ainda mais terrível que Michael Powell ao transformá-lo no assassino do seu filme (através de uma lente subjetiva filtrada no mais bruto voyeurismo), Dario Argento consegue afinar o cinema no tom definitivo.

Enlouqueci assistindo. O Noonan e o Scofa me encontraram logo depois e sabem do meu estado. Fui abusado cinematograficamente. Nunca estive tão dentro de um filme. E falo literalmente quando digo que Argento faz do espectador o assassino de Prelúdio (que sempre sabe de tudo, sempre está um passo à frente, como Marcus comenta em determinado momento). A linguagem visual poucas vezes (ou nenhuma, sabe-se lá) foi usada com tanta fluência e tanta beleza. A primeira vez que chegamos ao auditório, por exemplo (e chegamos caminhando, que fique claro) e nos deparamos com o hipnotismo do vermelho incandescente nas cortinas e nas poltronas, revisitado mais tarde (descarnados do assassino) sob a predominância dos tons de cinza. Ou depois, na casa da escritora, quando um personagem deixa uma velha senhora sozinha no lugar. A enxergamos do outro lado do corredor como se contemplássemos um pedaço de carne. Uma madeira do piso estala, damos um passo atrás, ela vem em nossa direção, e nos escondemos sob uma parede em outro cômodo e a cena corta para nada em torno dela ser retomado mais tarde. Sim, o Argento é um filho da puta.

E tem muito disso, de sermos relegados quanto a coisas que não tinham, de qualquer modo, importância para o que se busca em Profondo Rosso. E várias vezes essa condição de a lógica não ter espaço algum no filme é criada ao invés de meramente acontecer, revestindo-o de uma expressão surreal de pesadelo. Há quem possa reclamar de soluções e conexões non-sense no roteiro, como a adição de um livro como caminho para a investigação na mansão e pretexto de outro assassinato. E é genial, não há limites neste ajuste onde se joga um elemento no lixo apenas para amplificar outro. Foda-se a coerência, foda-se a lógica. Argento usará o que for preciso, sem qualquer compromisso nem rota regrada de margens para produzir efeitos.

Daí que para pervertidos incuráveis por atmosferas, Profondo Rosso é novamente o filme definitivo. E a trilha do Goblin é das coisas mais absurdas já compostas e já utilizadas, o que torna sua simbiose com as imagens algo como uma relação sexual. Daqueles casos em que houve uma compreensão absoluta, uma harmonia encantada entre compositores e cineasta. Há momentos, inclusive, em que a música tem picos de um agudo agressivo aos ouvidos, transformando a trilha numa lamina que fere o espectador. E outras nuances fantásticas, como, quando percorrendo a amplitude da mansão (uma seqüência com possíveis sérios agravantes psicológicos), música altíssima, Marcus pisa num caco de vidro. Tudo silencia. Lembrando de Lynch em Império dos Sonhos, na cena em que o som e as dançarinas desaparecem, o efeito é provocado através da ausência de efeitos, comprovando a imersão total do espectador a ponto de tornar uma atmosfera completamente tensa e vazada sensorialmente na atmosfera “normal”, por alguns minutos, transformando a silenciosa e antes cômoda, exatamente, na incômoda. Depois de uns instantes de silêncio, a trilha volta, provocando um novo impacto. O resultado é inexplicável (não, apesar de eu ter descrito aqui, não há como ter idéia do que acontece).

O prelúdio de cada assassinato pode ser recortado em pequenas-gigantes obras-primas da construção de clima, fazendo da escada para a tensão o próprio pico da tensão. A primeira iniciativa contra Marcus é som e imagem pra se derreter e injetar na veia. O gesso sobre o piano, a câmera que de repente invade a saleta de música transpassando as cortinas, o passeio do espectador-assassino pelos cômodos à espreita de Marcus, a sustentação da trilha no piano com uma mão, como elemento de cena… E tudo, o tempo todo, é compulsivamente pensado e desenhado. Em cada plano e cada movimento, seja na simetria ou na assimetria misteriosamente perfeita dos fundamentos.

A cena final é uma coisa que não tem teoria, tratado nem religião que explique. E o reflexo na poça revela não apenas o assassino refletido no seu oposto, como no espectador. Este mesmo espectador que teve ao longo filme sua sede de sangue saciada a gordos jarros de sadismo, que foi encarnado, que vestiu nas mãos as luvas negras do psicopata, dando vazão à própria psicopatia no conforto de uma ficção.

Absurdo. Inexplicável. Obra que justificaria inteira um século de cinema.

4/4
 

Luis Henrique Boaventura

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