Psicose II (Richard Franklin, 1983)

OBSERVAÇÃO: O texto está cheio de spoilers. Veja o filme antes de lê-lo se não quiser estragar as reviravoltas. O texto recomenda a experiência de ter visto o filme para que possa ser melhor apreciado.

“Em 1960, a História do Cinema estava sendo escrita… Já se passaram 22 anos e Norman Bates voltou para casa.” Com essa tagline, a Universal inseriu o público dentro que se tratava Psicose II, a seqüência de um dos maiores clássicos não só do cinema, mas também de um dos melhores filmes da filmografia de Alfred Hitchcock. Não dá pra negar que a continuação foi proposta com o único intuito de pegar carona na onda “slasher” do terror que, em 1982, estava a todo vapor, produzindo filmes de terror em doses cavalares. Para se ter uma idéia, a série Sexta-Feira 13 tinha lançado seu terceiro episódio e já estava anunciando a produção de seu quarto; Halloween, por sua vez, também lançava seu terceiro episódio; Tubarão idem. “Por que não trazer de volta Norman Bates?” deve ter pensado um executivo do estúdio onde Hitch terminou sua prolífica carreira… Neste contexto mercantilista, a continuação teve sua produção iniciada, dirigida pelo desconhecido (e posteriormente amaldiçoado pela crítica) Richard Franklin, mas alguma coisa fez com que o filme deixasse de ser apenas mais um filme de suspense/terror para se tornar um complemento único à excelência que Hitch mostrou de forma tão saborosa no filme de 1960…

Psicose II é um filme sobre alguns assuntos. Um deles é sobre as mães e seus filhos (plural). Norman Bates (Anthony Perkins), tido como incapaz de compreender a natureza de seus atos, é condenado a cumprir sua pena em um sanatório. Duas décadas mais tarde, a Justiça concluiu pela soltura do sujeito por achar que ele restaurou sua sanidade e está apto a ser ressocializado, para desespero de Lila Crane Loomis (Vera Miles, única participante do filme anterior que retornou junto com Perkins), irmã de Marion Crane, a famosa vítima que morreu no chuveiro no filme anterior, que acha que “as pessoas nunca mudam”.

Tendo de volta o seu motel de beira de estrada, Norman tenta retomar sua vida aos poucos, trabalhando numa lanchonete, onde conhece Mary Samuels (Meg Tilly), uma moça com problemas com o namorado, a quem Norman convida gentilmente para passar o tempo que for necessário em seu motel. E é aí que as coisas começam a degringolar. Norman passa a receber telefonemas de alguém que se diz sua mãe e começa a receber bilhetes supostamente assinados por sua mãe exigindo que “a vagabunda precisa sair da casa” – se referindo a Mary. E aí começa o processo de degeneração mental do seu protagonista, numa espiral de vertigem que lembra a viagem ao inferno do protagonista de outro clássico do mestre Hitch: Um Corpo que Cai.

A entrada de Mary na vida de Norman é o estopim que desencadeia seu processo de degeneração e retorno homeopático, porém intenso, à loucura e desorientação. Mary é filha de Lila, manipulada pela mãe obcecada a atender seu capricho: mandar Norman de volta ao sanatório. Neste ponto, a narrativa de Psicose II estabelece um paralelo irônico entre o protagonista e sua amiguinha: ambos são manipulados por suas mamães e Psicose II versa sobre o conflito de ambos em se livrarem dessa influência maternal. Só que as mamães enlouquecem as suas crias que as obedecem o que nos dá uma perspectiva sombria do princípio bíblico “honra tua mãe e teu pai para que te prolonguem teus dias de vida”.

A lenta degeneração de Norman, claro, trará como resultado mais mortes, a começar pela de seu gerente bebum (Denniz Franz, desagradável – no bom sentido – que rouba a cena) que transformou seu motel num puteiro de beira de estrada. Entretanto, quando o expectador começa a querer “comprar” o filme, a narrativa surpreende e insere elementos que jogam quem assiste em diversas direções. Em um momento, pode-se acreditar que Norman seja o assassino; em outro momento, crê-se que Lila e Mary chegaram a um ponto onde o assassinato começa ser o último recurso para surtar de vez o pobre Norman; em outro momento, tem-se a possibilidade de que uma TERCEIRA pessoa possa estar por trás dos assassinatos e até dos telefonemas e dos bilhetes.

Ao oferecer diversas hipóteses para os vários acontecimentos, Psicose II “convida” o expectador a fazer parte daquele amontoado de eventos que remetem à loucura e aí começa o processo de degeneração mental do EXPECTADOR!! Psicose II insere elementos, a princípio, desconexos entre si, informações desencontradas e meias-verdades para fazer com que o expectador partilhe da degeneração de Norman e surte junto com o protagonista chegando a um ponto onde o expectador pode começar a questionar o que é real e o que é fruto da insanidade de seus personagens.

É essa espiral interativa que torna Psicose II um filme saboroso de ser assistido, dentro do contexto ‘caça níquel’ na qual ele fora concebido. Talvez tenha sido o carinho com o qual o roteirista Tom Holland (que, dois anos mais tarde dirigiria aquele que considero seu melhor filme, o fantástico A Hora do Espanto) e o diretor Franklin tenham olhado para o original e o cuidado no qual devem ter concebido este segundo filme que, se não é melhor que o original (desenvolverei mais disso adiante), continua com dignidade todo aquele universo estabelecido por Hitchcock e, mesmo assim, se utiliza da linguagem típica dos filmes de terror do período, ao mesmo tempo em que renegou seus excessos gerando um filme que é quase a cara do terror/suspense dos anos 80, mas também é diferente de tudo que foi produzido no gênero nesse mesmo período.

Sem querer ser superior ao original, Psicose II desenvolve-se de maneira narrativamente surpreendente para uma seqüência de um filme clássico ‘de terror’ onde as suas personagens ditam o rumo e ritmo dos acontecimentos e não o inverso. É um desses filmes onde quem assiste faz aquela pergunta tão preciosa e rara em muitos filmes hoje “como isso vai acabar?”

Entretanto, por ser cria de uma época em que filmes de suspense/terror eram feitos de maneira ‘fast food’, Psicose II possui seus problemas narrativos que, infelizmente, o afastam de atingir a luz do filme original. Esses problemas concentram-se basicamente no epílogo, onde se soluciona uns 60% dos mistérios relativos à trama. Embora termine-se o filme sabendo quem é o responsável pela maioria das mortes, ainda se fica com a dúvida com relação ao restante das mortes não cobertas pela revelação do assassino, o que é sempre bom. Porém, a revelação em si soa mais ou menos como a relação de amor entre Anakin e Padmé em Star Wars – Episódio II: acontece por exigência do roteiro e não por um desenvolvimento natural dos fatos e acontecimentos que levam ao desmascarar do assassino. É como se o responsável por tudo chegasse no final do filme e dissesse ‘Hey, sou eu, eu fiz tudo!!’ Problema idêntico acometeu o primeiro Sexta-Feira 13 onde o assassino chega e praticamente diz “é, eu matei todo mundo mesmo!” A própria idéia de que Norman Bates possa ter tido uma “outra mãe” é também risível e dispensável.

Porém, mesmo após a solução referente a maior parte dos assassinatos, a narrativa volta a flertar com o macabro presente no filme original, brindando a seqüência com uma cena que remete imediatamente ao filme original, fazendo homenagem e introduzindo o expectador de volta ao “status quo operandi” de Norman Bates. Psicose II termina onde o original começa. A sensação de “perda de tempo” pode surgir na cabeça de alguns viewers desatentos, mas acredito que a cinefilia ganhou e muito com o filme, já que o final evita o caminho fácil tão típico dos filmes do gênero, termina de forma angustiante e coloca o expectador diante de uma redenção às avessas, macabra. Para Norman Bates, a sua noção de normalidade é diferente da noção comum do mesmo termo para as outras pessoas. O personagem só encontra paz de espírito na companhia da sua mãe, mesmo que o preço a ser pago seja a sua sanidade e, eventualmente, das pessoas à sua volta.

Tecnicamente, o filme tenta se afastar de seus “primos” do gênero da mesma época. Franklin, exibindo um faro apurado que, até onde eu saiba, não se repetiu em seus filmes posteriores (o cara nunca emplacou no ofício), pinta Psicose II de forma impressionante, mais uma vez, dentro do contexto em que fora concebido. Iniciando seu filme com a cena clássica do chuveiro do filme original – opção que não me agrada de jeito nenhum por razões óbvias, o diretor surpreende quando mostra pq escolheu a cena em questão para abrir seu filme. Ao soar os acordes da impressionante e insana trilha de Jerry Goldsmith, Franklin nos leva do mundo P&B do filme original, para o Technicolor dos anos 80, de forma gradual, na fotografia de Dean Cundey (colaborador de outrora de Spielberg e John Carpenter), com a casa de Norman ao fundo.

E não pára por aí. O diretor sempre que pode insere planos parecidos com os do filme original, prestando homenagem e fazendo referência. O recado é claro: Psicose II não é só uma seqüência do filme de Hitchcock. É uma HOMENAGEM ao filme clássico, como mostram os créditos finais, ao mesmo tempo em que existe independente deste, técnica e narrativamente falando. Amostras disso há aos montes como a idéia de centrar na casa de Norman Bates 60% dos acontecimentos do filme, fazendo da casa um personagem de trama, com seus corredores, sua escadaria tão bem utilizada no original (e aqui replicada de forma fidelíssima) e mostrando outros detalhes como o banheiro da casa (outra referência ao original), a cozinha, a saída dos fundos, o sótão e mais detalhes do porão. Aliás, o porão rende uma das seqüências mais impressionantes tecnicamente falando (e que, de certa forma, é também uma referência ao original): a morte de um rapaz visto pelo lado de fora da janela do porão, janela essa que também reflete de forma sobreposta, o rosto atônito de sua namorada que a tudo assiste.

A trilha sonora, por sua vez, poderia ter trilhado o caminho fácil que seria repetir o tom da trilha de Bernard Hermmann. Mas Goldsmith adiciona melancolia e uma dose pesada de insanidade e descontrole em sua trilha para ressaltar musicalmente a degeneração mental dos personagens (e, eventualmente a do expectador também). Hermann deve ter ficado orgulhoso.

Por fim, Franklin faz um trabalho que, se obviamente não se compara à sutileza e esmero de Hitchcock, tampouco joga seu filme na vala das seqüências típicas do período em que foi feito. Há ali o nítido interesse em criar um suspense genuíno, proveniente do próprio conceito criado por Hitchcock (a dilatação do tempo, de tudo aquilo que faz o coração palpitar mais forte), através de planos curiosos como o do POV do sótão da casa enquanto se vê, lá embaixo, uma pessoa correndo em direção ao mato.

Psicose II é, em síntese, um achado singular. Gerado como uma seqüência totalmente desnecessária (qual a razão criativa de tirar Norman Bates do sanatório e coloca-lo no motel onde se sabe que – ooooh – mais pessoas morrerão de novo?), o filme é a comprovação de que a FORMA com que é feito, dirigido e montado, faz toda a diferença no produto final em relação à sua premissa. Hitch deve ter aplaudido de pé, mesmo com ressalvas, lá do céu dos gênios.

PRESTE ATENÇÃO: Na atuação milimetricamente calculada de Anthony Perkins. O cara consegue agregar camadas ao seu personagem que qualquer um julgaria impossível, após a conclusão do filme anterior. Sentimentos conflitantes em relação ao personagem não serão incomuns. Aproveite e se delicie.

POR QUÊ NÃO PERDER: Porque é uma seqüência diferente do que se está acostumado a ver. Psicose II continua, na melhor acepção do termo, o filme anterior, acrescentando coisas ao que já havia sido estabelecido no filme anterior deixando aquele universo mais rico, sem repetir as coisas. E o próprio trailer do filme já deixa qualquer um com água na boca:

3/4

Daniel Costa

1 Comment

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One Response to Psicose II (Richard Franklin, 1983)

  1. calvin2008

    Ô texto bão sô…