Wall-E (Andrew Stanton, 2008)

Pelo menos uma vez na vida, quem gosta de cinema já foi confrontado pela seguinte pergunta: “De que tipo de filme você mais gosta?”. E, também, pelo menos uma vez na vida, as pessoas que fazem essa pergunta ouvem a seguinte resposta: “Nenhum gênero em específico. Eu gosto de FILMES!”. Então… eu também gosto de filmes. Qualquer gênero, qualquer temática, qualquer duração, qualquer qualquer. Mas, pensando bem, filmes como Wall-E, o novo filme da Disney/Pixar, é justamente o “tipo” de filme que me ganha com mais facilidade.

Antes de explicar o porquê, gostaria de frisar que a Pixar, definitivamente, não erra (tá… eu ainda não vi Carros, mas mesmo que não venha a ser genial, tenho certeza de que não será nenhuma bomba). Nesse sentido, eu até tenho um pouco de “pena” das outras produtoras. Mesmo que a DreamWorks faça mil Shreks, ela não terá somado tanto quanto a Pixar somou, desde que lançou o genial Toy Story, em 1995 (aliás, ainda dá pra voltar um pouco mais no tempo e lembrar do curta Knick Knack, de 1989). A Pixar vem, filme após filme, galgando novos degraus no que diz respeito à qualidade de animação – tanto técnica quanto de conteúdo. E na minha não-tão-humilde opinião, 2008 (13 anos após Toy Story) foi o ano em que a Pixar atingiu seu ápice. Wall-E é o melhor filme lançado pelos estúdios Pixar.

Mesmo afirmando com tanta veemência, eu concordo que é bastante difícil organizar um top Pixar (mas, quem ler essa resenha, organize o seu top, aí nos comentários… depois eu tento também). Mesmo os mais “fraquinhos”, como Vida de Inseto e Monstros S.A., são animações excelentes, absolutamente dentro dos padrões de qualidade da Pixar (aliás… creio que as únicas animações 3D de outros estúdios pelas quais nutro algum “carinho” sejam “Formiguinhaz” e o primeiro “Shrek”). Mas, desde 2003, quando lançou Procurando Nemo, a Pixar instaurou um novo “ritmo” para as animações. Agora, além delas não mais estarem limitadas às crianças, ainda conseguiam trazer temas “de gente grande” junto com seus personagens fofinhos. Foi assim com Procurando Nemo, Os Incríveis e Ratatouille… e é assim com Wall-E. Portanto, vamos a ele.

Embalados pela música “Put On Your Sunday Clothes” (de Michael Crawford), entramos no que sobrou do Planeta Terra, no futuro de Wall-E. O planeta está, literalmente, um lixo. Tanto que, os seres humanos, há séculos, embarcaram em espaço-naves e foram viver, confortavelmente, no espaço. Porém, deixaram para trás pequenos robôs, que cuidariam da limpeza do planeta para que, dentro de cinco anos os humanos pudessem regressar e retormar suas vidas em seu planeta natal. Porém, mais de 700 anos se passaram e humano algum voltou. Os robôs fizeram seu trabalho até onde deu, mas o tempo, somado às catástrofes climáticas que passaram a assolar o planeta por causa da degradação ambiental, destruíram quase todos os robôs. Todo exceto um. A esse um, chamamos de Wall-E (que, na verdade, é a sigla da “companhia” que ficou responsável pela limpeza do planeta).

O pequeno robô lixeiro “acorda” toda manhã, calça suas esteiras, pega sua lancheira e sair em busca de mais montes de lixo para transformar em cubos que ele empilha até formar imensos arranha-céus. Não há ninguém no planeta com ele, além de uma barata. Como está (quase) absolutamente sozinho, a diversão do robô é catar do lixo “coisas legais” que ele guarda em sua casa. Sendo assim, Wall-E é um trabalhador comum. Acordo às 6, trabalha como condenado o dia todo e volta às 18 para relaxar vendo seu filme preferido (o musical “Olá, Dolly!”). Aliás, é desse filme que Wall-E extrai todas as referências que ele tem sobre a raça humana. Para ele, os humanos são seres que vivem todos juntos, cantam, dançam e, por vezes,se dão as mãos. Neste contexto devastador, solitário e frio, Wall-E “viveu” por sabe-se-lá-quanto-tempo. Entretanto, a chegada de uma nave trouxe a ele uma grande oportunidade.

Assim que aterrissou, a nave liberou uma pequena sonda-robô que, imediatamente, passou a procurar vestígios de vida no planeta. Reconhecendo a tal sonda como um semelhante, Wall-E passa a perseguí-la com curiosidade, na esperança de conseguir alguma convivência com a robô recém-chegada. Inicialmente hostil, a sonda não se mostra muito interessada em Wall-E (afinal, ele não é um ser vivo). Entretanto, após uma estranha tempestade, os dois têm a oportunidade de “se conhecer melhor”. Após descobrir que a sonda se chama EVA, Wall-E passa a mostrar a ela as coisas que juntou durante todos aqueles anos de solidão. Apesar da novidade, EVA não se mostra exatamente muito interessada nas tralhas que Wall-E lhe apresenta. Porém, quando este finalmente mostra uma pequena planta que havia encontrado anteriormente, EVA fica eufórica. Recolhendo a planta para dentro de seu corpo, EVA entra em um estado de hibernação, enquanto espera pela volta da nave. Quando esta enfim chega, Wall-E desespera-se ao ver que será separado de sua amada e, então, pendura-se na nave, começando sua aventura em busca de EVA e rumo à Axion, o refúgio dos seres humanos.

Ok, a introdução é essa. Mas, enfim, o que há de tão espetacular em Wall-E? Eu diria, sem pensar muito, que esse novo filme é a produção mais profunda da história da Pixar. Além de toda essa profundidade (que faço questão de comentar daqui a pouco), o filme faz referências e homenagens a diversos outros filmes, estilos e diretores. Impossível não se encantar com a beleza “quase muda” dos 30 minutos iniciais, que remetem a Chaplin… à cena da dança espacial, que homenageia “2001, Uma Odisséia no Espaço”. O próprio Wall-E, como muitos alardearam antes do filme ser lançado, parece-se muito com o E.T, do Spielberg e com o “Número 5”, do “filme de Sessão da Tarde”, “Um Robô em Curto-Circuito”. Entretanto, eu não estou interessado com o que Wall-E parece… falemos sobre o que Wall-E É!

Primeiramente, é necessário saber que Wall-E versa sobre duas temáticas principais: uma delas é bastante crítica e incisiva, pois trata-se de uma visão quase apocalíptica para o futuro do planeta, no que tange à questão ambiental. Além da Terra abandonada e corrompida vemos, na “segunda parte” do filme, uma humanidade destruída pelo completo ócio e pela publicidade massiva que serve apenas como ferramenta de controle de uma população que já não tem muito lugar para onde “fugir”. Mas, por mais forte que essa crítica seja e por mais que ela seja a temática mais “visível” do filme (a ponto das pessoas saírem da sala de cinema dizendo coisas como “bonito, né? Mostra direitinho como o mundo vai ficar se o homem continuar fazendo merda”), a verdadeira temática de Wall-E é bem mais “simples” e comum do que se esperava. Wall-E fala sobre amor. E é sob essa temática que é possível extrair o maior número de significações do filme.

A princípio, Wall-E é apenas a última criatura nesse mundo. Sozinho, no meio dos detritos, ele tem aquela visão sobre relações humanas comentada anteriormente. E ele deseja esse tipo de relação para ele. Afinal, o que mais alguém pode querer, além da companhia de um semelhante para pegar na mão? Vendo e revendo “Olá, Dolly!”, Wall-E chega até mesmo a decorar a dança que o protagonista faz e, em determinado momento, ao ver pelo trocentésima vez o filme, ele segura a própria mão, compreendendo-se completamente sozinho. Porém, com a chegada de EVA, a chance de realizar seu “sonho” se torna palpável. Ao “ir à luta”, Wall-E descobre que EVA possui, assim como ele, uma diretriz. Mas, ao contrário dele, ela não fazia simples cubos de lixo para serem empilhados. Classificada como “sigilosa”, a diretriz de EVA era tão imperativa para ela que não a permitiria perder tempo com um robô velho e sujo do planeta Terra. Por isso, quando Wall-E desvela sua vida, EVA até acha graça, mas não consegue compreender o que leva o robô a guardar tanta tralha ou a dar tanto valor a passos de dança e mãos dadas. Wall-E, por outro lado, está fascinado: EVA, além de ser uma semelhante, consegue fazer coisas extraordinárias, que ele jamais poderia fazer. Ela voa, ela é forte, ela tem uma arma que faz uma rocha imensa em pedaços. Mas essa seqüência, onde Wall-E mostra o que ele tem para EVA, duas partes em especial me chamaram a atenção. Em certo momento, ele mostra a ela um cubo mágico e, enquanto ele busca uma lâmpada ela, facilmente, resolve o complexo brinquedo. Impressionado, ele entrega a lâmpada a EVA. Quando esta segura a lâmpada, ela se acende. Intrigado, Wall-E pega novamente a lâmpada… e ela se apaga. Devolve-a para EVA e a lâmpada torna a se acender. Parav Wall-E, esses dois pequenos fatos são a confirmação de duas coisas: para EVA, a vida dele é simples demais… fácil demais de se entender. E, ao mesmo tempo, ela tem a capacidade de fazer algo na vida dele, que ele mesmo não pode fazer. Fascinado, Wall-E mostra a dança do musical e tenta pegar na mão de EVA. Mas, como ela não se mostra interessada, ele mostra-lhe a planta. A planta é a diretriz de EVA. A planta é o motivo dela existir. Encerrada a missão, não há motivo para ficar gastando energia. Ela se fecha e Wall-E passa a tentar compreender o que aconteceu. Quando a nave vem buscar EVA, ele resolve seguí-la, pois agora tem a certeza de que é ela quem irá tirá-lo da solidão a qual foi submetido por tanto tempo.

Uma vez dentro da Axiom, Wall-E e EVA se reencontram mas, para ela, ele é apenas um problema. Não compreendendo como ele acabou entrando na nave, ela tenta tirá-lo dali ao mesmo tempo em que procura resolver sua diretriz. Wall-E então entende que EVA tem “algo maior” para fazer. Se ele quiser continuar ao lado dela, terá que adaptar-se a isso e ajudá-la a cumprir tal missão. Aliás, nesse momento do filme, comecei a pensar na forma como o próprio Andrew Stanton (que criou a história original – depois transformada em roteiro por ele, Pete Docter e Jim Reardon) vê o amor. Se nos prestarmos a humanizar a relação de Wall-E e EVA a partir desse ponto, podemos dizer que Wall-E decide simplesmente doar-se a EVA, suprimindo o máximo possível seu ego, pelo privilégio de poder estar por perto. Assim, pouco a pouco, o objetivo de EVA vai tornando-se, também, o objetivo de Wall-E. Sem querer, eles já compartilham uma “vida”. Compartilham algo pelo que lutar, embora os objetivos sejam, inicialmente, diferentes. Inicialmente, pois, a doação de Wall-E é tão grande que, em pouco tempo, ele está ajudando EVA (a níveis extremos) pelo simples “prazer” de ajudar a “robô que ele ama”.

Dessa forma, eu retomo o primeiro parágrafo dessa resenha para explicar o porquê deste ser o “tipo” de filme que me pega com facilidade. Tecnicamente, Wall-E é só mais uma animação 3D “para crianças”. Embora, como aconteceu com Ratatouille, a divulgação tenha sido um tanto mais “fraca” do que em comparação com outras animações da Pixar (pelo menos a nível de Brasil), Wall-E foi vendido de uma forma muito errada por aqui. Quem mora em Curitiba talvez tenha visto os outdoors de divulgação de um certo shopping, onde lia-se “o bom de ter um robô como amigo é que ele nunca se cansa de brincar”. Aí você vai lá, vê o filme e percebe que o Wall-E não parece estar muito disposto para “brincar”. Ele tem uma preocupação muito grande para se dar ao luxo de brincar. Mesmo que o filme tenha suas cenas engraçadinhas (que funcionam muito bem), ele é, essencialmente, um filme bastante sóbrio, profundo e, até mesmo, triste. Wall-E não somente me surpreendeu, como também “conversou” comigo. Em pouco tempo, percebi que compartilhávamos alguns pontos de vista e, ao final da sessão, mesmo com os olhos vermelhos e a cara um pouco inchada, eu saí da sala com uma sensação reconfortante no peito. Enfim, talvez seja isso que faz a Pixar tão magnânima quando o assunto é animações. Dificilmente se sai indiferente após apreciar um de seus filmes.

P.S.: Agradecimentos à Gabrielle Staniszewski que foi de grande ajuda nas interpretações deste filme.

4/4

Murilo Lopes de Oliveira

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A Encarnação do Demônio (José Mojica Marins, 2008)

Aqui no Multiplot já falamos algumas linhas sobre como o Terror é, em muitos momentos, considerado por muitos um “gênero menor” (tanto é que, em alguns tops feitos pelo pessoal, os filmes mais explícitos ficaram de fora). Agora, imagine um filme de terror brasileiro. Agora, imagine que o diretor, o ator principal já está nesse ramo há mais de 40 anos. Esse diretor/ator/realizador é ninguém mais do que José Mojica Martins, mais conhecido como o seu alter-ego “Zé do Caixão”.

Encarnação do Demônio fecha a trilogia iniciada com “Á Meia-Noite Levarei a Sua Alma” e “Esta Noite Encarnarei no seu Cadáver”, onde o famoso coveiro sai da prisão depois de 40 anos e continua a sua procura da mulher que gerará o seu primogênito perfeito. Muitos podem pensar que se trata de uma produção trash. E o é. Mas é um filme que se assume trash (mesmo com o investimento de mais de R$ 1.000.000, uma fortuna se comparado ao restante desua filmografia) que se mantém fiel a sua essência, e que, por mais que pareça perder um pouco o rumo em certos momentos, se sustenta muito bem até o seu final, graças a mistura em doses controladas de momentos de riso e terror e a direção segura e guiada com rigidez por Mojica, onde subtramas e personagens são abandonados abruptamente em prol da continuidade da trama.

Mais do que isso, esse filme mostra para muitos telespectadores que o seu realizador é muito mais do que uma figura curiosa e engraçada. Assim, aqueles que foram assistir apenas pela figura sarcástica terão uma experiência totalmente realística e diferente do que esperavam. Como um cartão de visitas do que o Mundo de Zé do Caixão pode oferecer. E, muito provávelmente, nem todos estarão preparados para ele. Digo isso com propriedade: na sessão onde assisti o filme, várias pessoas saíram no meio do filme, enquanto que as que permaneceram até o final se mostraram extremamente tensas nas cenas mais pesadas. O que apenas corrobora o total controle de Mojica sobre o que ele pretende alcançar no público.

Assim, A Encarnação do Demônio, mais do que o fechamento de sua trilogia tão sonhada pelo seu realizador durante 40 anos, é a comprovação de que José Mojica Marins é um dos maiores desbravadores do Cinema Brasileiro. E que venham mais filmes do Zé do Caixão para o cinema!

3/4

Adney Silva

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Na Natureza Selvagem (Sean Penn, 2007)

Há dias venho ensaiando uma forma de falar deste filme de Sean Penn, mas sem absolutamente nenhum sucesso. E isso se deve a uma situação bastante peculiar: no momento em que comecei a assistir o filme tinha uma impressão que se desfez nas semanas seguintes à sessão. Raramente tal evento acontece, o que há é um aprofundamento em minha mente que acaba gerando uma análise mais fundamentada dos mesmos fatores que me levaram a tal impressão inicial… mas uma reformulação, que diabos era isso?

Tenho que dizer que Into the Wild me exauriu completamente durante os dias subsequentes à experiência. Não me lembro de quando um filme obteve similar efeito sobre mim. Em dado momento, estava tão confuso que não sabia se havia gostado, se havia sido uma experiência agradável ou tediosa, destrutiva ou construtiva,  jocosa ou fatigante.

Eu não havia lido muito sobre ele. Sabia apenas que se tratava de um jovem, que aparentemente tinha uma má convivência com os pais. Após graduar-se, sai de casa em busca de uma vida junto à natureza rumo ao Alasca e conhece vários personagens no caminho que mudam seus conceitos e lhe proporcionam aprendizado. Não poderia eu estar diante de uma sinopse mais previsível…podia construir através da premissa toda a trajetória do garoto em termos gerais.

Ao final do filme estava absolutamente extasiado com os rumos da estória e com a sinopse, pra mim,  completamente inadequada. Fui pensar porque tive essa impressão (nossa mente trabalha mais rápido do que nosso possibilidade de processamento dos porquês) e permaneci durante semanas traçando hipóteses e pensando porque raios aquela obra me deixara tão perturbado…

Como fã do processo criativo de personagens, bem como do comportamento humano, acabei chegando na seguinte perspectiva: há algo de diferente em Chris McCandless, algo que destrói minha lógica desse processo de gênese, algo muito difícil de explicar, mas que o torna um contraponto por exemplo à personagem Nikki Grace do “turbulento” Império dos Sonhos, cuja lógica compreende a desordem psicológica da protagonista. Mesmo sendo demasiadamente complexa, há ali uma conexão entre os principais elementos que a compõem, uma rede intrincada de pequenos fragmentos que se interligam de forma estranha, mas coesa.  E sobre os que você não conhece a conexão, você não se importa tanto, se conforma em não conhecer seus significados ocultos.

Sobre Chris não. Há incoerências comportamentais graves e inquietantes, motivações obscuras e comportamentos não tradicionalmente expostos em obras de arte. Ele realmente navega contra a maré, contra tudo que já vi e se torna um personagem muito especial. Alguém que parece não ser criado porque guarda a essência de uma individualidade peculiar que não parece ter sido processada ou compreendida por ninguém. Chris é simplesmente humano demais e isso estava me matando, destroçando meu mundinho de espectador!

Parte desse eco em minha mente foi desfeito quando sobre que era uma estória real, mesmo sabendo que sua vida foi redimensionada em um instrumento concreto (seja o livro, seja o filme). Entendi que parte dele foi deixada ali como uma estrutura complexa demais para ser reanalisada: “melhor reproduzir apenas seus efeitos”.

Jovem obstinado a cumprir seu objetivo (que se traduz concretamente em “chegar ao Alasca, não importa como”, simplificação absurda e insuficiente de todos os inúmeros fatores que proporcionam a ele essa mudança radical de vida), Chris vê em seu caminho pessoas tratando coisas comuns de forma comum e mesmo as diferenciadas como os hippies, tratando as adversidades com um caminho baseado em regras (diferentes da perspectiva social dominante, claro), mas ainda assim regras. E aí o que mais me surpreende é a forma totalmente atípica dele tratar tais situações e principalmente a convivência com outros seres humanos. A minimização da importância das relações interpessoais (quase cruel, em minha opinião a todos que atravessam sua cruzada), trocada por uma marca perpétua (embora extremamente breve) da passagem de Supertramp em suas vidas conjugada com algumas atitudes supostamente incoerentes com suas crenças o elevam a um nível ilimitado de complexidade.

Reduzi-lo, como já vi por vezes, a “apenas um jovem inconsequente ou idiota” é rejeitar um universo que funciona de forma distinta que o comum e destruir uma experiência no mínimo muito, mas muito interessante. A idéia de tentar compreendê-lo por completo, porém, produz igual destruição, tornando tudo ainda mais desafiador e empolgante.

Belíssima trilha sonora de Eddie Vader (vocalista do Pearl Jam ou ex, não sei bem), fotografia espetacular e tratamento de sensibilidade ímpar de Emile Hirsch e Penn em relação ao homem real que Chris representa Creio que, após todo o processo reflexivo que o filme me proporcionou (e que não consigo reproduzir em um texto nem 10%) posso dizer que Na Natureza Selvagem é emocionante e recomendadíssimo aos leitores do Multiplot!

4/4

Sílvio Tavares

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Guinea Pig 3: He Never Dies (Mazayuki Kuzumi, 1986)

Acredito que o objetivo último de um filme quando produzido seja interagir com o espectador, seja de que forma for, fazendo-o integrar-se emocionalmente com a estória através de seus múltiplos elementos constituintes e gerando inúmeras reações que se definem de acordo com seus objetivos intermediários (rir, chorar, ter medo, etc) e finalmente o retirar durante, pelo menos alguns minutos, de seu stress diário ou do universo real cujas regras são em parte definidas ou pouco mutáveis, projetar seus sonhos ou mesmo pesadelos, fazê-lo refletir ou propor uma realidade paralela e independente para elucidar um ponto de vista, por exemplo.

Esse conceito um tanto abrangente por vezes pode ser gerador de uma enorme diversidade de situações, uma vez que lidamos aqui com o elemento humano. E a controvérsia envolvida em muitas de nossas atitudes não pode ser explicada de forma racional. Uma vez que a mente se abre para o homem indivíduo como ele é (o cinema é capaz de atingir cada pessoa de forma diferente por suas perspectivas e experiências próprias mesmo sem conhecer pessoa por pessoa, um de seus trunfos), lidamos com possibilidades que advêm desse conceito que a princípio não conseguimos sequer imaginar. Descobrimos que muitas vezes o homem é imprevisível, não sabe explicar suas reações mas é consciente que as tem. E algumas vezes tais reações são execráveis, difíceis de aceitar por ferirem os princípios seja da lógica, da ética ou da moral. Elas permanecem latentes, adormecidas, intocadas no interior do ser. Em contrapartida, são esses mesmos princípios que impedem seus detentores de externá-las…entretanto, o cinema conhece o ser humano e alguns diretores tocam exatamente nos pontos mais difíceis de compreender, mas que compõem a natureza de pessoas normais (ou não, uma vez que pode potencialmente contemplar todos os tipos de indivíduo).

A série Guinea Pig escancara uma dessas vertentes complexas dos seres humanos (o tratamento da violência), visando atingir o âmago de nossos conceitos mais enraizados e testando sua força sobre nossa constituição psicológica, um alerta para que compreendamos porque simplesmente agimos como agimos diante de situações, propondo extremos que esclarecem os conceitos arraigados que perpetuam em nossa sociedade e mostrando que se assim não o fosse, seríamos meros (ou piores até que) animais. O público alvo ou que se aventura a participar de sua jornada, definitivamente se verá no centro da encruzilhada entre ser irracional ou racional e se questionará fatalmente porque assistira algo tão recriminável, chocante e horrível. Provavelmente não obterá uma resposta convincente.

E aqui é importante dizer que os dois primeiros filmes da série subvertem muitas idéias com as quais não estamos acostumados (exemplo: a existência de uma estória a qual seja a base da temática discutida em uma produção cinematográfica aqui é destroçada, a moral e ética não são contempladas – pensamentos “lógicos” são construídos de forma totalmente livre e assustadoramente desconectados de nossa realidade, etc). Considerados como “filmes extremos”, enquadrados como uma vertente do terror, definitivamente não são filmes para qualquer pessoa. A segunda parte, Flowers of Flesh and Blood, merece um texto à parte dadas suas peculiaridades (no pior sentido possível). Acrescento a essas duas obras o adjetivo  “sick” além do “extreme” que permeia quase todos os “Guinea Pigs”.

A coisa começa a mudar nesse terceiro. He Never Dies já apresenta um “protótipo” de estória, tão paupérrima quanto a tentativa de desenvolver algo coerente, assustador e cômico ao mesmo tempo. No filme, Nakamura, o protagonista, decide se matar por uma desilusão amorosa (fator que põe em evidência, naturalmente, uma série de outros problemas com os quais lida diariamente) mas simplesmente não consegue. No mais, um desfile de violência e do lado macabro do rapaz, que utiliza de tal arma para causar pânico no casal formado pelo objeto de seu desejo (uma garota do trabalho) e seu novo namorado.

Nada aqui funciona, embora seja sempre curioso como no Japão, características para nós vistas como infantis são agregadas ao comportamento normal adulto (parece algo natural). Acredito que essa impressão resulte da pouca importância dada no Ocidente às idades mais jovens. Nestes países, há a idéia comum de que a maior maturidade provém mesmo do final da adolescência/vida adulta (note como os pequenos jovens rejeitam o título de crianças e vêm tendendo a agir cada vez mais como adultos), perspectiva bastante diferente das pessoas de países de cultura distinta. É sempre necessário se abrir para um mundo novo ao ver um filme proveniente de um país como o Japão ou você jamais compreenderá porque o humor de lá (que de forma natural se integra ao terror, violência extrema) não tem em nenhuma hipótese a mesma conotação por vezes incoerente (ou de mau gosto mesmo) para as mesmas situações ocorridas e representadas no Ocidente.

O insucesso do filme não está, portanto, em se levar a sério demais, mesmo porque tudo soa extremamente ridículo o tempo todo (até um pouco ingênuo) e o filme trabalha o humor de forma até natural, mas na pobreza da estória, no desenvolvimento raso dos personagens e na superficialidade das reações . Entretanto, também não há aqui subversões fortes da moral ou excesso de violência, o tornando mais “deglutível” pelo público.

Enfim, é um filme simplesmente ruim, péssimo mesmo, mas não pela temática abordada como Flowers, e sim pelos fatores citados acima. A sequência, Guinea Pig 4: Mermaid in a Manhole, cristaliza os conceitos de estória novamente e aprimora a noção de violência, construindo um filme mais pesado, inteligente e sombrio, sem o mau gosto das duas primeiras partes ou a bobagem da terceira, sem perder o caráter de “extreme movie”. Falemos dele em um texto futuro, talvez seja o único exemplar de certa qualidade até aqui.

0/4

Sílvio Tavares

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Grande Hotel (Allison Anders, Alexandre Rockwell, Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, 1995)

Esse é um filme no qual eu dava pouquíssimo, e topar com ele na TV foi interessante. Realmente não é nada de excepcional, e o esquecimento é até compreensível. Tim Roth é Ted, rapaz que vai começar a trabalhar em um hotel decadente em Los Angeles no último dia do ano e acaba tendo das surpresas não mais agradáveis. O filme é dividido em quatro segmentos, cada um dedicado à uma desventura de Ted por um quarto do hotel.

Não tem muito segredo, cada segmento tem o seu estilo e vai procurar te entreter sem muito mais delongas. Por mais que falar sobre um filme indo falando o que vai acontecendo, em um compêndio de segmentos curtos como esse é mais ou menos assim que se lê Four Rooms, sem mais ambições. Em geral eles são bem irregulares entre si, mas a atuação do Tim Roth carrega o piano disso tudo muito bem, com um bellboy meio inglês, meio ingênuo, meio irônica e que vai surtando com o que vai passando pelo filme.

O primeiro é o que menos faz sentido de todos, e isso não quer dizer necessariamente uma coisa boa. Tem a ver com um ritual pseudo-bruxaria putaria, e inevitavelmente acaba chamando mais a atenção por ter a Madonna no meio disso tudo. Mas no conjunto, e analisando as provações (rs) que Ted vai passando ao longo do filme acaba tendo lá sua graça. O segundo é outra situação bizarra, mas agora até contada de uma maneira bem mais atraente. Roth se desdobra numa terapia psicótica para um casal, e Jennifer Beals acaba se destacando e roubando a cena. Se chama O Homem Errado, faz sentido e tudo mais, mas não tem muito a ver com Hitchcock, hehe. O terceiro é de Robert Rodriguez e é o mais divertido. Ted tem que se virar com os filhos de um mafioso (Antonio Banderas) que sai com sua mulher para beber no ano novo e deixa os pivetes no hotel. É um pastelão assumido, assim como os desenhos que assistem na TV, que vai tomando contornos mórbidos, além de coisas como um canal estilo sexytime com a Salma Hayek, uma seringa sem dono (?), e o champanhe que ficou no quarto. Por fim, o último, do Tarantino. Tem muito do estilo dele, em como filmar um grupo de gente que envolve um ator de Hollywood (vivido por ele mesmo, interpretando o papel que sabe muito bem, o dele mesmo), um neguinho meio fodido que quer um carro dos anos 60 e um Bruce Willis que passa o tempo no celular tentando se explicar com a mulher, que fazem entre si uma aposta que viram num filme do Hitchcock. Talvez até se alongue desenecessariamente, mas dá pra ver as características dos filmes dele feitas de um jeito mais desprendido (se quiser, pode ler vagal), logo depois de estourar em Pulp Fiction. Pra quem é fã dele feito eu, é um drops até interessante.

Mas enfim, vale a pena ver nas circunstâncias que eu tive, zapeando pela TV e pegando do começo.

(a foto devia ser da Jennifer Beals nesse filme, mas não foi possível, hehe)

2/4

Pedro Kerr

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Do You Like Hitchcock? (Dario Argento, 2005)

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De todos os flertes com o cinema de Alfred Hitchcock já produzidos – e a lista é tão distinta que ao mesmo tempo podemos citar François Truffaut, Stanley Donen e Brian De Palma, pra ficar em apenas três exemplos – nenhum beira tanto o artifício quanto Do You Like Hitchcock, filme feito pelo mestre italiano Dario Argento pra tevê italiana que, numa combinação criteriosa de uma série de elementos evocativos a grandes momentos hitchcockianos, brinca com a obsessividade do espectador sobre o poder da imagem, da visão, ou simplesmente do voyeurismo.

Não há nada de inovador em seu discurso, nem deveria, mas como cinema artificial, da simples colagem de uma série de imagens sem qualquer densidade, Do You Like Hitchcock funciona perfeitamente – e a simples necessidade da execução de uma ação como propulsora de outra garante o tom de superficialidade. A troca de mídia parece ter despertado uma consciência cinematográfica essencial, de certa forma mantida – ou potencializada – na obra-prima La Terza Madre que Argento faria em seguida, dessa vez retornando ao cinema com o mais vagabundo e importante filme da nova safra de filmes-B.

É um pequeno conto juvenil de detetive amador ao melhor estilo “do yourself”, feito todo de recortes de alguns dos mais celebrados filmes de Hitchcock, viajando por referências óbvias como a montagem em saltos apresentando toda a vizinhança no início do filme ou a perna quebrada até outras mais trabalhadas, como a evocação de certo filme a partir de um simples acorde. É trabalhado sobre a ótica de Janela Indiscreta e uma homenagem a Pacto Sinistro, mas trabalha Disque M Para Matar, Um Corpo Que Cai e Psicose dependendo da necessidade e do interesse.

Mas mais importante do que celebrar a diversão que garante é registrar o nítido interesse de Argento em dar vida ao material, seguramente um filme em que o prazer de se assistir parece jamais ser tão intenso quanto o de produzir. Pode fugir completamente da perspectiva argentiana de cinema – seria mais como De Palma adaptando um conto de mistério da Coleção Vagalume – mas qualquer conjunto de imagens que receba tanto carinho e ao mesmo tempo um tom satírico tão invejável merece meu respeito.

3/4

Daniel Dalpizzolo

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O Mensageiro do Diabo (Charles Laughton, 1955)

É inegável que essa arte que tanto amamos criou inúmeras (merecidas) celebridades ao longo dos seus mais de 100 anos. Entretanto, com a mesma velocidade que ela alça ilustres desconhecidos em estrelas da mais alta grandeza, também põe abaixo inúmeras carreiras e filmes. Muitos deles são reconhecidos com o passar dos anos (nada como a análise fria do tempo para dar crédito ao que merece), contudo, em muitos casos, fica sempre a sensação de injustiça, com algumas carreiras terminando prematuramente.

Um exemplo claro disso que estou falando é The Night of the Hunter (mal traduzido aqui como “O Mensageiro do Diabo”). Esse foi o único filme do diretor Charles Laughton, um renomado ator dos anos 30 e 40. Isso se deveu ao grande fracasso comercial e a incompreensão da crítica especializada. O desastre foi tão grande que Laughton decidiu nunca mais realizar um filme. Vendo-o, só posso concluir duas coisas: esse foi o típico caso de um filme muito a frente do seu tempo e que, por causa disso, perdemos um grande diretor, quem, caso seguisse a sua carreira, poderia figurar entre os maiores do cinema.

The Night of the Hunter é uma obra única, que se utiliza, dentre outras coisas, dos “ensinamentos” do expressionismo alemão para criar um clima totalmente soturno e, por que não dizer, macabro para a figura maléfica personalizada por Harry Powell, um suposto pastor que, na verdade, é um aproveitador e assassino de viúvas indefesas, e em sua última empreitada, precisa enfrentar duas destemidas crianças (as filhas da última viúva que ele matou).

Charles Laughton se mostra um diretor excepcional, que soube aproveitar como poucos o trabalho de fotografia em p&b para compor esse conto macabro pelo ponto de vista das duas crianças. Se percebe a influência do noir clássico, mas também há várias pinceladas de outras inflências (especialmente no que diz respeito a vários elementos teatrais), criando um estilo quase que único.

Mais do que isso: o filme consegue provocar uma sensação quase que ininterrupta de medo no telespectador. Medo. Muito medo. Medo de um simples cântico religioso entoado em vários momentos por Powell, em cada momento em que a sua sombra aponta no horizonte, medo do que pode acontecer com aquelas crianças, medo em relação com o que ele irá fazer com a mãe dessas crianças. Resumindo: Laughton consegue transpor o telespectador para áquele mundo. A partir desse momento, enxergamos o filme sob a óptica daquelas crianças.

Boa pare do crédito a esse fato se deve também à interpretação soberba de Robert Mitchum. Ele consegue construir um personagem cínico, obscuro, irônico e, o mais importante, assustador. Suas pregações, o olhar profundo e ameaçador, o modo como cerra e prensa as mão uma contra a outra, mostrando o embate entre o amor e o ódio (evidenciado pelas as palavras “HATE” e “LOVE” tatuadas nos seus dedos)… todas essas nuances fazem com que tenhamos medo dessa figura. Mais do que isso: apesar do medo, faz com que ficamos fascinados pela sua persona contraditória, que se vê como um “defensor da moral e dos bons costumes” (na falta de uma definição melhor) e que, por conta disso, precisa limpar à sua maneira toda a sujeira que a luxúria insiste em espalhar.

O filme é também uma crítica mordaz ao fanatismo religioso, representado principalmente pelos habitantes daquele local, que se mostram bastante receptíveis àquela suposta distinta figura de falas tão encantadoras e venenosas, que, por conta disso, se aproveita da situação. Além disso, quando finalmente Powell é desmascarado, esse fanatismo se mostra ainda mais latente, diante a reação inquisitora da população, disposta a “ver derramar o sangue do infiel”. Mais do que a força física, a força da palavra é mostrada com todas as suaas garras. Apesar da história da fita se passar nos anos 30, esse aspecto ainda se mostra atualíssimo.

Ainda nessa análise sob o ponto de vista religioso, percebemos a figura da pureza e da inocência (as crianças) triunfando contra os malefícios de toda uma sociedade. Elas são empurradas para um um mundo caótico, repleto de questões morais, lutando para encontrar um caminho por entre dificuldades espirituais, emocionais e físicas, de forma a cumprir a promessa que fez a seu pai. No final, cansado de levar esse fardo, ele abdica da promessa, abandonando esse peso injusto ao qual foi obrigado a carregar e, com isso, recuperando a sua pureza e inocência.

Por essas e muitas outras coisas (que não serão citadas nessa resenha sob pena dela se transformar num extenso e chato tratado), The Night of The Hunter é um dos filmes mais impressionantes já feitos. Além de mostrar o quanto o mundo pode ser injusto: enquanto vemos uma carreira de diretor que poderia ser promissora, mas que acabou por conta do julgamento mordaz do público e da crítica, abortos da natureza como Michael Bay e Uwe Boll continuam a fazer o que eles têm a audácia de chamar de filmes. Pelo menos todos nós sabemos quais irão permanecer incólumes com o tempo…

4/4

Adney Silva

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Rififi (Jules Dassin, 1955)

Dassin na frente de um espelho “hm, a cena do roubo deve ser especial… que trilha será que eu uso? Que diálogos, meu Deus?… Como farei pra criar o clima de tensão necess… OPA! Mas que caralho eu tô pensando? O que pode ser mais tenso do que fazer do espectador um dos membros do grupo, enclausurando-o no silêncio e no processo exato da ação? Ah, seu gênio filho da mãe…” e daí que a meia hora do assalto à joalheria merece uma cadeira de 4 créditos em qualquer faculdade de cinema. Nada poderia tornar a cena mais sufocante do que deixá-la virgem, bruta, utilizando do mínimo de elementos fílmicos possível para preservar a tensão natural que, de todo modo, o ato de um roubo arriscado provoca.

Mas Rififi é bem mais que o assalto, que na verdade fecha na primeira metade do filme. É um noir de um charme europeu incomparável, um amargo tratado sobre a decadência, da memória morrente daquele homem deslocado do seu tempo. Mais que o dinheiro, Stéphanois precisa provar-se útil e convencer a si mesmo de que pode vencer o homem que ficou com sua mulher enquanto ele esteve na prisão. Não são as jóias, não é a criança. É a necessidade incondicional que faz da morte de Grutter praticamente uma cura para este câncer que corrói o orgulho de um homem numa época em que a palavra “honra” ainda não havia tido seu significado anestesiado.

E mesmo que o assalto seja espetacular e tudo mais, os últimos cinco minutos são os meus favoritos. E o final é das coisas mais tristes do mundo, e inevitável, como ele bem sabia o tempo inteiro.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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10º Festival Internacional de Curtas de BH

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Depois de uma semana conturbada acompanhando o 10º Festival Internacional de Curtas de BH, onde eu fui obrigado a sacrificar minha presença nas exibições das mostras competitivas internacionais em nome dos debates com os realizadores das mostras brasileiras que ocorriam em horários simultâneos, chega ao final a maratona de filmes e discussões, com uma questionável premiação por parte do juri oficial. O campeão da mostra internacional foi o filme do húngaro László Nemes Jeles, With a Little Patience (Com Um Pouco de Paciência), todo rodado em um plano-seqüência que acompanha, sempre em primeiro plano, uma mulher entrando num galpão que julgamos ser uma fábrica, pegando algumas coisas que nunca sabemos ao certo o que são, sentando-se em sua mesa, digitando algo para depois se dirigir a uma janela e ter a verdadeira visão do que se trata. Forte e inquietante, o filme parece ter merecido o prêmio com louvor, ainda que eu não possa afirmar com toda a garantia, já que não vi o restante dos filmes. Em compensação, a escolha do campeão da mostra nacional não poderia ter sido mais equivocada. Pajerama, de Leonardo Cadaval (filme que não pôde ser comentado aqui devido a um problema no dia da sessão), foi o agraciado com o prêmio do juri, mesmo não passando de uma boa animação digital sobre um índio que vê sua mata virar uma metrópole e se perde em meio às confusões do progresso. Como bem disse o pai do Rafael Ciccarini ao fim da sessão, “como desenho é bom…”, mas nunca seria merecedor do prêmio principal, mesmo se os concorrentes não fossem tão infinitamente superiores. E antes que eu liste os meus favoritos deste festival, cabe dizer que os dois filmes campeões do prêmio do público (foi um empate) eram desde muito tempo prováveis vencedores, já que em suas exibições era perceptível a completa interação com a platéia. Portanto, nada mais justo que Os Filmes Que Não Fiz, de Gilberto Scarpa, e Dossiê Rê Bordosa, de César Cabral, tenham vencido a categoria popular. Pelo menos o público teve consciência no festival.

E agora listo abaixo o meu Top 10 do festival, que dentre obras-primas do curta-metragem nacional, provou o grande potencial da produção dos futuros cineastas do longa-metragem do nosso cinema:

1- Areia (Caetano Gotardo)
Trópico das Cabras (Fernando Coimbra)
2- Convite Para Jantar Com o Camarada Stalin (Ricardo Alves Jr.)
3- Dossiê Rê Bordosa (César Cabral)
4- Décimo Segundo (Leonardo Lacca)
5- Sentinela (Afonso Nunes)
6- Os Filmes Que Não Fiz (Gilberto Scarpa)
7- Satori Uso (Rodrigo Grota)
8- Um Ramo (Marco Dutra e Juliana Rojas)
9- Ismar (Gustavo Beck)
10- Dreznica (Anna Azevedo)

Thiago Macêdo Correia 

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10º Festival Internacional de Curtas de BH

SEXTO DIA

CONVITE PARA JANTAR COM O CAMARADA STALIN (Ricardo Alves Jr.)

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4/4

O formalismo que pontua toda a narrativa não-usual de Convite Para Jantar Com o Camarada Stalin é o grande mérito do filme de Ricardo Alves Jr., que inspirado na clássica peça de Samuel Beckett, Esperando Godot, observa com uma câmera impassível os (não) movimentos de dois corpos que estão, coexistem, mas inúmeras vezes não se relacionam. Duas senhoras de meia idade vivem uma rotina que nos leva a crer que elas aguardam alguma coisa, mas a espera é eterna e talvez nunca atinja um ponto de conclusão. Ricardo Alves Jr. monta quadros estáticos (exceto por um plano), onde percebemos as mulheres mas não compreendemos seus motivos. Numa jogada brilhante o diretor constrói uma cena de aparente catarse, onde as personagens falam, diante de um fogão, coisas que não conseguimos ouvir, pelo som da sopa que está borbulhando no fogo, pelo tango que o diretor nos faz ouvir, e no fim, as duas se abraçam, como se aquilo fosse caminhar para uma resolução direta. Mas eis que o plano final mostra novamente os corpos presentes e distantes, sem contato e sem perspectivas.

COCAIS, A CIDADE REINVENTADA (Inês Cardoso)

2/4

Pelo princípio mais lógico do cinema documental, a não dramatização das coisas é a idéia que mais se relaciona com a objetividade do documentado. No filme de Inês Cardoso, a cidade dos loucos é observada de perto, com a convivência que a diretora estabeleceu pelo tempo em que esteve por lá, com uma necessidade de relato daquela realidade. Mas Ines também decide dramatizar a coisa, colocar elementos extra-realidade que não propriamente se conectam com o que merece ser refletido. As camas expostas ao ar livre durante a noite/dia, desbravadas por um rebanho de ovelhas assustado, é uma imagem Lynchiana demais para compreender os dramas daqueles seres humanos marginalizados e abandonados pela sociedade.

SALIVA (Esmir Filho)

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3/4

O cinema do paulistano Esmir Filho é, por excelência, o cinema do cult/indie. Tudo é bacaninha, antenado, completamente conectado com o pensamento de uma parcela da atual juventude de uma grande metrópole. Seus medos e questionamentos já haviam sido objeto de observação no premiado Alguma Coisa Assim, e agora, Esmir monta sua câmera cool para o terrível momento na vida de uma garota ao ser desvirginada por uma língua melada de um garoto já mais “experiente”. Pelo fatídico momento todo mundo já passou, a transição parece realmente mais importante no presente que o que nossa memória nos trás a tona, mas Esmir dedica uma dose boa de carinho à essa transformação. Tudo bem que ele pode se exceder na “bacanisse” das composições estéticas, mas o saldo acaba sendo positivo quando se leva em consideração o respeito com que ele trata o assunto.

SATORI USO (Rodrigo Grota)

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4/4

Na década de 80, no Paraná, um jornalista inventou um poeta japonês que teria vivido nas redondezas de Londrina décadas antes. Assinando como Satori Uso, ele escreveu pensamentos, poesias e publicou certas coisas. Em 2007, também no Paraná, o cineasta Rodrigo Grota decide fazer um filme sobre o personagem que não existiu e para isso constrói uma espécie de documentário com imagens de um filme sobre o tal poeta, de um diretor chamado Jim Kleist. O ponto é que Kleist também é invenção do diretor, assim como as imagens do “filme” Isolation não passam de imagens feitas pela própria equipe de Grota, comandada pelo fotógrafo Carlos Ebert (o mesmo de O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla) e sua impressionante composição em preto e branco, que foi toda captada em digital (!!!) para depois ser convertida de modo perfeito para um 35mm belíssimo. A experiência é notável!

DOSSIÊ RÊ BORDOSA (César Cabral)

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4/4

A famosa personagem criada por Angeli foi assassinada por ele mesmo, na década de 80. O crime é o plot da investigação de César Cabral em Dossiê Rê Bordosa, um documentário em animação (sim, isso mesmo!) que conta com depoimentos de várias “testemunhas” do que pode ter acontecido à época, inclusive o próprio Angeli. Narrado em clima de suspense de rádio policial dos anos 60 e com doses cavalares de humor refinado, Dossiê Rê Bordosa é um primor estético, inclusive reavaliando mídias do cinema, como na cena em que temos um Super 8 da Rê Bordosa quando criança. Absolutamente genial, do início ao fim, é um ótimo pretexto para quem não conhece buscar mais informações sobre a criação de Angeli. E vale dizer que Angeli é um dos melhores personagens animados do cinema recente e que durante os créditos finais do filme podemos perceber o quanto César Cabral é digno de ter assinado a produção.

Thiago Macêdo Correia

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